Série Releituras & breves comentários III – ‘O novo século’ de Eric Hobsbawm e a ‘História e teoria social’ via Peter Burke

7 jan

Por Gisèle Miranda


Eric Hobsbawm era um historiador* com ares de profeta e pessoa atuante no pensamento contemporâneo. Por isso, O novo século: entrevista a Antonio Polito (de 2000) chegou como uma assinatura no tempo desse respeitado e reverenciado historiador.

Ele esteve algumas vezes no Brasil. Na Flip, feira de livros de Paraty, ele foi a estrela daquela deliciosa cidade que hoje, tombada e salvaguardada é considerada a cidade das letras.

Em 2003, ele concedeu entrevista em um dos grandes momentos do pensamento, do exercício e do ofício constante do historiador. Sim, os acontecimentos futuros precisam ter alguma relação com os do passado, e é nesse ponto que intervém o historiador. (Hobsbawm, 2000, p. 8 )

Peter Burke também é da grande safra. Historiador inglês que está comprometido com seu tempo, trabalha com a história cultural e  tem forte ligação com o Brasil – dos espaços acadêmicos à mídia com ensaios vigorosos a Folha de São Paulo – Caderno Mais!

E como lidar com as armadilhas do presente e do juízo de valores? Pelos empréstimos culturais e suas filtragens necessárias, segundo Burke. Aberto às diferentes vertentes teóricas – as exerce, as pratica. Sim, teoria social para historiadores e história para teóricos sociais – entre modelos, teorias e conceitos; aplica na escrita midiática como pensador contemporâneo e um admirador da Invenção da Tradição de Hobsbawm.i

Foto de Jean-Marc Bouju em março de 2003, pai abraçando seu filho em um campo de prisioneiros durante a guerra EUA x Iraque.

O novo século de Eric Hobsbawm

Sabemos que a história que Hobsbawm gostava era a analítica. Diante do que denominou de século breve, ou seja, o século 20, por que equacioná-lo entre 1914 (Primeira Guerra Mundial) e 1991 (colapso da URSS)? Por que não delimitar para análise ou descobrir pela análise o quão importante é o recorte?

Estes são questionamentos que Hobsbawm tirou de letra nessa entrevista. Assim como precisou nomear o século breve e seu fluxo tardio, também foi preciso discutir a globalização – seu processo, sua intensidade e, até mesmo, a homogeneidade da tecnologia nesse tempo que atropela e que desembocou no século 21.

Ao falarmos de cultura estamos também falando de política. E quem nega a diferença que há entre a esquerda e a direita está sem dúvida procriando um núcleo de direita, segundo Hobsbawm.

E como ficam as gerações mais novas com relação politização ou a despolitização? Parece um fato tanto quanto uma data. Porém, a terminologia pode neste século 21 ter outra característica e estar atrelada ao posicionamento de direita e esquerda. O que diferencia é a mobilização, que atualmente se distingue das gerações anteriores. Não há o grande e único mote, mas questões específicas – como drogas, meio ambiente, sexualidade e etc , mas contraditórias entre si.

A experiência é significativa. E, o que precede? Algo que tem de ser reinterpretado ou contornado a fim de se adequar a circunstâncias que obviamente não são como as do passado. (HOBSBAWM, 1998, p. 37)

História e teoria social por Peter Burke

Se por um lado Hobsbawm encontrou eco na palavra progresso para pensar a história e ampliar seu terreno e suas interferências junto a outras áreas, diria que Burke está do mesmo lado, mas com outras palavras.

Não há dúvidas quanto as diferenças de esquerda e direita, mas há no progresso, acessibilidade, recursos, técnicas e fios imprescindíveis para análises. Não há dúvidas também que ambos são comprometidos com o seu tempo.

Burke discorre com propriedade sobre diversas vertentes teóricas. Ao dialogar e aplicá-las, independente de serem específicas da história, cabe ao pesquisador experienciar. Se pertinente ao progresso do historiador – adaptar e testar modelos, teorias e conceitos constituem a marca tanto do bom historiador como do bom teórico. (BURKE, 2002, p. 230)

Para exemplificar, nada mais presente que as discussões sobre o conceito de cultura, que em 1950, foram aguçadas por cientistas políticos, antropólogos e historiadores.

À esfera da cultura, Burke trouxe-nos os problemas políticos de dominação e resistência. Essa socialização cultural também pode ser entendida como socialização política, isto é, os meios pelos quais o conhecimento, as idéias e os sentimentos são transmitidos de uma geração para outra. (BURKE, 2002, p. 111; 128)

Aberto a transmissão, tradição ou reprodução cultural, Burke exaltou o melhor dos historiadores, não relegando nem mesmo a questão poética da ficção no trabalho e análise do historiador, pois, ao depurarmos os elementos ficcionais em nossos documentos, poderemos atingir os fatos mais verdadeiros. (BURKE, 2002, p. 179)

(*) Eric Hobsbawm nasceu em 1917 no Egito (Alexandria) sob o domínio britânico. Ele faleceu em 01 de Outubro de 2012 em Londres  aos 95 anos.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) O novo século: entrevista a Antonio Polito. Tradução Claudio Marcondes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

HOBSBAWM, E.; Ranger T. (Org.) The Invention of Tradition. Cambridge, 1983.

BURKE, Peter. História e teoria social. Tradução Klauss Brandini Gerhardt, Roneide Venâncio Majer. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

Sugestão Bibliográfica:

BURKE, Peter. (Org.) A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.

CARDOSO, Ciro F. & VAINFAS, Ronaldo. (org.) Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural. São Paulo: Editora Iluminuras, 1997.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HUNT, Lynn. A nova história cultural. Tradução Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

Fontes:

BURKE, Peter. Inevitáveis empréstimos culturais. Folha de São Paulo, São Paulo, 27 jul. 1997. Cad. Mais! p. 5.

Programa Globo News  Eric Hobsbawm.

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