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Série Reflexões sobre o Anarquismo IV: a militância de Fábio Luz

18 set

Por Jozy Lima

 


Venho transmitir como posso e o que posso, aos que na conquista do pão não dispõem de tempo suficiente para estudar. Leio para eles e por eles. Com eles converso sobre coisas de ciência e em boa camaradagem passo algum tempo. (Fábio Luz, SPARTACUS, 4 out.1919)

 

Para Fábio Luz, a propaganda era quase tudo. Tinha poderes de forjar mentes e atitudes. Por isso, fazer propaganda, nesta época, significava fazer uso da pena, onde quer que fosse possível – para operários, burgueses, intelectuais e etc.

Era comum quando escrevia crítica literária, inserir parágrafos dedicados a algum aspecto do pensamento anarquista ou crítica à sociedade capitalista. Mas sem dúvida, o espaço preferido era a imprensa. Sua perspectiva era de que os libertários deveriam centrar seus esforços na imprensa operária e criar sua própria imprensa, para fazer frente à imprensa dominante. Dizia Fabio Luz:

A imprensa diária, isto é, o jornalismo como indústria e meio de exploração, tem sido um dos maiores obstáculos às nossas idéias de liberdade. Sempre em mão adversárias, mentindo ao seu público, deturpando teorias, falsificando verdades, educando seus leitores no fetichismo e na idolatria dos poderosos do dia. (Fábio Luz, SPARTACUS, 9 ago. 1919)

Gontran Guanaes Netto, desenho/escrita, Série Figuras do Real, 1980

O domínio exacerbado da imprensa e suas visíveis manipulações fizeram com que Fábio Luz fundasse os periódicos A Luta Social e Revolução Social. Esforços para romper com a hegemonia da informação, já que a imprensa oficial – a filha de Gutemberg – foi transformada em prostituta. O grande invento havia sido corrompido pelo dinheiro:

 

Transformada em periodismo, prostitui-se e começou a educar-se na arte de agredir, na arte venal e corruptora de reverter e envenenar as consciências dos escribas e dos leitores. (Fábio Luz, SPARTACUS, 1919)

 

Segundo o historiador Nicolau Sevcenko, esse foi um período que o jornalismo impôs uma vigorosa padronização à linguagem, chegando mesmo ao sufocamento da originalidade dos autores e contribuindo para a banalização literária.  (Sevcenko, 1983, p. 100)

Quando Fábio Luz chegou aos 70 anos – solidificados por uma militância anarquista, seus livros, novelas, contos encontraram abrigo na Academia Carioca de Letras. Mas a sua lucidez anarquista frente ao abrigo de sua pena sempre deixou claro que não seria um membro como os outros. Sua condição de militante anarquista faria grande diferença. Em seu discurso de posse, Fábio Luz, em sua consciência brada a Palavra e a Pena:

Esta cadeira é para mim um leito de Procusto e se me antolha como cadeira elétrica, mas onde não se obumbrará minha personalidade literária, libérrima de anarquista. Refratário que sou a regulamentos, códigos, constituições, serei um mau companheiro, insubordinado, não consentido que minha individualidade seja absorvida pela função coletiva da academia. (Fábio Luz, 8 jan. 1935)

Fábio Luz morreu em 1938. Pouco antes de seu falecimento Luz deixou registrada à sua memória – cultura intelectual e material – remetidas a nomes como Edgard Leuenroth, Rodolf Felipe, Maria Lacerda de Moura, Neno Vasco, Izabel Cerruti entre outros.

 

 

Referências:

LEUENROTH, E. Anarquismo: roteiro libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1962.

LIMA, J. T. A palavra e a pena: dimensões da militância anarquista de Fábio Luz (Rio, 1903/1938) São Paulo, PUC, dissertação de mestrado, 1995.

