Série Falésias II: O conforto da mudez intelectual

10 dez

por Gisèle Miranda, Jozy Lima & Lia Mirror


“Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. ….” (Clarice Lispector)

O Tecituras desdobrou-se do blog Rudeza: escrita rasgada, que vinha – como dizia Paschoal Carlos Magno: de nossos barcos no céu, na terra e no mar. Ou seja, vem de uma experiência de escrita ativa e retro-ativa.

Essa experiência unida à necessidade da escrita vem acompanhada de críticas sobre a vida intelectual e suas manifestações. Por isso enxergamos o conforto irritante do mundo acadêmico, cujos intelectuais não escrevem uma linha senão tiverem a certeza do retorno indexado. Nem mesmo para simples comentários de textos.

São muitos os indícios e sinais de que intelectuais exercem sua capacidade crítica para alcançar, quando muito, os seus pares na academia. Raramente saem para o mundo. Mas alguns perguntarão: por acaso o intelectual tem ou deveria ter algum compromisso, além daqueles estabelecidos pelas regras burocráticas da academia que determinam seu avanço na carreira?

Intelectual tem responsabilidades com a construção de justiça social, de cidadania, de política, de alguma coisa?  O quê?  É ingenuidade desejar que pensadores venham à mídia dar alguma contribuição? Intelectual tem que expressar opinião, convicção, cismas? Intelectual tem que propor interrogações, preocupações, meditações, conclusões, considerações?  Intelectual pode ficar mudo? Intelectual tem que manifestar?

O espaço é usado pela escassez da voz, da escrita, da atitude de intelectuais omissos e com claras dificuldades para lidar com sua própria liberdade e sua consciência. Mas onde estão os mudos que não deveriam ser surdos nem cegos?

Estamos afirmando que há poucos aportes de pensadores nos espaços midiáticos. E por que não usamos os espaços por direito, necessidade? Por que não lidar bem com a imagem, a assinatura? Para que expor-se? Para que servirá escrever se não pontuará nas regras acadêmicas? Para que escrever além das atribuições pagas ou necessárias?

No  Tecituras há pensadores que exercem sua intelectualidade.  Outros criam espaços públicos e nômades e atuam em uma política educacional macro. E ainda, os que agenciam grupos de estudos, momentos de discussões e acreditam na parceria, e assim por diante.

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6 Respostas to “Série Falésias II: O conforto da mudez intelectual”

  1. Tecituras - Gisèle Miranda 31 de janeiro de 2017 às 14:50 #

    Republicou isso em e comentado:

    Intelectual tem responsabilidades com a construção de justiça social, de cidadania, de política, de alguma coisa? O quê? É ingenuidade desejar que pensadores venham à mídia dar alguma contribuição? Intelectual tem que expressar opinião, convicção, cismas? Intelectual tem que propor interrogações, preocupações, meditações, conclusões, considerações? Intelectual pode ficar mudo? Intelectual tem que manifestar?

  2. Wévellyn Antunes Rocha 8 de março de 2012 às 7:45 #

    Atualmente maioria dos intelectuais brasileiros estão engajados dentro das academias, estabilizados pelo sistema, estão apenas preocupados com o status da vida acadêmica proporciona, estão mais envolvidos em produção das portas para dentro, e sem tempo e sem vontade para se envolver com questões externas, o que eu tenho visto da participação da maioria dos intelectuais acadêmicos na mídia, é no máximo com questões referentes aos seus benefícios, é essa imagem que eu tenho de nossos intelectuais brasileiros, operando de modo passivo, egoísta, o que me parece que nova geração está sentindo falta de intelectuais públicos, militantes, ativos e envolvidos com a sociedade, assim como eram os da década de 60, 70, esta faltando interesse, compromisso social dos intelectuais, produção de ideias novas, conhecimentos acessível a sociedade, para estimular o pensamento critico, e para alcançar isso envolve varias questões difíceis, confrontar o sistema atual, buscar uma aproximação com mídia, para germinar as novas ideias, más qual intelectual esta disposto a arriscar a estabilidade atual.

    • Tecituras - Gisèle Miranda 13 de março de 2012 às 21:32 #

      Wévellyn

      agradeço sua participação incisiva ao “pensar-se” parte de sua geração, sem esperar um porta voz.
      Acredito que o silêncio de um lado tenha relação com o silêncio de uma outra parte, num emaranhado de questões.
      Sim, nos anos de 1960-70-80 tivemos nossos intelectuais, militantes que lutaram pela democracia, pela liberdade de expressão. Conquistas para muitas gerações, apesar das perdas, do silêncio que, até hoje, estão em supenso, sobre as vítimas e sobre assassinos/torturadores legitimados pelo Estado, durante os longos vinte anos de ditadura militar no Brasil.
      De certo conto com você para que essas tantas lutas sejam refletidas e sob posicionamento crítico e embasado ao longo da sua formação acadêmica.

      abraço,

      Gisèle Miranda

  3. Claudio 10 de dezembro de 2010 às 17:18 #

    Escrever é facil. Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as idéias.
    Pablo Neruda

  4. Srta. Sbaile 10 de dezembro de 2010 às 4:15 #

    Ótimo! Amei!!!

    Quando eu estava em SP em 2009, vi um vira-lata no centro se escondendo da chuva. Os advogados, dentistas, empresários, bancários, jornalistas, etc. passavam sem notar o bichinho. Até que um catador de papel parou e colocou o cãozinho em sua carroça. Achei aquela cena de uma poesia incrível.

    Intelectual ou não intelectual, na maioria das vezes, falta ao ser humano simplesmente tomar a atitude certa (o “certo” que vem da essência humana de se doar)

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