Série Reflexões sobre o Anarquismo I: a militância de Fábio Luz

2 set

Por Jozy Lima

 


A livraria Garnier era um reduto de intelectuais que mais se assemelhava a um centro de estudos, além de uma editora de expressão na efervescência cultural do começo do século 20, na cidade do Rio de Janeiro. Lá se publicavam livros de José de Alencar, Machado de Assis, e os desconhecidos também, tal como Fabio Luz (1).

 

Livraria Garnier inaugurada em 1844, à rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, na antiga capital da República (foto s/ ref.)

 

Fábio Luz trouxe a discussão temas como sexualidade, educação libertária, voto nulo, poder, autoridade, entremeados a textos de Proudhon, Bakunin e Malatesta para compor o pensamento libertário numa ação direta dos indivíduos, excluindo e negando a tradicional política institucional e a lógica partidária.

Luz esteve frente ao pensamento anarquista – através de seus registros de imprensa, peças de teatro, de literatura, dos relatos aos militantes, das propostas educacionais (2) e dos eventos culturais do movimento operário (anárquico sindicalista) que germinou no movimento anarquista.

Como historiadora recorri ao Arquivo Edgard Leuenroth (1861-1968), da UNICAMP – criado para abrigar o acervo da militância  anarquista, além de permitir aos pesquisadores recuperar as mais diferentes facetas do anarquismo no Brasil.

É um acervo de livros, revistas, jornais, folhetos, panfletos, fotografias, material recolhido ao longo da trajetória de Leuenroth por nomes como Boris Fausto, J. Dulles, Francisco Foot Hardman, Flavio Luizzetto, Edgar Rodrigues (3), além de fontes, romances, e publicações na imprensa operária entre Rio de Janeiro e São Paulo; são eles: Spartacus, Revolução Social, A Voz do Povo, A Plebe, Inimigos do Rei, Víbora, Libertárias.

 

 

Fábio Luz foi considerado um burguês intelectual que fazia de sua literatura um veículo de militância e propaganda anarquista.  Entre a palavra e na pena , a utopia, a rebeldia sobre o que chamava dos ´males da sociedade: alcoolismo, cocainismo, sifilismo – frutos da desorganização social e do capitalismo açambarcador´.

Através da palavra e da pena, Fábio Luz percorreu o oral e o escrito do comunismo libertário – movimento anarquista europeu de Kropotkin e Elisée Reclus, e pela crença na ciência e na educação como fatores de libertação intelectual, o que invariavelmente, segundo Luz, levaria a formação da mentalidade anárquica.

O lugar dos anarquistas na historiografia brasileira foi, durante muito tempo, o movimento operário e sindical. Este lugar foi demarcado pela historiografia dos anos de 1960-70, voltado para os estudos dos trabalhadores no capitalismo, prioritariamente, pelo viés de seus movimentos organizados. É fato, que o anarco-sindicalismo ou sindicalismo revolucionário – para usar uma expressão da época – teve forte influência no meio operário e sindical das primeiras décadas século 20. Entretanto outras possibilidades ficaram ofuscadas e são necessários estudos que ampliem o foco sobre a questão.

 

 

 

 

[1] Fábio Lopes dos Santos Luz, nasceu em Valença, ao Sul da Bahia em 1864, onde passou infância e adolescência , tendo ido para Rio de Janeiro, em 1888, para exercer as funções de médico e inspetor escolar – posições estas que lhe atribuíram certa imunidade para atuar como militante anarquista, contudo, identificado criminalmente na polícia por delito de opinião, como subversivo em uma das ditaduras quatrienais da República Brasileira.

[2] Para Fábio Luz: nenhum regime social, pode contar, para sua execução, com a grande maioria de analfabetos nem com os analfabetos que sabem ler.  (final do século 19, e início do século 20 – analfabetismo de 80% na sociedade brasileira)

[3] Referências outras: Francisco Foot Hardman, Flavio Luizzetto, Domingos Ribeiro Filho, Avelino Fóscolo, Giuseppina Sterra, Flora Sucsekind, Nicolau Sevcenko, Jeffe Needell, Curvelo de Mendonça.

Sugestão livraria Garnier http://bit.ly/agPAlY

 

 

Referências:

BAKUNIN, M. Escrito contra Marx. Brasília: Novos Tempos, 1989.

