Série Paschoal Carlos Magno XI: Aldeia Culturalista – Memorial do Arcozelo

9 fev

Por Gisèle Miranda

 

Se um criador não é agarrado pelo pescoço por um conjunto de impossibilidades, não é um criador. Um criador é alguém que cria suas próprias impossibilidades, e ao mesmo tempo cria um possível… (DELEUZE, 1992, p. 167)

Ao terminar o Primeiro Festival de Teatro de Estudantes no Recife (1958), Paschoal Carlos Magno acolheu as possibilidades no meio das impossibilidades; um desdobramento denominado de  Aldeia de Arcozelo.

Paschoal foi ao deleite nas ruínas da fazenda colonial portuguesa de 1792. Da terra estendida de Vassouras, hoje, parte do município de Paty do Alferes, que no século 18 era adjacente de Petrópolis à terra de fazendeiro próximo a família real portuguesa. De uma pequena parte dessa extensão de terras, vivia a família Arcozelo; posteriormente  a terra foi passada às mãos de outro fazendeiro dado ao vício do jogo de cartas, que a perdeu para João Pinheiro em 1945.

A fazenda-hotel feneceu e logrou ao ostracismo até a chegada de Paschoal Carlos Magno. Ele criou um possível, inaugurado em 19 de dezembro de 1965. Foram sete anos de angariação de fundos para a aquisição e restauro do estilo arquitetônico e os acréscimos para a sua inauguração.

Paschoal Carlos Magno. Arquivo família Carlos Magno, 1980.

Paschoal arguiu em favor da criação de um albergue – palavra cunhada do século 13 que designa refúgio ou hospedaria, vindo dos góticos Haribairco. No Brasil, somente em 1971 o albergue foi oficializado, mas antes disso, Paschoal exercia em sua casa, revertida no Teatro Duse (1952), ou antes, em 1929 quando atuou como um dos criadores da Casa do Estudante do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Mas extra oficialmente, o primeiro albergue se deu na Aldeia de Arcozelo, em 1965.

Em plena ditadura militar, cabe lembrar que Paschoal expôs sua tônica crítica aos moldes dos já destacados textos dessa Série, atrelados as dificuldades, os boicotes, os cerceamentos, assim como sua magnífica atuação como efetivo louco inofensivo – personagem criada para estar junto aos jovens da UNE na época de sua proibição, pela luta contra a censura de espetáculos, perseguição aos intelectuais, cassação de mandatos políticos.

Na Aldeia de Arcozelo foram criados, além do albergue: museu,  biblioteca, salas para oficinas/aulas – de dança, teatro, música, pintura, refeitório, anfiteatro, enfim, a tão sonhada Universidade Livre de Artes, que em memória revertida, fez de cada espaço criado homenagens a Renato Vianna, Nicolau Carlos Magno, Patrícia Galvão, Pancetti, Itália Fausta, Yuco Lindenberg, entre outros.

Em parte, a Aldeia de Arcozelo tomou o rumo à Universidade, mas não se concretizou. No entanto, os frutos foram muitos. Aos trancos com os militares, personagens foram criadas, mas, as forças Paschoalinas foram minadas. Do auge dos Festivais de Estudantes, os dois últimos ocorridos na Aldeia de Arcozelo (VI e VII), também cursos, seminários, espetáculos sob batutas de José Celso Martinez Corrêa, B. de Paiva, Amir Haddad, Antonio Abujamra,  Ziembinski, Gianni Ratto, entre os tantos já mencionados na Série Paschoal Carlos Magno.

Paschoal berrou aos quatro ventos a falta de apoio a Aldeia de Arcozelo, e as demais atividades desenvolvidas em sua trajetória de Animador Cultural. O louco inofensivo declinou. Deixou de ser uma personagem e assumiu o solitário Paschoal Carlos Magno, próximos de seus 80 anos – endividado até a alma e às vésperas de sua morte proclamou atear fogo a Aldeia de Arcozelo.

O fogo não foi aceso pelo intempestivo momento de Paschoal; o fogo foi aceso pelo descaso e à falta de memória visualizada em pesquisa pelo tempo das traças, do atrofiamento, da deteriorização – momentos estes do qual me fiz salvaguarda de parte dessa história.

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Referências:

a) imagens & entrevistas.

1. Paschoal Carlos Magno. Arquivo família Carlos Magno s/d; registrei como 1980. 2. Desenho Aldeia de Arcozelo, Guilherme Madeira, 1999; 3. Teatro Renato Vianna (Aldeia de Arcozelo) – Foto Gisèle Miranda, 1997; 4. Teatro ao ar-livre Itália Fausta (Aldeia de Arcozelo) – Foto Maria do Socorro Nepomuceno, 1997; 5. Refeitório (Aldeia de Arcozelo) – Foto Maria do Socorro Nepomuceno, 1997;  6. Corredor do ´alojamento dos rapazes´ e ao fundo, a pintura de Heitor Ricco – Foto Maria do Socorro Nepomuceno, 1997; 7. Sr. José Luciano, administrador da Aldeia de Arcozelo entrevistado por Gisèle Miranda – Foto Maria do Socorro Nepomuceno, 1997.

Entrevista Conceição da Silva Soares em 10 de jan. de 1997, funcionária da Aldeia de Arcozelo – serviços gerais – particular de Paschoal – nos últimos anos de vida. Paty do Alferes, Aldeia de Arcozelo/ RJ, à Gisèle Miranda. (obs: local por ela escolhido para falar do “seu Paschoal” – no palco do teatro Renato Vianna, sob risos).

