CULPA, DOR OU ENCANTO?

13 maio

Por Gisèle Miranda

{para Samira Osman}

 

A culpa encanta? Em um ensaio de Luiz Felipe Pondé, na Folha de S. Paulo, 11/05/2009, o autor afirmou que a culpa o encanta.

Sua afirmativa causou-me um desconforto pelo fato clássico de que toda mãe sente culpa. Então, confesso que a culpa não me encanta.

Mas, saindo da minha culpa nata e adentrando a culpabilidade alheia, via outro prisma, faço uma troca de palavras – culpa por dor; principalmente, quando a crença culpa ou dor vem da literatura clássica.

Pondé quer sentir toda a culpa via grandes e necessários autores clássicos; hoje, deixados de lado pelos best sellers. A dor da literatura vem carregada de textualidades de séculos anteriores e que ao lermos nos vemos numa atualidade e até numa reflexão sobre o que somos ou o que queremos.

Entre o processo de humanização pela culpa ou pela literatura clássica, Pondé destacou que: ´chorar nos torna uma pessoa menos ridícula´, muito em função de um clássico de Dostoiévski, Sonho de um homem ridículo.

Ao lermos um clássico, somos lidos. Ao sermos tomados pela história, somos personagens ou pelo menos, um agente do pensamento sobre questões morais, medos, ´sua capacidade de amar´, enfim, sentimo-nos vulneráveis aos inúmeros sentimentos  surgidos por uma boa história.

Ou, uma trágica história que sutura uma camada epitelial, que com o tempo pode voltar a abrir e, transforma-se numa ferida cada vez maior até incurável; ou, cicatrizes que não comportam invisibilidade nos atos diários.

A ação transformadora está muito atrelada ao sofrimento – não é unânime, mas tem potencialidades; isso desde os casos clássicos aos confins de grandes histórias. A dor que se reconhece na vida ou na literatura dos grandes autores é uma dor muitas vezes diária, do cotidiano de cada um de nós, do comum ao longo da difícil tarefa de viver e da difícil tarefa de amar.

Ismael Nery, Figura, ca. 1927.

Creio que ignorar ou não aceitar a minha culpa materna dialoguei com Pondé; que por sua vez, também conseguiu sentir culpa ou dor – e chorar, além e aquém de todos os pontos moralizantes masculinos e machistas. Ele se curvou e chorou como um homem ou um ser humano qualquer – sem culpa!

 

Sugestão bibliográfica:

CALVINO. Italo. Por que ler os clássicos? São Paulo: Cia. das Letras, 1994

 

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