A atualidade de Simone de Beauvoir

25 out

por Beauvoiriana

 

As chamadas conquistas femininas do século 20 – entre elas o direito ao voto, a inserção no mercado de trabalho, o ingresso nas universidades, o direito de realizar abortos seguros pelo sistema público de saúde em alguns lugares – fazem com que algumas pessoas considerem, no século 21, o discurso e a teoria feministas ultrapassados. E, para quem o feminismo parece fora de época, as ideias de Simone de Beauvoir, que impulsionaram as pesquisas sobre gênero, seriam ainda mais antiquadas.

Essa visão de que o feminismo já realizou suas conquistas é simplista. Sabemos que a mulher inserida no mercado de trabalho ganha menos do que um homem no exercício das mesmas funções, além de enfrentar a dupla jornada. Apesar do direito ao voto e de serem a maioria do eleitorado, as mulheres são minoria no parlamento, no executivo e no judiciário. Nas universidades, as mulheres ocupam a maior parte dos bancos reservados aos alunos, mas raramente chegam a cargos administrativos e decisórios dentro ou fora da academia. As mulheres são as principais vítimas da violência doméstica, estão mais sujeitas ao assédio no trabalho, e são desvalorizadas na esfera pública. O feminismo ainda tem muito que avançar!

Se o feminismo não é obsoleto, as ideias de Simone de Beauvoir também não são. Mas o que torna Simone ainda mais atual é o fato de que sua obra transcende o diálogo com o feminismo. E para ler seus livros não é necessário sequer se identificar com as causas e as teorias feministas.

Na verdade, Simone de Beauvoir nunca foi feminista e em seu livro A Força das Coisas, publicado na França em 30 de outubro de 1963 (há exatos 47 anos), ela afirma:

Eu nunca nutri a ilusão de transformar a condição feminina, ela depende do futuro do trabalho no mundo e não mudará seriamente exceto ao preço de uma transformação da produção. É por isso que eu evitei me fechar no que chamam de ‘o feminismo´.

Simone tinha alguns motivos para rejeitar o rótulo de feminista; motivos que a maioria das feministas dos anos 1960 e 1970 não entendiam e, por isso, a criticaram intensamente. E esses motivos fazem com que sua obra seja atual em qualquer momento histórico.

O primeiro motivo: ao escrever sobre a condição da mulher, Simone tinha em mente algumas questões filosóficas profundas. Ela estava, sim, disposta a mostrar ao mundo como, ao longo de milênios, a mulher foi subjugada, explorada e dominada. A mulher, mostra Simone, se converteu no “Outro” do mundo. O inimigo, o fracassado, o fraco, o sujo, o indesejado, o que está aqui para ser explorado, humilhado e descartado.

Ler a obra de Simone de Beauvoir é um encontro com essas reflexões: a mulher continua sendo o “Outro” do mundo? E se continua, em que medida e em que padrões de comportamento, em que regras institucionalizadas, em que tipos de discursos isso se revela? Mas, sobretudo, a leitura de Simone nos leva a pensar: além das mulheres, que outros grupos assumem o lugar de “Outro” na sociedade ocidental? Refazendo o caminho que Simone fez com as mulheres, podemos refletir sobre a condição dos pobres, das etnias subjugadas, dos que não se encaixam nos padrões de “normalidade” construídos socialmente.

Outro motivo pelo qual Simone de Beauvoir não se identificava exclusivamente com o feminismo: sua preocupação filosófica com a liberdade. Simone não queria defender a liberdade de uns contra os outros, – o que muitas correntes do feminismo não compreendiam – e sim, a liberdade de todos. Em “Por uma moral da ambiguidade” ela escreveu que:

(…) o indivíduo é definido apenas por sua relação com o mundo e com outras pessoas, ele só existe por transcender a si. E sua liberdade só pode ser alcançada através da liberdade dos outros.

A frase é contundente. Para Simone, os homens dominam as mulheres, mas não são livres. E as mulheres, se pensam em apenas inverter a relação de dominação, também não são livres. Dominação e liberdade existem em oposição absoluta, ou seja, a liberdade não é o contrário da dominação, mas o fim da dominação. Essa interpretação da liberdade como uma conquista universal é uma das forças intelectuais de toda a obra de Simone e o que a torna mais atual e inesgotável.

Em toda sua obra, Simone de Beauvoir vai investigar a relação dicotômica entre liberdade e dominação em suas diversas formas. E vai mostrar como para todos nós, humanos, o exercício da dominação é sedutor. Acreditamos que dominar é ser livre, que servir é ser escravo. Mas quantos de nós optamos pela servidão voluntária? E quantos de nós, ao dominar, nos tornamos escravos de uma força física que vai acabar, ou de dogmas e crenças que podem ser destruídos com um mínimo esforço de raciocínio?

Quem domina não é livre. Quem é subjugado pode alterar as relações de dominação. Quem domina pode ser escravo do medo de que as condições que lhe dão vantagens se transformem. Quem é dominado pode ter escolhido essa posição.

Ler Simone de Beauvoir nos dias de hoje é um exercício intelectual que nos obriga a olhar a nosso redor e a investigar nossas próprias certezas, as relações de poder de que fazemos parte, nosso discurso. Encarado com honestidade, esse exercício é um desafio àquela parte de todos nós que se deixa seduzir facilmente pelo poder, pela ilusão de superioridade, pelo narcisismo. E não poderia ser diferente: sua obra nos fala o tempo todo de igualdade.

Algumas dessas questões pontuadas aqui e outras que mencionei em Por que ler Simone de Beauvoir?[1] pretendem mostrar porque a leitura de sua obra nos desafia ainda hoje. Aceitar o desafio não implica em se identificar com a causa feminista nem como nenhuma outra. Não implica em ter determinada religião, posição social, pertencer a qualquer etnia. Implica apenas em estar disposto a refletir.

Para quem quer enfrentar o desafio, há dois caminhos. O primeiro é iniciar por suas obras teóricas e, nesse caso, o livro essencial ainda é, mais de 60 anos depois da primeira edição, O Segundo Sexo. O segundo é conhecer um pouco mais sobre sua vida e sobre como e em que condições sociais e culturais ela elaborou seu pensamento. Para essa trajetória, recomendo o terceiro volume de suas memórias, A Força das Coisas, em que ela relata sua fase de maior produção intelectual, a elaboração de O Segundo Sexo e sua viagem ao Brasil.

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Referências:

BEAUVOIR, Simone de. La Force des Choses I, Paris, Gallimard, 1972, p. 267. (tradução minha).

BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambigüidade. Rio de janeiro, Nova Fronteira, 2005. p.125

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8 Respostas to “A atualidade de Simone de Beauvoir”

  1. Srta. Sbaile 1 de novembro de 2010 às 15:18 #

    Ah, sim, sim, sim.

    Sempre fui a favor da escolha na questão do aborto. É um absurdo que no Brasil isso seja criminal. Estou te passando o link para o discurso do Bill Maher. Ele usa muitas referências da atual política americana e dos esportes (que talvez sejam desconhecidas a você. Eu não sabia quem esse tal de “Favre” era).

    Mas, resumindo, um jogador de futebol americano (esse Favre aí) queria sair com uma repórter. Ela falou que era casada e que não queria nada com ele. Aí ele ligava pra ela todos os dias, mandava e-mails, mensagens… até que ele começou a mandar fotos dele pelado pra ela, e ela ligou para a polícia.

    Aí Bill Maher faz a relação entre este episódio e o machismo. O texto em inglês está aqui:

    http://www.charlestoncitypaper.com/TheGoodFight/archives/2010/10/17/bill-maher-gives-advice-to-brett-favre-and-white-men-of-america

    Em português, acho que não existe ainda.

    Beijo!

  2. Srta. Sbaile 31 de outubro de 2010 às 15:59 #

    Esse é um assunto pelo qual eu me interesso muito. Já havia comentado no post anterior.

    Parabéns, Beauvoiriana. Enquanto um terço das mulheres são abusadas e forçadas ao sexo no mundo, é no mínimo ignorância pensar que o tema está ultrapassado. Bill Maher fez um discurso interessante sobre mulheres na política, vou ver se acho para postar aqui depois, é muito bom.