LUIZZETTO, F. Letras Rebeldes: escritores brasileiros e o anarquismo no início do período republicano. In: Teoria e Pesquisa, n. 3. Departamento de Ciências Sociais da UFSCar, dez. 1992.

LUZ, F. Ideólogo. Rio de Janeiro: Altina, 1903.

LUZ, F. Os Emancipados. Lisboa: Clássica Editora, A. M. Teixreira e Cia., 1906.

LUZ, F. A Paisagem no Conto, na novela e no romance. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia., 1922.

LUZ, F. Nunca: o soldado e cântidos da aurora e do crepúsculo. Rio de Janeiro: Leite & Ribeiro, 1924.

LUZ. F. Ensaios. Rio de Janeiro: Tipografia São Benedito, 1930.

LUZ, F. Dioramas. Rio de Janeiro: Ravaro, 1934.

OITICICA, J. Ação direta. Rio de Janeiro: Germinal, s/d.

OITICICA, J. A doutrina anarquista ao alcance de todos. São Paulo: Econômica Editorial, 1983.

RODRIGUES, Edgar. Os Libertários: idéias e experiências anárquicas. Petrópolis: Vozes, 1988.

RODRIGUES, Edgar. O Anarquismo na Escola, no Teatro, na Poesia. Rio Janeiro: Achiamé, 1992.

SEVCENKO, N. O Fardo do Homem Culto. In: Revista de Cultura Vozes, n. 9, novembro, 1980.

SEVCENKO, N. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1989.

 

Observações:

(*) Sobre o artista  Gontran Guanaes Netto

(**) outras referências bibliográficas nos textos I, II e III da Série Reflexões sobre o Anarquismo.

(***) Edição e seleção de imagens da Série Anarquismo por Gisèle Miranda.

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Série Reflexões sobre o Anarquismo III: a militância de Fábio Luz

10 set

Por Jozy Lima


É exatamente contra a miséria, o sofrimento, a fome, os desesperos da maioria dos homens, esmagados por uma minoria sem alma, que insurgem os bons espíritos, os corações bem formados, as almas sensíveis… (Fábio Luz, 12 ago. 1922)

Gontran Guanaes Netto, desenho- escrita, Série Figuras do Real, 1980

Fábio Luz foi muitas vezes criticado por ser um burguês. Jamais negou vir de uma família de relativas posses quando comparado aos miseráveis. Essa questão das origens sociais do militante deve ser compreendida no âmbito  das teorias e idéias sociais do século 19.  Os anarquistas, dizia ele, não fazem votos de pobreza. Não era preciso ser maltrapilho, sem lar e sem pão para ser solidário com a dor humana.

Sim, Luz era um homem de letras, médico e funcionário público. Houve um encontro entre ciência e militância anarquista que foi o mote para sua literatura. Seus personagens refletiam uma realidade social: focos de infecção física e moral, mal estar do povo, mal estar das instituições, mistura de lama e sangue, convulsões de miséria. Sua palavra/oratória buscava os 80% da população, nas portas das fábricas, nas ruas. Sua pena lutava incessantemente pelos 20% de letrados.

Depois de ter escrito o Ideólogo (1903, referenciado no texto anterior), Fábio Luz escreveu Os Emancipados (1906) – dando continuidade as discussões sobre a sociedade e sua miserabilidade, tendo sempre no núcleo de seus personagens principais as diferentes classes sociais. Alípio era um desses personagens.

Alípio tenta convencer o pai a lhe dar parte da herança de família para por em prática seus ideais libertários. Contesta a opinião do pai que o aconselha a despojar-se da riqueza e do conforto e viver como um operário. Mas Alípio contra argumenta:

Como aconselha que me despoje das armas que posso lutar? Preciso do armamento igual ao do adversário. É necessário o livro, é indispensável a imprensa para a propaganda. Sem livro, sem imprensa, sem educação… como tentar a santa cruzada de reivindicação, de justiça e equidade? (Luz, 1906, p. 153-154)

São Emancipados os libertos de preceitos, os que conquistaram a liberdade intelectual. A fórmula aplicada pelos Emancipados era de que cada um conforme as suas capacidades e cada um de acordo com suas necessidades.

Nesse sentido, Luz encarnava em sua prática militante a figura intelectual que colocava seu saber a serviço de um ideal, de uma causa e não apenas de uma classe.

A atividade literária de Fábio Luz trouxe também a marca da arte como função social. Sua criação literária estava aliada à crença de que através das manifestações artísticas é que se conhece o povo. Pela arte se conhece um povo e seu desenvolvimento material.


Referências:

(*) Sobre o artista Gontran Guanaes Netto:  http://bit.ly/bB8LFG

BOSI, A. A História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1975.

CARVALHO, E. de. História de um Cérebro. Rio de Janeiro: Tipografia Besnard Freres, 1905.

CARONI, E. Movimento Operário no Brasil (1897-1914). Rio de Janeiro: DIFEL, 1979.

DULLES, J. W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil, 1900-1935. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

FAUSTO, B. Trabalho urbano e conflito social. São Paulo: Difel, 1976.

FENELON, D. R. Trabalho, cultura e história social. Revista Projeto História, São Paulo: EDUC, jun. 1984.

KHOURY, Y. M. A. A poesia anarquista. In: Revista Brasileira História. São Paulo: Marco Zero, v. 8. 15, set. 1987- fev. 1988.

LEUENROTH, E. Anarquismo: roteiro libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1962.

LIMA, J. T. A palavra e a pena: dimensões da militância anarquista de Fábio Luz (Rio, 1903/1938) São Paulo, PUC, dissertação de mestrado, 1995.

LUIZZETTO, F. Letras Rebeldes: escritores brasileiros e o anarquismo no início do período republicano. In: Teoria e Pesquisa, n. 3. Departamento de Ciências Sociais da UFSCar, dez. 1992.

LUZ, F. Ideólogo. Rio de Janeiro: Altina, 1903.

LUZ, F. Os Emancipados. Lisboa: Clássica Editora, A. M. Teixreira e Cia., 1906.

LUZ, F. A Paisagem no Conto, na novela e no romance. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia., 1922.

LUZ, F. Nunca: o soldado e cântidos da aurora e do crepúsculo. Rio de Janeiro: Leite & Ribeiro, 1924.

LUZ. F. Ensaios. Rio de Janeiro: Tipografia São Benedito, 1930.

LUZ, F. Dioramas. Rio de Janeiro: Ravaro, 1934.

OITICICA, J. Ação direta. Rio de Janeiro: Germinal, s/d.

OITICICA, J. A doutrina anarquista ao alcance de todos. São Paulo: Econômica Editorial, 1983.

RODRIGUES, Edgar. Os Libertários: idéias e experiências anárquicas. Petrópolis: Vozes, 1988.

RODRIGUES, Edgar. O Anarquismo na Escola, no Teatro, na Poesia. Rio Janeiro: Achiamé, 1992.

SEVCENKO, N. O Fardo do Homem Culto. In: Revista de Cultura Vozes, n. 9, novembro, 1980.

SÜSSEKING, F. As revistas de ano e a invenção do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

Série Reflexões sobre o Anarquismo II: a militância de Fábio Luz

5 set

Por Jozy Lima

 


Fábio Luz nasceu e viveu no interior da Bahia (Valença), e cursou medicina em Salvador entre 1883-1888, ou seja, numa sociedade monárquica e escravista. Por conta disso foi ativo abolicionista e republicano:

… constrangido quando observava a miséria, os sofrimentos e humilhações impostos pelos policiais negros aos seus semelhantes. O Estado, o Império, apareciam-me como responsáveis por estes atos de desumanidade. Esse entendimento fez nascer em mim aspiração de uma forma de Governo que fosse mais humano e igualitário.

Supus que a República democrática realizaria esse ideal e me tornei republicano apesar do decreto que pôs fim à escravidão ter sido aprovado pela Monarquia, forçada pela propaganda que o povo fazia. Enganei-me. Comecei então a preocupar-me com a questão econômica e a má distribuição da riqueza social, criada pelo trabalhador, dinamizada pelos exploradores e açambarcada pelos capitalistas. (Fábio Luz. In: Rodrigues, 1988, p. 208)

NERY, Emmanuel, Denominador comum, 1986 acrílico s/ tela 100 x 65 cm.

 

Pela prática médica vivenciou um período epidêmico no Rio de Janeiro que vinha desde final do século 19. Associado a isto, estudou com afinco sobre o comunismo libertário do pensador anarquista Peter Kropotkin (1842-1912) e, inevitavelmente, os vetores do movimento anarquista europeu, tal como Elisée Reclus (1830-1905) e Malatesta (1853-1932).

Porém, foi com Kropotkin que Fabio Luz mais se aproximou; o que resultou em uma antologia crítica literária denominada Dioramas, sobre o espírito libérrimo, um tanto o quanto iconoclasta, rebelde e revolucionário.

Fábio luz como médico retratou a reação da população pobre às campanhas de saneamento, às inspeções nas habitações e, as epidemias que vinham ocorrendo no estado do Rio de Janeiro desde o final do século 19.  Dedicando várias páginas para mostrar a violência, a truculência com que eram tratados os suspeitos de doenças contagiosas, por aqueles que eram encarregados da higiene.

Quando Fábio Luz escreveu o Ideólogo –  criou o personagem Anselmo – um abolicionista, republicano e de origem burguesa.

Anselmo era um advogado que atuava na defesa de miseráveis, por entender que as injustiças sociais – fruto do egoísmo burguês – eram responsáveis pelas atitudes tidas como criminosas – daqueles que foram privados do pão como alimento e do pão espiritual. Como advogado conhecia e rechaçava o sistema penitenciário – acostumado que estava a visitar a Casa de Detenção, dizia: filhos da miséria, vítimas do capitalismo. Anselmo aproximou-se dos operários atuando como tipógrafo e jamais desistiu de divulgar suas idéias anarquistas em seu próprio meio social.

Enquanto construía sua literatura social na livraria Garnier, ponto de discussões sobre a passagem do Império à República, Fábio Luz também esteve envolvido na proposta da Universidade Popular e vivenciava a insalubridade da capital.

Naquela época, o seu olhar de médico era para o foco endêmico da varíola, tuberculose, malária, febre tifóide, lepra, escarlatina e, sobre tudo, a terrível febre amarela. Por outro lado, a modernização da área portuária da cidade do Rio de Janeiro e a construção da Avenida Central tomaram o curso das obras encampadas por Pereira Passos (prefeito na época), cujos desdobramentos implicaram num processo de limpeza do centro da cidade com a expulsão da população pobre.

Fábio Luz – como médico – admitia as medidas sanitárias que eliminassem o quadro de epidemias que vitimou a população da cidade. Entretanto, discordava dos métodos aplicados: a obrigatoriedade, a truculência, a violência e a invasão de privacidade que semeava o pânico. Entendia que as resistências sociais às medidas sanitárias:

era  o povo que se levantava para defender sua liberdade, em titânicas e ferozes convulsões. E quando o povo chega a essa alta compreensão de seus direitos, ponha-lhe os diques que quiserem, que ele como torrente impetuosa fará a enchente atirando os obstáculos por terra. (Fábio Luz, 1924, p. 76-77)

Referências:

ARVON, H. El Anarquismo en el siglo XX. Madrid: Taurus, 1979.

BAKUNIN, M. Escrito contra Marx. Brasília: Novos Tempos, 1989.

BOSI, A. A História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1975.

