O Brumário das Camélias – Parte II

15 jul

por Lilian Chirnev

 

Se o escritor Alexandre Dumas Filho (1824-1895) estivesse vivo já teria se cansado de tantas dramaturgias para direcionar críticas a mesma sociedade francesa, aos mesmos capitalistas burgueses forjados de moralismos. E a sociedade abissal, como em uma passagem do seu livro “A Dama das Camélias”, se encontraria dentro do apartamento de uma cortesã (na Paris do século XIX) para aferir os bens que, leiloados dias depois, pagariam dívidas da proprietária, que naquele momento já estava falecida.

 

A curiosidade impulsionou as “mulheres da alta sociedade” de então em ir ao local para verificar os lotes a serem leiloados. Deslumbradas com o luxo do local, não se perceberam como parte daquilo. A venda póstuma na verdade era de um patrimônio construído com o recurso investido pelos maridos de algumas delas. A ironia é elas efetuarem lances por aquilo que lhe eram próprios. Pagar duas vezes para ter o que se almeja, ser enganada, traída, injustiçada, ter poucos privilégios para manter uma mentira recontada há décadas, séculos.

O pior é constatar que a manutenção das gritantes diferenças sociais possa ter levado aquela mulher ao ofício de prostituta, que julgaram as classes privilegiadas, naquele apartamento, como sendo apenas uma questão errônea ou moral de escolha para alguém se tornar uma cortesã. Fome, quantas delas passaram para entender o limite do ser humano quando nem mesmo o “circo” resiste em suas vidas.

Toda essa retórica para ilustrar a distinta ilusão em se decretar uma democracia sem que os cidadãos tenham conhecimento e compreensão sobre seus direitos e deveres. O ponto crucial da democracia é entender que na verdade o sistema político adotado pouco importa, se as pessoas não se compreenderem como parte conjunta de toda essa engrenagem.

A escravidão das mentes é a pior mordaça já colocada no povo. O capital pelo capital, a luta pela conquista desenfreada de riqueza, poder e ascensão social são as mais perversas crenças incutidas na rotina das pessoas. Hoje, ao invés de serem levadas pela fome à prostituição, muitas são levadas pela vontade de obter bens, pelo reconhecimento de abstrações, quase animalescas.

Duse-Marguerite-Lady-Camellias 1896

Eleonora Duse em a Dama das Camélias, 1896. A atriz esteve no Brasil e  na Argentina em 1885, onde também interpretou a Dama das Camélias. (*)

 

A desigualdade social, portanto, não se sustenta apenas por um dispositivo político. Todos os renomados pensadores revelaram por meio de seus estudos a variedade de democracias existentes e, pontuaram as vantagens e as falhas do sistema. A maior responsável pela recontagem de tantas histórias e estórias são os valores de uma nação. A democracia pode ser o caminho ideal, mas, o percurso é longo porque permite o aprendizado através dos erros e, no decorrer desse processo, as perdas são imensuráveis.

Sem o devido conhecimento sobre o que realmente importa para uma sociedade ter justiça social, sem suprir as mentes para a devida e honesta liberdade de decisão, ficaremos assombrados quando for inevitável o moralismo culpar o capital pelo desequilíbrio da humanidade. Uma loteria, uma guerra, “liberte, égalité e fraternité”.

“Um Poder Executivo que encontra sua força em sua própria debilidade e sua respeitabilidade no desprezo que inspira; uma república que nada mais é do que a infâmia combinada de duas monarquias (…); alianças cuja primeira cláusula é a separação; lutas cuja primeira lei é a indecisão; agitação desenfreada e desprovida de sentido em nome da tranquilidade, os mais solenes sermões sobre a tranquilidade em nome da revolução; paixões sem verdade, verdades sem paixões, heróis sem feitos heroicos, história sem acontecimentos”

 

 

 

 

 

 

 

*sobre Eleonora Duse neste blog: Paschoal Carlos Margno: Sol sobre as palmeiras & Paschoal Carlos Magno: O Teatro Duse. Uma nau de trilhos e bondes

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