Dados biográficos de Gontran Guanaes Netto

10 jan

Por Gisèle Miranda

Em 1 de janeiro de 1933, nasceu Gontran Guanaes Netto na cidade de Vera Cruz / SP, Brasil, mas somente registrado em 17 de fevereiro 1933.

Em 1955, nasceu na cidade de São Paulo sua primeira filha, Lucia (fotógrafa residente na França http://www.luciaguanaes.com/). Em 1958, sua segunda filha, Cristina (terapeuta corporal, residente nos EUA) – do casamento com a bailarina Helena Villar.

Em 1959, fez o retrato de Fidel Castro (Birán, Cuba, 1926 – Havana, Cuba, 2016), por solicitação dos Alunos da Politécnica/USP para festejar a Revolução Cubana. O Retrato de Fidel Castro foi levado ao palanque montando na Praça da Sé (região central da cidade de SP) por estudantes simpatizantes e, logo em seguida queimado pela polícia – segundo Gontran: “foi queimado pelo DOPS” – criado em em 1924, e que perdurou durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). Portanto, o DOPS, desde sua a criação foi tido como ferramenta de controle e repressão as manifestações populares e deveras atuante em torturas e assassinatos.

Em 1960, Gontran foi ouvinte da conferência de Jean-Paul Sartre (Paris, França, 1905-Idem, 1980) e Simone de Beauvoir (Paris, França, 1908, Idem, 1986), em Araraquara/SP. Tornou-se um pintor de questionamentos humanistas sob os auspícios de uma juventude que viria a ser clandestina em 1964, no Brasil.  Assumiu o pseudônimo de André para assinar as ilustrações das publicações ‘proibidas’; ele fez das mãos rudes, as mãos de um pintor Realista.

O sobrevivente Gontran ‘assimilou o conhecimento de forma enviesada’ (como ele próprio diz); assim, confrontou a repressão política e foi um dos fundadores da FAAP/SP, mesmo sem formação universitária, na 2ª fase, em 1967, com a criação das faculdades de Artes Plásticas e Comunicação, e Engenharia.

Paralelamente, as discussões socialistas vertiam-lhe em segredos aos encontros de coletivos ilegais; suas mãos foram além da terra seca, da falta de informação e formação.

Gontran Guanaes Netto (Vera Cruz, São Paulo, Brasil, 1933 – Cachan, França, 2017) ou André, 1968-1969. (foto em p & b da pintura colorida )

Em 1969, exilou-se na França pois  estava ‘sob a ameaça’ de outra prisão; seu pseudônimo André já não lhe garantia a vida. Resistiu durante 5 anos sob pressão da ditadura militar.

Nas décadas de 1970-80, foi um dos doze fundadores do Espaço Cultural Latino Americano em Paris. Lá, conheceu Julio Le Parc (Mendoza, Argentina, 1928-); em 1995, numa contemporaneidade partilhada, Le Parc, o artista Cinético, declarou a Gontran Netto, artista Realista, uma admiração e cumplicidade por sua ‘postura’, sua pintura e suas cores. Seus trabalhos são diferentes; suas cores se encontram na performance do passado coletivo; ambos partilharam a luta na Brigada Internacional Antifascistas (1972-1987).

Em 1973, ´Sala Escura da Tortura’, trabalho coletivo: Gontran Netto, Le Parc, Alejandro Marco (Espanha, 1937-), Jose Gamarra  (Uruguai, 1934-).  A exposição seguiu para o Museu de Arte Moderna de Paris, depois para a Itália, Suíça, Alemanha e Brasil.

Em 1976, Cueco (Uzerche, França, 1929- Paris, França, 2017) disse sobre o trabalho coletivo com Gontran: “Notre travail consiste a suivre le pointillé des differenciacions, descontinuidade de ruptura”.

Em 1979, nasceu o filho Pedro Pierre de seu casamento com a professora francesa Annie Dansky.

