Série Emmanuel Nery II: espaços de percepções

26 abr

Por Gisèle Miranda


Em 1967, Emmanuel Nery, então com 36 anos pintou Bar Alpino – outrora lugar de memória e história. Lá, quando criança a lembrança dos encontros com a sua mãe, a poetisa Adalgisa Nery provavelmente nos fins de semana quando saía do internato Frei Fabiano.

A tela Bar Alpino foi uma exceção, pois de 1967 até 1973, quase não pintou. Vivia para as atividades de relações públicas e jornalista na área de economia.

Mas, se … toda a obra de arte é filha de seu tempo e, muitas vezes, mãe dos nossos sentimentos (Kandinsky, 1990, p. 27), algo do silêncio entrecortado deve ter motivado a exceção, afinal, era o auge da ditadura militar no Brasil, final do governo do Gal. Castello Branco (1964-67) e o começo do governo do Mal. Costa e Silva. (1967-69)

Talvez houvesse por parte do menino Emmanuel, a sensação de pouco espaço para expressão; pouco tempo para estar com sua mãe; sentia-se desterrado. Essa lembrança veio justamente em um período em que se sentiu enfraquecido para produzir, para criar na pintura.

A representação do Bar Alpino como lugar de memória – na cidade do Rio de Janeiro – tem o privilégio de ser o lugar onde o usuário inscreve história… e preserva a memória do seu repertório coletivo. (Lynch, 1988, p. 122) É um vulcão de memórias e significações, espaço de percepções que exprimem seus modos de vida, diferenças sociais, embates políticos, olhares de uma sociedade complexa. Consciente no embate de realidade; inconsciente onde a memória ecoa angústias, medos, desejos, sonhos.

A mãe que observa o filho comer. Um jogo de espelhos, um labirinto ou um túnel do tempo? A memória do menino despontando no homem de 1967.

 

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003), Bar Alpino , óleo s/ tela 55 x 48 cm, 1967.

O verde que decorre da mistura do amarelo (excêntrico) com o azul (concêntrico) – da cor quente para a fria remete o distanciamento, mas com um quê de satisfação: olho e alma repousam nessa mistura como se fosse algo simples. (Goethe, 1993, p. 135)

O Princípio da Necessidade Interior – fundamento teórico de Kandinsky ressalta a base na produção de uma obra, a personalidade do autor, a época que desponta na busca da própria linguagem, da fala política, corroborando à técnica apurada de Emmanuel Nery – o triângulo e o amarelo (teoricamente o triângulo é sempre amarelo).

E para exemplificar, recorro a geometria do antigo Egito pela doutrina religiosa dos princípios da Trindade (Osíris, Ísis e Horus), associados diretamente à luz solar ou Deus Sol ´Rá´. (Carvalho, s/d, p. 229) Ou seja, o estudo de cores e formas associado às reminiscências – do racional ao emocional.

Mesmo que  haja a distância ou a incompreensão comunicativa aparente na obra – entre mãe e filho – o ambiente é um refúgio, um abrigo de segredos, de silêncio.

“…Tempo real –

De mãe e filho.

Em tempo –

Sem qualquer tempo –

Durante algum tempo irrisório,

Encontro.”[1]


[1] Parte da poesia Tempos de Emmanuel Nery, s/d.

 

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