Série Retecituras IV: Guerras (parte III)

31 mar

por Gisèle Miranda


Embora eu tenha a licença de trabalhar o contemporâneo via historiadores – e de maneira intrínseca o faço – também recorro às vertentes artísticas: experiências necessárias à reflexão e à escrita[1].

Dessa forma, o conceito anticlássico de Giulio Carlo ARGAN se adéqua as questões tratadas na Série ReteciturasGuerras: “o antigo como pluralidade de dados particulares que podem e devem ser revitalizados numa prática contemporânea que os recrie, acrescentando-lhe o sentido de distanciamento histórico”.

Esse sentido de distanciamento histórico cumpre um papel de subjetividades próprias. Do decorrer da Guerra Fria (1945-1991) as duas potências – EUA e a ex. URSS, atual Rússia, estiveram envoltas às guerras por questões étnicas, religiosas, cobiça de oleodutos, poderio de armamentos. Frente a isso, em 29 de março de 2010, duas mulheres bombas – ditas terroristas – acionaram suas bombas caseiras acopladas aos corpos nas estações do metrô em Moscou. E, quem não se lembra da morte de 184 crianças e 344 civis em uma escola na cidade de Beslan  (Ossétia do Norte), em 2004?

Marina Abramovic, The Family III, série LAOS, 2008

Os denominados terroristas da Tchetchênia, ou, os separatistas vêm em regulares lutas -de 1994 a 2003 – 150 mil mortes. E quem são os culpados? Em 1999, o premiê Vladimir Putin decretou uma ofensiva militar para controlar os estados que queriam independência. E o que há nesses estados? – além de oleodutos?

A Rússia havia garantido a autonomia da Geórgia (desde 1994), mas em 2008, o presidente georgiano – Mikhail Saakashvili[2]– guerreou com a Rússia, logo após o reconhecimento da independência da Ossétia do Sul –, pelos russos e em território georgiano.

A Geórgia deflagrou uma invasão aos ossetianos do Sul e Abkházia, culminando nessa ofensiva dos russos em território georgiano, em pleno Jogos Olímpicos de Pequim, na China em 2008, transmitidos concomitantemente: – quem não lembra?

Entre ex URSS, hoje Rússia, e ex Iuguslávia, hoje Sérvia  (de 2003 a  2006, Sérvia  e Montenegro) – há muito em comum, além da região do Cáucaso, entre tchetchenos, georgianos e ossetianos do Sul. As independências/nacionalizações de estados procriaram uma limpeza étnica.

No início da década de 1990, entre sérvios e croatas foram mais de 20 mil mortos. No final da década, Kosovo (minoria sérvia e maioria albanesa) aumentou esse número estimativo, quando em 2008 se declarou independente da Sérvia.

Vale relembrar, entre outros, o filme de Jazmin Dizdar (Bósnio que naturalizou-se britânico): Beautiful People, de 1999. No filme são focadas 4 famílias na Grã Bretanha e suas relações com refugiados de guerra da Bósnia, ou seja, sérvios e croatas, outrora vizinhos e amigos e no exílio, inimigos étnicos sob olhares dos ´civilizados´ britânicos que os acolheram – nasceu então, Caos, o filho do estupro – crime como armas de guerras[3].

Em 2000, Slobodan MILOSEVIC, ex presidente sérvio foi preso por crimes de guerra – limpeza étnica, proclamador do lema: ´você pode´. Ele morreu em 2006, sem nenhum sinal de arrependimento. Em 2008, Radovan Karadzic ou Dragan Dabic, outro líder sérvio, assassino em potencial foi encontrado na ativa da limpeza étnica. Estava seguro do funcionamento da limpeza: “Converta-se à minha nova fé, multidão/ Eu lhe ofereço o que nunca ninguém teve antes/Lhe ofereço inclemência e vinho…Povo, em minha fé nada é proibido/ Há amor e há bebida… E essa divindade não proíbe nada” KARADZIC.

A outra potência fruto da Guerra Fria, os EUA, vêm seguidamente sendo bombardeados pelos ditos terroristas, embora não tenha se dissipado territorialmente, mesmo porque ainda se faz reconhecer pela capacidade militar (vide as atuais guerras com o Afeganistão e com o Iraque).

Mas há vencedores inesperados, ainda diminutos, deslocados aqui e ali, via ´participação de populações por todo o mundo através de passeatas pela PAZ´. É pouco? É inesperado. Mas receio, tal como os historiadores  Eric Hobsbawm e Luiz Felipe Alencastro, entre outros, que as prerrogativas são aterrorizantes, visto que há uma elevação da direita política em alguns países, donde se imprime pouca ou irrisória participação no voto popular, e onde a participação popular tem se reduzido as lutas particulares, apesar da globalização. Oxalá o inesperado venha com sua potência surpreender-nos, mais que o CAOS e os filhos que não retornaram – ou seja, marcas de gerações da guerra e pós guerra.

(*) Referências: V. bibliografia completa da Série Retecituras IV, parte I https://tecituras.wordpress.com/2010/03/15/serie-retecituras-iv-guerras-parte-i/ ).

(**) Marina Abramovic é Sérvia radicada nos EUA.


[1]Variações conceituais moderno/pós moderno/ contemporâneo por autores ligados as artes. Exemplos: Giulio Carlo ARGAN Revitalização/recriação. Aracy AMARAL “modernidade é a crítica!”; Philadelpho MENEZES: moderno – presente transitório ou metamodernidade (auto crítica), pós moderno – eixo da tecnologia; Clement GREENBERG: modernidade – não há rompimento é transição; Arthur DANTO: 1400 (início)/ 1980 (fim) – moderno de 1880 até 1960, era dos manifestos; Hans ULRICH: moderno – nascimento da idéia de subjetividade, o novo mundo; Alberto TASSINARI: moderno – depuração (1955 ou 1960), contemporâneo é igual a pós moderno (uso acadêmico); Rodrigo NAVES: pós moderno é o olhar sobre a cidade.

[2] Mikhail Saakashvili – neo liberal e pró-norte americano, que companheiramente enviou ao Iraque 2.000 soldados para ajudar quem lhe apoiava como estado independente.

[3] V. Série Retecituras II: marcas – mãe e armas de guerras https://tecituras.wordpress.com/2010/03/08/marcas-mae-mulher-prostituta-e-armas-de-guerra/. V. Tb. sugestão fílmica Genghis Khan – filho, marido, pai via armas de guerras (estupros).

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