Da Terra, para a Terra, na Terra

27 set

Por Bel Rodrigues; Nadja Maria Gomes Murta & Sandra Cristina de Souza

 

 

 

Entre a célula e o céu

O DNA e Deus

O quark e a Via Láctea

A bactéria e a galáxia

Entre o agora e o eon

O íon e o Òrion

A lua e o magnéton

Entre a estrela e o elétron

Entre o glóbulo e o globo blue

Eu, um cosmos em mim só

Um átimo de pó

Assim: do yang ao yin

Eu e o nada, nada não

O vasto, vasto vão

Do espaço até o spin

Do sem-fim além de mim

Ao sem-fim aquém de mim

Den’ de mim.

(Átimo de Pó, Gilberto Gil e Carlos Rennó)

Vivemos num mundo hominescente, dominados por uma determinada visão do que sejam as necessidades humanas e por elas engessados. Animais, plantas, topografia, enfim, todos e tudo envolvidos num processo cartesiano de transformação do planeta em algo consumível.

A humanidade criou a diferença, a fragmentação, a separação, perdendo o acesso ao universal e à consciência dessa necessidade. A tragédia se instaura: perplexidade diante do diferente, da fragmentação, das perdas sofridas e dos temores pelo futuro que se avizinha. Há saída?

Se existe uma saída, um futuro, é preciso que a humanidade contemporânea busque-os por meio de uma ação capaz de retornar, como propõe Michel Serres (2005), à grande narrativa – a cultura e a sua universalidade – e dela retirar tal ação.

O homem tem ligação e relação com a terra a Terra. Falta-lhe consciência de sua hominescência, isto é, o da possibilidade de obter uma nova organização na qual natureza-cultura não esteja apartada uma da outra. A comida, a bebida, as roupas e calçados, as habitações, os móveis e utensílios não se originam nas prateleiras dos supermercados e das lojas. Há necessidade do religare – buscar na diversidade das espécies (animal, vegetal e mineral) o entendimento de sua própria existência, culminando no respeito ao Planeta- Terra enquanto genitor e nossa nave no cosmos.

Para Serres (1994; 2003), a visão dos homens não contempla o mundo. Ele os enxerga como parasitas, chamando-os para um contrato natural de simbiose e de reciprocidade, capaz de levá-los a pensar em um novo equilíbrio entre o natural (a Terra) e o social (o coletivo global).

 

Sabino Costa - 339 x 305 s/d

 

A crise mundial dos alimentos, vivida novamente pela humanidade, coloca em discussão a utilização dos biocombustíveis, dos transgênicos, da água e da sustentabilidade do atual modelo científico e tecnológico de apropriação da Terra. Do nosso ponto de vista, os conhecimentos e práticas das comunidades isoladas e/ou tradicionais nos religariam à natureza. São elas que conhecem e detêm a biodiversidade do planeta. Não é à toa que corporações e organismos internacionais, sejam públicos ou privados, em nome do chamado processo de globalização, interessam-se tanto por esses territórios, na esperança de, como parasitas, sugar tais conhecimentos para deles se apropriar, distante da perspectiva do contrato natural.

Não somos ingênuas ao ponto de delegar apenas às comunidades tradicionais a responsabilidade sobre tal contrato. Mas, de aprender com elas, os seus modos de perceberem e apreenderem a fala da Terra – que fala-nos em termos de forças, de ligações, e de interações (Serres, 1994). Este pensamento rompe com o dos séculos precedentes que as viam como obstáculos ao desenvolvimento e ao progresso da humanidade, condenando  as suas relações com a terra e a Terra.

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