De 1979/1980, Gontran Netto pintou para os 20 anos de Revolução Cubana comemorados numa exposição coletiva em NY/EUA.

Nos anos de 1980, engajou contra o racismo com a exposição coletiva “100 artistes contra le racismo’. Em 1983, pintou ‘Apartheid 1’; logo em seguida, “Art contre/against Apartheid”, e nesta tela, Gontran impressionou pelo vazio: apenas uma criança. É o fim ou a esperança? Por outro lado, as cores fortes povoam o vazio da fome e do esquecimento. Para esse encontro, além dos pintores/artistas, houve também um ensaio do filósofo Jacques Derrida (El Biar, Argélia, 1930- Paris, França, 2004).

Gontran teve um ateliê na ‘vila da neblina’ – cité d’sartes. Todo o espaço conquistado em seu exílio na França foi de um ‘homem’ comprometido com questões demasiadamente sérias, mas (in) visíveis. Gontran trouxe a visibilidade desse mundo.

Nos anos de 1983/1984, com as diretrizes da abertura aos exilados ele retornou ao Brasil, após o desterro de 14 anos. Gontran conquistou respeito fora de seu país, mas voltou ao Brasil por necessidade da carnalidade brasileira e pela luta – marca de sua pintura.

Quando expressou o desejo de retornar ao Brasil, foi ‘visto pela crítica oficial’ como um pintor ‘demagógico’ de uma pintura ‘piegas e mal feita’. Seu retorno tinha como propósito fixar um ateliê em Goiatins (Tocantins), ou seja estar ligado à terra e efetivamente, aos boias-frias. O ateliê não conseguiu esse endereço (pressão do ‘coronéis’ donos de terras), mas a luta continuou com seu vínculo natural às causas do Movimento Sem Terra, às resistências coletivas, contra o neocolonialismo.

Em 1987, o reencontro: coletiva de pintores antifascistas. Reencontro repetido em 1993. Também em 1987, período de cartas recebidas, encaminhadas por membros do Movimento Sem Terra. Fez telas e doações; pelas mãos rudes pintou o manifesto dos Sem Terra, com o ‘Leilão de Cabeças de Gados’. (ironizado pelas cabeças de trabalhadores rurais ou cabeças de caipiras)

De 1989 a 1991, para a comemoração dos 200 anos da Revolução Francesa,  Gontran fez das estações do metrô da cidade de São Paulo, Marechal Deodoro e Corinthians-Itaquera, o atelier do povo e do trabalhador; os painéis foram pintados por Gontran nas estações durante meses. Os transeuntes são os rostos que povoam estes painéis. Pintou a escrita dos Direitos Humanos em lingua original. Marianne, a mulher do povo francês, pintada por Eugène Delacroix (Saint Maurice, 1798- Paris, França, 1863),  foi reinventada por Gontran, na mulher do povo brasileiro.

Gontran pintou muitas aulas de História. Lá estão Augusto César Sandino (Niquinohomo, Nicarágua, 1895 – Larreynaga, Nicarágua, 1934), Salvador Allende (Santiago, Chile, 1908- Idem, 1973), Fidel Castro (Birán, Cuba, 1926 – Havana, Cuba, 2016), Nelson Mandela (Mvezo, àfrica do Sul, 1918 – Johanesburgo, África do Sul 2013), Carlos Lamarca (Rio de Janeiro, RJ, 1937 – Ipupiara, Bahia, 1971), Carlos Marighella (Salvador, Bahia, 1911 – São Paulo, São Paulo, 1969), Luís Carlos Prestes (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1898 – Rio de Janeiro, RJ, 1990), Frei Tito de Alencar (Fortaleza, Ceará, 1945 – Éveux, França, 1974) e tantos outros.