DAVIS, N. Z. Culturas do Povo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

DULLES, J. W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil, 1900-1935. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

FAUSTO, B. Trabalho urbano e conflito social. São Paulo: Difel, 1976.

FENELON, D. R. Trabalho, cultura e história social. Revista Projeto História, São Paulo: EDUC, jun. 1984.

GUERIN, D. Anarquismo. Rio de Janeiro: Germinal, 1968.

KHOURY, Y. M. A. A poesia anarquista. In: Revista Brasileira História. São Paulo: Marco Zero, v. 8. 15, set. 1987- fev. 1988.

LEUENROTH, E. Anarquismo: roteiro libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1962.

LIMA, J. T. A palavra e a pena: dimensões da militância anarquista de Fábio Luz (Rio, 1903/1938) São Paulo, PUC, dissertação de mestrado, 1995.

LUZ, F. Ideólogo. Rio de Janeiro: Altina, 1903.

LUZ, F. Os Emancipados. Lisboa: Clássica Editora, A. M. Teixreira e Cia., 1906.

LUZ, F. Nunca: o soldado e cântidos da aurora e do crepúsculo. Rio de Janeiro: Leite & Ribeiro, 1924.

LUZ, F. Dioramas. Rio de Janeiro: Ravaro, 1934.

MAGALHÃES, Jr. A Vida Vertiginosa de João do Rio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, INL, 1978

MAGNANI, S. O Movimento Anarquista em São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1982.

OITICICA, J. Ação direta. Rio de Janeiro: Germinal, s/d.

RAGO, L. M. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

RODRIGUES, Edgar. Os Libertários: idéias e experiências anárquicas. Petrópolis: Vozes, 1988.

RODRIGUES, Edgar. O Anarquismo na Escola, no Teatro, na Poesia. Rio Janeiro: Achiamé, 1992.

SÜSSEKING, F. As revistas de ano e a invenção do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

WOODCOCK, G. Os Grandes Escritores Anarquistas. Porto Alegre, LPM, 1986.

* Sobre o artista Emmanuel Nery: http://bit.ly/9WxuXm

Jornais:

LUZ, F. Elysio de Carvalho, ALMANAQUE GARNIER, 1907.

LUZ, F. No Ser Papel, REVOLUÇÃO SOCIAL, 2 jun. 1923.

LUZ, F Pontos nos ii, SPÁRTACUS, Ano I, out, 1919.

LUZ, F. Comunismo Libertário, A PLEBE, out., 1934.

Série Reflexões sobre o Anarquismo I: a militância de Fábio Luz

2 set

Por Jozy Lima

 


A livraria Garnier era um reduto de intelectuais que mais se assemelhava a um centro de estudos, além de uma editora de expressão na efervescência cultural do começo do século 20, na cidade do Rio de Janeiro. Lá se publicavam livros de José de Alencar, Machado de Assis, e os desconhecidos também, tal como Fabio Luz (1).

 

Livraria Garnier inaugurada em 1844, à rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, na antiga capital da República (foto s/ ref.)

 

Fábio Luz trouxe a discussão temas como sexualidade, educação libertária, voto nulo, poder, autoridade, entremeados a textos de Proudhon, Bakunin e Malatesta para compor o pensamento libertário numa ação direta dos indivíduos, excluindo e negando a tradicional política institucional e a lógica partidária.

Luz esteve frente ao pensamento anarquista – através de seus registros de imprensa, peças de teatro, de literatura, dos relatos aos militantes, das propostas educacionais (2) e dos eventos culturais do movimento operário (anárquico sindicalista) que germinou no movimento anarquista.

Como historiadora recorri ao Arquivo Edgard Leuenroth (1861-1968), da UNICAMP – criado para abrigar o acervo da militância  anarquista, além de permitir aos pesquisadores recuperar as mais diferentes facetas do anarquismo no Brasil.

