Mulheres artistas (Parte I)

11 jan

por Gisèle Miranda

Os espaços artísticos foram e são misóginos segundo a Guerrilha Girls, grupo de mulheres que se manifesta sobre a memória de artistas. Essas mulheres se apresentam com máscaras de gorilas desde que apareceram pela primeira vez na década de 1980.

Um dos itens listados pela Guerrilha Girls sobre as “vantagens de ser uma artista mulher” é a revisão da História da Arte e encontrar nessas histórias, os sufocamentos realizados por mentalidades misóginas ao longo do tempo, através de instituições e códigos morais.

O grupo também discursou o quão benéfico para as mulheres NÃO passarem pelo constrangimento de serem chamadas de gênios.

 

A partir do Renascimento

Quando o ofício do artista ascendeu no Renascimento em associação às novas técnicas e a racionalização, período este em que as mulheres conseguiram uma brecha para educação, elas foram ao encontro das artes como atividade de reclusão natural em seus lares e não como abertura dos artistas e dos espaços ao ofício.

Marietta Robusti – La Tintoretta (c. 1560-1590), filha do pintor Tintoretto (Jacopo Robusti, c. 1518-1594) teve a régia paterna ao ambiente de sua época ligado ao Maneirismo e em busca do Barroco. Passos seguidos pela filha falecida precocemente aos 30 anos.

Marietta destacou-se como retratista em Cortes. Sua qualidade para despontar como pintora foi “protegida” pelos princípios de uma época avessa a mulher em espaços de discussão pública.

Há muitas imagens atribuídas a Marietta, mas o Retrato de um homem velho com um garoto (c. 1585) conhecida pintura de Tintoretto trouxe a discussões ao ser atribuído a ela. No  entanto, “nenhuma obra seguramente dela tenha sobrevivido”. (BURKE, 2010) Por um lado, há estranheza de que todos os seus trabalhos tenham desaparecido. Por outro, que tenham sido assinados pelo pai.

Há também a famosa retratista Sofonisba Anguissola (c. 1532-1625) com trabalhos reconhecidos entre os grandes artistas de sua época e espalhados em algumas Cortes,  além de Fede Galízia (1578-1630), Artemísia Gentilesch (1593-1653).

Sofonisba Anguissola, Auto-retrato, 1566. Retrato da artista e irmã jogando xadrez, 1555.

Sofonisba Anguissola, Autorretrato, 1566. Retrato da artista e irmã jogando xadrez, 1555.

O autorretrato acima diz muito sobre a realização da pintora ao colocar-se em um território pouco explorado: da auto imagem. O tabuleiro de xadrez rodeado por mulheres é uma quebra de tabu de longos séculos da Idade Média e somente permitido à pratica dos religiosos, nobres e jamais às mulheres. Apesar do destaque na pintura, a posição de Sofonisba foi de alta importância como dama de companhia da corte espanhola.

A natureza morta, destaque abaixo de Fede Galícia, assim como os mitos e os retratos eram comuns às mulheres, independente da indicação do protestantismo sobre o Barroco Civil ou Laico (Argan, 2004), diferentemente do Barroco Religioso (Cristão), que via nas imagens de santos, anjos e  mitos a força da persuasão pela estética reverenciada, glorificada pela igreja, sem interferir no processo criativo, teórico e prático do artista como nos séculos medievais. O papel da igreja nesse momento era de mecenato, proteção e propagação, regalias e intenções negociadas entre os grandes nomes da arte e os mercadores de arte da igreja.

Fede Galizzia, Bacia de frutas, c. 1610

Fede Galizia, Bacia de frutas, c. 1610.

No Renascimento os alicerces a educação foram fortalecidos e agregados pela Culturalidade e pela eclosão da Reforma (1517). A educação feminina permitiu acesso as artes com finalidade ocupacional. Nos séculos seguintes surgiram pintoras, mas sempre acompanhadas de restrições. Tornou-se também comum nos conventos que as freiras tivessem aulas de artes: literatura, pintura e música.

Quando os Impressionistas deram o grande salto às vanguardas, muitos ainda discursavam a ojeriza aos ofícios permitidos às mulheres que não fossem os do lar. Porém é nessa fase que ocorre um deslocamento dos ateliês para as praças e jardins, por isso as pinturas Impressionistas têm uma intensa luminosidade solar. Esse é o momento em que as mulheres também se deslocam do espaço privado para o espaço público.

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Edgar Degas (1834-1917), entre outros partícipes da abertura das vanguardas foram duros as participações de mulheres nas artes, embora as mulheres tenham sido musas de suas pinturas e esculturas. Assim como eles, a maioria do homens viram nos cercos médicos e policiais o aceite à inferioridade física e mental das mulheres; que ficou mais doloroso quando associado ao discurso jurídico.

 

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BURKE, Peter. O Renascimento Italiano. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Nova Alexandria, 2010.

DUBY, Georges & PERROT, Michelle. Imagens da mulher. Porto: Edições Afrontamento, 1992.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

A história de Artemisia Gentileschi, a pintora violentada que se vingou fazendo arte feminista no século 17

 

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Uma resposta to “Mulheres artistas (Parte I)”

  1. Tecituras - Gisèle Miranda 20 de outubro de 2015 às 12:20 #

    Republicou isso em .

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