Arquivo | 2008

FICÇÃO OU REALIDADE?

20 dez

Por Gisèle Miranda

Havia pensado em escrever sobre ´ensaio sobre a cegueira´de José Saramago numa versão cinematográfica de Fernando Meirelles, lançado no Brasil em setembro de 2008. Belo tema para a cegueira do mundo.

José Saramago (1922-2010)

Faço a sugestão desse filme associado a outros dois filmes.  O primeiro é  a Cidade de Deus, situado na zona oeste da cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, e também dirigido por Meirelles.

Recordo que, logo após o lançamento de Cidade de Deus fiquei indignada com o saber pretensioso e banalizante de pessoas com as quais tinha afinidades intelectuais. Os comentários eram mais ou menos assim: ´Já estive na Cidade de Deus e há trabalhos sociais existentes, ou, ´uma ficção que deseja ser realidade´, ou ainda, ´uma irrealidade de imagens para chocar, apenas chocar´.  Minha ótica na discussão sobre o filme foi minimizada pelo fato de eu ser carioca e estar defendendo minha cidade.

Fernando Meirelles (1955-)

Felizmente o filme alçou voo e saiu do meu bem querer carioca, das boas rodas paulistanas, e dos saberes distorcidos. A crueza do tema, a direção impecável de Meirelles, as atuações – ficcionais e reais – dos moradores do inferno da Cidade de Deus – fizeram desse longa um clamor,  aplaudido de pé, também por muitos brasileiros. E melhor, propiciou um outro longa, Jardineiro Fiel – uma co-produção com atores estrangeiros e filmagens em outras terras.

Quem viu sabe que a África (continente de uma das locações do filme) é também o Brasil. Sim, é uma história amarga, dolorosa e hoje, parte indissolúvel do povo que somos. Mas, o continente Africano, meio brasileiro e meio mundo, é muito maior que o inferno da Cidade de Deus.

Entre uma coisa e outra, o Brasil, último país a abolir a escravidão, pediu ´perdão´ a Africa pelos séculos de matança e subjugação; concomitantemente, aboliu a dívida financeira com alguns países desse continente. Também injetou medicamentos contra a AIDS, pois a Africa está sendo carcomida pela doença, pelo esquecimento, guerras, submissão; e como Meirelles também resgatou, um continente/contingente de pessoas sendo utilizadas em experiências – como cobaias de laboratórios estrangeiros.

O outro diretor é Amos Gitaï em seu Free Zone. O mote deste filme é ficcional; é o encontro de três mulheres: uma israelense, uma palestina e a outra norte-americana, na zona franca da Jordânia. Nele, Gitaï volta a abordar as relações entre israelenses e palestinos em imagens diferentes das que vemos no noticiário.

Amos Gitaï (1950-)

A riqueza decorre ao lançar-se na estrada: “Gitaï conseguiu resolver o desafio proposto de início: filmar politicamente um geografia humana.

Entre Gitaï e Meirelles há muito em comum. Há comprometimento. O ´ensaio sobre a cegueira´ vem reforçar esses laços e a inquietar o que está sob nossos olhos ou ‘sobre a  (nossa) cegueira’.

Referências:

Free Zone. Direção Amos Gitaï. Co-produção Bélgica/Israel, 2005. As três atizes são: Natalie Portman, Hana Laszlo e Hiam Abbass.

The constant gardener. Direção Fernando Meirelles. Co-produção EUA/Inglaterra, 2005. A atriz Rachel Weisz, ganhou o Globo de Ouro, de melhor atriz coadjuvante neste filme.

CRUZ, Leonardo. SP: Folha de S. Paulo, 20 jan. 2006. Cad. Ilustrada, E-6.

CARLOS, Cassio Starling. SP: Folha de S. Paulo, 20 jan. Cad. Ilustrada, E-6.

Imagem do soberano

4 dez

Por Gisèle Miranda

 

A exposição ´Imagem do Soberano` ocorreu  na Pinacoteca do Estado de São Paulo mas poderia estar em qualquer lugar do mundo e ser pensada a partir da dinastia Bourbon (1664) – marco dos retratos e esculturas apresentados. Dinastia esta que findou em 14 de julho de 1789, quando o povo tomou a Bastilha e, posteriormente decretou as mortes de Luís XVI, e sua mulher Maria Antonieta, guilhotinados em 1793 (1).

A pomposidade retratada também pode evocar a dinastia dos Capetos, os antecessores divinos que sete séculos antes promulgou a sucessão em sagração divina, que em termos práticos, é a unção entre o Estado e a Religião.