Gontran Guanaes Netto (Vera Cruz, São Paulo, Brasil, 1933 – Cachan, França, 2017), Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão – painel 4, 1989 (metrô Mal. Deodoro, SP), Óleo sobre madeira, 2,0 x 16,0

Durante o trabalho na estação Marechal Deodoro ele conheceu a bióloga Adriana Madeira, mãe de seu quarto filho Gabriel; pouco antes, também pais da falecida ainda bebê, Luiza (primeira filha do casal).

Em 1993, a discussão da ‘reconstituição’ de uma obra de Portinari. O convite foi formalizado, mas não se concretizou. Ele sabia que podia e não seria restauro, e sim, reconstituição. Um lamento histórico: Gontran como Portinari – “sueña y fulgura, um hombre de mano dura, hecho de sangre y pintura, grita en la tela”, como ‘um son para Portinari’ (letra/ música: Nicolás Guillén e Horacio salinas/ na voz Mercedes Sosa).

Em 1994, expôs pela PAZ. 50 anos da Fundação das Nações Unidas e 50 anos de dor por Hiroshima e Nagasaki.

Em 1995, o coletivo em protesto a chacina da Candelária (RJ) – assassinatos de crianças por ‘matadores profissionais’, conhecidos como ‘esquadrão da morte’, ocorrido em 1993.

Em 2003, a exposição ´Sala Escura da Tortura´ no Fórum Social em Porto Alegre (RS), Exposição ´Sala Escura da Tortura´no Museu do Ceará, Fortaleza (CE), sob curadoria de Edna Prometheu. Em 2015-2016, as telas circularam pelo Brasil acompanhando a Comissão Nacional da Verdade.

Gontran foi leitor de clássicos da literatura francesa, pensadores, psicanalistas, filósofos, das cartas que chegavam de qualquer lugar; estudioso dos tratados das artes e de preocupações que o tempo ainda não sanou: a fome, as guerras, as doenças, os preconceitos, a multidão (in) visível.

Em 25 de novembro de 2017, aos 84 anos, Gontran Guanaes Netto faleceu em Cachan, França. Ele proclamou como nenhum outro artista, a problemática da exclusão, e com eco próprio pela “consciência que sobrevive a qualquer circunstância” e “antigo combatente, jamais!”

Sugestão de leitura para compor esses dados biográficos Brava Luta

Outras sugestões para leitura sobre Gontran Guanaes Netto

6 Respostas to “Dados biográficos de Gontran Guanaes Netto”

  1. Vera Consuelo de Miranda. às 17:53 #

    Conheci o Gontran em S. Paulo quando ele tinha um ateliê com o Aguillar e o Jô Soares. Todo dia 01/ janeiro me lembro dele e de nossos almoços intermináveis no Pozzilipo. Uma pessoa impar, muita saudade do meu professor e Amigo.

  2. Republicou isso em e comentado:

    Em 1 de janeiro de 1933 nasceu Gontran Guanaes Netto na cidade de Vera Cruz / SP, Brasil, mas somente registrado em 17 de fevereiro 1933.

  3. nobodyknows às 13:55 #

    Opa, loguei com o nome errado -> eu que conheci o Gontran, o blog abaixo é o do meu namorado. XD

  4. maissocial às 12:56 #

    A exposição da Sala da Tortura está agora na FFLCH-USP, de SP. Foi instalada ontem e, no ano que vem, deve ir para Harvard. O Gontran estava lá, creio que ficará circulando pelos arredores, enquanto a obra está montada.

    Tive o prazer de conhecê-lo e ficamos conversando, e ele é a pessoa mais simpática deste mundo. =D

  5. pamela às 14:21 #

    Esse é meu tio avo ele é muito legal ele mora em pari !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Trackbacks/Pingbacks

  1. Sala Negra da Tortura | de tudo um pouco -

    […] Maiores informações se encontram aqui: https://tecituras.wordpress.com/2010/01/10/dados-biograficos-sobre-gontran-guanaes-netto/#comment-55 […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: