Série Paschoal Carlos Magno VI: os votos da juventude

7 ago

Por Gisèle Miranda


Enquanto Paschoal cumpria seu trabalho no Itamarati, acompanhava de onde estivesse o Teatro de Estudantes e seus desdobramentos através de suas irmãs – Orlanda e Rosa.

A idéia de uma vinculação a política partidária surgiu pela imensa vontade de retornar ao Brasil e dar continuidade às suas propostas culturais, instituir alternativas para concretizar projetos e investir em educação. Uma semana antes de Paschoal partir para Atenas, um amigo desabafou:

– pensei nisso quando fui à missa de sétimo dia de sua mãe (Ruminei: que tem a missa da minha mãe com a política) e durante mais de duas horas vi uma fila imensa diante de você dando-lhe pêsames. Ricos e pobres, brancos e pretos. – “Que grande eleitorado.” (Magno, 1969, p. 64)

Paschoal candidatou-se a vereador na cidade do Rio de Janeiro. Com a ajuda de suas irmãs, cinco mil cartas foram encaminhadas. A espontaneidade dos jovens articulou a projeção de Paschoal. Por diversos bairros os atores encenavam peças infantis, e por fim, estendiam as faixas com os dizeres: Se Paschoal não voltar acaba tudo. (Magno, 1969, p. 205)

Frente do panfleto da campanha de Paschoal Carlos Magno para vereador da cidade do Rio de Janeiro, 1950

Em 3 de outubro de 1950, Paschoal foi eleito vereador pela UDN[1], sem nenhuma participação em comícios ou reunião do partido. Empossado em 1 de abril de 1951, permaneceu no cargo até 31 de janeiro de 1955. E, como era esperado assumiu o seu cargo independente da política partidária. Atuou como membro da Comissão dos Problemas dos Favelados Cariocas (1951) e que lhe valeu ser chamado de simpatizante do credo comunista.[2]

Verso do panfleto da campanha de Paschoal Carlos Magno para vereador da cidade do Rio de Janeiro, 1950

Paschoal também lutou pela autonomia do Teatro Municipal, pois na época vinha sendo entregue às festinhas de família, reuniões políticas, banquetes aos donos da pátria. (Assembléia, p. 423; Ata 104, 3 set. 1951, p. 47), além de, em todo momento, proclamar o descaso com orfanatos, centros de tuberculosos, deficiências e artes em geral. A ponto de se levantar contra o seu próprio partido:

Em quatro anos de exercício político nunca me foi possível compreender porque nossos adversários eram classificados pelos meus correligionários, com raras exceções, como cornudos, castrados, ladrões, pederastas. E cometiam na sua maioria os mesmos erros daqueles de apadrinhar causas injustas, arranjar empregos para parentes e conhecidos. (Magno, Tudo valeu à pena, m.s., 28 de março de 1955)

E, mais:

Apresentei toda uma série de projetos ligados à educação, muitos dos quais não encontraram pernas para andar no chão de uma assembléia eminentemente eleitoreira. (Magno, Tudo valeu à pena, m.s., 4 de abril de 1955)

Durante seu mandado de vereador apenas um bom momento a ser registrado. Paschoal ficou surpreso com chamado de Getúlio Vargas, para participar sobre sua ida a Alemanha (Universidade de Erlargen), para ser prestigiado na Festival Internacional de Teatro – com 400 acadêmicos de Teatros Universitários do Mundo. O festival teve a avant première com o texto de Paschoal, Amanhã será diferente, pelo Teatro Universitário de Istambul.

Referências:

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

MAGNO, Paschoal Carlos. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

MAGNO, Paschoal Carlos Tudo valeu à pena.(manuscrito, 1940)


[1] A UDN – União Democrática Nacional foi criada em 1944, entre os seus correligionários estavam o brigadeiro Eduardo Gomes, que participou da sublevação tenentista (Dezoito do Forte de Copacabana, 1922), e o jornalista Carlos Lacerda, ferrenho e controvertido orador, pivô do caso da rua Toneleiros (agosto 1954), quando Getúlio Vargas foi acusado de ser o mandante do atentado, e que logo culminou na crise do populismo e no suicídio do presidente do Brasil.

[2] Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro: levantamento das atividades parlamentares de Paschoal Carlos Magno, 10 de maio de 1951, p. 415-417. E ainda, Paschoal deixou registrado: a delegacia política aproveitará a circunstância para fazer calar a voz dos pequeninos perseguindo-os.

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