Crônica: SYNECDOCHE

1 nov

Por Sta. Sbaile

Acordo. É a última calcinha da gaveta. Amanhã eu lavo a roupa, hoje tenho que ler o livro da Staniszewski para História da Arte. Ah, e ligar para o governo para ver se eles liberaram a minha bolsa.

–       Sua bolsa foi negada.

–       Por quê?

–       Você não colocou os 150 dólares de taxa no pedido.

–       Ok. Vou enviar.

Envio.

–       Sua bolsa foi negada.

–       Por quê?

–       Você passou da data.

–       E agora?

–       Tem que enviar tudo de novo.

–       Ok. Vou enviar.

Envio.

–       Sbaile, vou te passar a Carmen Electra para dublar amanhã. – o diretor do estúdio liga.

Legal. Eu vou ser a Carmen Electra!

–       Au! Au!

Putz, esqueci de dar comida para a Stella.

–       Você pode comprar o ingresso para o  show do Social Distortion? – o Mike pergunta.

Social Distortion

 

Ah é. Social Distortion vem tocar aqui. Esqueci. Vou comprar.

Começo a ler o livro da Staniszewski.

–       Au!

Ah é, a Stella tem que comer.

–       Sua bolsa foi negada.

–       PORRA! MAS POR QUE CARALHO ELA FOI NEGADA AGORA?

–       O último documento com as suas notas veio sem o logo da faculdade.

Respiro.

–       Compra o ingresso logo. Pode acabar.

–       Au!

–       Sua bolsa foi negada.

–       Amanhã às 11 para dublar a Electra tá bom pra você?

“Seria a Vênus de Willendorf arte?” – eu penso.

O telefone toca. É a minha irmã:

–       Sbaile, a vó Irene morreu.

–       Ah, obrigada por me avisar. Eu falo com você depois, Amanda.

Acho que já li a teoria da Staniszewski em outro lugar. Acho que é Adorno. Cadê meu livro do Adorno? Putz, minha avó morreu! Teoria da Estética, por Theodor Adorno… Cadê essa merda? Logo da faculdade, Carmen Electra amanhã às 11…

–       Mike, você viu meu livro da Escola de Frankfurt?

–       Você já comprou o ingresso paro o Social Distortion?

–       Minha avó morreu.

–       Au!

–       Ah, Mike, você pode dar comida pra Stella?

–       Achei um livro do Clive Bell.

–       Minha bolsa universitária foi negada.

–       Au!

–       Ah, achei o livro!

“A definição de arte é, por todos os lados, indicada pelo que a arte uma vez foi, mas só é legitimada pelo que a arte se tornou em relação ao que a arte quer, e possivelmente pode, se tornar”. (Theodor Adorno em “Teoria da Estética, 1970)

–       E agora? Que caralho ele quer dizer com isso?

Ah! Ingressos para o show do Social Distortion. Google. Ah, achei o blog de um ex namorado meu que escreveu sobre Social Distortion. Vou comentar:

“Eles vêm para cá o mês que vem. Uhu!” – eu comento.

Comentário rejeitado.

Por quê?

–       “Eu sou casado, e minha mulher não quer que eu e você tenhamos contato”.– o ex me responde.

–       Eu também sou casada, e eu moro em outro país. Sua mulher sabe que é fisicamente impossível para que eu e você tenhamos um caso? Hmmm. Isso é bem triste porque você era um amigo, e eu não tenho muitos amigos. Foi só um comentário no blog.  Não é pessoal. Whatever. Pussy whipped.

Eu já fui ciumenta, mas hoje eu sou adulta. Ok, tomar banho, ligar para faculdade e pedir o logo no documento para a bolsa, fazer a voz da Carmen Electra e…

–       Au!

–       Porra, Mike! Essa cachorra vai morrer de desnutrição.

–       Você comprou o ingresso paro o show?

–       Você acredita que meu ex não me deixa comentar no blog dele? E ah, achei o livro do Adorno. A Vênus de Willendorf é arte, Mike? Puta merda! Esqueci de lavar roupa! Agora não tenho calcinha. Foda-se, vou sem calcinha.

Entro no carro. Dirijo.

–       Parada! Carteira de motorista e IPVA do carro! – É  a polícia.

Por que eles me pararam?

–       Sua carteira de motorista está vencida.

–       Ah, eu não sabia.

–       Já faz mais de um ano.

–       Ah.

–       Vou ter que prender você.

–       Agora?

–       É.

–       Cacete! Mas eu tenho que fazer a Carmen Electra!

–       Quê?

Delegacia.

–       Alô, Gerson…

–       Oi.

–       Não posso gravar a Electra hoje. Fui presa.

–       Meu Deus! Por quê?

–       Carteira vencida.

–       Putz. Eles te soltam até amanhã?

–       Vou ver aqui.

Multa. Fiança. Liberada.

Chego em casa. O Mike está dormindo, a Stella está dormindo, tudo está escuro.

“Lavar a roupa, ler a Staniszewski e relacioná-la com o Adorno, renovar a carteira de motorista, gravar a Carmen Electra, desenhar as peças de xadrez para aula de Perspectiva, comprar os ingressos do Social Distortion, comer, respirar fundo, lembrar que o meu ex não é mais um amigo, lembrar que a minha avó morreu hoje e que, aos poucos, eu me distanciei da minha vida anterior, e mesmo que eu me veja a mesma, o contexto mudou. Nada mais depende só de mim. Caralho, eu fui presa! Sentar no sofá, acender um cigarro, chorar pelas duas pessoas que eu perdi em um dia só, fechar os olhos. Ok, agora você pode dormir.”

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3 Respostas to “Crônica: SYNECDOCHE”

  1. Beauvoiriana 3 de novembro de 2010 às 9:19 #

    Há um momento no texto em que o leitor entra no turbilhão também. Não há como não se identificar e depois, sentar no sofá junto… E obrigada pelo texto, já já vou ler.
    Bjs

  2. Tecituras - Gisèle Miranda 1 de novembro de 2010 às 16:07 #

    Sbaile,

    gosto dos paradoxos do cômico-dor. Porque você cria pela terceira via ou mais. Interessante a musicalidade sempre presente!

    uma abraço

    Gisèle

    • Srta. Sbaile 1 de novembro de 2010 às 17:21 #

      Interessante. Ontem eu ouvi alguém dizendo: “a maioria dos comediantes são deprimidos, foram vítimas de bullies na escola, feios, esquisitos socialmente. A comédia é uma arma contra estas frustrações todas. Se você foi o mais popular da escola, o (a) bonitão (ona), o (a) mais inteligente… Muito provavelmente você não dá pra comediante”. E eu pensei “Putz! É bem assim mesmo.”

      Beijos! Adoro o Tecituras!

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