É um acervo de livros, revistas, jornais, folhetos, panfletos, fotografias, material recolhido ao longo da trajetória de Leuenroth por nomes como Boris Fausto, J. Dulles, Francisco Foot Hardman, Flavio Luizzetto, Edgar Rodrigues (3), além de fontes, romances, e publicações na imprensa operária entre Rio de Janeiro e São Paulo; são eles: Spartacus, Revolução Social, A Voz do Povo, A Plebe, Inimigos do Rei, Víbora, Libertárias.

 

 

Fábio Luz foi considerado um burguês intelectual que fazia de sua literatura um veículo de militância e propaganda anarquista.  Entre a palavra e na pena , a utopia, a rebeldia sobre o que chamava dos ´males da sociedade: alcoolismo, cocainismo, sifilismo – frutos da desorganização social e do capitalismo açambarcador´.

Através da palavra e da pena, Fábio Luz percorreu o oral e o escrito do comunismo libertário – movimento anarquista europeu de Kropotkin e Elisée Reclus, e pela crença na ciência e na educação como fatores de libertação intelectual, o que invariavelmente, segundo Luz, levaria a formação da mentalidade anárquica.

O lugar dos anarquistas na historiografia brasileira foi, durante muito tempo, o movimento operário e sindical. Este lugar foi demarcado pela historiografia dos anos de 1960-70, voltado para os estudos dos trabalhadores no capitalismo, prioritariamente, pelo viés de seus movimentos organizados. É fato, que o anarco-sindicalismo ou sindicalismo revolucionário – para usar uma expressão da época – teve forte influência no meio operário e sindical das primeiras décadas século 20. Entretanto outras possibilidades ficaram ofuscadas e são necessários estudos que ampliem o foco sobre a questão.

 

 

 

 

[1] Fábio Lopes dos Santos Luz, nasceu em Valença, ao Sul da Bahia em 1864, onde passou infância e adolescência , tendo ido para Rio de Janeiro, em 1888, para exercer as funções de médico e inspetor escolar – posições estas que lhe atribuíram certa imunidade para atuar como militante anarquista, contudo, identificado criminalmente na polícia por delito de opinião, como subversivo em uma das ditaduras quatrienais da República Brasileira.

[2] Para Fábio Luz: nenhum regime social, pode contar, para sua execução, com a grande maioria de analfabetos nem com os analfabetos que sabem ler.  (final do século 19, e início do século 20 – analfabetismo de 80% na sociedade brasileira)

[3] Referências outras: Francisco Foot Hardman, Flavio Luizzetto, Domingos Ribeiro Filho, Avelino Fóscolo, Giuseppina Sterra, Flora Sucsekind, Nicolau Sevcenko, Jeffe Needell, Curvelo de Mendonça.

Sugestão livraria Garnier http://bit.ly/agPAlY

 

 

Referências:

BAKUNIN, M. Escrito contra Marx. Brasília: Novos Tempos, 1989.

DULLES, J. W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil, 1900-1935. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

FAUSTO, B. Trabalho urbano e conflito social. São Paulo: Difel, 1976.

FENELON, D. R. Trabalho, cultura e história social. Revista Projeto História, São Paulo: EDUC, jun. 1984.

GUERIN, D. Anarquismo. Rio de Janeiro: Germinal, 1968.

KHOURY, Y. M. A. A poesia anarquista. In: Revista Brasileira História. São Paulo: Marco Zero, v. 8. 15, set. 1987- fev. 1988.

LEUENROTH, E. Anarquismo: roteiro libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1962.

LIMA, J. T. A palavra e a pena: dimensões da militância anarquista de Fábio Luz (Rio, 1903/1938) São Paulo, PUC, dissertação de mestrado, 1995.

OITICICA, J. Ação direta. Rio de Janeiro: Germinal, s/d.

RAGO, L. M. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

SÜSSEKING, F. As revistas de ano e a invenção do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

primeira edição lançada em 9 de junho de 1917
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