A temática Indígena – parte I

13 dez

Por Bel Rodrigues


A maioria das análises realizadas sobre a questão indígena aponta não só muitas informações incorretas como também se apresentam carregadas de uma visão etnocêntrica e preconceituosa.

A temática indígena acaba sendo apresentada de maneira ilustrativa e de forma generalizada como se fosse um todo homogêneo… parte apenas do passado. (Silva & Grupioni,1994, 11)

Um índio genérico veio sendo construído pelos manuais didáticos, que, por longo tempo, ignoraram o fato de que os povos indígenas atuais são os remanescentes de um grande contingente populacional que já habitava o Brasil quando os portugueses aqui chegaram.

Gontran Guanaes Netto, Retrato imaginário de índio de Itapecerica, dos primórdios até o Sec. 17. Óleo s/ tela, 78x78cm, 1999

Resulta daí, um desrespeito da diversidade cultural, da “diferença” e, ainda, uma negação da dinâmica da história marcada pela contradição, pelo conflito, pela ausência dos ´por quês´ de se atear fogo em índios, de espancar empregadas domésticas em pontos de ônibus, enfim, de atos violentos praticados gratuitamente madrugadas afora….

Como estudar povos sem escrita no campo das tradições orais? Que lugar os povos indígenas ocupavam na antropologia e na história? Que rumos essas discussões têm tomado nos últimos trinta anos, momentos estes de redemocratização do Brasil?

É no movimento de conquista colonial do século 19, que a antropologia se constitui enquanto disciplina autônoma, como a ciência que estuda as sociedades primitivas em todas as suas dimensões. Inicialmente, pelo evolucionismo influenciado pelas proposições de Condorcet, Morgan, Comte, Darwin, entre outros.

E, em reação ao evolucionismo: Boas e Malinowski, tendo Durkheim e Mauss como os primeiros teóricos e, Cláude Lévi-Strauss, adepto da vertente estruturalista.

No campo da história, um novo enfoque começou a despontar, na França, a partir de 1929 com a edição da Revista dos Annales, que ao longo do século XX, desdobrou-se em outras vertentes, entre elas a história cultural, a nova história cultural, história das mentalidades, micro-história etc.

Contudo, as aproximações e os intercâmbios entre a história e a antropologia não começaram na década de 1950, e nem são herdeiras da Escola dos Annales, mas são parte dos seus mesmos dilemas fundadores.

Da junção da antropologia com a história surgiu a etno-história, que será tema da parte II, dessa série.

(*) Edição: Gisèle Miranda

(**) Sobre Gontran Guanaes Netto: http://ht.ly/3ouUk

(***) O Retrato imaginário de índio de Itapecerica, de Gontran Guanes Netto foi a capa do livro: O Aldeamento de Itapecerica: dos fins do século XVII a 1828, de Dora Shellard Corrêa. São Paulo: Estação Liberdade, 1999.

Bibliografia:

BRAGGIO, Silvia Lucia Bigonjal. Contato entre línguas: subsídios para a educação escolar indígena. REVISTA DO MUSEU ANTROPOLÓGICO, v.2, n.1, p.121-134. Jan./dez.1998.

BURKE, Peter (org.). A escrita da história – novas perspectivas. São Paulo: Editora da UNESP, 1992.

COMTE. O Catecismo Positivista. In: GIANOTTI, José A . (sel.) Comte. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova cultural, 1988. p. 63-264.

FAUSTO, Carlos. Os índios antes do Brasil. Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor, 2000.

FERREIRA NETO, Edgard. história e etnia. In: CARDOSO, Ciro F. Os domínios da história. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1997.

GRUPIONI, Luís Donizeti Benzi (org.). Índios no Brasil. São Paulo: Sec. Mun. De Cultura de São Paulo, 1992.

JUNQUEIRA, Carmen. Antropologia Indígena – uma introdução. São Paulo: Educ, 1991.

LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 1988.

MOTA, Lúcio Tadeu & RODRIGUES, Isabel Cristina. A questão indígena no livro didático TODA HISTÓRIA. Revista História e Ensino. Londrina: EDUEL, 1999.

MOTA, Lúcio Tadeu. “O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e as propostas de integração das comunidades indígenas no estado nacional“. Diálogos: Revista do Departamento de História da UEM. Maringá, v. 2, n. 2, p. 149-175, 1998.

About these ads

3 Respostas to “A temática Indígena – parte I”

  1. Hélio Araújo Silva 4 de janeiro de 2011 at 10:11 #

    VAMOS LUTAR PELA CRIAÇÃO DO MINISTÉRIO DOS ÍNDIOS!
    HÉLIO’S BLOG

    Divulgação Científica

    MANIFESTO DOS ÍNDIOS BRASILEIROS

    O Brasil avançou muito nestes últimos anos. Por um lado, ele se transformou num exemplo de democracia para a América Latina. Por outro lado, ele conseguiu incorporar a luta pela equidade de gênero e pela promoção da igualdade racial. Mas ainda não conseguiu promover o resgate histórico dos nossos povos originários, ou seja, dos índios, que ainda se mantém, de certa forma, à margem do próprio processo de desenvolvimento como uma população tutelada.

    Qual é a razão deste atraso? O mundo mudou e o país também precisa mudar. Não adianta continuar discutindo sobre o futuro com resquícios do passado. O nosso país precisa de um novo desenho institucional e de um novo repertório de convivência cívica. Para a construção de uma nação forte e soberana, capaz de aglutinar, verdadeiramente (e não apenas retoricamente) pessoas, gêneros, raças, credos, etnias e nacionalidades, para a celebração da paz e da harmonia entre todos…

    Como um grande passo nesta direção, o Brasil precisa acordar e se lembrar de que a conquista da autonomia é o primeiro passo para o fortalecimento da cidadania em sua plenitude. Esta é uma das razões pelas quais os índios brasileiros querem falar por si mesmos, isto é, sem intermediários. Eles querem e têm o direito de participar desta nova etapa, até por uma questão de ancestralidade. Sendo parte constitutiva de nossa nacionalidade, eles não podem continuar a ser excluídos deste processo. Eles não podem ser deixados para trás, até porque a nossa história não pode ser órfã. Precisamos de todos os brasileiros, unidos e reconfigurados, para dar a nossa contribuição ao novo estágio civilizatório que se avizinha…

    VAMOS LUTAR PELA CRIAÇÃO DO MINISTÉRIO DOS ÍNDIOS!

    Passe um e-mail para o seu Deputado…

  2. Tecituras - Gisèle Miranda 28 de dezembro de 2010 at 16:03 #

    E como não poderia deixar de resgatar, sempre, Gontran Guanaes Netto. À toa que nos cruzamos? Sabe-se -lá! Rs!
    Nossas diferenças são gritantes! São assazes! São duras! São cruéis!
    Se não somos feitos aos “nossos índios, nossos mortos”, como somos?
    Um braço mais fino, pode ser um traço mais fino, mais duro e muito, muito mais cruel.
    abraços
    Gisèle

  3. Tecituras - Gisèle Miranda 28 de dezembro de 2010 at 11:06 #

    Quero deixar rastros do enorme prazer de editar essa série que, na ausência de comentários vem bombando nas estatísticas. O silêncio é um incômodo pois não há retorno das inquietações.
    E como já disse: não sou surda,muda nem cega para questões como esta.
    beijoss Bel, incluindo o esforço de te cutucar à escrita.
    Gisèle

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 351 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: