Série Reflexões sobre o Anarquismo III: a militância de Fábio Luz

10 set

Por Jozy Lima


É exatamente contra a miséria, o sofrimento, a fome, os desesperos da maioria dos homens, esmagados por uma minoria sem alma, que insurgem os bons espíritos, os corações bem formados, as almas sensíveis… (Fábio Luz, 12 ago. 1922)

Gontran Guanaes Netto, desenho- escrita, Série Figuras do Real, 1980

Fábio Luz foi muitas vezes criticado por ser um burguês. Jamais negou vir de uma família de relativas posses quando comparado aos miseráveis. Essa questão das origens sociais do militante deve ser compreendida no âmbito  das teorias e idéias sociais do século 19.  Os anarquistas, dizia ele, não fazem votos de pobreza. Não era preciso ser maltrapilho, sem lar e sem pão para ser solidário com a dor humana.

Sim, Luz era um homem de letras, médico e funcionário público. Houve um encontro entre ciência e militância anarquista que foi o mote para sua literatura. Seus personagens refletiam uma realidade social: focos de infecção física e moral, mal estar do povo, mal estar das instituições, mistura de lama e sangue, convulsões de miséria. Sua palavra/oratória buscava os 80% da população, nas portas das fábricas, nas ruas. Sua pena lutava incessantemente pelos 20% de letrados.

Depois de ter escrito o Ideólogo (1903, referenciado no texto anterior), Fábio Luz escreveu Os Emancipados (1906) – dando continuidade as discussões sobre a sociedade e sua miserabilidade, tendo sempre no núcleo de seus personagens principais as diferentes classes sociais. Alípio era um desses personagens.

Alípio tenta convencer o pai a lhe dar parte da herança de família para por em prática seus ideais libertários. Contesta a opinião do pai que o aconselha a despojar-se da riqueza e do conforto e viver como um operário. Mas Alípio contra argumenta:

Como aconselha que me despoje das armas que posso lutar? Preciso do armamento igual ao do adversário. É necessário o livro, é indispensável a imprensa para a propaganda. Sem livro, sem imprensa, sem educação… como tentar a santa cruzada de reivindicação, de justiça e equidade? (Luz, 1906, p. 153-154)

São Emancipados os libertos de preceitos, os que conquistaram a liberdade intelectual. A fórmula aplicada pelos Emancipados era de que cada um conforme as suas capacidades e cada um de acordo com suas necessidades.

Nesse sentido, Luz encarnava em sua prática militante a figura intelectual que colocava seu saber a serviço de um ideal, de uma causa e não apenas de uma classe.

A atividade literária de Fábio Luz trouxe também a marca da arte como função social. Sua criação literária estava aliada à crença de que através das manifestações artísticas é que se conhece o povo. Pela arte se conhece um povo e seu desenvolvimento material.


Referências:

(*) Sobre o artista Gontran Guanaes Netto:  http://bit.ly/bB8LFG

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CARVALHO, E. de. História de um Cérebro. Rio de Janeiro: Tipografia Besnard Freres, 1905.

CARONI, E. Movimento Operário no Brasil (1897-1914). Rio de Janeiro: DIFEL, 1979.

DULLES, J. W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil, 1900-1935. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

FAUSTO, B. Trabalho urbano e conflito social. São Paulo: Difel, 1976.

FENELON, D. R. Trabalho, cultura e história social. Revista Projeto História, São Paulo: EDUC, jun. 1984.

KHOURY, Y. M. A. A poesia anarquista. In: Revista Brasileira História. São Paulo: Marco Zero, v. 8. 15, set. 1987- fev. 1988.

LEUENROTH, E. Anarquismo: roteiro libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1962.

LIMA, J. T. A palavra e a pena: dimensões da militância anarquista de Fábio Luz (Rio, 1903/1938) São Paulo, PUC, dissertação de mestrado, 1995.

LUIZZETTO, F. Letras Rebeldes: escritores brasileiros e o anarquismo no início do período republicano. In: Teoria e Pesquisa, n. 3. Departamento de Ciências Sociais da UFSCar, dez. 1992.

LUZ, F. Ideólogo. Rio de Janeiro: Altina, 1903.

LUZ, F. Os Emancipados. Lisboa: Clássica Editora, A. M. Teixreira e Cia., 1906.

LUZ, F. A Paisagem no Conto, na novela e no romance. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia., 1922.

LUZ, F. Nunca: o soldado e cântidos da aurora e do crepúsculo. Rio de Janeiro: Leite & Ribeiro, 1924.

LUZ. F. Ensaios. Rio de Janeiro: Tipografia São Benedito, 1930.

LUZ, F. Dioramas. Rio de Janeiro: Ravaro, 1934.

OITICICA, J. Ação direta. Rio de Janeiro: Germinal, s/d.

OITICICA, J. A doutrina anarquista ao alcance de todos. São Paulo: Econômica Editorial, 1983.

RODRIGUES, Edgar. Os Libertários: idéias e experiências anárquicas. Petrópolis: Vozes, 1988.

RODRIGUES, Edgar. O Anarquismo na Escola, no Teatro, na Poesia. Rio Janeiro: Achiamé, 1992.

SEVCENKO, N. O Fardo do Homem Culto. In: Revista de Cultura Vozes, n. 9, novembro, 1980.

SÜSSEKING, F. As revistas de ano e a invenção do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

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Uma resposta to “Série Reflexões sobre o Anarquismo III: a militância de Fábio Luz”

  1. Tecituras - Gisèle Miranda 31 de janeiro de 2017 às 16:52 #

    Republicou isso em e comentado:

    Fábio Luz foi muitas vezes criticado por ser um burguês. Jamais negou vir de uma família de relativas posses quando comparado aos miseráveis. Essa questão das origens sociais do militante deve ser compreendida no âmbito das teorias e idéias sociais do século 19. Os anarquistas, dizia ele, não fazem votos de pobreza. Não era preciso ser maltrapilho, sem lar e sem pão para ser solidário com a dor humana.

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