Série ficcional H. Miller – IX: A releitura de Miller

12 mar

Por Lia Mirror


Eu estava à espreita de algo para escrever depois de ser lida e relida por Miller.

Miller, apareça! Diga algo! Diz… nada diz.

Foste quem me arrebatou no tênue fio da temporalidade. Horas passionais e antropofágicas. Brindo em seu entorno; debruço-me plena no cheiro que reconheço. Grito, sussurro… tudo! Não me calo, não me censuro. Sou livre. Sou tua e livre.

Ismael Nery, s/título, óleo s/tela, s/d

Saibas Tu, que Cronos fez-me semideusa. Não me importa o seu lado mais cruel. Dele escrevo; dele sublimo. Mereço esse encontro, Miller! Dizer-te tudo o que acabei de pensar e depois vagar por estes becos escusos do pensamento.

Quando penso em não tê-lo – vezes e vezes até a exaustão – corro até o impensável. Voo com o aval de Dédalo. Então, ajoelho-me diante de ti com a ´doçura´ inerente. No olhar o desejo, o jogo, tempestades e o mar. Quanta coisa ao mesmo tempo!

– “E por fim acendes um cigarro para a despedida – sem o amanhã!” – disse o insurgente.

Miller!!!!!!! Você estava escutando o meu pensamento? Apareces do nada. Do tudo; da ebulição, do fascínio e do fantástico!

– “Minha cara, ouço os teus desejos. Desta vez sem os riscos do sedutor filho de Dario e seus soldados – sem trincheiras e sem conquistas. Irei acompanhá-la até o reino de Perséfone. Somente você e Eurídice têm livre acesso. Cronos a fortalece diante dos deuses. E, além do mais, eu a quero; minha e  livre; minha e liberta; minha e plena nessa fugacidade do contemporâneo.Quero ler-te e reler-te. Decorar suas curvas, adentrar em seus segredos e seus abismos. Ler-te e reler-te insaciavelmente.”

 

(*) Sobre Ismael Nery:

Considerado pela história da arte, o pioneiro no Surrealismo no Brasil. Teve participações junto ao Movimento Modernista na década de 1920. Obcecado pela morte aos 33 anos – idade de Cristo e de seu pai – Ismael morreu aos 34 anos de tuberculose sem ter vendido nenhum de seus trabalhos em vida.

A pedido do próprio Ismael, grande parte de sua obra esteve sob a vigília do amigo poeta e crítico de arte Murilo Mendes, com a promessa que só viria a público após, pelo menos, trinta e três anos de sua morte. Essa promessa foi cumprida. Em 1974, após 40 anos, Murilo escreveu um texto que foi para a exposição no MASP, e com ela um acervo inédito. Murilo assumiu o messianismo essencialista, fiel a filosofia de seu amigo.

A poetisa Adalgisa Nery teve dois filhos com Ismael: Ivan e Emmanuel Nery.  Adalgisa foi musa e figura singular na obra de Ismael Nery e na vida de Murilo Mendes.

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