Meu Avô Fernando Maciel de Miranda

3 ago

Por Gisèle Miranda

‘Amor, que o gesto humano na alma escreve.’ (Camões)

Depois das ‘Reminiscências do Vô José Rodrigues’ (escrito pelo próprio) – que  é o pai de Bel Rodrigues – fiquei com muita vontade de escrever algumas linhas sobre o meu avô Fernando.

 

meu avô Fernando, ca. 1936

Não conheci meus avôs. Ambos faleceram cedo. Em geral, meus amigos sempre tiveram a presença dessas figuras. Alguns usavam chapéus, bengalas, barbas brancas, fumavam cachimbos, contavam suas histórias de quando eram mais novos ou repetiam as mesmas histórias.

De ambos os lados tentei indagar um pouco a história de cada um. Foram parcos os resultados. Sentia que estava tocando em assuntos dolorosos – de pessoas que morreram e deixaram saudades, vazios, viúvas, filhos.

Em 2005, resolvi fazer uma homenagem a minha avó Maria Olívia (a ‘Vozinha’) que estava completando 80 anos de vida. Para escrever sobre ela precisei tocar um pouco na história do meu avô Fernando.

O nome Fernando significa ‘ousado, batalhador, incansável’. Em espanhol – ‘bravo’ (como guerreiro). Meu avô nasceu em 1918, no final da Primeira Guerra Mundial, na cidade de Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro.

A terra dos índios Goitacás tornou-se a cidade de Campos dos Goytacazes, em 28 de março de 1835. Em Campos há duas características históricas bem interessantes: a criação da primeira livraria do Brasil – Livro Verde, em 1844; e a cidade pioneira na iluminação pública elétrica, em 1883 (do Brasil e da América Latina).

Foi nessa cidade que o Vô Fernando conheceu, apaixonou e casou com a ‘Vozinha’. Frutos desse amor,  Heloisa Helena e Anna Maria, ambas nascidas e criadas em Campos – na casa ‘Santo Antonio´.

Foto que guardo: “A você, Mariazinha, que sabe embebecer-me a vida, esta pálida lembrança. Fernando, 22-3-1942.”

 

Na casa ‘Santo Antonio’ meu avô fazia questão de que a cultura da grande cidade do Rio Janeiro estivesse presente através dos saraus – poesia, música, literatura e etc. Esses encontros propiciaram às memórias de suas filhas, ainda muito pequenas e, portanto, ainda não partícipes dos saraus, a sementinha do conceito da qual bradava o pai com muita alegria: cultura!

Cartão que guardo: “Fernando como prova de não lhe esquecer um só instante inclusive nos passeios, envio esta fotografia tirada na ‘Cascatinha’ no bairro da Tijuca. Tua ‘criança louca’. Mariazinha, Rio, 6 de junho de 1942.”

No entanto, ‘o ambiente boêmio, metade mansinho, metade lascivo’[1] gestou um incontrolável e implacável consumo de álcool, fruto também do alambique próprio. E, apesar da disposição esportiva, do treino diário junto ao seu saco de boxe pendurado em um dos banheiros da casa, e que visualmente resplandecia em um físico belíssimo, de braços fortes e postura admirável – paralelamente deu-se uma deteriorada nada visível de seu fígado que adoeceu fulminantemente.

Meu avô Fernando viveu apenas 34 anos. Suas filhas, nessa época tinham 7 e 5 anos de idade.

De sua primogênita Heloisa Helena, vieram seus netos: Denise que lhe deu os bisnetos Anna Carolina (que deu a luz a sua segunda tataraneta Alice) e Pedro Renato.

Fernando que trouxe Castor e Bruno. Gisele que gerou Caio Graco. Turandot que fez chegar a Victoria e o Arthur. E, Mario Henrique, apelidado de ‘Rico’ é o pai de Helena.

De sua filha mais nova, Anna Maria, vieram os netos: Patrícia, que lhe deu os bisnetos Bernardo (que trouxe a primeira tataraneta Maria Luiza) e Guilherme. Renato que trouxe Leonardo e Maria Eduarda. E, Felipe que sem pressa aguarda o momento certo.

Do meu avô Fernando guardo as fotos que exponho aqui, além de uma memória construída, afinidade cultural e esportista via boxe e, um pouco de cultura material e do cotidiano de um tempo que se transformou em outros tempos, ou seja, um pedacinho de linho azul claro (bordado) que pode ser lembrado, tocado e amado[2].

 

Foto Gisèle Miranda, jan. 2009, Lençol de núpcias de linho, (cultura material, início da década de 1940)

 

Referências:

Sobre o Vô José Rodrigues: https://tecituras.wordpress.com/2009/01/03/reminiscencias-do-vo-jose-rodrigues/

[1]Frase que achei oportuna para o texto e que foi retirada do livro:

MANN, Thomas. Doutor Fausto. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1947; Volume II, p. 387. (reforço que, o contexto do romance narrado enfatiza um sarau, tal qual visualizo para este momento, ou seja há ficcionalidade na argumentação).

[2] O ‘pedacinho de linho  azul claro bordado’ é na verdade um lençol que fez parte do enxoval da ‘Vozinha’, do qual ´herdei´, cortei em vários pedaços e que foram encaminhados em 2005 para as filhas e para os netos como cultura material e do cotidiano de um tempo que, como disse acima, pode ser lembrado, tocado e amado.

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