Imagem do soberano

4 dez

Por Gisèle Miranda

 

A exposição ´Imagem do Soberano` que ocorreu  na Pinacoteca do Estado de São Paulo poderia estar em qualquer lugar do mundo e ser pensada a partir da dinastia Bourbon (1664) – marco dos retratos e esculturas apresentados. Dinastia esta que findou em 14 de julho de 1789, quando o povo tomou a Bastilha e, posteriormente decretou as mortes de Luís XVI, e sua mulher Maria Antonieta, guilhotinados em 1793 (1).

A pomposidade retratada também pode evocar a dinastia dos Capetos, os antecessores divinos que sete séculos antes promulgou a sucessão em sagração divina, que em termos práticos, é a unção entre o Estado e a Religião.

O final de Luís XVI e Maria Antonieta aconteceu justamente em decorrência de um reinado alienado e fútil ante questões demasiadamente sérias, o que culminou na Revolução Francesa, que por sua vez, fez compor uma outra temporalidade histórica na figura de Napoleão Bonaparte.

A exposição começou pelo rei Sol, Luís XIV – O Grande.  Aquele atento à sublevação do povo: fugiu (recuou) e depois retomou; sequenciou com a criação de uma fortaleza – estrategicamente distanciada do povo – o palácio de Versailles; assim fez perpetuar um estilo artístico, o Barroco, ora copiado, ora rejeitado.

Luis XIV em traje real. Ateliê de Hyacinthe Rigaud ou François Stiémart, 1702, óleo s/ tela Acervo do Museu do Palácio de Versailles

Arquitetonicamente bem planejado e com parcerias de projetos de interiores e paisagísticos agregados em um continuum ao projeto geral, Versailles nascia ali, o jardim como extensão da casa e não como ambiente à parte. As paredes que se transformavam em esculturas, as pinturas em retratos. Uma mescla do Barroco corporificados a cada soberano, numa dobra e desdobra, refratária.

Luís XIV foi um mecenas (2). Valorizou como nenhum outro o retrato em sua amplitude artística, alegórica, de registros heróicos, e pela manutenção da distinção de rei cristão, sua nobreza e seu povo. Neste reinado foram criadas as academias de estudos de música, arquitetura, pintura, entre outras.

Seu bisneto Luís XV – O Bem Amado, assumiu a grandiosidade de Versailles, como um bon vivant – apreciador da boa bebida, boa comida e boa cama. Desfrutou da sucessão divina, que nas mortes do pai e do avô, o fez rei.
Seu neto, Luís XVI, O Guilhotinado, também pela morte do pai assumiu e governou rumo ao descontentamento do povo, do fim da dinastia e do fim da sucessão divina.

A rainha Maria Antonieta com vestido de anquinhas, depois de 1785, óleo s/ tela. Pintores do gabinete do Rei. Acervo do Museu do Palácio de Versailles

Os retratos pictóricos impõem-se nessa vertente histórica, político e religiosa no estilo Neoclássico. Estratégias, parentescos, posições às voltas da perspectiva arquitetônica  barroca de Versailles que adentra a produção artística do Brasil atrelada pelo parentesco de Dom João VI  com os Orleans.

Num salto particular da exposição as salas dos Retratos dos soberanos em um enfoque informativo sobre o projeto de Versailles e Brasília através da figura de Lúcio Costa como um estudioso do Barroco, de quem sabemos a parceria com o nosso Moderno Oscar Niemeyer (4). Contudo, a perspectiva arquitetônica de Versailles dos soberanos franceses é modificada pela perspectiva para o /e do Povo, dada por Lúcio Costa.

Vista do Palácio de Versailles do lado da praça de Armas, Jean-Marc Manai, 1722, óleo s/ tela Acervo do Museu de Palácio de Versailles.

Afora o ´mural informativo´ de interesse histórico e de aproximação da França com o Brasil, caberia o destaque do mecenato de Assis Chateaubriand sob o pulso de Pietro Maria Bardi para a criação do acervo do MASP, que abriga, entre tantas obras, as quatro pinturas que representam os elementos terra, fogo, ar e água e que retratam as filhas de Luís XV, pintadas por Jean-Marc Nattier, emprestadas para essa exposição na Pinacoteca, e tantas outras pelas quais se insere a sagração divina da dinastia Bourbon.

 

 

Notas:

(1) Para quem puder ressoar o filme Maria Antonieta, dir. Sofia Coppola, 2007 e Encontros e Desencontros, 2003 (neste longa,além da direção, Sofia fez o roteiro que foi premiado pelo Oscar em”roteiro origina”, 2004) – perceberá que essa Coppola sabe brincar com astúcia e sutileza a respeito da presença feminina em tempos bastante distintos e fugazes.

(2) Caio MECENAS: o sobrenome Mecenas tornou-se um nome comum para designar patrocício/investimento/apoio às artes em geral. Caio Mecenas foi um patrono das letras, político e conselheiro do imperador César Otávio Augusto.

(3) D. Pedro I efetivou as boas-vindas  e fundou a Academia Imperial de Bellas Artes. Cabe lembrar também do Museu Paulista (Museu do Ipiranga /SP/Brasil), criado em 1895  – o jardim é modelo reduzido  e copia do jardim e Versailles.

(4) Caberia aqui a indicação do documentário Oscar Niemeyer – A vida é um sopro, com direção de Fabiano Maciel, 2006.

* Curadoria: Xavier Salmon : são 40 pinturas, 16 obras em papel, 3 esculturas, 1 tapeçaria, e as 4 pinturas do acervo do MASP.

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4 Respostas to “Imagem do soberano”

  1. Guilherme 3 de agosto de 2012 às 22:26 #

    Eis uma exposição a qual me arrependo de não ter visto!
    Poder ver de perto os testemunhos artísticos da construção sistemática de uma visualidade sobre a personificação de uma Instituição! O símbolo vivo do qual emanava toda a razão de existir, dos pequenos e dos grandes.
    A minha dica cinematográfica para vislumbrar a forma como a vida se sucedia na Corte de Versailles é: L’allée du Roi (1995), “assistível” pelo youtube.

  2. Talissa Andersen 16 de março de 2012 às 8:56 #

    Fui ao MASP no começo desde ano, me senti uma “virgem”, sem muito o que entender ali no primeiro contato, mas é tão lindo, tão grandioso poder contemplar aquelas obras que logo passei de “o que estou fazendo aqui?” para “isso é realmente fascinante”. Se não me engano logo no primeiro “hall” é que estão as pinturas de reis e etc. É realmente interessante quem tiver a oportunidade de estar em São Paulo – SP, visitar o museu.

    Em sugestão, assisti o documentário do Niemeyer “A Vida é um sopro”, e pra quem tiver dificuldade em achar, está disponível na rede Youtube.

    • Tecituras - Gisèle Miranda 16 de março de 2012 às 10:04 #

      Talissa

      A exposição “Imagem do Soberano” aconteceu na Pinacoteca de SP; algumas obras do MASP foram emprestadas para a exposição. Sim, o MASP é sempre uma boa pedida!
      A sugestão fílmica é muito boa! Melhor ainda relembrar que “a vida é um sopro” no MAC de Niterói, projeto de Niemeyer!
      abraço
      Gisèle Miranda

      • Talissa Andersen 22 de março de 2012 às 9:43 #

        Claro, na Pinacoteca. Já estive lá também, se bem me recorde em 2009, mas não lembro qual era a exposição, ou melhor também não entendia na época muito o contexto do lugar. Mas achei interessante !! Pretendo retornar ainda esse ano a Pinacoteca e ao MASP, acho que terei um entendimento mais aprimorado.

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