    Admito: o fato de eu nunca ter conseguido fazer xixi em pé me incomoda um pouco, menstruar também é um saco. Mas hey, o exame de próstata e a impotência são coisas deles. Estamos quites já?

    Abraço!

    • Beauvoiriana 1 de novembro de 2010 às 13:56 #

      Oi, Srta. Sbaile. Puxa, se você achar o texto, adorarei ler. Acho que, falando sobre a corporalidade, ainda não estamos quites, eles podem fazer tudo com os deles, nós ainda não temos total domínio dos nossos. Não podemos, por exemplo, fazer um aborto sem sermos criminalizadas em muitos países. Docilizados, lembrando Foucault, nossos corpos ainda não nos pertencem. Mas chegamos lá.

  3. Alex 31 de outubro de 2010 às 14:14 #

    Beauvoiriana,

    A sociedade ocidental está diante de um grande evento.

    Dos 192 milhões de habitantes do Brasil, cerca de 135 milhões de brasileiros devem eleger hoje a primeira presidenta eleita do Brasil, sendo ela a trigésima sexta mandatária da história política desta imensa nação sul-americana.

    Diferente de outros cenários (mercado de trabalho, acadêmico e outros) nas eleições temos Dilma Vana Rousseff, 62 anos, como uma das mulheres mais fortes do mundo ocidental, nos dias de hoje.

    Ainda sobre o Brasil, de acordo com o IBGE, em 2007 a população era formada por 99,6 homens em cada 100 mulheres, sendo que no ano de 2000 a proporção era de 100 mulheres em cada 100 homens.

    Tenho 27 anos e não acredito que algo semelhante possa acontecer no mundo oriental, no meu tempo de vida.

    Simone de Beauvoir, mulheres e homens comemoram esta conquista universal.

    • Beauvoiriana 1 de novembro de 2010 às 14:01 #

      Alex, você tem razão, temos uma mulher presidenta. Isso significa muito. Mas infelizmente, nas relações cotidianas, todas as variáveis que leveram Dilma Rousseff a ser eleita ainda não se reproduzem. Será que todos que elegeram essa mulher estão preparados para contratar uma mulher e pagar a ela o mesmo salário de um homem, por exemplo? Já sobre o mundo oriental, julgando com os olhos ocidentais, também considero que ainda falta muito para algo semelhante acontecer. Mas sei tão pouco sobre essa metade do mundo, ainda preciso aprender 🙂

  4. Tecituras - Gisèle Miranda 26 de outubro de 2010 às 12:41 #

    Cara Beauvoiriana

    Como você bem colocou: ´ler Simone de Beauvoir é um exercício intelectual´ do qual não podemos nos abster, sendo mulheres ou homens, porque não saímos ilesos.
    Exercício este que você fez com primor, e melhor, fez de sua escrita, um instrumento de recuperação de ´nossa´ potência. Não foi fácil para a Simone de Beauvoir e continua não sendo nada fácil para nós.

    Sugiro as reflexões ao precioso texto:
    A questão do aborto http://ht.ly/2ZDlV associada às pesquisas recentes: Curetagem após aborto é a cirurgia mais realizada no SUS, revela estudo http://ht.ly/2ZDwu e a Série Retecituras II: Marcas – mulher, mãe, prostituta e armas de guerra http://ht.ly/2ZDb5

    um abraço

    Gisèle

    • Beauvoiriana 26 de outubro de 2010 às 14:39 #

      Obrigada, Gisèle, por seu comentário. Sim, de fato acho que a maior dificuldade ao ler Simone de Beauvoir é que sua postura nos obriga a sairmos do conforto e enfrentarmos nossa responsabilidade, como o existencialismo concebe o termo, diante de questões como a das marcas impostas a todas as mulheres.

Trackbacks/Pingbacks

  1. 25 anos sem Simone de Beauvoir « Beauvoir au jour le jour - 13 de abril de 2011

    […] escrevi aqui e aqui sobre algumas das questões que tornam sua obra atual. Mas acho que posso acrescentar que Simone […]

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