Conto: O Sub-Término do Consciente (Parte II)

29 nov

por Caio Madeira

Perplexo! é como me sinto ao ver você, minha querida, admitindo tudo o que passava em sua mente, em meio a choro e soluços, com pensamentos mais lúcidos do que os que assolavam minha mente até agora que, em contraste à tua, parecia ter a racionalidade caindo em desuso. Ver você relembrar momentos nossos que eu havia esquecido em meio a meus tormentos, pintando telas com palavras belas banhadas a cores vivas e emoção invejável, dando um fim ao meu monólogo que até alguns minutos antes parecia interminável. Sinto-me fraco, como se meus pensamentos subvertessem a um vácuo irreversível e esquecível a cada palavra que você me disfere.

Em seu discurso ela dizia que atrapalho a vontade com a intencional veracidade da amargura desprezível com que me prendo, e que me rendo a fatos distorcidos pela minha mente; que visualizo uma realidade de forma plena ao invés de realizar de forma plena o que minha alma sente. Minhas ilusões transitórias me botam a distancia dela, como se estivesse sozinho numa longa viagem que deveria tê-la levado junto.

Ela foi afundo, não conteve o que sentia nem por um segundo. Disse que faço com palavras o que ela faz com maquiagem: escondo-me atrás delas para não forçar a real imagem de quem sou transbordar no dia-a-dia.  Ela até ria em meio a choro ao dizer que me dobro, me torço, me entendo e desentendo, mas que sou apenas um transeunte da felicidade brigando com a sobriedade; que não age sobre o que defende e que não a defende em momentos que pedem uma defesa… que posso dizer que não a amo, mas que vou observar hipnotizado a leveza de seu andar ao sair pela porta, carregada com uma tristeza que cortaria no meio qualquer coração.

ismael-nery-figuras

Ismael Nery (1900-1934) s/ título, 1930. Aquarela sobre papel.

Seus olhos não mimicavam uma cachoeira mais. Eram firmes e atentos e a beira de uma raiva não consumida pelo tempo – mas ainda assim tão assustadora quanto a minha. Sabia que ela vinha em minha direção ao ver seus olhos vermelhos excluindo todos os meus meios de terminar o namoro de maneira simples, e de me gratificar com uma taça pós-desgraça que achei que iria beber ao fim deste término. Vai restar aqui comigo apenas este quadro que ela pinta de mim como lembrança. E talvez ela esteja certa quando diz que é no tedioso clímax da depressão que o corpo enfim avança, ou então se deixa morrer. Devo eu interromper? Ela levantou e eu sentei, quando isso aconteceu? Vejo-a de baixo pra cima agora, sua vantagem chegou num apogeu. O que faço?, não sei, não sei; perdi o controle. Perdi. Não. Volta a ouvir, para de fingir uma expressão rígida de quem não se importa. Pensa numa resposta.

Mas perdi uma parte do que ela falou absorto em mim mesmo. De novo. Respira… isso. Agora ouve. Ela fala algo sobre…

…vinte e quatro horas de sorriso ser uma mentira obrigatória a quem vive a vida somente concordando, para não parecer pretensiosa.  E que essa leveza de meu viver, que sei que ainda te hipnotiza, vem de sonhos onde me tornei quem realmente sou: uma velha prosa bem escrita em um papel, que de minhas mãos voou. E é engraçado esse destino que Deus me colocou, quem achou a prosa foi você. Lembro que ela não parecia te fazer sentido – você não a entendeu. Perdi meu tempo a traduzindo, e você agindo entorpecido a emoções. Disse que traduções arruínam um texto, e assim meu texto pereceu.  Mas mesmo assim te chamei de meu, e bebi sem pestanejar sua saliva, e com paciência esperei a resposta de uma vida que fosse viva como a minha. E em retorno recebi um término a luz de velas e comida congelada.

Que palhaçada essa ruptura de sentimentos, que falta de tato, que desentendimento. Não se faz felicidade sem um contraponto de tristeza, e nem se eriça os pelos da nuca sem um toque de frieza. Subtraio-me da realidade com religião, e encontro você em negação a nossa reciprocidade. Tentava adicionar um sentimento ou outro, mas ultimamente sempre em vão. Parece aqui que se esqueceu de como é forte nossa ligação, insistindo em esquecer o ritmo com que bate teu coração, que compunha em sintonia e complementava nossa relação como uma tranquilizante canção. Frases e versos aqui fazem de ti uma pura banalidade, transmutando nossa essência por tua “racionalidade”.  Seu amor e seu carinho me envolveram, e pelo tempo que durou sou agradecida. Mas sua bebedeira, grosseria e amargura me horrorizam de uma maneira que dói estar aqui presente, ouvindo sua mente descarrilar de maneira tão estúpida na minha frente. Não aguento você, não hoje.

E a porta bateu.

O estrondo foi tão alto que me fez tremer inteiro após sua saída. O silêncio ao menos gratifica, sinto que posso respirar agora. Fiquei olhando por um tempo para a porta, esperando sua volta.  Meu corpo ficou incontrolável. Esperava fechar meus olhos e encontrar paz, mas a escuridão já não me satisfaz. Ao vê-la ir embora, troquei minha respiração pelo meu último cigarro do maço: um pulmão adoece, o outro agradece, e a garganta com pigarro. Limpei a garganta com um gole de vinho, mas até o álcool tinha um gosto estranho, mas aflito e escondido num mar de falhas e desgraças, bebi duas e não só uma garrafa. Não, são 23:12, não…

Que?, eu não tranquei a porta, a chave, ai. Não, tá trancado sim. Não lembro de fazer isso….lembro sim, não…..eram 21 horas quando ela chegou, e são 00:03, então, me cortei; são 00:43, e tem duas garrafas vazias e são 00:57. Calma, não… Esse cachorro não para o cachorro não para.

