CULTURA QUASE INÚTIL PARA PESSOAS QUASE DE PLÁSTICO

10 jul

Por Sta. Sbaile


Hoje o Sam passou pela minha casa porque estava entediado.

–       Sbaile, cadê o Mike?

–       Trabalhando. Chega daqui a pouco. Por quê?

–       Ah, nada. Tô entediado.

–       Entra aí, França e México estão jogando. Quer New Castle?

–       New Castle soa bem.

A Stella vem correndo do jardim para cumprimentar o Sam. Ela descobriu uma poça d’água agora, entra em casa toda molhada, coberta em grama, terra e carrapichos, numa versão miniatura do monstro do lago Ness.

–       Stella, você não tem a mínima classe. – eu comento.

–       Bom, ela é um terrier escocês, afinal de contas.

–       E o que isso tem a ver?

–       Escoceses não têm classe. (o Sam comenta; ele é escocês)

–       Ah, irlandeses também não. Você imagina, Sam, o Mike queria comprar um wolfhound irlandês!

–       Aqueles cachorros são gigantes. Além do mais, como diriam os ingleses: escoceses são ingleses grosseiros, mas irlandeses são escoceses que não foram à escola.

–       Malditos ingleses, tomara que eles tomem uma surra na copa.

–       Ah, eles vão tomar.

–       Aliás, eu tô com uma música escocesa na cabeça, “MacPherson’s Lament”, conhece?

–       Não, não conheço…

–       Mas que porra de escocês é você?

–       Eu conheço Belle and Sebastian, Franz Ferdinand

–       Ai, moderninho. “MacPherson’s Lament” foi composta no século 18, por James MacPherson; ele compôs na prisão.

–       Quem foi ele?

–       Sério que você não sabe?

–       Eu cresci em Chicago, Sbaile.

–       E eu cresci no Brasil. Você é o escocês mais fajuto que eu já conheci, Sam.

–       Aye!  (ele solta)

“Aye” é a palavra escocesa para “sim”. Não é só escocesa, no desenho do Bob Esponja, o narrador fala “Aye! Aye! Capitain!”, que significa “Sim! Sim! Capitão”: é inglês arcaico. É como a palavra “old”, que alguns escoceses ainda escrevem “auld”; entre outras centenas de palavras do inglês arcaico que, hoje em dia, só escoceses ainda entendem.

–       Vou colocar a música para você ouvir, Sam.

Coloquei.

O Sam fez uma cara de saco cheio.

–       Que foi? Não gostou?

–       Ah, esses folks aí, Sbaile… Não curto.

–       Mas olha só, Sam: James MacPherson era um highlander, mas a  mãe dele era cigana. Ele era meio Robin Hood: roubava dos ricos para dar aos pobres. Só que um dia, ele foi pego. O governo escocês colocou o MacPherson na prisão, depois decidiram que ele seria enforcado. Quando os ciganos souberam que James MacPherson estava pra morrer, eles organizaram um protesto de liberdade…

… Mas é aí que vem a parte legal, Sam: os policiais escoceses foram avisados que os ciganos estavam se aproximando, e colocaram os relógios da prisão para vinte minutos mais tarde, quando os ciganos chegaram, ele já tinha sido enforcado.

–       Que trágico, né Sbaile?

–       Tem mais, Sam! Antes do MacPherson morrer em praça pública, ele pegou o violino dele e tocou essa música, a qual ele intitulou “O Lamento do MacPherson”. Ele falou: “Para o homem que conseguir tocar essa música, eu vou deixar meu violino”. Um monte de gente tentou, porque todo mundo queria aquele violino caro, mas ninguém conseguiu acertar as notas de ouvido. Aí o James quebrou o violino em duas partes e falou, assim num ato dramático: “Então nenhum de vocês é digno deste violino”.

–       Entendi…

–       Você gosta da música agora?

–       Não, ainda não.

–       Eu contei toda essa história para você, e ainda não acha a música legal?

–       Sabe o que é? É que folk não é exatamente um tipo de música sofisticada. Você ouve isso, aí ouve o que os alemães faziam no mesmo período, porra, música clássica era muito melhor. Mozart, que é mais antigo, já fazia coisas fantásticas.

–       Sam, Mozart era austríaco pra começo de conversa. E o período clássico, tecnicamente, começa no século 18, mas Mozart só aparece no século 19. Você nem sabe o que tá falando.

–       Ah, mas sei lá, Bach.

–       Bach nem é clássico, Sam. Mas ele sim era alemão.

–       Quando eu falo clássico, eu quero dizer música clássica, não período clássico.

–       Não existe isso, Sam. Clássico é clássico, barroco é barroco, e romântico é romântico. Vocês pseudo-intelectuais adoram falar que gostam de música clássica, arte moderna… Balela! Moderno é moderno, contemporâneo é…

–       Putz! Chega! Que saco você é! Toda pentelha sobre coisas que não importam.

–       Aye! Eu sou mesmo. Vocês gringos vêem o mundo todo errado: acham que socialismo é comunismo, que comunismo é ditadura e que o Hugo Chávez é ditador.

–      E o que isso tem a ver com música? Eu desisto… Sbaile, eu não vou gostar de folk.

–       O pobre MacPherson morreu para que você escute a música dele e você diz isso, Sam? Você não tem coração, menino?

–       O que eu posso fazer? Só porque ele foi enforcado, não significa que a música dele seja boa.

O Mike chega em casa.

–       Mike, você conhece “MacPherson’s Lament”? (eu pergunto)

–       É mais um dos seus folks? – ele pergunta.

–       É.

–       Não gosto.

–       Mas você nem escutou esse ainda!

–       Não escutei e não gostei. Oi Sam!

–       Oi Mike! Vai se preparando, ela vai te contar uma história real comovente sobre a morte do MacPherson.

–       Ah,  ela sempre tem alguma cultura inútil para dividir com meros mortais insensíveis como nós, que não damos a mínima para isso. Mas, dessa vez, Sbaile, espera a gente assistir a França contra o México.

–       Afe! Eu não ligo…  Além do mais, os países de vocês nem estão na Copa. Quintais da Inglaterra, vocês dois!

–       Agora ela tá jogando pesado, Mike.

–       É, agora ela tá.

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