Série Ficcional H. Miller XVIII: reminiscências

1 set

por Lia Mirror & Laila Lizmann

Miller rompeu barreiras antes intransponíveis. Ele retornou ao umbigo. Retroagiu no tempo e balbuciou o incompreensível. De lá para cá não o vi mais. Apenas ouvi falar. Admiti sua inexistência no tempo objetivo.

No entanto, meu coração acelerou diante da mesa de seu Alberto. Pois de todos – seu Alberto era o único que de fato conhecia Miller e o nosso tempo subjetivo. Ele era cúmplice de nosso estranho encontro. Busquei-os por todas as mesas, mas nenhum sinal deles. Esperei por vários dias e nada. Ninguém para compartilhar o silêncio.

Amélia Toledo, Colheita, 1982. Objetos de uso cotidiano submetidos a ação do tempo debaixo d’água.

Imaginei Miller outrora a mesa, quer dizer, nós três. Qualquer palavra sem som, cada olhar fingindo não olhar; depois, uma sorrateira despedida. Por que não os vejo mais? Porque fugi. Não queria mais o compreensível. Queria alterar as rotas e grafar letras. Queria seguir o curso dos bordados a sangue e entender o que não precisava.

Diante das minudências da memória fui ao encontro das palavras de Sartre sobre Jean Genet, mas pensei em Miller: “A transformação que é obra da liberdade”. Não houve superação; houve transformação pela liberdade.

Afinal, não foi pela liberdade que escavei até ouvir a respiração de Miller? A liberdade que transpôs tempos distintos, difíceis e até impossíveis. Mas, onde está o átimo do reencontro?

Creio que o tempo foi indigno com a sua ausência. Meses se passaram e a angústia ressurgiu enorme, maledicente e pronta a dissipar qualquer transformação.

Antes de partir novamente, sem tê-los, o último almoço na mesa do seu Alberto. Apenas uma salada que mal consegui terminar. Algumas lágrimas; hora da partida.

– Por favor, a conta?

– Sua conta foi paga. Alguém deixou esse bilhete.

Atônica desdobrei o papel e li em voz baixa:

“Minha doce Lia

Sinto em ser o portador dessa triste notícia; seu Alberto morreu, não para nós. Verei o que Hades pode fazer; e quem sabe: o impossível não será loucura!?

Eu a acharei onde quer que vá.

H. Miller.”

Referências:

Sobre a artista Amélia Toledo: Amelia Toledo via Instituto Itau Cultural

Beauvoir, Simone de. A cerimônia do adeus. Seguido de entrevistas com Jean-Paul Sartre (ago/set 1974). Tradução de Rita Braga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 484.

https://tecituras.wordpress.com/2010/03/04/batucada-miller-e-a-mesa-do-seu-alberto-v/

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