Série Retecituras IV: Guerras (Parte I)

15 mar

Por Gisèle Miranda

Marina Abramovic, The Family I (from the series of works the quiet in the Land), Laos, 2008

A temática adentra séculos e civilizações, remonta histórias de combatentes, libertadores, despóticos ou comuns; por motivos religiosos, políticos, econômicos, familiares ou banais; entre passado, presente e até de perspectivas futuras.

Esse múltiplo midiático e tecnológico que às vezes abunda em lixo (incluso trabalhos de pesquisa ‘fast’), também germina em possibilidades contemporâneas para lidar com o passado.

Nós podemos filtrar (não é censurar);  filtrar no melhor das textualidades do historiador Peter Burke,  sobre ‘empréstimos culturais’ e os ‘inevitáveis empréstimos culturais’, ou seja, diz respeito a utilização e a reutilização: reciclagem e lixo.

É por esse elo que chamo à escrita : Guerras (via periódicos e links). Obviamente contempladas às críticas e, por conseguinte, a busca da reflexão do leitor sobre as guerras atuais (pois há fases, incluso do pós conflito armado ou adjacente núcleos rebeldes vigorando).

Que tal pensarmos nos EUA, Afeganistão e Iraque, Israel e Palestinos?  O continente Africano em guerrilhas de diversas naturezas, enfim, toda essa constante que vem ´esbofetear´ a História Contemporânea com questões de difícil entendimento pela proximidade e fugacidade das informações. No entanto, reconheço nas artes uma boa temperatura para pensarmos a respeito – dado seu caráter experimental e de subjetividades inerentes.

Então, quais as razões para a guerra? [1]Ou, como viver junto? Claro que cada área há de se interrogar e pensar na melhor resposta dentro dos limítrofes informacionais e de tempo a reflexão.

A resposta dada a segunda questão foi vertida na 27ª Bienal de Artes de São Paulo, sob curadoria de Lisette Lagnado[2].

Foram artistas de várias partes do mundo com problemáticas diversas que se encontraram numa experimentação e numa tentativa de responder a indagação de ambas as perguntas e tantas outras insurgentes.

EUA, Afeganistão e Iraque

Em 2001 reuni três crianças entre 7 e 8 anos que montaram um roteiro para um vídeo caseiro, sob minha supervisão, para refletirmos sobre as guerras através de alguns entrevistados, pessoas que de alguma forma, viveram a guerra ou a sofreram indiretamente.

A ideia surgiu por conta da confusão informacional acerca da guerra entre EUA e Afeganistão. As imagens de TVs, o nome Osama Bin Laden, religiões, americanos, explosões, pareciam parte de jogos eletrônicos. Seria, então, um filme de ficção da indústria cinematográfica norte americana ? O que era tudo aquilo? Fatos ou jogos?

Com disse registrei de forma amadora, um interessante bate-papo entre as crianças com um jornalista (correspondente internacional) e cientista político (*).

-“Por que jogam bombas e comidas?”; “Por que matam crianças e pessoas que não querem a guerra?” ( encarte da Folha de S. Paulo – Folhinha, sobre o episódio de 11 de Setembro 2001, Afeganistão, e muitos outros pontos obscuros repensados) As crianças tudo vêm e tudo ouvem.  As manifestações pela Paz tiveram uma grande participação das crianças e companhia de seus pais e de muitos de seus professores. Esse aporte geracional compôs reações às crianças com relação à temática guerras.

‘Que mundo é esse?’ Era o título de capa em 2004. É um mundo que reage cada vez mais jovem. Que venham essas inquietações! E que elas sejam cada vez mais, para contrapor a falta de ‘reação’ dos mais velhos, sobre  os lugares em guerras, com fome, sede, miséria e doenças.

Marina Abramovic, The Family X (from the series of works the quiet in the Land), Laos, 2008

Uma das três crianças entrevistadoras é meu filho, hoje com 22 anos. A guerra no Afeganistão continua pelo trauma pós retirada de tropas vencedoras. Em paralelo, a guerra no Iraque estourou. E o mantenedor dessas duas guerras ganhou o Prêmio Nobel da Paz.

– “Por quê?” (1)

(*) Nome que prefiro deixar in off por conta da rigidez que há entre empresa e liberdade da palavra em outros ambientes.

[1] Questionamento que o geógrafo Wagner Costa Ribeiro (USP) coloca quando perguntado pelos alunos. No caso específico sobre EUA e Iraque, o geógrafo termina seu texto optando por reconhecer que o objetivo desta guerra é mostrar a capacidade militar dos EUA. No entanto, há nesse texto vencedores inesperados In: AGB Nacional, 7/4/2003: Entre a barbárie e a civilização.

[2] Bienal pioneira: pela primeira vez eletiva e eleita uma mulher; A 27 Bienal extrapolou o usual espaço projetado por Oscar Niemayer, deslocando algumas obras para espaços públicos (ruas, praças), facilitando o acesso para pessoas que jamais puderam comparecer em uma Bienal de artes, independente de ser gratuita, pois há vácuos históricos sobre cultura, educação.

