TOMIE

2 fev

Por Gisèle Miranda

(Para Tomie Ohtake, 1913-2015)

A ideia desse texto surgiu em 2004, por conta de três acontecimentos: os 450 anos da cidade de São Paulo, os 50 anos de ofício artístico de Tomie Ohtake (na época com 90 anos idade) e a exposição´Tomie Ohtake na trama espiritual da arte brasileira´, sob curadoria de Paulo Herkenhoff, ocorrida no Instituto Tomie Ohtake. Mas foi nos 456 anos da cidade de São Paulo, em 2010, que a escrita Tomie ganhou corpo e alma.

Tomie Ohtake

Ao primeiro olhar algo se esvai no limite da exaltação, prende-se a respiração. Na golfada de ar, a vontade do perto: O Instituto Tomie Ohtake é um projeto de Ruy Ohtake, filho de Tomie.

Tomie Ohtake tem uma leveza porcelâmica. Ela assina, ela pinta, ela esculpe, ela apronta. Ela é mortal e imortal. Ela é mista. Ela compartilha seu espaço e se mostra aprendiz aos idos 90 anos plena em seu ofício. Num sopro que interpela no aço e nas formas.

Haroldo de Campos irrompeu para falar de Tomie. Fez valer de sua fala-performance para rasgar Tomie, numa crueza  divina das cores artificiais‘Tomie: no campo as borboletas ainda sonham’.

Não houve engano, o tempo é vivido por Tomie. Não tem o risco do tardio! A seu lado, insurge do ‘essencialismo’, Ismael Nery. Não olvidando que nada vendeu em vida. Um rasgo do engano. Vem de Ismael Nery, o Pará de seu nascimento, e o Rio de Janeiro de sua vivência`, ou seja: seu melancolismo, sua eroticidade e seu narcisismo. Tomie rompeu e irrompeu Ismael. E pôs-se a trabalhar! Ele disserta o título. Ela não dá título.

Tomie é um pedaço São Paulo. É um corpo doce, num diverso que nos traz seu barroco inventado, a composição em raiz, como ‘dobra da alma’ e a ‘desdobra’, ‘a dobra do vazio’. Tomie enverga os retilíneos inertes e os transformam em erudição dos sentidos. Rompe a escritura.

Tomie fez descobertas com Adriana Varejão, Leonilson, Tarsila do Amaral, Volpi, Flávio-Shiró, Guignard, Flávio de Carvalho, Jac e Nelson Leirner, Lasar Segall, Niemeyer, entre muitos. Ver tudo isso enveredado pela interface Tomie, é adentrar um espaço que insurge: – Quero falar, quero escrever, tocar, passar-te à língua! Língua desdobrada, língua de pátrias outras, língua entrecortada, língua afiada!

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