Série Reflexões sobre o Anarquismo II: a militância de Fábio Luz

5 set

Por Jozy Lima

 


Fábio Luz nasceu e viveu no interior da Bahia (Valença), e cursou medicina em Salvador entre 1883-1888, ou seja, numa sociedade monárquica e escravista. Por conta disso foi ativo abolicionista e republicano:

… constrangido quando observava a miséria, os sofrimentos e humilhações impostos pelos policiais negros aos seus semelhantes. O Estado, o Império, apareciam-me como responsáveis por estes atos de desumanidade. Esse entendimento fez nascer em mim aspiração de uma forma de Governo que fosse mais humano e igualitário.

Supus que a República democrática realizaria esse ideal e me tornei republicano apesar do decreto que pôs fim à escravidão ter sido aprovado pela Monarquia, forçada pela propaganda que o povo fazia. Enganei-me. Comecei então a preocupar-me com a questão econômica e a má distribuição da riqueza social, criada pelo trabalhador, dinamizada pelos exploradores e açambarcada pelos capitalistas. (Fábio Luz. In: Rodrigues, 1988, p. 208)

NERY, Emmanuel, Denominador comum, 1986 acrílico s/ tela 100 x 65 cm.

 

Pela prática médica vivenciou um período epidêmico no Rio de Janeiro que vinha desde final do século 19. Associado a isto, estudou com afinco sobre o comunismo libertário do pensador anarquista Peter Kropotkin (1842-1912) e, inevitavelmente, os vetores do movimento anarquista europeu, tal como Elisée Reclus (1830-1905) e Malatesta (1853-1932).

Porém, foi com Kropotkin que Fabio Luz mais se aproximou; o que resultou em uma antologia crítica literária denominada Dioramas, sobre o espírito libérrimo, um tanto o quanto iconoclasta, rebelde e revolucionário.

Fábio luz como médico retratou a reação da população pobre às campanhas de saneamento, às inspeções nas habitações e, as epidemias que vinham ocorrendo no estado do Rio de Janeiro desde o final do século 19.  Dedicando várias páginas para mostrar a violência, a truculência com que eram tratados os suspeitos de doenças contagiosas, por aqueles que eram encarregados da higiene.

Quando Fábio Luz escreveu o Ideólogo –  criou o personagem Anselmo – um abolicionista, republicano e de origem burguesa.

Anselmo era um advogado que atuava na defesa de miseráveis, por entender que as injustiças sociais – fruto do egoísmo burguês – eram responsáveis pelas atitudes tidas como criminosas – daqueles que foram privados do pão como alimento e do pão espiritual. Como advogado conhecia e rechaçava o sistema penitenciário – acostumado que estava a visitar a Casa de Detenção, dizia: filhos da miséria, vítimas do capitalismo. Anselmo aproximou-se dos operários atuando como tipógrafo e jamais desistiu de divulgar suas idéias anarquistas em seu próprio meio social.

Enquanto construía sua literatura social na livraria Garnier, ponto de discussões sobre a passagem do Império à República, Fábio Luz também esteve envolvido na proposta da Universidade Popular e vivenciava a insalubridade da capital.

Naquela época, o seu olhar de médico era para o foco endêmico da varíola, tuberculose, malária, febre tifóide, lepra, escarlatina e, sobre tudo, a terrível febre amarela. Por outro lado, a modernização da área portuária da cidade do Rio de Janeiro e a construção da Avenida Central tomaram o curso das obras encampadas por Pereira Passos (prefeito na época), cujos desdobramentos implicaram num processo de limpeza do centro da cidade com a expulsão da população pobre.

Fábio Luz – como médico – admitia as medidas sanitárias que eliminassem o quadro de epidemias que vitimou a população da cidade. Entretanto, discordava dos métodos aplicados: a obrigatoriedade, a truculência, a violência e a invasão de privacidade que semeava o pânico. Entendia que as resistências sociais às medidas sanitárias:

era  o povo que se levantava para defender sua liberdade, em titânicas e ferozes convulsões. E quando o povo chega a essa alta compreensão de seus direitos, ponha-lhe os diques que quiserem, que ele como torrente impetuosa fará a enchente atirando os obstáculos por terra. (Fábio Luz, 1924, p. 76-77)

Referências:

ARVON, H. El Anarquismo en el siglo XX. Madrid: Taurus, 1979.

BAKUNIN, M. Escrito contra Marx. Brasília: Novos Tempos, 1989.

BOSI, A. A História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1975.

DAVIS, N. Z. Culturas do Povo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

DULLES, J. W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil, 1900-1935. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

FAUSTO, B. Trabalho urbano e conflito social. São Paulo: Difel, 1976.

FENELON, D. R. Trabalho, cultura e história social. Revista Projeto História, São Paulo: EDUC, jun. 1984.

GUERIN, D. Anarquismo. Rio de Janeiro: Germinal, 1968.

KHOURY, Y. M. A. A poesia anarquista. In: Revista Brasileira História. São Paulo: Marco Zero, v. 8. 15, set. 1987- fev. 1988.

LEUENROTH, E. Anarquismo: roteiro libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1962.

LIMA, J. T. A palavra e a pena: dimensões da militância anarquista de Fábio Luz (Rio, 1903/1938) São Paulo, PUC, dissertação de mestrado, 1995.

LUZ, F. Ideólogo. Rio de Janeiro: Altina, 1903.

LUZ, F. Os Emancipados. Lisboa: Clássica Editora, A. M. Teixreira e Cia., 1906.

LUZ, F. Nunca: o soldado e cântidos da aurora e do crepúsculo. Rio de Janeiro: Leite & Ribeiro, 1924.

LUZ, F. Dioramas. Rio de Janeiro: Ravaro, 1934.

MAGALHÃES, Jr. A Vida Vertiginosa de João do Rio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, INL, 1978

MAGNANI, S. O Movimento Anarquista em São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1982.

OITICICA, J. Ação direta. Rio de Janeiro: Germinal, s/d.

RAGO, L. M. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

RODRIGUES, Edgar. Os Libertários: idéias e experiências anárquicas. Petrópolis: Vozes, 1988.

RODRIGUES, Edgar. O Anarquismo na Escola, no Teatro, na Poesia. Rio Janeiro: Achiamé, 1992.

SÜSSEKING, F. As revistas de ano e a invenção do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

WOODCOCK, G. Os Grandes Escritores Anarquistas. Porto Alegre, LPM, 1986.

* Sobre o artista Emmanuel Nery: http://bit.ly/9WxuXm

Jornais:

LUZ, F. Elysio de Carvalho, ALMANAQUE GARNIER, 1907.

LUZ, F. No Ser Papel, REVOLUÇÃO SOCIAL, 2 jun. 1923.

LUZ, F Pontos nos ii, SPÁRTACUS, Ano I, out, 1919.

LUZ, F. Comunismo Libertário, A PLEBE, out., 1934.

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Uma resposta to “Série Reflexões sobre o Anarquismo II: a militância de Fábio Luz”

  1. Tecituras - Gisèle Miranda 20 de outubro de 2015 às 17:54 #

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