“Política Externa Independente” e a “Cúpula da Unidade da América Latina e Caribe”

27 fev

Por Gisèle Miranda

 

Como sempre a mídia brasileira não se dá ao trabalho de alcançar a importância da política externa; hoje, galgando a passos inimagináveis. Há uma miopia que não dissocia a política partidária dos grandes feitos históricos da política externa[1]. Isso, sem falar da política interna, que trouxe a luz um número humano que outrora inexistia – não a olhos vistos, mas sob a crueldade da cegueira oportuna.

Gontran Guanaes Netto, Aspectos da população brasileira, 1989, painel 2, (metrô Mal. Deodoro, SP)


A Cúpula da Unidade da América Latina e Caribe (CALC) ocorreu em 23 de fevereiro de 2010, no México com a participação de 32 países, exceção do representante de Honduras que afinal, em pleno século XXI, está isolado, não pela falta de diálogo por parte dos representantes da CALC, mas pela falta de diálogo ditado pelo golpe militar sobre o representante eleito democraticamente Manuel Zelaya, em junho de 2009; Zelaya tentou reassumir seu posto mas foi humanamente impedido, sendo abrigado e protegido pela democracia da embaixada brasileira em Honduras[2]. Assunto este que está na pauta da Cúpula com razão de ser.

Outro assunto desconfortável e necessário, são as ilhas Malvinas – colonialmente pelos ingleses desde 1833, e que desde 1965 está na pauta da ONU como problemática a ser resolvida, tendo em vista a justa reclamação da Argentina. Em 1982, o Reino Unido (potência invasora colonial) reafirmou seu domínio em meio à guerra. Na época, jovens argentinos de 18 e 19 anos foram massacrados como parte dos crimes ocorridos pela ditadura militar; ironia foi à queda da ditadura na Argentina e a ascensão da política conservadora de Margaret Thatcher na Inglaterra.

O presidente Lula, muito bem assessorado pela “política externa independente” de Celso Amorim deu o tom da discussão: “Qual é a explicação geográfica, política e econômica da Inglaterra estar nas Malvinas? Qual é a explicação política das Nações Unidas não terem tomado uma decisão dizendo: ´Não é possível que a Argentina não seja dona da Malvinas e seja um país que está a 14 mil Km de distância das Malvinas?´”[3]

O processo histórico de ocupação das Malvinas resultou, além dos 655 mortos, 1.100 feridos, 11.313 prisioneiros jovens argentinos em 1982 -, também ressoou em quase 400 suicídios pós-guerra, dados documentados em 2005, através do filme de Tristán Bauer sob o título ´Iluminados por el fuego`, produção Argentina/Espanha.

Qual será o resultado desse caso, já que há petróleo nas Malvinas? Se pegarmos a referência do Iraque e seu campo de petróleo, podemos dizer, tal como Lula, que “a ONU perdeu a representatividade”? E que “muitos dos países que detêm cadeiras no Conselho de Segurança preferem a ONU frágil para que eles possam desobedecer as decisões e fazer do seu comportamento enquanto nação a grande personalidade de governança mundial”?[4]

Em outubro de 2009, o Brasil assumiu uma cadeira provisória da ONU (de 2010-2011), mas a luta continua por uma cadeira definitiva, assim como outros novos membros que possam fazer diferenças. E, desde então, a política externa proclamada reivindica a ajuda ao Haiti, recentemente devastado. Também, a paz no Oriente Médio, o diálogo com o Irã; o estado mais que necessário dos palestinos, além de mediadores de diálogos para a Venezuela e Colômbia, Cuba e o que mais vier![5]

Gontran Guanaes Netto, Marianne, 1989, painel 7 (metrô Mal. Deodoro, SP)/ versão a partir da obra de Eugene Delaicrox, A liberdade guiando o povo, 1833

O próximo encontro da CALC será na Venezuela, e não teremos a participação do presidente Lula, já em final de mandato; independente de haver uma sucessora partidária, a CALC vai acontecer.

Viva a “Política Externa Independente”[6] de Celso Amorim, Viva, a “Cúpula da Unidade da América Latina e Caribe”!


[1] Mídia falada e escrita. Exemplos: telejornais Rede Globo; Folha de S. Paulo, tendo a análise de Clovis Rossi sob o título “Unidade atrasa 200 anos e chega incompleta”, criticando a suspensão de Honduras e a ausência dos EUA na Cúpula. In: Folha de S. Paulo: 24 fev. 2010, A-12, Cad. Mundo.

[2] Zelaya ficou abrigado no prédio da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa (Honduras) por mais de quatro meses.

[3] In: Folha de S. Paulo: Por Malvinas, Lula critica britânicos e ONU. São Paulo, 24 fev. 2010, A-12, Cad. Mundo.

[4] In: Folha de S. Paulo: Por Malvinas, Lula critica britânicos e ONU. São Paulo, 24 fev. 2010, A-12, Cad. Mundo.

[5] V. neste blog “Faca de dois gumes”, de Gisèle Miranda: texto que expõe preocupações demasiadamente sérias da conduta perniciosa do presidente do Irã.  Cabe também ressaltar a recente prisão do cineasta Jafar Panahi, V. textualidade em forma de protesto da Mostra Internacional de Cinema http://bit.ly/dnZId5

[6] V. “Política Externa Independente, a Revanche”, de Luiz Felipe Alencastro, 6 dez. 2009: http://sequenciasparisienses.blogspot.com/

(*) Sobre Gontran Guanaes Netto: “Brava Luta” e “Dados biográficos de Gontran Guanaes Netto”, de Gisèle Miranda, 27 fev. 2010.

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Uma resposta to ““Política Externa Independente” e a “Cúpula da Unidade da América Latina e Caribe””

  1. Carol 1 de março de 2010 às 15:10 #

    O Lula teve o melhor jogo de cintura até hoje. Vamos ver agora, só espero que não dê Serra!

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