Série Ficcional H. Miller XXI, parte I: “Digo que foram as aquarelas de Turner que me fizeram tudo isso começar.” (*)

27 jan

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

Ninguém nasce artista. Escolhe-se isso! E, quando se escolhe ser o primeiro e o último entre os homens, não se acha nada estranho dormir com um jumento, colocar suas patas num balde de lixo ou engolir repreensões e insultos de todos os que estão próximos e dos entes queridos que encaram seu estilo de vida como um grave erro.

De vez em quando eu me revolto, mesmo contra aquilo que acredito de todo coração. Tenho de atacar tudo, inclusive a mim mesmo.

(MILLER, Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch, 2006, pp. 219; 355)

Disse em silêncio a seu Alberto: No meio do caos a formação das pessoas parece mais eficaz; e a escrita das diversas escritas, subliminares, imanentes, refúgio necessário entre um sujeito múltiplo e as máximas em devires alicerçado a um estado artístico que é cria indomável, reverbera, grita, esbofeteia, interfere, questiona, enfrenta, supera e alcança o ápice da falésia – também para morrer.

Esse encontro é invisível aos outros. Foi o que pensei durante o almoço com o seu Alberto. E sua resposta foi aquele olhar que tudo ouve. Continuei. Sorri a lembrança do curioso encontro com H. Miller quando tomou para si o ofício de livreiro.

Estava à procura de H. Miller mas não o encontrei nas prateleiras, nem nos amontoados no chão. Então resolvi pensar em alguns trechos e as palavras vieram como água do mar atravessando os rochedos da memória, perfurando com o tempo outrora espaços intransponíveis.

Foi quando ouvi pela primeira vez aquela voz que interceptou o silêncio ambiente e as tantas vozes ocultas que declamavam H. Miller.

– “Quem você está procurando?”

Me agarrei as rochas para não morrer afogada. Aquela voz me desconcertou. Fiquei engasgada por tanta água a minha volta e com tamanha força que prensava nas pedras e me cortava nos movimentos. Esqueci quem procurava, mas as frases vieram em momentos de respiração. Dizia trechos e me afogava.

TURNER, J.M.W. (1775-1851), Bell Rock Lighthouse, 1819

TURNER, J.M.W. (Londres, Reino Unido, 1775- Londres, reino Unido, 1851), Bell Rock Lighthouse, 1819. Aquarela e guache sobre papel, 30,60 x 45,50 cm. Galeria Nacional da Escócia.

Ele tudo viu e disse: – “Sei que a água é tranquilizante para os loucos, assim como a música.”[1] Quem sugeriu a leitura?

– Um amigo ancião, assim como Blake. Espere! Conheço essa frase. Algo sobre o New Orleans? (pensei: “seus olhos desenvolvem línguas, lábios, orelhas, espalham cada pensamento, cada impulso”) [2] Por que? Você é escritor? O livreiro fez sinal que sim; então eu disse: “soube que era escritor na hora em que te vi” [3] Mas o que estamos fazendo? Não sou Bud Clausen para te dizer isso! E no entanto, as palavras assumiram na minha boca.

Olhei para seu o Alberto e “meus olhos se encheram de lágrimas. O passado estava vivo outra vez; vivia em cada fachada, cada portal, cada cornija, nas próprias pedras sob nossos pés.” [4}

 

Notas:

(*) MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p. 107.


[1] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 115.

[2] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 98.

[3] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 93

[4] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 83

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006.

SHAFFER, A. Os grandes filósofos que fracassaram no amor.São Paulo: Ley, 2012

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Uma resposta to “Série Ficcional H. Miller XXI, parte I: “Digo que foram as aquarelas de Turner que me fizeram tudo isso começar.” (*)”

  1. Tecituras - Gisèle Miranda 28 de janeiro de 2017 às 20:16 #

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