Série Releituras & Breves Comentários V: Os cometas Philadelpho Menezes & Renato Cohen

9 jan

por Gisèle Miranda

 

Eu os conheci no auge de suas atividades acadêmicas e artísticas; e como num estalo desapareceram. Ambos faleceram cedo interrompendo um futuro promissor.

A partir dos diálogos que tive com eles fui confrontando posições com relação as as minhas pesquisas finalizadas no departamento de História da PUC/SP.

Entre passado e presente vivenciei a sensação de futuro. A vanguarda desses profissionais não me saciou com respostas pontuais, mas proliferaram discussões.

 

Leonilson (Fortaleza, CE, 1957- São Paulo, SP, 1993) Com o Anjo da Guarda, c. 1991. Aquarela e caneta permanente sobre papel 9 x 6,2 cm. Coleção MAM/SP) 

 

Philadelpho Menezes (São Paulo, SP- 1960- São Paulo, SP, 2000)

A primeira leitura que fiz do Phila (como era carinhosamente chamado) foi: A crise do passado. O que invariavelmente estimulou em mim, uma crise sem fim. Como lidar com essa crise sendo eu uma historiadora? Não ignorando a fugacidade e a transitoriedade do presente que propõe sempre a modificação do passado recente – algumas vezes recuperando um passado remoto… (Menezes, 1994, p. 9).

E, em se tratando das artes (em geral) não bastava abarcar os conceitos, então fui avançando e escavando os instantes; fui percebendo que havia um poço sem fundo, e que a matéria examinada é instável e não se revela por inteiro…; que muitas vezes há inadequação do conceito diante da obra… pois, há sentidos ocultos, inimaginados, que escapam das camisas-de-força, denunciam a estreiteza dos sistemas (COLI, 1993, p. 51 In: o ensino das artes nas universidades).

Para entender o que Jorge Coli escreveu eu precisei romper e experienciar. Para estudar as vanguardas artísticas fui de encontro ao muro – escavei até sangrarem meus dedos e cheguei à poesia sonora de Philadelpho (elaboração fonética, vocal, acústica, eletroacústica das poéticas de experimentação. (1992, p. 9) Arte não é domada, ela subverte e intervém.

Em Signos plurais organizado por Philadelpho e com textos de diversos intelectuais ligados às artes, questões como globalização, novas tecnologias geraram possibilidades sobre o pensar artístico contemporâneo – contexto marcado pela pluralização/fragmentação. Assim como os modos de consumo são inventados assim como as próprias tradições culturais são frutos de processos de fabricação cultural (JAGUARIBE, 1997, p. 75 In: Signos plurais).

Aos termos inventados e fabricação torna-se possível discorrer pelos empréstimos e filtros discutidos pelo historiador Peter Burke. (1997, p. 5) Esses empréstimos e filtros se adéquam ao denominado cosmopolismo cultural, ou seja, uma abertura crítica à diversidade do mundo frente às teorias e aos mecanismos de estandartização e homogeneização cultural, e face ao entrincheiramento etnocêntrico de grupos e nações… tecendo pontos de diálogos e estranhamentos. (JAGUARIBE, 1997, p. 81)

Um bom exemplo do diálogo e estranhamento é ouvirmos a sobreposição de um trecho da Sinfonia 40 de Mozart com o canto dos pigmeus africanos, fruto do trabalho poético e performático;  registrado em CD e livro pelo saudoso professor, mescla de médico e monstro das artes a quem o Brasil deve o experienciar e a propagação da poesia sonora e visual: Viva, Philadelpho Menezes!

 

 

Renato Cohen (Porto Alegre, RS, 1953 – São Paulo, SP, 2003)

Acompanhei o trabalho de Renato Cohen na Cia. Teatral Ueinzz, coordenado pelo filósofo e ator Peter Pál Pelbart, na época, dirigido por Renato Cohen e Sergio Penna; os atores são, em grande parte, pacientes do hospital dia A Casa (2).

Da leitura de Work in Progress na cena contemporânea, o conceito do Work in progresss, originário das artes plásticas, em action painting, as construções transitórias das assemblagens, collagens.

A combinação mirabolante Cia. Teatral Ueinzz e Work in Progress esteve permeado pelo risco físico e psíquico, vivificando o momento, matéria existencial dos participantes fluiu numa transposição de linguagens, de estranhamento cênico e análise de recepção. (Cohen, 1998, p. 18; 31)

O guardião da vanguarda se foi? Não! Viva, Renato Cohen!

(*) A Série Releituras é uma proposta insurgente, que visa uma escrita a partir de dois autores ou dois livros em releituras e breves comentários.

 

Bibliografia:

COHEN, Renato. Wok in progress na cena contemporânea: criação, encenação e recepção. São Paulo: Perspectiva, 1998.

COHEN, Renato. Performance como linguagem: criação de um tempo-espaço de experimentação. São Paulo: Perspectiva; Editora da Universidade de São Paulo, 1989.

MENEZES, Philadelpho. A crise do passado: modernidade, vanguarda, metamodernidade. São Paulo: Experimento, 1994.

MENEZES, Philadelpho (Org.) Signos plurais: mídia, arte, cotidiano na globalização. São Paulo: Experimento, 1997.

MENEZES, Philadelpho (Org.) Poesia sonora: poéticas experimentais da voz no século XX. São Paulo: EDUC, 1992.

 

Outras sugestões:

ARTE e tecnologia (Catálogo) São Paulo: Instituto Cultural Itaú, 1997. (Exposição e Simpósio Arte e Tecnologia ocorrida no ICI, de 23 de setembro a 26 de outubro de 1997).

BARBOSA, Ana Mae T. B. et al. O ensino das artes nas universidades. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; CNPq, 1993.

BURKE, Peter. Inevitáveis empréstimos culturais. Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 de julho de 1997. Cad. Mais!

COELHO, Sergio Salvia. Renato Cohen foi o guardião da vanguarda. Folha de São Paulo, São Paulo, 21 de outubro de 2003. Ilustrada E-2.

MENEZES, Philadelpho et al. Poesia hipermídia interativa (CD). São Paulo: Edição Universidade Presbiteriana Mackenzie, Estúdio de poesia experimental da PUC/SP, FAPESP, 1998.

MENEZES, Philadelpho et al. Poesia sonora hoje (CD). São Paulo: Estúdio de poesia experimental da PUC/SP – 002, 1998.

MENEZES, Philadelpho et al. Poesia Sonora: do fonetismo às poéticas contemporâneas da voz (CD). São Paulo: Estúdio de poesia experimental da PUC/SP – 001, 1996.

ROMA Antiga: arqueologia musical experimental (Performance). Direção Gisèle Miranda. FESB, 1998.

SYNAULIAMusic from ancient Rome (CD). Italy: Amiata Records, 1996, Vol. I.

1 “Philadelpho Menezes (São Paulo SP, em 1960 – São Paulo SP 2000) publicou seu primeiro livro de poemas: “4 achados construídos” (Edições Aicás, 820, SP), em 1980. Depois seguiram-se: “Poemas 1980-1982” (1984), e “Demolições (ou poemas aritméticos)”, em 1988. Foi autor do livro de teoria “Poética e Visualidade – Uma Trajetória da Poesia Brasileira Contemporânea” (Ed. UNICAMP, Campinas 1991) e organizador de “Poesia Sonora – Poéticas Experimentais da Voz do Século XX” (EDUC, SP, 1992). Organizou, entre outras mostras, a exposição “Poesia Intersignos” São Paulo” (1988). Foi professor do programa de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC/São Paulo, tendo realizado a pesquisa de seu doutorado junto à universidade de Bolonha (1990). Sua tese de doutorado foi editada com o título: “A Crise do Passado: Modernidade, Pós-Modernidade, Metamodernidade”.  Philadelpho Menezes faleceu em um acidente automobilístico.” Ref. coletiva Web)

“Renato Cohen (Porto Alegre RS 1956 – São Paulo SP 2003). Diretor, performer e teórico. Pesquisador de arte e tecnologia, atuou em São Paulo desde meados dos anos 80, um dos diretores mais conectados às inovações multimídias e performáticas. Após realizar mestrado e doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP, com temas associados às técnicas da performance, Renato Cohen torna-se professor da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, respeitado como um especialista em tais domínios. Entre vários trabalhos, em 1997, avançando na pesquisa sobre as vanguardas históricas, cria Máquina Futurista, uma performance sobre arte e tecnologia, que integra a Mostra de Arte e Tecnologia do Itaú Cultural. O grupo de Renato Cohen torna-se um dos primeiros grupos brasileiros a realizar performances – em tempo real – para audiência na rede. Na mesma ocasião, com pacientes psiquiátricos, encena Ueinzz, Viagem à Babel, experiência limite com não-atores.” (Ref. Coletiva Web)

2 “A Cia Teatral Ueinzz é composta por pacientes e usuários de serviços de saúde mental, terapeutas, atores profissionais, estagiários de teatro ou performance, compositores e filósofos, diretores de teatro consagrados e vidas por um triz. Fundada em 1997 no interior do Hospital-Dia “A Casa” em São Paulo, em 2002 se desvinculou por inteiro do contexto hospitalar.”

** As atividades da Cia Teatral Ueinzz na 29ª Bienal: http://ht.ly/2Uwq0

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