Referências/Periódicos:

Folha de S. Paulo, 15 mar. 2003. Em dias decisivos para a solução do conflito entre Iraque e Estados Unidos, crianças que vivem e viveram em áreas de combate questionam a guerra e pedem paz. Folhinha, F1-6.

Folha de S. Paulo, 30 mar. 2003. Crianças no fogo cruzado: conflito do Iraque invade o mundo de meninos de até 4 anos e provoca dúvida, angústia e o temor de ver uma bomba cair no quarto. Cad. Mundo, A23.

Folha de S. Paulo, 20 jan. 2003. Arte do diálogo: exposição pela paz reúne palestinos e israelenses. Cad. Ilustrada, E8.

Folha de S. Paulo, 16 fev. 2003. Milhões vão às ruas contra a guerra/ Maior protesto da história pede paz. Cad. Mundo, A-15 a A21.

Folha de S. Paulo, 25 mar. 2003. Batalha por Bagdá. Cad. Especial: Ataque do Império, A13 a A22.

Folha de S. Paulo, 27 mar. 2003. Massacre em Bagdá. Cad. Especial: Ataque do Império, A13 a A24.

Folha de S. Paulo, 31 mar. 2003. Iraque anuncia que tem 4.000 mártires. Cad. Especial: Ataque do Império, A11 a A20.

Folha de S. Paulo, 31 mar. 2003. Homens na mira: jovens em Bagdá contam como é viver em uma cidade sob bombardeio. Folhateen.

Folha de S. Paulo, 25 mai. 2003. ‘Nós, o povo’, somos o verdadeiro inimigo (por Gore Vidal). Cad. Mundo: A24.

Folha de S. Paulo, 14 set. 2003. Arquiteturas da destruição: Em amém de Costa-Gravas mistura ficção e história para culpar, conscientizar e entreter (por Inácio Araújo). Cad. Ilustrada: E12.

Folha de S. Paulo, 4 set. 2004. Seqüestro na Rússia acaba em massacre de mais de 2000. Cad. Mundo, A13-16.

Folha de S. Paulo, 4 set. 2004. Traços da tristeza: Mostra em SP exibe desenhos de crianças prisioneiras durante a Segunda Guerra Mundial. Folhinha, F-3.

Folha de S. Paulo,11 set. 2004. Que mundo é este? Crianças de várias partes do planeta opinam sobre o terror, no terceiro aniversário dos ataques de 11 de setembro. Folhinha, F4-7.

Folha de S. Paulo, 28 ago. 2004. Futebol com as mãos: o pebolim foi inventado durante a Guerra Civil Espanhola para que as crianças feridas se divertissem. Folhinha, F4.

Folha de S. Paulo, 20 jan. 2006. Chega de exotismo no Oriente Médio, diz Gitaï. Cad. Ilustrada: E-8.

Folha de S. Paulo, 16 out. 2006. Ser moderno no século 21 é olhar para o passado: crítico e curador francês Nicolas Bourriaud fala à Folha sobre o conceito de “como viver junto”, tema da Bienal de SP. Cad. Ilustrada, E8.

Folha de S. Paulo, 22 fev. 2008. Sérvios queimam a Embaixada dos EUA: grupo de radicais tentam destruir edifício em resposta ao reconhecimento de Washington à independência de Kosovo. Cad. Mundo: A12.

O Estado de S. Paulo, 19 mar. 2008. Preciosidades que chegam do Chile: Mostra reúne parte do acervo do Museu da Solidariedade Salvador Allende, formado por doações de artistas do mundo todo. Cad. 2 – D3.

Folha de S. Paulo, 27 jul. 2008. O Mutante (por Slavoj Zizek). Cad. Mais! p.10.

Folha de S. Paulo, 17 ago. 2008. Por trás da miniguerra no Cáucaso, o xadrez geopolítico (por Immanuel Wallerstein). Cad. Mundo, A22.

Folha de S. Paulo, 24 ago. 2008.Um mundo desregrado: conflito entre Rússia e Geórgia marca a ascensão de relações multipolares perigosas, em que as potências testam umas as outras (por Slavoj zizek). Cad. Mais! p. 12.

Folha de S. Paulo, 17 set. 2008. Fundação Bienal diz apoiar curador. Cad. Ilustrada, E5.

Folha de S. Paulo, 27 set. 2008. Artista descobre relações de sua obra com favela. Cad. Ilustrada, E3.

Folha de S. Paulo, 28 set. 2008. Quase sem memória (por Peter Burke). Cad. Mais! p. 3.

Revista BRAVO! A arte à sombra do mal: Leni Riefenstahl. São Paulo: Editora Abril, 2001. Ano 4, n. 44, p. 26-37. (maio)

Revista BRAVO! GOYA. São Paulo: Editora Abril, 2007. Ano 10, n. 116, p. 26-37 (abril

Exposições:

“Arte e Sociedade: uma relação polêmica. São Paulo: Instituto Itaú Cultural, abr. a jun. 2003.