O final de Luís XVI e Maria Antonieta aconteceu justamente em decorrência de um reinado alienado e fútil ante questões demasiadamente sérias, o que culminou na Revolução Francesa, que por sua vez, fez compor uma outra temporalidade histórica na figura de Napoleão Bonaparte.

A exposição começou pelo rei Sol, Luís XIV – O Grande.  Aquele atento à sublevação do povo: fugiu (recuou) e depois retomou; sequenciou com a criação de uma fortaleza – estrategicamente distanciada do povo – o palácio de Versailles; assim fez perpetuar um estilo artístico, o Barroco, ora copiado, ora rejeitado.

Luis XIV em traje real. Ateliê de Hyacinthe Rigaud ou François Stiémart, 1702, óleo s/ tela Acervo do Museu do Palácio de Versailles

Arquitetonicamente bem planejado e com parcerias de projetos de interiores e paisagísticos agregados em um continuum ao projeto geral, Versailles nascia ali, o jardim como extensão da casa e não como ambiente à parte. As paredes que se transformavam em esculturas, as pinturas em retratos. Uma mescla do Barroco corporificados a cada soberano, numa dobra e desdobra, refratária.

Luís XIV foi um mecenas (2). Valorizou como nenhum outro o retrato em sua amplitude artística, alegórica, de registros heróicos, e pela manutenção da distinção de rei cristão, sua nobreza e seu povo. Neste reinado foram criadas as academias de estudos de música, arquitetura, pintura, entre outras.

Seu bisneto Luís XV – O Bem Amado, assumiu a grandiosidade de Versailles, como um bon vivant – apreciador da boa bebida, boa comida e boa cama. Desfrutou da sucessão divina, que nas mortes do pai e do avô, o fez rei. Seu neto, Luís XVI, O Guilhotinado, também pela morte do pai assumiu e governou rumo ao descontentamento do povo, do fim da dinastia e do fim da sucessão divina.

A rainha Maria Antonieta com vestido de anquinhas, depois de 1785, óleo s/ tela. Pintores do gabinete do Rei. Acervo do Museu do Palácio de Versailles

Os retratos pictóricos impõem-se nessa vertente histórica, político e religiosa no estilo Neoclássico. Estratégias, parentescos, posições às voltas da perspectiva arquitetônica  barroca de Versailles que adentra a produção artística do Brasil atrelada pelo parentesco de Dom João VI  com os Orleans.

Num salto particular da exposição as salas dos Retratos dos soberanos em um enfoque informativo sobre o projeto de Versailles e Brasília através da figura de Lúcio Costa como um estudioso do Barroco, de quem sabemos a parceria com o nosso Moderno Oscar Niemeyer (4). Contudo, a perspectiva arquitetônica de Versailles dos soberanos franceses é modificada pela perspectiva para o /e do Povo, dada por Lúcio Costa.

Vista do Palácio de Versailles do lado da praça de Armas, Jean-Marc Manai, 1722, óleo s/ tela Acervo do Museu de Palácio de Versailles.

Afora o ´mural informativo´ de interesse histórico e de aproximação da França com o Brasil, caberia o destaque do mecenato de Assis Chateaubriand sob o pulso de Pietro Maria Bardi para a criação do acervo do MASP, que abriga, entre tantas obras, as quatro pinturas que representam os elementos terra, fogo, ar e água que retratam as filhas de Luís XV, pintadas por Jean-Marc Nattier, emprestadas para essa exposição na Pinacoteca, e tantas outras pelas quais se insere a sagração divina da dinastia Bourbon.

 

 

Notas:

(1) Para quem puder ressoar o filme Maria Antonieta, dir. Sofia Coppola, 2007 e Encontros e Desencontros, 2003 (neste longa,além da direção, Sofia fez o roteiro que foi premiado pelo Oscar em”roteiro origina”, 2004) – perceberá que essa Coppola sabe brincar com astúcia e sutileza a respeito da presença feminina em tempos bastante distintos e fugazes.

(2) Caio MECENAS: o sobrenome Mecenas tornou-se um nome comum para designar patrocício/investimento/apoio às artes em geral. Caio Mecenas foi um patrono das letras, político e conselheiro do imperador César Otávio Augusto.

(3) D. Pedro I efetivou as boas-vindas  e fundou a Academia Imperial de Bellas Artes. Cabe lembrar também do Museu Paulista (Museu do Ipiranga /SP/Brasil), criado em 1895  – o jardim é modelo reduzido  e copia do jardim e Versailles.

(4) Caberia aqui a indicação do documentário Oscar Niemeyer – A vida é um sopro, com direção de Fabiano Maciel, 2006.

* Curadoria: Xavier Salmon : são 40 pinturas, 16 obras em papel, 3 esculturas, 1 tapeçaria, e as 4 pinturas do acervo do MASP.

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