Série Paschoal Carlos Magno V: diário de Atenas, diário de Milão e diário de Liverpool

5 ago

Por Gisèle Miranda


O percurso da diplomacia de Paschoal nos anos de 1933 a 1968 primou pela formação cultural e intelectual, muito embora em 1950, ano de sua chegada a Atenas, ele escreveu:

Fui permanecendo no estrangeiro e continuo até hoje no Itamarati por covardia. Imensa Covardia. (Atenas, 9 de maio de 1950)

Críticas ao Itamarati que possibilitou a criação de um mecenas assalariado que manteve a mãe, os irmãos, os sobrinhos, o Teatro Brasileiro e a culturalidade que proclamava? Mecenas assalariado?!

Paschoal Carlos Magno em Liverpool, 1940, arquivo Brício de Abreu – SNT, foto Zevallos

Paschoal era crítico ao tráfico de influências, exibicionismos de poder, em proporção desigual aos poucos diplomatas da grande pátria sem fronteiras, sem diferenças de idiomas ou raças: aquêles que são escritores, poetas, compositores, ensaístas, músicos, pintores… (Atenas, 18 de maio de 1950)

Ele dizia:

solidão… inscrita no lema de cada escritor, jovem, velho… como um meio de preservar os criadores contra o canibalismo das chamadas relações sociais. (Atenas, 19 de maio de 1950)

Mas não era a solidão necessária do bom leitor, e sim, a solidão involuntária, a do repúdio destacado por Paulo Francis[1] como punição do Itamarati por sua aposentadoria antecipada:

Paschoal foi punido pelo Itamarati pelo amor que não ousava declarar seu nome (Oscar Wilde, 1876). E que importância tem isso? A Cia e a KGB aceitam.

Veremos ao longo da Série Paschoal Carlos Magno que sua voz coletiva marcou definitivamente a história do teatro brasileiro, mas calou em seu corpo consular, privando ensejos cravados de preconceitos que criaram feridas, que em parte tratou com sua ação poética em combate até o fim de seus dias:

Criticado, injustiçado e até despojado de seus próprios bens, ele, no entanto, conseguiu sobreviver às frustrações da vida de uma maneira um tanto quanto heróica e valente em função dos seus ideais, entre os quais o teatro e a juventude. (MORRE no Rio Paschoal Carlos Magno. s.n., Recife, 25 maio 1980)

No início da década de 1950 até final de 1960, Paschoal começou a escrever Tudo valeu à pena, a partir do diário de Milão, diário de Manchester, diário de Liverpool e diário de Londres – reminiscências desde o inicio dos de 1940. Os protagonistas foram os mortos. Como um paludes ou a terceira pessoa, da obra de André Gide –  Paschoal sobrepôs a morte com a memória.

O manuscrito Tudo Valeu à pena foi passado a limpo por sua irmã Orlanda Carlos Magno, donde se lê sobre a memória do chamado de Jorge Amado a respeito da morte do ´velho Graça´; o momento em que Graciliano Ramos lamentava a morte de seu filho; a morte de Assis Valente, entre tantos, além dos tempos conturbados da Segunda Guerra Mundial.

 

Referências:

MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

MAGNO, Paschoal Carlos. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

MAGNO, Paschoal Carlos. Diário de Atenas. (manuscrito, 1950)

MAGNO, Paschoal Carlos Tudo valeu à pena.(manuscrito, 1940)


[1] Jornalista Franz Paulo Trannin da Matta Heiborn , 1930 (RJ)- 1997 (NY) ou Paulo Francis como ficou conhecido – nome artístico dado por Paschoal Carlos Magno, desde os tempos áureos do Teatro do Estudante, onde Francis encenou algumas peças de teatro. Leitor inveterado, debochado e lembrado por subverter o Teatro do Estudante, e entrar no teatro brasileiro demolindo , como crítico, várias gerações de embusteiros. In: Revista Dionysos, 1978, n. 28, p. 187.

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