Manipulação, pós-verdade: quem são os heróis e vilões?

7 maio

por Marcos Alexandre

 

Falta representatividade ou diversidade nas versões televisivas e cinematográficas dos heróis?  Não há personagens negros que mereçam ser interpretados por atores negros ? Não é que não existam esses personagens, o que ocorre é que a maioria dos super-heróis são brancos. Como é branca a cor da pele da maior parte daqueles que detêm o poder econômico e midiático, enfim, os meios de produção.

Será que colocar uma atriz negra para interpretar a Valquíria (personagem nórdica nas histórias do Thor) contribui com a diversidade? O ator Idris Elba no papel de Heimdall mudou alguma coisa na mitologia nórdica? Heimdall é um mutante, o único negro entre os atores brancos representando alienígenas, nórdicos.

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A  personagem Valquíria e a atriz Tessa Thompson (Los Angeles, Califórnia, EUA, 1983-)

Deveria o Punho de Ferro, Daniel Rand – loiro de olhos azuis – ter sido interpretado por um ator oriental? Melhor seria então criar uma série do Mestre do Kung Fu, Shang Chi, e escalar um ator chinês e não japonês, coreano ou tailandês? Afinal, “São todos iguais”. Ou, se o papel é de nigeriano “qualquer negro serve”. Nem se pesquisa se a origem é banto, zulu, benguela, cabinda, tutsi, mali, apenas para citar alguns: “Mas são todos iguais, né ?!?”

Por outro lado tem que critique a escolha da atriz Scarlett Johansson para o papel principal de Ghost in the Shell, como se por se chamar Motoko Kusanagi, a personagem seja com toda a certeza, japonesa. Ora, o anime deixa claro que não há toda essa preocupação com etnias na história, ou melhor, não dessa forma simplória. Nunca se afirmou que Kusanagi é japonesa.

Betsy Braddock, a Psylocke da Marvel, era britânica (bom… é irmã do Capitão Britânia – Brian Braddock – que virou oriental ao passar pelo Portal do Destino em uma aventura dos X-Men (bons tempos, Chris Claremont lúcido e Marc Silvestri detonando nos desenhos) e inúmeros personagens têm em suas histórias de origem sua etnia bem definida. Então, devemos escalar um negro ou um oriental para interpretar Peter Parker? Ora, já não temos um Miles Morales? Vamos colocar um ator negro para interpretar um Homem-Aranha branco e um branco para interpretar um Homem-Aranha negro? Mas tem um Homem-Aranha negro?

Falta de coragem dos estúdios para apostar em heróis negros, orientais, deficientes, gays, magrelos, gordos, ou seja, diversos? Que bom seria representar as minorias, não é? Miles Morales, só para pincelar, é uma versão do Homem-Aranha do Universo Ultimate da Marvel, criado por Brian Michael Bendis e trata-se de um menino filho de pai negro e mãe latina (os latinos, para os norte americanos são os descendentes de cubanos, porto-riquenhos, etc, etc) e é fantástico! Ser negro/latino faz parte da personalidade dele, faz parte da história. Assim como Kamala Khan, a Miss Marvel, que é paquistanesa e muçulmana não deveria ser uma atriz branca, se realmente formos discutir a inclusão de minorias. Assim como o novo Lanterna Verde, Simon Baz, muçulmano, libanês-americano. E você vai lá e coloca um ator branco para interpretá-lo? E a diversidade?

Não que o ator não possa “representar” uma personagem de outra cor de pele, nacionalidade, religião, etnia. Mas imagine T’challa, o Pantera Negra, Rei de Wakanda, a mais avançada nação do continente africano, tendo a oportunidade de ir para as telas do cinema, sendo interpretado por um ator branco, mesmo que fosse o melhor ator do mundo! Bons personagens negros estão aí desde os anos 60, 70 (falando de super-heróis, mais especificamente Marvel e DC Comics). Veja Luke Cage, funciona. Veja Blade, também funciona. Veja Nick Fury nos Vingadores e no excelente Capitão América: Soldado Invernal (até agora pra mim, o melhor filme da Marvel em questão de roteiro, ação e lutas, seria um filme digno de qualquer personagem, não só do Capitão).

O Kung-Fu, nos anos 70, acabou sendo estrelado por David Carradine (branco) no lugar de Bruce Lee (!) porque os produtores tinham medo do seriado não ser bem-recebido pelo público. Lee, o maior artista marcial de todos os tempos, que já roubava a cena na série do “Besouro Verde” como o motorista Kato, ficou profundamente magoado. Ele havia ajudado a desenvolver a ideia original. Mais ou menos como no filme Redbelt, com Chiwetel Ejiofor, que com uma metáfora, conta a história do nascimento do UFC (Rickson e Rorion Gracie X Dana White, com ressalvas). Pelo menos, o sucesso de Bruce Lee nos cinemas o permitiu dar a volta por cima e provar que o público não está nem aí para a cor da pele do herói se o programa for realmente bom.

Finalmente, ver séries como Luke Cage (que teve muita firula) da Netflix e agora Raio Negro (Jefferson Pierce), da HQ dos Renegados (grupo que Batman fundou quando brigou com a Liga da Justiça nos anos 70) de heróis negros interpretados por atores negros, não é favor dos produtores, mas do reconhecimento da realidade. Ora, a população negra é expressiva nos EUA e no Brasil (ainda que a autodeclaração não seja). Ainda há muitos que se acham “pardos”, “moreninhos”, “escurinhos”, até mesmo brancos e muitos não vejam razão para declarar-se “afrodescendentes”. Não dá para ignorar essa realidade.

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Raio Negro, criado por Tony Isabella e Trevor Von Eden para a DC Comics (que não é o dos Inumanos da Marvel, esse é Blackagar Boltagon – Black Bolt no original) é Black Lightning no original em inglês – trata-se de um professor que desenvolve poderes elétricos. Nas HQs, ele chega ao posto de Secretário da Educação quando Lex Luthor é eleito presidente dos EUA, mas nos quadrinhos Lex também foi presidente. Ele tem duas filhas, uma adolescente e outra adulta, Rajada e Tormenta (em português), ambas com super-poderes (controle de gravidade e emissão de eletricidade, que podem ainda mudar, na série da mesma produtora das aventuras de Supergirl, a CW).

Representante do black power, do blaxploitation dos anos 70, Raio Negro usava uma cabeleira meio Luke Cage no início, mas hoje raspa o cabelo, a zero (dizem que ele estava ficando careca) e a série pretende mostrar as aventuras do herói, interpretado pelo ator – negro Cress Williams, em um bairro pobre enquanto cria as filhas, uma delas, cursando faculdade de medicina. Pode ser algo muito interessante, vamos ver. Mas se minhas preces fossem ouvidas, eu queria mesmo é ver uma série de um adolescente negro com seu amigo branco nerd (que mais tarde se revelaria gay), o grande Virgil Hawkins, nada mais, nada menos que o Super-Choque (Static)!

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