Série Brasil I: Jean–Baptiste DEBRET

4 mar

Por Gisèle Miranda

(À cidade do ‘meu’ Rio de Janeiro)

“… cultura de minha arte sob um céu tão puro e onde a natureza exibe aos olhos do pintor filósofo a profusão de uma riqueza desconhecida…” (Debret, 1839)

No balanço delicioso da alma, Debret exaltou um Brasil do qual foi artífice junto a Lebreton, chefe da Missão Artística Francesa à criação da Academia Imperial de Belas-Artes (AIBA) no Rio de Janeiro[1].

Debret em seus paradoxos sociedade/individuo, público/privado compôs sua Viagem Pitoresca de 149 litografias à mestiçagem da tradição monárquica européia com a prática escravista colonial marcadamente religiosa- uma aula de história e arte do Brasil, pré e pós independência. (1)

Do escambo – compra/escravização de índios e negros por aguardente, fumo, pólvora, entre outros – o tráfico humano compõe uma amarga parte da mestiçagem brasileira, que adiante se desdobrou no conceito exercido por Darcy Ribeiro e Michel Serres.

Debret, escravas negras de diferentes nações, 1816-1831

O tráfico – estigma oficial de último país a abolir a escravidão (1888), um século depois da Revolução Industrial Inglesa e  Revolução Francesa. Além do estigma aniquilador de culturas indígenas.

Oportuno ressaltar que as litografias de Debret do início do século 19 compostas por índios, negros, europeus e os paradoxos acima ressaltados, marcaram a arte figurativa histórica em suas diferentes facetas à história da arte.

Com relação ao material étnico ainda existe a tensão que vai e volta entre antropologia/etnologia e história da arte, a respeito de como expor o trabalho de povos para quem a criação artística significa um monte de outras coisas, além da própria criação. (Obrist, 2010, p. 211)

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No entanto, as litografias de Debret sobre as diferentes culturas africanas, afro-brasileiras e descendentes garantiram resgates inestimáveis à história e à arte. Da mesma forma, as diferentes culturas da Europa (da época), tais como espanhóis e holandeses, franceses e ingleses, poloneses e ucranianos, batavos e bávaros, árabes e judeus, além dos portugueses, preponderantemente.

A cidade do Rio de Janeiro completou em 1 de março de 2014: 449 anos.  Os cariocas descendem de algumas tantas tribos indígenas extintas, de alguns tantos povos europeus e do reino do Congo – os dois Congos atuais, mais Angola (Monénembo, 2001, p.108 e 110), tradições que nos trouxeram o carnaval, a capoeira e o sincretismo.

Unido a isto, o experienciar artístico de Debret por dezesseis anos no Brasil repercutiu a seus discípulos, agregados ao que um dia também fora, um aluno/discípulo de Jacques-Louis David.

Ademais, a formação de Debret deu-se também como partícipe da Corte imperial de Napoleão I – embora tenha sido secundária, se comparado a importância de sua arte à época da monarquia portuguesa no Brasil (1808-1821) e sua derivação brasileira do Primeiro Reinado (1822-1831). In: Alencastro, 2001, 143.

Referências:

DEBRET, Jean-Baptiste (1768-1848). Viagem Pitoresca e a História ao Brasil. Tradução e Notas Sérgio Milliet; apresentação de Lygia da Fonseca F. da Cunha. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1989. (Coleção Reconquista do Brasil) Tomos I, II e II.

OBRIST, Han Ulrich. Uma breve história da curadoria. Tradução Ana Resende. São Paulo: BEI comunicação, 2010.

RIBEIRO, Darcy. O povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995

(1) RIO DE JANEIRO, cidade mestiça: nascimento da imagem de uma nação/ ilustrações e comentários Jean-Baptiste Debret; textos Luiz Felipe Alencastro, Serge Gruzinski e Tierno Monénembo; reunidos e apresentados por Patrick Straumann; tradução de Rosa Freire d´Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

SERRES, Michel. A Lenda dos Anjos. São Paulo: Aleph, 1995.

SERRES, Michel. Filosofia Mestiça. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993

Sobre Debret: http://ht.ly/489Jshttp://ht.ly/489MK

Sobre Darcy Ribeiro: http://ht.ly/48a3Ihttp://ht.ly/48a52http://ht.ly/48a74

Sobre Michel Serres: http://ht.ly/48adbhttp://ht.ly/48aoP

Sobre Lebreton: http://ht.ly/48ajuhttp://ht.ly/48att

Sobre David, Jacques-Louis http://ht.ly/48Aey

Sobre Humboldt: http://ht.ly/48aEF http://ht.ly/48aBP


[1] Debret, aconselhado por Humboldt chegou 26 de março de 1816, quando o Rio de Janeiro era capital do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves – investimento de d. João VI, que em 1808 promulgou o Rio de Janeiro sede da corte portuguesa.

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2 Respostas to “Série Brasil I: Jean–Baptiste DEBRET”

  1. Tecituras - Gisèle Miranda 30 de janeiro de 2017 às 15:07 #

    Republicou isso em e comentado:

    Com relação ao material étnico ainda existe a tensão que vai e volta entre antropologia/etnologia e história da arte, a respeito de como expor o trabalho de povos para quem a criação artística significa um monte de outras coisas, além da própria criação. (Obrist, 2010, p. 211)

  2. Wévellyn Antunes Rocha 7 de março de 2012 às 18:17 #

    Deblet, um grande artista, contribuiu muito para história e a arte no século XIX , sua obra produzida ao longo dos anos em que viveu aqui no Brasil, busca retratar a cultura do nosso povo miscigenado , em todos seus aspectos, mais interessante da obra Deblet é forma com que ele descrevia sua visão, com combinação de litografias e textos onde ele demonstra o seu grande talento.

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