MEMÓRIA HISTÓRICA

23 jul

Por Gisèle Miranda

(À memória de Adèle Hugo)

Ao ler o ensaio de Luiz Felipe Pondé sobre a alma Romântica (Folha de S. Paulo, 20 julho 2009) fui acometida por uma memória autobiográfica que resultou, naquele momento, em uma dor tendo como mote um fracasso profissional. Mas, foi justamente nesse abismo que conheci e me apaixonei por uma imagem de Goya, O Gigante, c. 1808.

Dessa imagem fiz um texto, fruto de estudos sobre o Romântismo e da incrível trajetória de Goya. E, como se não bastasse, criei uma mesa-livro, ou seja, um objeto inanimado, a partir da alma romântica que me assolou.(*) Ou ainda, o exílio do qual, inevitavelmente, deu-se.

 

Bonecas: dama das Camélias, Jane Eyre, madame Bovary e Anna Karénina. Foto GM, 2009

 

Obviamente fui ridicularizada pelo sentimento que me fazia escrever, chorar e amar todos os detalhes de uma obra. Daquele tempo em diante fui sobrevivendo. Será que minha natureza “é não ter futuro”?

Se eu pudesse escolher, viveria e morreria como Anna Karénina ou madame Bovary. Ou, quiçá suplantaria o preconceito como Jane Eyre. Ou seria Eleonora Duse interpretando a dama das Camélias? Queria ser todas elas em cada palavra de seus autores.

Então corro do dia solar e embeveço-me no silêncio da madrugada e vejo as marcas de uma temporalidade que não é a minha.

Essas lembranças históricas são alimentadas e ampliadas pelas leituras de imagens e textos que criam uma “memória histórica projetada no passado reinventado” (Halbwachs, 1950) e vivido numa memória coletiva ficcional.

De fato, o desafio é conviver com o turbilhão de sensações que vão deixando muitas marcas e são invisíveis para o nosso entorno – “da estupidez burocrática” ao “riso do amor”. Ou, visíveis à intolerância.

Pondé terminou seu ensaio pedindo segredo sobre a alma romântica que o fez melhor. Esse segredo gerou o meu segredo, que não está “entre as minhas mãos”, mas em um lugar que pode parar de bater, caso não encontre eco.

(*) O texto O Gigante de Goya encontra-se neste blog, assim como outros textos relacionados ao Romântismo.

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