E essa não conta, não tá vazia e a porta está trancada? Ao todo foram três garrafas, só de pirraça. Via até graça da situação. Ela lá, chorando em vão, e eu aqui me divertindo bêbado no chão. Eu podia aumentar a diversão. Mas… Não vejo a quarta garrafa. Não. Não. 1. 2. 3. Levanta!, foi. São… Cadê, Mas cadê o relógio? Caralho, não. Fecha o olho, deixa fechado e respira que passa a tontura e cadê a garrafa. Pensa. Passou. Não, ah, mas que tortura, que tontura. A garrafa tá…

Não tem; ah. Tem nada. Lá lá lá lá lá. Nada, nada, por que comprei só três garrafas? Estou seco. Aquela janta ainda tá ali, nossa. Ela deve ter ligado. Deve cadê o celular, é essa a senha, não, calma. Não erra; Isso! Não. Não falou. Não quero falar contigo, nem contigo não. Foda-se. Muita gente nesse celular, e nenhuma é ela. Ela falou algo… sobre o que mesmo? A gente terminou mesmo-ah!, não, não.  Cuidado pra não tropeçar, não tropeça. Abre a porta do banheiro e Nossa. Odeio isso, odeio. Que merda. Que coisa insuportável vomitar. Não respira, que cheiro… Pronto. Nossa. Doce toque da descarga, despoluindo o ambiente. Minha boca tá meio amarga. Cadê a pasta de dente?

Olha meu estado.

Estou babado. Parece que eu levei um soco. O espelho só pode estar mentindo, eu estava chorando? Não, era ela. Talvez. Minha cabeça falha, minha mente desidrata, maltratou a mim mesmo a ponto de maltratá-la. Não lembro se terminamos ou não. Como ela pode me entender se estou sempre em contradição? Mas não é culpa do álcool, não vou parar. Ela que tem que me aceitar assim. Prendi o pássaro de Bukowski na gaiola sem frestas que é minha cabeça, e se eu não o alimentar do mesmo veneno líquido, como ela quer que ele resplandeça? Ela vai matar o pássaro azul com seus limites. Ela me mataria aos poucos com seus limites. E eu já perco a vida oito horas por dia sonhando que estou vivo; mas sempre acordo e percebo que foi só mais um pouco de tempo perdido, entretido por imagens tão belas que nem me recordo delas ao começar o dia. Não consigo lembrar porque terminei, será que sonhei? Queria terminar para ser livre e ser eu mesmo, para vagar a esmo pela vida e descobrir o que reanima uma vontade perdida. Lembro que a via como uma válvula de escape, mas quem vive em liberdade não precisa escapar de nada.

Estava eu preso antes mesmo de conhecê-la? Preso a quê? Lembro-me de escutar sua voz como uma linda melodia; com seus cafunés você me absolvia de tudo, minha querida. Não terminei pra me sentir livre? Pois não vejo mais escape, nem liberdade, nem vontade agora. Sem você me sinto claustrofóbico em minha própria pele, espelhado por uma imagem que difere a que eu tinha em minha mente antes de encontrar meu olhar vermelho no fundo do espelho.

Lembro-me daquele olhar que me lançou na primeira vez que nos vimos; um olhar que ainda hoje glorifica você em qualquer patamar que eu crie ou altere em minha mente, quantas vezes for. Se eu tentasse procurar nosso sentimento em outro alguém, quantas mulheres plagiariam teu amor? Que horror seria fingir inocência sobre a tua perfeição apenas para parecer são – em vão, obviamente. Elas andariam, falariam, sorririam sem alcançar expectativas. Seriam falhas repulsivas, nocivas a memoria. E se o plágio fosse perfeito, seria um desrespeito a você, a nós, e a mim. E lembrar quem deu o fim a vida a dois seria como relembrar do que aconteceu depois Aqui, comigo preso ao meu próprio olhar, refletindo um sincero arrependimento. Acho que errei, errei, errei, não sei.

Que sensação é essa? Antes eu te culpava por tudo, mas quem tem culpa de tudo nesse mundo, afinal? Senti-me preso a um desprezo. Olho tudo pelos mesmos caminhos e não vejo a resposta que havia achado antes. Diariamente eu desvio de carros, cansado e sem futuro num trabalho que antecipa meus pelos grisalhos, e a rotina é um sinônimo de atalho para uma morte só. Desesperado, me prendo aos prantos do passado como linhas retas que reprimem um expressionista até deixa-lo sem expressão. Sem ela aqui comigo, perfeita como é, sinto que serei a orelha que sobrou em Van Gogh, escutando a fama da outra na escuridão. …Ela tem razão, não estou são.

Fecho os olhos,   não durmo e nem acordo. E sinto a consciência desprender-se de mim,

Com mais alguém, sinto-me guiado ao fim e vou além; não vejo nada; meus pensamentos partem em debandada; dispersam a parte confortável; este instável sentimento saudável fez de mim abominável; guiado entre lembranças sou imutável;

Com mais alguém, calma, houve um lapso na vida, repartiu eu de mim; não é o fim … a voz que ouço… não vejo-me no espelho.

Respira e relaxa… meus pensamentos falam comigo…e distorce.

Sua tontura logo passa,

e o sono tudo cura.

(ou assim penso eu)

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