Série ficcional H. Miller – V: Batucada, Miller e a mesa do seu Alberto

4 mar

Por Lia Mirror e Gisèle Miranda

 

 

“O impossível só pode ser atingido por investidas, e o nome para isso é loucura.”

(Miller, H. A hora dos assassinos, 1983)

 

No silêncio da madrugada escuto o ritmo da batucada do meu pensamento. É um carnaval fora de época. Vejo tudo: comissão de frente, ala das passistas, ala dos descamisados, ala das baianas e aquela bateria nota dez que ensandece o público ausente.

Por um lado fico sem entender o que se passa; por outro, reconheço-me nesse estrondo à revelia do sono que entorpece os moradores da minha comunidade.

Entre o silêncio e a batucada há um abismo adjacente que imprime um coral de cachorros loucos e gatas no cio. Na há pausa.

Penso que, talvez eu venha a reencontrar Henry Miller. É uma suposição diante da imensa folia que se segue; ou que venho tendo pressentimentos, afinal, o momento é propício.

Fico a espreita de sua presença, suas palavras, seus gestos educados e obscenos; sua queda pelos desalmados, pelos perdidos e destroçados.

As vezes penso que Miller consegue sair ileso dessa ebulição. Mas, não! É apenas um disfarce de sua grandiosidade pelos despercebidos. Ele se infiltra, mas não usa máscara. Ele consegue ficar invisível na visibilidade cruel da realidade

Não vou mais ficar especulado suas qualidades e subjetividades. Vou sim caminhar até meu restaurante predileto, alimentar a minha fome (literalmente), e embevecer-me da boa companhia do seu Alberto.

A mesa do seu Alberto é composta por quatro cadeiras. Sempre que vou almoçar com ele percebo o entorno de pequenos grupos, ora esfuziantes, ora em cochichos. Apenas quando eu peço licença para compartilhar à mesa, vejo o sorriso de seus olhos; vejo a cumplicidade de nosso silêncio.

 

E. Nery, Bar Alpino,1967 (55x 48 cm/ óleo s/ tela), Coleção Paulo Caeté

 

É inegável nossa afetividade, dinamizada pela familiaridade que nos é própria – a mesa dos ausentes. Também é inegável que a minha presença estimula a curiosidade de nosso entorno; algumas vezes temos em nossa companhia infiltrados ou curiosos para saber o conteúdo de nosso longo silêncio.

Hoje ficamos os dois; ninguém se aventurou ao nosso silêncio familiar. Confesso que estava especialmente com saudades dele, pois há dias não o via. E para demonstrar essa afetividade que nos é necessária desenhei com os palitos de dentes sobre a mesa. Ele olhou e sorriu.

Quando fui atacar a sobremesa, uma cadeira foi puxada. Nem tive a curiosidade de levantar os olhos para acolher o infiltrado. Mas a voz soou-me familiar: – com licença posso sentar com vocês?

Era Miller! Sorrimos os três. Mas surpreendeu-me a resposta de seu Alberto sem pestanejar:  – É um prazer Henry Miller!


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