Reminiscências & Reflexões por Gontran Netto (parte I)

5 nov

Por Gontran Guanaes Netto (*)


A dinâmica da existência do homem se caracteriza pela sua capacidade de interiorizar e exteriorizar experiências.

É através da representação deixada pelo homem, desde seus primórdios, que nos permite ter uma noção aproximada do humano em sua dimensão mais abrangente.

Isto nos possibilita especular sobre as motivações e as constantes através dos tempos em etnias marcadamente diferenciadas e evidenciadas pelas representações nas cavernas. Frutos dessas pinturas, observa-se uma grande preocupação Realista, principalmente em Lascoux e Altamira.

Por outro lado, vemos vestígios em lugares e tempos  – da preocupação Simbólica. Portanto podemos dizer que a representação dita artística está presente na atividade humana. E, de acordo com as formas de organização social ela preenche funções diferenciadas. Ela serve para validar crenças, criar expectativas, coadjuvar estruturas sociais.

Ao observarmos a extensão histórica da cultura em geral, detectamos uma acentuada preocupação humanista em dois períodos: o Clássico Grego e a Renascença Italiana, que poderíamos resumir como um Idealismo Realizado. Isto se materializado na preocupação de ver a representação a partir de cânones de beleza estética.

Michelangelo transformou-se num gênio; fragmentam-se as ideologias do corpo social e os conhecimentos – que deram curso às especificidades científicas.

Suave e sem formas angulares convencionou-se ser o adolescente, a forma humana ideal de beleza. Os adolescentes de Caravaggio são as representações mais perfeitas dessa forma de Realismo.

 

Caravaggio, (Milão, Itália, 1571- Porto Ercole, Itália, 1610). Amor Vincit Omnia, 1601-1602. óleo sobre tela 156 x 113 cm. Gemäldegalerie, Berlim.

 

Buscando formas diferentes de se expressar, Leonardo Da Vinci gostava de desenhar figuras deformadas ou feias como forma de beleza.

Portanto podemos dizer que nesta busca incessante de uma beleza hipoteticamente inatingível ultrapassa os limites do real, postura que perdurou até o período Romântico em variantes, donde se preconizou a exacerbada forma dos antigos conceitos dados aos sentimentos, a emoção.

O Romantismo determina o fim dos limites estabelecidos pelos cânones, antevendo nossos rumos. É nesse estado de espírito que a história se reescreve, onde os valores assumem colorações especiais.

Com isso, outras formas de representações se abrem, e se apresentam como opções diametralmente opostas, configurando um Romantismo Impressionista ou Expressionista.

 

Anita Malfatti (São Paulo, SP, 1889-Idem, 1964), a boba, 1915-16. Óleo s/ tela (61×50,5). Col. Museu de Arte Contemporânea/ MAC/USP.

 

Os criadores continuam buscando novas técnicas para obterem a representação desejada.  Os antigos valores centrais são anarquizados. Vemos então, tendências e escolas se distanciarem umas das outras.

Surgem as novas representações visuais e nesse contexto estão a fotografia e o cinema – que por sua vez, interconectam experiências e linguagens.

Desta fragmentação decorre uma diluição da antiga presença humanista, que paulatinamente perde espaço para uma presença virtual. Os sistemas globalizados determinam formas de representações ostensivas e com inevitável saturação visual.

As dúvidas existenciais cedem lugar às certezas visuais. Vêm-se empobrecidos os antigos meios de questionamentos e cedendo lugares a caminhos programados. A arte visual, como forma de representação se torna obsoleta e imperfeita para atender este novo homem virtual. Pois era justamente essa imperfeição humana da arte que media com o homem existencial.

 

(*) Esse texto é parte de manuscritos de Gontran Guanaes Netto que, ao longo dos últimos cinco anos vem escrevendo por uma necessidade própria de discutir suas reminiscências conjugadas as reflexões atuais.

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2 Respostas to “Reminiscências & Reflexões por Gontran Netto (parte I)”

  1. Sta. Sbaile 6 de novembro de 2010 às 12:41 #

    Este artigo me é muito útil para a aula de História da Arte! Gostei!

    • Tecituras - Gisèle Miranda 6 de novembro de 2010 às 19:53 #

      Que bom! Lembrando que o pintor Gontran Netto foi professor de História da Arte na FAAP(BR) e na Universidade em Nantes (FRA)no curso de arquitetura.

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