Série ficcional H. Miller – IV: Rompendo a trilogia com Henry Miller ou o retorno de Miller

3 mar

Por Lia Mirror


Eu rompi a parede criada pelo nascimento e a linha de viagem é curva e ininterrupta, uniforme como o umbigo. Não há forma, não há imagem, não há arquitetura, há apenas vôos concêntricos de pura loucura. Eu sou a flecha da substancialidade do sonho. Eu verifico o vôo. Eu anulo pela queda à terra.

MILLER, H. Trópico de Capricórnio, 1966, p. 98.


Depois que encontrei Henry Miller no barco trifásico – por terra, água e ar, obviamente através de um sonho – resolvi esquecê-lo. Mas foi exatamente nesse intervalo que ele de fato apareceu. Chegou após meses e cravou seu sexo num corpo sedento, porém mais astuto, o que não fez nenhuma diferença. Foda Henry Miller!

BOSCH, H. (c. 1450-1516) O jardim das delícias -tríptico (detalhe painel central) c. 1500-5. Óleo sobre carvalho. Museu do Prado.

Ele chegou com beijos, saudades e abusado. Suas mãos foram percorrendo territórios sagrados. Arrancou meus preceitos e espalhou-os por todos os cantos de minha casa. Como um animal selvagem, predatório, voraz e loquaz.

Quando desisti de resistir, simplesmente fui… deliciosamente sentindo o arrepio, o sonido da busca e da entrega. Estávamos em Cocanha[1], o país imaginário e não mais em minha casa.

Ficamos horas, dias largados no território em que tudo é permitido. Assim fui descobrindo um Miller em você – caso os desalmados e descrentes interroguem nossa veracidade!

Quero proclamar-te estandarte do meu corpo; como tatuagem; como escárnio. Desejo até sentir o tempo áspero que o objetou desse tempo vazio. Quero gritar e ouvir da sua boca meu nome. Mas você é outro sussurrando coisas. Outro que assume um tom que não é seu, mas meu.

A escrita procriou e rompeu a trilogia para derramar seu devir seu inacabável. Foi bizarro. Louco e poético através da bela fotografia de um olhar entranhado. Você viu coisas belas numa mulher reconstruída ou dilacerada. Fotografou pedaços e gostou.

Sonhei em Cocanha que te ligava, porque “tive um sonho ruim”. – “Quais são as cores e coisas…?” Mas não fui eu que sonhei e te liguei. Por que você “não me deixa em paz…”? -“Eu tive um sonho ruim e acordei.”[2]


[1] FRANCO JR., H. Cocanha: a história de um país imaginário. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

[2] Trechos da música ´Quase um segundo´ de Herbert Vianna.  V. Tb. versão de Cazuza.

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