SE VIRA, IRLANDÊS!

7 jun

Por Sta. Sbaile


Já faz um tempo que o Pete, irmão do Scott (vizinho que está morrendo de câncer), me pediu para guardar duas pizzas de supermercado e um pote de sorvete no meu freezer, já que o freezer deles é muito pequeno.

Sem problemas.

Mike Crary, Scott, 2010

Acontece que o Scott está fazendo quimioterapia e quase nunca fica em casa, então meses se passaram, até que eu não agüentei: acordei às três da manhã e caminhei até a geladeira, assim, como um zumbi do George Romero: eu ataquei aquele pote de sorvete. Foi mágico. Voltei pra cama às 3:15 e dormi feliz.

É claro que, no dia seguinte, eu vejo o carro do Pete ao lado da minha casa, e recebo uma mensagem de texto: “Posso ir buscar as coisas congeladas na sua casa hoje?”.

Mas que maldito! Tinha que ser logo após o crime? Que mundo injusto!

O Mike chega em casa:

– O Pete tá lá fora perguntando sobre um sorvete…

– Fala que eu morri!

– Quê?

– Meu, eu comi aquele sorvete, Mike!

– Você comeu o sorvete de um homem que está morrendo de câncer?

– Comi… Ah, meu… Ah, Mike… Ah…

– E agora? Fala pra ele que você comeu, e vai até o supermercado buscar outro.

– Não, não quero admitir que comi o sorvete de um cara que tá morrendo de câncer.

– O que eu falo pra ele agora?

– Fala que, fala que eu tô dormindo e a geladeira tá trancada.

– Trancada? Quem tranca uma geladeira?

– Não, péra aê, Mike… Fala que… Calma, eu vou sair pela porta dos fundos e correr até o supermercado.

– Se vira, brasileira!

Corri.

Chego no supermercado, pego um pote de sorvete. Não resisto e vou até a parte de maquiagens.

“Olha, uma sombra roxa que vem com um tonalizador prateado, que interessante… Nossaaaa! O batom da Penélope Cruz, cor vermelho puta, que dura doze horas… Ah, eu preciso desse curvador de cílios…” – eu penso comigo mesma, diante do fabuloso mundo de maquiagens americanas.

PRRRRRIIIIING! – onomatopéia para o barulho de mensagens de texto do celular.

“Cadê a porra do sorvete? Você não tá na parte das maquiagens de novo, né?”

Ai, o Mike sempre corta os meus baratos.

Chego na fila do caixa: um pote de sorvete, cinco sombras, uma base, um curvador de cílios, dois lápis de olho, um blush e o batom vermelho puta da Penélope Cruz (ele dura 12 horas!).

Tem um cara na minha frente.

– Seu cartão não foi identificado pela máquina, senhor. Tenta de novo. – a caixa fala pra ele.

– Eu não vou tentar essa bosta de novo! Você que digite o número do cartão, eu já passei ele na máquina! – o cara responde, todo putinho.

– Tenta só mais uma vez, Senhor…

– É sempre a mesma merda. Parece que você não fala a mesma língua que eu. Eu tô cansado disso!

– Senhor, eu só perguntei, porque a máquina…

– Ah é, é sempre culpa da máquina…

– PASSA LOGO ESSA PORRA DE CARTÃO, SEU FILHO DA PUTA! – Eu grito, no desespero.

O supermercado pára. Todo mundo olha pra mim.

– Como é que é, mocinha? – o cara da fila me pergunta.

– Caralho, bicho… Passa logo esse cartão idiota! Eu tenho que chegar logo em casa.

– Isso não é problema meu.

– É SIM, PORQUE É VOCÊ QUE TÁ ME ATRASANDO! Tudo porque você não quer passar o maldito cartão de novo. Tipo, você poderia ser uma pessoa normal, mas não, você decidiu ser um filho da puta. Agora eu tenho que gritar com você, é meu dever como cidadã! Você me obrigou a isso.

– Eu não vou passar o cartão de novo. É meu direito. Ela vai ter que digitar os números se quiser. E você tá com pressa? Saísse mais cedo de casa.

– Não é questão de pressa, eu roubei o sorvete de um paciente em fase terminal, agora tenho que repor. Ele tá esperando. Ele é um homem com câncer! Você, meu caro, está deixando um homem com câncer na espera.

– E você roubou o sorvete dele?

Silêncio.

– Ah meu, vocês também… é só um sorvete, vai!

Chego em casa, finalmente. Bato na porta dos fundos.

– Abre essa porra, Mike!

Ele abre.

Alguém bate na porta da frente.

É o Pete.

– Pete, aqui, seu sorvete! – eu falo.

– Valeu, Sbaile.

– De nada.

– E a pizza?

– Mike, vai lá no freezer e pega as pizzas do Pete.

– As pizzas que estavam no freezer? – o Mike pergunta.

– Foi o que eu acabei de falar.

– Aquelas pizzas eram do Pete?

– Mike… Ai, Mike…

– Então… Elas foram comidas na semana passada. Eu pensei que elas fossem nossas…

– Mike, seu lunático sem coração! Não acredito que você roubou a comida de um paciente terminal de câncer! Pete, me desculpa, ele é bebum, não sabe o que faz…

– Mas você comeu o sorvete dele, e você sabia que era dele! – o Mike retruca da maneira mais filha da puta possível.

– Eu? Sorvete? O sorvete tá aqui. Você alucina, Mike… Agora vai lá no supermercado comprar as pizzas que você comeu… Seu irlandês desalmado! Você vai queimar no inferno, Mike… Escuta o que eu tô falando…

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