DULLES, J. W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil, 1900-1935. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

FAUSTO, B. Trabalho urbano e conflito social. São Paulo: Difel, 1976.

FENELON, D. R. Trabalho, cultura e história social. Revista Projeto História, São Paulo: EDUC, jun. 1984.

GUERIN, D. Anarquismo. Rio de Janeiro: Germinal, 1968.

KHOURY, Y. M. A. A poesia anarquista. In: Revista Brasileira História. São Paulo: Marco Zero, v. 8. 15, set. 1987- fev. 1988.

LEUENROTH, E. Anarquismo: roteiro libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1962.

LIMA, J. T. A palavra e a pena: dimensões da militância anarquista de Fábio Luz (Rio, 1903/1938) São Paulo, PUC, dissertação de mestrado, 1995.

OITICICA, J. Ação direta. Rio de Janeiro: Germinal, s/d.

RAGO, L. M. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

SÜSSEKING, F. As revistas de ano e a invenção do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

primeira edição lançada em 9 de junho de 1917
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4 Respostas to “Série Reflexões sobre o Anarquismo I: a militância de Fábio Luz”

  1. Srta. Sbaile 8 de setembro de 2010 às 16:28 #

    80% de analfabetismo no Brasi no começo do Séx XXl. Uau! Adoro esse blog. Aprendo altas coisas!

    • Gisèle Miranda 9 de setembro de 2010 às 18:01 #

      Cara Sta. Sbaile

      Repassando o acréscimo textual da autora; peço atenção para a questão de que o texto refere-se aos séculos XIX e XX (no texto séc. 19 e 20).
      Gisèle Miranda

      “A partir do século XIX, a percentagem de analfabetismo (considerando como analfabeto o que não sabe ler e escrever; ou seja, no sentido censitário tradicional), começou a cair no Brasil. No entanto, até 1920, o índice de analfabetismo ainda superava 2/3 de sua população, o que equivalia a 64,9% das pessoas acima de quinze anos. Supõe-se que a taxa de analfabetismo entre as pessoas nessa faixa etária era de 77% na época dos censos de 1872 e 1890 (nessas ocasiões os censos não especificaram idade para o levantamento do analfabetismo). Em 1920 calculava-se o analfabetismo em 65%; trinta anos mais tarde, essa taxa caiu para 50% e levou mais trinta anos para baixar para 25%, em 1980 (FERRARO, 2004). http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/reaa/v2n4/v2n4a11.pdf)

      um abraço,

      Josy Lima

    • @alcastanho 9 de setembro de 2010 às 18:12 #

      Pnad: Um em cada cinco brasileiros é analfabeto funcional.
      Por Rafael Targino
      Data: 08/09/2010 – 10h00
      Fonte: UOL Educação -> http://bit.ly/analfabetismofuncional

      Um em cada cinco brasileiros (20,3%) é analfabeto funcional, de acordo com a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2009, divulgada nesta quarta-feira (8) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). É considerada analfabeta funcional a pessoa com 15 ou mais anos de idade e com menos de quatro anos de estudo completo. Em geral, ele lê e escreve frases simples, mas não consegue, por exemplo, interpretar textos.

      Segundo a pesquisa, o problema é maior na região Nordeste, na qual a taxa de analfabetismo funcional chega a 30,8%. Na região Sudeste, onde esse índice é menor, a taxa ainda supera os 15%.

      No entanto, o número vem caindo desde 2004, quando, segundo o IBGE, o país tinha 24,4% de analfabetos funcionais. Em 2008, o total era de 21%. Em comparação com 2009, a taxa caiu 0,7 pontos percentuais.

      Analfabetismo total
      A taxa de analfabetismo no Brasil entre pessoas com 15 anos ou mais caiu 0,3 pontos percentuais entre 2008 e o ano passado, de acordo com a Pnad. O índice saiu de 10% há dois anos para 9,7% em 2009. Segundo o órgão, o isso representa 14,1 milhões de analfabetos –em 2008, eram 14,2 milhões.

      De acordo com o IBGE, a maioria dos analfabetos (92,6%) está concentrada no grupo com mais de 25 anos de idade. No Nordeste, a taxa de analfabetismo entre a população com 50 anos ou mais chega a 40,1%, enquanto que no Sul, esse número é de 12,2%. Os nordestinos têm as maiores taxas em todas as faixas de idade.

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