“Israel e Palestina: dois estados para dois povos”. São Paulo: SESC Pompéia – galpão, jul. e ago. 2003.

“Napoleão”. São Paulo: Museu de Arte Brasileira e Salão Cultural (MAB): Fundação Armando Alvares Penteado, ago. a nov. 2003.

“O desenho das crianças de Terezin”. São Paulo: Centro de Cultura Judaica, ago. a out. 2004.

“Sala Escura da Tortura”. Coletivo sobre as torturas na América Latina. Museu do Ceará, Fortaleza, 2005. Curadoria Edna Prometeu. Exposto a primeira vez no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1973, com o nome “Sala Negra da Tortura”, seguindo para exposições na Itália, Suíça, Alemanha e Brasil. Veja neste Blog https://tecituras.wordpress.com/2010/09/19/historia-e-memoria-sob-tortura-%E2%80%9Csala-escura-da-tortura%E2%80%9D/

“Estéticas, sonhos e utopias dos artistas do mundo pela liberdade”. Parte do acervo do Museu da Solidariedade Salvador Allende”. São Paulo: Galeria de Arte do SESI (FIESP), mar. a jun. 2007. Curadoria de Emanuel Araújo. V. Tb. Neste blog: Manifesto de Gontran Guanaes Netto em virtude da participação de seu quadro ´La Prière’ https://tecituras.wordpress.com/2010/08/17/serie-retecituras-v-gontran-guanaes-netto-e-o-seu-manifesto-pelo-chile/

“Marina Abramovic: Transitory object for human use”. São Paulo: Galeria Brito Cimino, jun. e jul. 2008. (Sobre Marina Abramovic: Considerada a melhor performer em atividade, ela nasceu em Belgrado (Sérvia), ex-Iugoslávia, em 1946. Seu trabalho “explora a relação entre artista e público, os limites do corpo, as possibilidades da mente” – questões latentes da política internacional.)

“José de Quadros: Jogos de armar”. São Paulo: Museu Lasar Segall, ago. a nov. 2008. V.: https://tecituras.wordpress.com/2010/03/06/jose-de-quadros/

V. Tb. http://bit.ly/9xGzmU, por Luiz Felipe Alencastro.

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3 Respostas to “Série Retecituras IV: Guerras (Parte I)”

  1. Sbaile 17 de março de 2010 às 3:09 #

    Exatamente. Por quê? Por ele não ser o Bush? Ridículo! Se posso dar uma de correspondente internacional, os liberais americanos (John Stuart, Bill Maher, Steve Colbert, etc) estão acusando o Obama de não ter “bolas”. De não ser homem o bastante pra mudar as políticas de “muito importante para ir a falência” e de investimentos militares. Os Estados Unidos são o país que mais gastam em militares no mundo, enquanto não existe sistema de saúde pública aqui.

    Se terroristas matam muitos, a negligência médica daqui mata muito mais. Tá tudo errado com esse país. Tudo! (só os correios funcionam direitinho).

    • Gisèle Miranda 17 de março de 2010 às 9:45 #

      Sim, dê ” uma de correspondente”!

      Tomemos somente a distinta e indiscutível questão PARA O MUNDO: Ele, Obama é um importante representante da cultura negra. Há uma dívida por séculos de escravização, desumanidade.
      O Brasil foi o último país a abolir a escravidão – em 1888. Os EUA, Brasil… são miscigenados, então, falamos de nossa cultura.

      O continente africano terá a oportunidade através do futebol, que outrora recebeu o estígma de der sido o ópio do povo durante a ditadura militar no Brasil (20 longos anos) – agora poderá se redimir ou reivindicar sua veemente ação social e histórica. O Continente africano ´humano´está sendo carcomido pela miséria, doenças e guerrilhas.

      Dado esse aporte, e as suas considerações sobre a falta de sistema de saúde nos EUA, o que é sabido o quanto é necessário e, não há, entre outros problemas existentes, É VERGONHOSO QUE ELE, OBAMA TENHA GANHO O PRÊMIO NOBEL DA PAZ com sete meses empossado (não é nem o tempo maduro de um parto). AINDA É CEDO PARA avaliarmos sua gestão, mas é fato que ele mantém as guerras e que muita coisa por aí precisa ser mudada.

      Um abraço, Carol ! Seja você uma correspondente!

      Gisèle

      • Gisèle Miranda 18 de março de 2010 às 10:29 #

        Complementaria: V. Tb. http://bit.ly/9xGzmU, por Luiz Felipe Alencastro.

        E para fazer o link EUA + escravidão com a parte II da Série Guerras chamo a participação de Edward Said : Nas décadas de 1950-60 “ Não havia estudantes negros quando estudei em Princeton e Harvard, nenhum professor negro, nenhum sinal de que toda a economia de metade do país havia sido sustentada por quase duzentos anos pela escravidão, nem que cinqüenta ou sessenta milhões de pessoas foram trazidas para os EUA como escravos. … muito menos se fala sobre o extermínio indígena. (SAID, 2003, pg. 81)

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