Ficção humana

4 ago

Por Gisèle Miranda

 

O monstruoso da ação humana quando moralmente banido do circulo  do ´bem´ muitas vezes acaba recebendo uma tarja ficcional como se não fizesse parte da humanidade. A ´crueldade com os indefesos´ estão a olhos vistos, para quem quer ver. São muitos os caminhos que por vezes tropeçamos e nos fazemos de rogados até que a moral reivindique um lado. Se céu ou inferno, bem ou mal ou, se o dantesco espaço nos oferece o purgatório para o confronto com o ´conforto canalha´; mesmo assim, o melhor é fingir desumanidade – como se fosse viável.

 

Raquel Korman, autorretrato enquanto morta, 2008, 170 x 80 cm. http://www.rachelkorman.com

 

Fingir, tapar os ouvidos, fechar os olhos, ou garantir a sobrevivência têm preços, pesos, medidas e, obviamente, uma humanidade latente. O monstro pode ter uma bela aparência e circular pelos mesmos espaços que o comum. Que tal trocar o canal ou designar uma nova moral?

Essas fugidias linhas têm, em princípio, dois ensaios como mote: Pequena sociologia do fungo, de Pondé (Folha de S. Paulo, 27/7/2009) e Em defesa de Berlusconi, de Calligaris (Folha de S. Paulo, 30/7/2009).

Pondé resolveu discutir a moral, ou melhor, desnudar a ética de um determinado círculo tendo como mote os monstruosos nazistas que assassinaram 6 milhões de judeus. Fui imediatamente jogada em um documentário da década de 1960. Treblinka, na Polônia (a parada da morte). O maquinista da carga humana sabia o que fazia, ou seja, apenas cumpria com seu ofício (típico da ‘banalidade do mal’ de  Hannah Arendt). Mas ele tinha como hábito fazer o gesto de degola – assim que o trem parava na estação, para mostrar à sua carga que ali seria o fim.

O maquinista do documentário fez questão de dizer que não concordava com o que  os nazistas faziam com àquelas pessoas que transportavam. O olhar deste maquinista tinha um quê irônico e infantilizado, principalmente quando gesticulava a degola.

A partir desse olhar passei a perceber os demais olhares dos ´humanos´ desse documentário. Havia um sobrevivente do campo de concentração em Treblinka, que aliás, sobreviveu porque os nazistas gostavam de ouvi-lo cantar. Ele era um menino de 10 anos. No trajeto de barco, ele era obrigado a cantar sem párar todos os dias – durante anos! O menino – já adulto – sorria com os olhos ao contar sobre sua habilidade musical de outrora. Não apenas sorria, como também estagnou o olhar indefeso do menino que foi. Ao retornar ao local de sua infância, ele foi reconhecido pela população da cidade do outro lado do rio, assim que começou a cantar, coisa que nunca mais fez desde que conseguiu sair de Treblinka.

Todos riram ao rememorar as canções ouvidas, a voz singular da criança de anos atrás. Ao sabê-lo portador da famosa voz, todos o abraçaram. E todos não admitiram saber o que acontecia do outro lado da margem do rio.

Em uma outra vertente, Calligaris deve ter chocado muitos pensadores de militância humanitária com o forte título de seu ensaio. Até o próprio Calligaris disse: ” nunca pensei que escreveria um dia em defesa de Berlusconi”. Defender Berlusconi, a moral fascista, e ainda o new look dos neofascistas ? Claro que não! A questão é outra: “Berlusconi faz festinhas com prostitutas, e eu com isso?” Mas o mundo de notícias estacionou por ali, e até a virilidade chegou ao Ibope surpreendente, tornando-se a “virilidade de todos nós”.

Mas, ´se Ahmadinejad´, ex presidente do Irã fosse destaque “em uma boate gay” (e anseio por isso – como Calligaris) não seria o mesmo caso de Berllusconi? Não. Neste caso afetaria diretamente as leis desse país. Então como perceber o hipócrita, o ´conforto canalha´, ou ainda a conivência silenciosa?

Creio que Amos Gitaï, cineasta israelense pode dar sinais sobre essa discussão – via reminiscências em seu Yom Kippur, ou a moral que humaniza o velho palestino em seu filme Kedma (cargueiro de sobreviventes do Holocausto). O pobre e velho palestino levantou seu cajado e perpetuou um território – nunca reconhecido, mas hereditário de homens e mulheres bombas.

Para fechar o filme: a moral, o texto, a imagem insana no grito e na baba humana do historiador, no riso infantilizado à beira do caos: a  tênue linha dos algozes, dos sobreviventes e do ´conforto canalha´.

Meu personagem é o louco de o Trem da Vida (direção Radu Mihaileanu) . As risadas que dei no decorrer do filme foram, no final, murros nos estômagos de todos nós. Rimos como idiotas das tradições, dos ciganos, dos judeus, dos patéticos nazistas e, de nós mesmos. Somos o louco de o Trem da Vida, atrás das cercas de arame farpado em um campo de concentração, rindo na insanidade incorporada.

 

(*) Sobre Ahmadinejad – Ver neste blog o texto ´Faca de dois gumes´

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