O Moderno GOYA

8 set

Goya, ´Prisão interior´ c. 1810-14

 

 

Por Gisèle Miranda

 


Goya utilizou seu pincel para estabelecer os limites angustiantes dos poderes da razão instaurando o irracional como universo ilimitado.[1] Dado condizente com o momento/tempo e lugar. Sua grandiosidade ou genialidade era o termo apropriado à Cultura Romântica. Contudo, essa genialidade antecede ao tempo não vivido por Goya, ou seja, a Modernidade dos movimentos de vanguarda (final do Séc. XIX e ao longo do Séc. XX), em especial o surreal de seus trabalhos, que pressupõe, um esforço áspero de vigília…e falha da vigília que determina a invasão do irracional.[2]

Os trabalhos de Goya nos colocam em diversas contrariedades e diversos pensamentos, já que sua obra serviu de propaganda religiosa contra as heresias. Por outro, uma irracionalidade (de vigília) quando o momento pedia a realidade e racionalidade Além de, ora verter-se por uma liberdade vinda dos franceses, ora mostrando as atrocidades cometidas por eles na Espanha.

Quando os Românticos ganharam força com seus favoritos via Victor Hugo, Dostoiévisk, Stendhal, Delacroix, Courbet, entre outros, Goya já estava partindo[3]. Logo no momento de uma outra fase do Romântismo, ou seja, das reinvindicações operárias (a partir de 1820).

De meados ao final do Séc XIX, a fotografia, a Art Nouveau e o Impressionismo e os demais ismos inscreveram na História da Arte um novo marco: A Arte Moderna, que no Brasil se deu através da vinda de artistas europeus, fugidos ou exilados das constantes mudanças políticas, e trazendo-nos as influências de Goya, Turner, Rodin e Delacroix, sobre os trabalhos de Araújo Porto Alegre, Rugendas, August Miller, entre outros.

Também grandes discussões filosóficas de Kant (o ´gosto´ ou juízo de valor como não sendo conhecimento); Goethe (teoria da arte sustentada pela intuição da ´não-criticabilidade´, repudiado pelos Romanticos, pois a base de sustentação das discussão de Goethe eram as obras clássicas; e Schelegel – ditando os limites da obra visível abrindo-se a invisibilidade da obra de arte, ou seja, em devir.

Outra questão demasiadamente importante no Romantismo, é a alteração dos  juízes de arte que passaram a ser reconhecidos como críticos de arte, função de aparato profissional e regulador da subjetividade.

Essas discussões vingaram no Século XX, em emblemáticas produções críticas, via Benjamim em sua fase posterior a tese. O Romantismo para o pensamento artístico começa a esgotar-se por volta de 1848, surgindo então, as discussões filosóficas no séc. XIX, além de verter em discussão critica no Séc. XX, por exemplo, através de Clement Greenberg[4].

Para Greenberg são duas as vertentes imprescindíveis:  o juízo de valor e o destaque de pintores Modernos como Courbet (Realista), Manet (Impressionista). No entanto, sem a particularidade de Goya como vetor de ruptura do Barroco e um dos precursores do Moderno.  Nada que abale sua importância e larga produção como crítico de arte. Seu olhar experiente fez grandes descobertas.

Dessas descobertas há também fracassos, segundo o crítico  Arthur Danto[5]. O autor discute o fim da arte e os limites da história. A discussão é de interesse para a construção de idéias e de formulações históricas.

Mais uma vez o conceito de Modernidade/Moderno se faz necessário, inclusive porque se tornou opcional o uso de Moderno ou Pós Moderno e vice versa. E assim, a confusão de terminologia carece de pesquisa sobre Cultura, tecnologia e globalização [6], e a relação com guerras e a produção artística.

Os historiadores Peter Burke, Francisco Falcon, Ronaldo Vaifas, entre outros, vêm discutindo a História Cultural de maneira veemente. Também chamaria ao grupo, o crítico de arte e prof. de política cultural Texeira Coelho para esclarecimentos de termos que proliferam do conceito de cultura.

Feito esse apanhado, proclamo à criação e recriação das artes em geral – Moderna/ Pós Moderna e Contemporânea – como alicerces revigorantes e plenos de elementos didáticos alternativos para as discussões diversas.

 

Goya, ´Isto é pior´ (série guerras), c. 1812-13.


 

 

[1] COLI, JORGE. O Sono da razão produz monstros. In: A Crise da razão, 1999, p. 301.

[2] COLI, p. 310.

[3] Faleceu em 1828, em Bordéus – França/ nasceu em Fuendetodos (Saragoça – Espanha), em março de 1746

[4] COTRIM C. & FERREIRA, G. Clement Greenberg  o debate crítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

DANTO, A. C. Após o fim  da arte. São Paulo: Odysseus, 2006.

[6] Destaco o nome do Prof. da PUC/SP Philadelpho Menezes (falecido precocemente), com debates sobre a `mídia, arte e cotidiano na globalização´ (1997) e a produção do CD Poesia Sonora, onde o autor marca sua vinculação de pesquisador cultural, através de uma das faixas do CD, em que estão sobrepostos uma sinfonia de Mozart com o canto dos Pigmeus Africanos; e, do mesmo departamento a prof. Jalusa Pires Ferreira quando trouxe ao Brasil o culturalista Paul Zumthor.

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