Conto: O Sub-Término do Consciente (Parte III)

2 dez

por Caio Madeira

 

…Vejo-me como um todo, incômodo e desvairado.

Sou como um advogado de um cliente que se pôs numa prisão reflexiva, e só este espelho me garante pagamento por todo o meu conhecimento sobre as leis ideológicas contraditórias em que ele se prendeu. E me recuso crer que a perdi mesmo com tanta certeza.

Vasculhei minha liberdade num transtorno, ela e eu em correntes. Analisando-me, vi que sempre me acorrento no mínimo grau de tormento que minha felicidade experimenta.

Não me entendo.

Neste caos que criei não há espaço para ela, apenas ao realismo palpável de uma mão que perdeu o tato. Em minha cabeça há eu e ela; mas meu coração é a mais pura solidão. Nosso amor ficou tão envergonhado com o meu embaraço naquela mesa, que calou minha falsa grandeza com palavras tão sinceras, que me fizeram duvidar de minha própria tristeza. O que sinto, de verdade? Não tento responder com outra palavra além de “saudade”. Interpretei as palavras dela como um quadro bem pintado, que transmitia um sentimento magoado impossível de ser desviado. Devo pintar-te um quadro?

Não? Sim. Mas tenho medo de ser mal interpretado, pois meu ateliê é frio e meu casaco é a fraca pele humana. Meu pincel apenas pinga tinta na loucura que de minha tela emana. Goela abaixo eu afoguei o meu perdão sobre a vida artística, e em retorno o porre detalha minha arte de forma rica bem aqui. Mas da onde vem a tinta? Pinto o espelho, mas não sinto o que me pinta. Quantas pinceladas trarão vida a minha tela? Quero presenteá-la com uma imagem tão bela, você sabe, minha vontade está à flor da pele.

ismael-nery-nus-no-rochedo

Ismael Nery, nus no rochedo, s/d. Aquarela sobre cartão.

Reúno em essência o motivo que difere este quadro dos outros: que minha loucura foi achar que ela não me fere, não me dói, e que é impossível permanecer a ideia simples de que ela se foi. Bombeia minha tinta, coração; não me deixe na mão. Só posso alcançar o amor pleno ao som de uma emoção, então ritme minhas falhas batidas, quero dessincronizá-las do ritmo que batia durante a partida dela, e sincroniza-las de novo àqueles momentos que me envolvi no que ela sentia-se já tão envolvida. Não é isso que ela queria?

E as luzes se embaralham, confundem meu olhar.

Que presente de mal grado seria este quadro mal pintado. Fecha os olhos, pensa melhor, pinta melhor, cadê a ti n  ta?

A

q

u

 i

Minha cabeça dói.

Acordei quase inteiro, procurando os lábios tão macios quanto meu travesseiro, mas a torcicolo gritava por noites mais bem dormidas. Que lembrança esquisita de achar que havia sentido um olhar me observar enquanto dormia. Que pesadelo, que euforia!, alguém realmente me observava no espelho enquanto eu dormia. Não podia ser, não era real; estava eu me deixando levar por um pensamento irracional? Era uma impossibilidade de texto por não haver pretexto. Era um sonho. Era uma maratona de pessoas em coma, uma ala de hospital.

Fecha os olhos, respira… Calma, calma.

Era eu, só eu. Bêbado, que se perdeu em pensamentos cinzentos, deixando-se levar pela falta de embasamento da realidade contida na sobriedade. Ainda está escuro lá fora, cadê meu celular? Nenhuma mensagem dela. Ainda estou sem futuro, e sem ela para conversar. Engraçado como era sempre ela que me ajudava na procura quando eu precisava me encontrar. Que clichê que cai, só percebendo o que perdi quando a mandei embora, muito embora ainda ache que alguma hora vou repetir o erro e piorar as coisas. Como é estúpida minha cabeça quando quero me resolver e o amor não me deixa progredir.

Quero entender como quero alguém que não quero, quero entender como sou sincero a mim mesmo e mesmo assim me desespero numa nostalgia de afetos, como reinterpreto Eu por Nós em meus pretéritos como se minhas memórias não fossem somente minhas para lembrar. Procuro respostas sob a luz do luar, querendo saber por que tudo girava sem parar, mas o silencio de bom grado ocupa por inteiro este lugar.

Estou só, comigo mesmo. Que assustadora realização.

Sinto que meus desejos não estão sendo atendidos, que alguém anda castrando minhas estrelas cadentes. Ou seriam decadentes? Decadentes sou eu, não as estrelas. Sinto a dor que sentiu o primeiro poeta que viu a beleza de sua amante refletir as estrelas. E apenas o primeiro, pois os segundos eram plagiadores baratos e ingratos às suas influências.