Entrevista  José Luciano em 11 de jan. de 1997. Antigo administrador da Aldeia de Arcozelo, e antigo administrador do hotel fazenda de Pinheiro Filho, desde 1947. Luciano faleceu pouco depois dessa entrevista. Paty do Alferes, Aldeia de Arcozelo/ RJ. (local escolhido por ele para falar do “seu Paschoal” – biblioteca Nicolau Carlos Magno, sob lágrimas).

b) livros & periódicos

DELEUZE, G. Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992.

MAGNO, P. C. Não acuso nem me perdôo. Diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

FRANCIS, Paulo. In: Dionysos, 1978, n. 28.

FRANCIS, Paulo. Folha de S. Paulo, 29 mai. 1980.

MARCOS, Plínio. Mestre Pascoal e nossa amiga Pagu. Folha de S. Paulo, 6 jan. 1977.

DEL RIOS, J. Paschoal e o poder. Folhetim, 1970.

DEL RIOS, J. Paschoal Carlos Magno, o criador. Folha de S. Paulo, 29 jan. 1971.

DEL RIOS, J. Folha de S. Paulo, 11 abril 1980.

Diário de Pernambuco, 15 nov. 1967

Diário de Notícias, 25 nov.1974

MAGALDI, S.  Folha da Tarde, 27 mai. 1980.

MICHALSKI, Y. Jornal do Brasil, 27 mai. 1980.

ROCHA, J. Não pense nem deixe que pensem que o teatro Duse morreu…Rio de Janeiro: O Globo, 7 de abril 1977.

Revista Aconteceu. A Brasília de Paschoal. , abril de 1960.

SILVA, H. P. da. O incendiário Paschoal. Rio de Janeiro: Jornal do Commercio, 17 mai. 1979.

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4 Respostas to “Série Paschoal Carlos Magno XI: Aldeia Culturalista – Memorial do Arcozelo”

  1. Tecituras - Gisèle Miranda 30 de janeiro de 2017 às 15:17 #

    Republicou isso em e comentado:

    Na Aldeia de Arcozelo foram criados, além do albergue: museu, biblioteca, salas para oficinas/aulas – de dança, teatro, música, pintura, refeitório, anfiteatro, enfim, a tão sonhada Universidade Livre de Artes, que em memória revertida, fez de cada espaço criado homenagens a Renato Vianna, Nicolau Carlos Magno, Patrícia Galvão, Pancetti, Itália Fausta, Yuco Lindenberg, entre outros.

  2. Tecituras - Gisèle Miranda 11 de fevereiro de 2011 às 12:58 #

    Cara Isabel

    Agradeço o seu comentário e o vídeo sobre o abandono da Aldeia de Arcozelo – fato que venho acompanhando desde 1996, ou melhor, desde que Paschoal Carlos Magno exerceu sua vida como um incansável culturalista. Não estive sozinha nesta jornada, estavam comigo a Dra. Maria Izilda Santos de Matos (minha orientadora do mestrado e doutorado) e todo o quadro docente do Departamento de História da PUC/SP, nomes que se encontram no Tecituras como referência da historiografia brasileira e de respeitabilidade internacional. Além da incansável amiga geógrafa Maria do Socorro Nepomuceno dos Santos, que fez as fotos de minha pesquisa – e me acompanhou as idas a Aldeia de Arcozelo. Havia também uma lista de voluntários que oficialmente encaminhei que determinou o limite e o silêncio do poder público.
    Esse silêncio… Silêncio venenoso sem antídotos…
    Nesse labiríntico percurso ficaram rastros em meio ao silêncio. Você, cara Isabel está deixando o seu rastro.
    Por outro lado, Humberto Braga (ex. diretor do dep. de difusão cultural – Funarte) permitiu minha estadia na época, na fantasmagórica Aldeia de Arcozelo, mas todos préstimos de ajuda foram ignorados. Antonio Grassi (ator e ex. presidente da Funarte) que respondeu ao meu e-mail: “Gisele, recebi seu e-mail e como o assunto é de interesse prioritário para essa gestão, estaremos fazendo contato através da coordenação de artes cênicas (Sr. Antonio Gilberto) para aprofundarmos a conversa. Obrigado, um abraço Antonio Grassi – Presidente da FUNARTE.”

    Obviamente aguardei o contato, mas como não houve, novamente o contatei, e mais uma vez: ignorada.

    Os rastros viraram poeira ?!
    Um abraço,
    Gisèle Miranda

    • Tecituras - Gisèle Miranda 11 de fevereiro de 2011 às 17:33 #

      Cont. da resp. anterior:

      Sim, em parte tornaram-se poeira.
      Mas há questões subjetivas que impedem que a poeira, – os pássaros que comeram os miolinhos de pão; ou mesmo, os fios do fio de Ariadne que foram tão desfiados que perderam suas possibilidades. Ou, que “diante dessas impossibilidades estamos fazendo um possível”.
      Gisèle Miranda

  3. Isabel 10 de fevereiro de 2011 às 7:46 #

    Retratos do Brasil: memória, esquecimento, silêncio…
    A realidade é aquilo que queremos ou conseguimos enxergar. E infelizmente neste país há uma miopia geral que leva as pessoas a enxergarem muito pouco do que existe nos seus entornos. Pena!
    Segue um link sobre o pedido de socorro de Paschoal Carlos Magno: http://www.youtube.com/watch?v=kvVsZfT7oT4

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