Série Releituras & Breves Comentários VII: vestígios (e vertigens) à beira de uma falésia – Roger Chartier

19 jul

por Gisèle Miranda

 

Roger Chartier é um velho amigo do Brasil.1]. Ele é a quarta geração d´ École des Annales, da história econômica e social dos anos de 1930 à antropologia histórica dos anos de 1970. Diz-se: École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, em verdade, École des Annales. É sempre uma tentação para a Ego-história! E por que não?[2] 

Vestígios  (e suas vertigens) à beira da falésia: vontade de se jogar ou medo de morrer? Sim, é a constatação de crise, e de incertezas. Mas há o incentivo ao retorno dos arquivos. Assim construí parte da obra do culturalista Paschoal Carlos Magno  e arranquei o silêncio dos amontoados[3]. As notas tornaram-se textos da diferença, da singularidade do discurso histórico ou a projeção no passado de desejos do tempo presente (Hobsbawm, In: À Beira da falésia, p. 15)

Chartier encontrou inspiração nos pensamentos da ruptura e da diferença (hermenêutica e fenomenologia de Paul Ricoeur) e exerce seu ofício sustentando três noções: discurso, prática e representação – através das obras de Michel Foucault, Michel de Certeau e de Louis Marin, além de Ricouer: a tradição historiográfica à qual pertenço – a da história sócio-cultural à maneira dos Annales.( Chartier, 2002, p. 21)

Chartier também dialogou com Hobsbawm no campo de interesse. Chartier pela vertente da polivalente leitura eletrônica, e obviamente da obra como obra e sua relação com o objeto escrito[4]. A obra como obra prevalece: o livro ou a forma livresca.

Hobsbawm relacionou o campo de interesse ao paradigma de esquerda e direita na política. A geração eletrônica e a fragmentação que geram temáticas. E para um bom entendedor cabe manter à vista essa diferença porque não são apenas riscos de hegemonia de línguas, como apontou Chartier. Mas um sutil triunfo na comunicação eletrônica (do inglês).

Sempre há riscos, quando há os meios que sob o poder que os mantêm, antecipam algo que como pensadores, historiadores, não vemos, ou seja: a morte dos livros, da indiferença sobre a direita e a esquerda, a destruição de outras linguas, ou ausência da obra. Umberto Eco interpôs sobre nossas preocupações e sobre a morte anunciada da obra, do livro, da forma livresca e da direita e esquerda.

Na Antiguidade quando surgiram os livros eles eram vistos como um sucedâneo da palavra oral (Borges, El Libro, 1978). Do palco à página Chartier (2002) resgatou a intrínseca relação da escrita e a oralidade através do teatro, da transmissão oral[5] dos textos e a criação literária – obra. A Modernidade e mesmo antes dela, a leitura silenciosa como um sucedâneo do livro. (Chartier, 2001)

Jorge Luis Borges por Eduardo Comeña, s/d: “Cego, Jorge Luis Borges aperta os olhos para melhor escutar as palavras de um leitor que não se vê” (In: Manguel, 1997, p. 17)

E hoje? Caos textual? Digamos, confusão: ´à beira da falésia – a história entre certezas e inquietude.’ E, para todos que se aproximam à beira da falésia, há um amparador: o trabalho de um pensamento que se situou ´no ponto de cruzamento de uma arqueologia das problematizações e de uma genealogia das práticas.´ (Foucault, 1984 p. 19. In: Chartier, 2002, p. 150)

E por fim, `O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?’ – O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, diz ECO:  http://bit.ly/csWpWG


Referências:

BARROS, José D’Assunção. A História Cultura e a Contribuição de Roger Chartier. Diálogos, UEM, v. 9. n°1, 2005

CHARTIER, Roger. À beira da falésia:a história entre as incertezas e inquietude. Tradução Patríca Chittoni Ramos. Porto Alegre: Editora Universidade/UFRGS, 2002.

CHARTIER, Roger. Do palco à página: publicar teatro e ler romances na época moderna – séculos XVI-XVIII. Tradução Bruno Feitler. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.

CHARTIER, Roger. Cultura Escrita, literatura e história: conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre Anaya, Jésus Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. Tradução Ernani Rosa. Porto Alegre: ARTMED Editora, 2001.

FOUCAULT, Michel. Histoire de la Sexualité t. II, L´Usage des plaisirs, Paris, Gallimard, 1984, p. 19.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) O novo século: entrevista a Antonio Polito. Tradução Claudio Marcondes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

HOBSBAWM, E.; Ranger T. (Org.) The Invention of Tradition. Cambridge, 1983.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997

Programa Roda Viva – TV Cultura: Roger Chartier. Setembro, 2001

VAINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história: micro-história. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

ZUMTHOR, Paul. A Letra e voz: a “literatura” medieval. Tradução Amálio Pinheiro & Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Tradução Jerusa Pires Ferreira; Maria Lúcia Diniz Pochat; Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.


[1]São Paulo: USP, departamento de História e Bienal do Livro, Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil. Maio, 2001.

[2] Sobre Ego-História Série Releituras & Breves Comentários IV – ‘Conversas com historiadores brasileiros’ e ‘Usos & abusos da história oral’

[3] MIRANDA, Gisele Ou MADEIRA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000). Versão para o blog Tecituras (http://bit.ly/b5mkJ1)

[4] Entrevista com o historiador Roger Chartier no programa Roda Viva, da TV Cultura em 3/9/2001.

[5] Sobre transmissão oral:   Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème

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Uma resposta to “Série Releituras & Breves Comentários VII: vestígios (e vertigens) à beira de uma falésia – Roger Chartier”

  1. Tecituras - Gisèle Miranda 16 de janeiro de 2017 às 18:40 #

    Republicou isso em e comentado:

    “Pela via de Simone Weil – através da infelicidade da condição operária –, a filósofa colocou-se em laboratório no vivenciar de uma operária…”

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