Que burro que sou. Ressentimento é um cruel sentimento, e eu não aguento senti-lo mais. E se eu dissesse-lhe como me sinto? Escrever-lhe em palavras o caminho para fora deste labirinto que me coloquei, para ela me encontrar no centro e me ajudar a traçar o caminho de volta para o lugar onde sempre confiei residir à paz.

É…

Sabe, as palavras correram de mim, e as tuas me prenderam ao chão. A liberdade foi colisão. Viciei em bebidas, ódio e pseudo-solidão. Racionalidade já não me é opção, e vejo que nem a emoção é escolha minha mais. Digo isso porque me desfiz de algo tão precioso que, ao perder, logo fui atrás. Não quero você ao longe, sabendo agora a falta que me faz. Estendo aqui a mão procurando teu toque, então não me fotografe com teus olhos lindos com um intencional desfoque. Parei sozinho para lembrar o que passou despercebido: este futuro que estraguei, que continha teu carinho e teus sorrisos. Mas embrulhei já aquela noite com minhas garrafas e copos e joguei-a do alto do meu edifício. E lhe digo: é difícil manter-se atrelado a ti, pois tivemos momentos que me atingiram como sendo impossível de viver e reviver, mas que possivelmente devo impor a mim mesmo de acreditar que há um jeito de continuar a crer que o benefício desta relação não é um fictício encanto que expirou por passar da data de validade.

Ao bater a porta e ir, você levou consigo a gravidade e deixou meus pensamentos flutuando em um vácuo inóspito que me fez questionar minha própria sanidade, e não faz ideia do quanto dói saber que não temos mais essa cumplicidade de sempre, e que a culpa é minha. De tempo em tempo vinha o medo: esse medo de se amedrontar. E ver essa bijuteria por vezes claustrofóbica no dedo só me incentivou a indagar mais sobre onde coloco minhas metas pessoais na vida a dois. E eu te imploro por me ajudar a organizar agora o que virá depois; não só entre nós dessa vez, mas comigo. E eu prometo retribuir o favor pensando o que virá contigo também. De mim nascerão asas, e das asas um plural; e como um anjo ao teu lado, te livrarei de todo mal.

Não levo tuas crenças a sério, mas confesso que me entretenho por todo o mistério que ainda perdura o que há além. E fazem bem, ao menos em você. Prometo de esta vez procurar entender o que você entende, mas não prometo entender. Mas acho que está de bom tamanho, para uma cabeça que só compreende o que está a sua frente e nada mais. Sabe, por tanto tempo pude voar facilmente, mas a puberdade atrofiou todos os meus superpoderes. Evoluí do sonho à realidade, e agora para voltar a sonhar devo obedecer a tantas formalidades, e chega a ser chato. Mas admito que as vezes você me leva a um lugar que não limita-se ao que há de se olhar, recheado de sentimentos com gosto de infância e palavras que desconhecem a nuança entre uma pálpebra carregada de sonhos e o olhar infindo do mundo palpável a minha volta.

E sua beleza de realeza, que já poetizei com tanta estupidez ao estar entretido por sua boca e por sua falta de roupa que não havia espelho, nem câmera, nem relances alheios, nem nada, que pudesse ver-te de maneira tão perfeita quanto meus olhos apaixonados com você iluminada sob o holofote intenso da lua; e que nem eu pudesse crer ter encontrado você, minha musa.

E eu me desculpo por tirar o azul do teu céu por uma noite. Já escondi minha memória do ocorrido para não lembrar mais onde ela está. Mas não te peço para esquecer também, peço para me perdoar, ou pelo menos tentar ver se pode me amparar de meus tormentos solitários com tantos dias lindos a fabricar ainda. Não deixe o tempo te envolver com a saudade que o luar vazio lhe traz, deixe-me te envolver com meu olhar e te lembrar de que você não precisa de nada mais além do que o que tínhamos, eu e você sob o brilho do luar.

Não minto ao dizer que agora sou um anjo, e que me escondo atrás de suas preces, aquelas tão difíceis de escutar. E de agora em diante, sempre que eu ouvir meu nome em uma delas, minha sombra não terá lugar para apoiar.

Farei de mim um anjo que retrai realidade para voar.

E com essa carta em minha mão, te esperarei em nosso lar,

onde cada piscada será eterna como horas a passar, e

aqui

jaz

o nosso

amor,

e além daqui

eu espero

te encontrar…

 

(E do alto de um prédio, ele tentou voar.)

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2 Respostas to “Conto: O Sub-Término do Consciente (Parte III)”

  1. Byra Dorneles 16 de dezembro de 2016 às 23:24 #

    Muito fodaaaa! Como diria uma cançao da Marina, me diz onde é que dói?
    abs

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