O Brumário das Camélias – Parte I

15 jul

por  Lilian Chirnev

 

O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, escrito por Karl Marx entre 1851 e 1852, resgata uma parte da trajetória política da França sob a regência de Carlos Luís Napoleão Bonaparte, o Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão Bonaparte. Eleito o primeiro presidente do País por meio de sufrágio universal em 10 de dezembro de 1848 (mais de 70% dos votos), deu fim a Segunda República com o Golpe de 1851 e, com a restauração do império, recebeu o título de imperador Napoleão III.

 

Bouchot_-_Le_general_Bonaparte_au_Conseil_des_Cinq-Cents (1)

Francois Bouchot (1800-1842), O general Bonaparte em 10 de novembro de 1799 no Conselho dos Quinhentos, 1840; óleo sobre tela, 401 x 421 cm. (Versailles)

 

Trata-se do enredo de uma história que será recontada tantas outras vezes, pelas mãos de diversos autores, em épocas distintas, cujos nomes dos personagens diferem, com exceção do próprio Brumário que, como já evidenciado, trata-se de mais um Napoleão, na mesma França, se utilizando do mesmo argumento, da mesma revolução, para convencer aos seus, de sua competência administrativa e imputar uma bandeira flamejante de ideais sem fundamento, para custear a retomada da monarquia após a derrocada da democracia, ou pelo menos, um ensaio cênico da póstuma democracia onde os arranjos políticos pegaram de surpresa 36 milhões de franceses.

Não se conseguiu explicar ainda como uma nação (…) pôde ser surpreendida e entregue sem resistência ao cativeiro por três cavalheiros de indústria”, destaca Marx. Voilà! Parece um resumo trágico da trajetória dos Bonaparte e pior, as vítimas foram contabilizadas; como revela outro fragmento resumido dessa obra de Marx:

“Os primeiros reduziram a pedaços a base feudal e deceparam as cabeças feudais que sobre ela haviam crescido. Napoleão, por seu lado, criou na França as condições sem as quais não seria possível desenvolver a livre concorrência, explorar a propriedade territorial dividida e utilizar as forças produtivas industriais da nação que tinham sido libertadas; (…) isto era necessário para dar à sociedade burguesa da França um ambiente adequado e atual no continente europeu. Inteiramente absorta na produção de riqueza e na concorrência pacífica, a sociedade burguesa não mais se apercebia de que fantasmas dos tempos de Roma haviam velado seu berço”.

Teorias governamentais foram escritas para postergar o pensamento revolucionário francês sob o pretexto rédito do desenvolvimento industrial. Nenhuma causa consegue ter mais relevância perante a elite governamental. A medida de valor para cada habitante é de acordo com o tamanho do seu alforje. Tudo perfeitamente inteligível, afinal, o esforço é feito em nome de um “bem maior”. Marx acrescenta em O Brumário que:

“O sufrágio universal parece ter sobrevivido apenas por um momento, a fim de fazer, de próprio punho, o seu último testamento perante os olhos do mundo inteiro e declarar em nome do próprio povo: Tudo o que existe merece perecer”.

A revolução francesa em questão perdurou de 24 de fevereiro de 1848 a dezembro de 1851, sendo considerada em três períodos principais: o de fevereiro; de 4 de maio de 1848 à 28 de maio de 1849, o período da Constituição da República, ou da Assembleia Nacional Constituinte; de 28 de maio de 1849 a 2 de dezembro de 1851, o período da República Constitucional ou da Assembleia Nacional Legislativa.

Durante esse processo a análise efetuada por Marx mostra claramente a repetida engenhosidade para incutir causas necessárias a uma revolução sem revolucionários reais.

“E nas tradições classicamente austeras da república romana, seus gladiadores encontraram os ideais e as formas de arte, as ilusões de que necessitavam para esconderem de si próprios as limitações burguesas do conteúdo de suas lutas e manterem seu entusiasmo no alto nível da grande tragédia histórica. De 1848 a 1851 o fantasma da velha revolução anda em todos os cantos (…). Todo um povo que pensava ter comunicado a si próprio um forte impulso para diante, por meio da revolução, se encontra de repente trasladado a uma época morta (…).; e o 2 de Dezembro de 1851 foi a resposta. Não só fizeram a caricatura do velho Napoleão, como geraram o próprio velho Napoleão caricaturado (…)”.

Seria o caso de uma epidemia nacional de neofobia (aversão a tudo que é novo)? Quantas vezes esse relato tem sido a história de hoje, noticiada e replicada em todos os veículos de comunicação, inclusive nas redes sociais.

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