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WARGASMO, parte II (2015)

20 out

por Byra Dornelles

 

EU PRETIRO

Eu sonhei que nos deitávamos de lado, assim, e nos beijávamos. Senti o cheiro de
sua boca no sonho, seu hálito de chá de erva cidreira. Eu não deveria sonhar com você e acordei culpado.

Parece falso dito desse jeito. E você falava no sonho que eu andava bebendo demais. Poderia beber pelo caminho, mas não queria que ela pensasse que eu andava bebendo mais que o normal, diário, quatro latas de cerveja, mas eu andava bebendo sim. Não queria que ela pensasse que eu andava me alimentando mal e eu e andava sim.
Ela tentava me incluir num certo acerto de contas com o real inábil e farposo. Sonhar com ela nos beijando num sonho real, numa cama e num apartamento real.

Parece falso sim, dito, desse jeito. No sonho eu não facilitaria as coisas por cegueira dela, o cruel era a palavra verbalizada por mim, no sonho e no dia a dia nosso que havia terminado há anos.

Eu amava tudo que doía nela. E o verbo era mal? Mas o silencio também. Nossos últimos meses foram pautados pelo silencio, discutíamos política e comportamento o tempo todo e ela balançava a cabeça quando eu me dizia revolucionário, talvez ela não merecesse sofrer aquela dor.

 

 

Heen Kim, s/ título, s/d.

Heen Kim, s/ título, s/d.

 

Eu amava tudo que doía nela, feito um Wargasmo, um orgasmo bélico e cruel.

Não costumo subestimar as pessoas e nem os possíveis adversários, respeito.

Eu via o mundo inteiro nas suas lágrimas, no sonho, mas eu já estava tão longe.

 

(Baseado em Caio Fernando Abreu)

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WARGASMO, parte I

2 out

Por Byra Dornelles

 

Não sei!

(Minha era tem necessidade de Violência!)

Na primeira vez eu escondi algumas latas de cerveja, começou assim.
Depois comecei a mascarar meu cheiro e hálito de álcool com hidratantes na madrugada.

Escondi uma garrafa de vinho vazio , outra de uísque e quando percebi eu não era mais eu. Estava me escondendo pelos cantos, fingindo, me malocando, coisa que eu sempre abominei. Cheguei a sonhar que acordava de barriga pra cima e feito personagem de Kafka não conseguia me virar. Noutro sonho dizia que ia morar novamente com minha primeira ex-mulher: tudo sonho persecutório. Não. Eu não amava mais nenhuma delas.

Eu sabia que fugíamos de uma conversa mais íntima,mas eu evitava esse aproach. Sabia que ela e eu  tínhamos  tantas palavras que não poderíamos dizer.
Sim. Quando eu a conheci as palavras eram grandes, amor, viagens pelo planeta, amizade, criar filhos e livros.

Sabia também que sua vida estava repleta de fantasias, com um filho de dois anos tinha planejado montes de sonhos, devaneios, ir pra Paris, Buenos Aires, qualquer lugar que não lembrasse sua formação rural , também outro sonho persecutório, sua contradição em viver na maior cidade da América  do Sul e ser oriunda de uma cidade que nem água havia mais mas o orgulho rural permanecia em choque com seus cosmopolitismo. Geo narcisismo.

Não se pode fugir do seu destino, quando você não tem noção do que poderia ser o novo, quando não se sabe o que é o novo, como explicar pra um cego as cores ou o som sussurrado pra um surdo. Não. Queria que ela voltasse a realidade e me escutasse ou me visse pelo menos.

byra 1

Henn Kim, s/ título, s/data.

Ela me amou pela minha poesia, pela crueldade, e eu não hesitaria em destrui-la sem compaixão. De verdade. Ela adorava minha capacidade em magoar, se tornou um vicio.

Ela não queria ouvir meus argumentos de drop’n out, eu sempre o freak insano, ela abanava a cabeça e dizia: ‘temos um filho´.

Ela não sabia e duvidava que a qualquer momento outra mulher vai tomar minha experiência e me amar pela minha dureza demoníaca e se somará a si.

E isso, obviamente aconteceu 15 meses depois.

Não. Eu não amava mais nenhuma delas, até então conhecer a minha antítese, minha contrária tradução e sedução!

Série: O Barroco no Brasil e a vertente européia, parte III

13 jun

Por Gisèle Miranda

 

A música vem em parte da tradição oral vinda dos excluídos ou de populações sem acesso à escrita*. E a música Sacra vinda dos eruditos, em grande parte dos religiosos – que nesse contexto histórico ganhou contornos diferenciados, ou seja, à maneiradamelodias irregulares, ritmos quebrados chegando à harmonia mais extravagante do Barroco em uma polifonia composta por coros.

Nos coros houve participações de indígenas inerente ao processo de catequização que surpreendeu às ordens religiosas – uma apuração sonora de grande sensibilidade auditiva ligada à natureza.

Com relação aos desenhos, o viajante mercenário Hans Staden (Homberg, Alemanha, c. 1525 – Wolfhagen, Alemanha, c. 1576)[1] é o exemplo mais próximo dessa primeira fase e o mais conhecido por registros de indígenas –  numa estética fantasiosa.

 

Outros viajantes artistas também vieram, tais como Frans Post (Haarlem, Holanda, 1612- idem, 1680) e Albert Eckhout (Groninga, Holanda, c. 1610- idem c. 1666), e legaram pinturas de paisagens próprios do Barroco Laico, ao pintaram a fauna, flora e frutas, sem se aterem aos aspectos religiosos. [2]

 

Os retratos, os mitos, paisagens e a natureza-morta (flores, frutas) eram usuais no Barroco Laico, enquanto as imagens religiosas abundaram em gestualidades persuasivas e bem aportadas ao horizonte colonial (espanhol e português) denominados de Barroco Periférico, e com uma história à parte pela criação de um Barroco Mineiro feito por artesãos.

O ofício do artista não era reconhecido no Brasil para negros e mestiços, então eram denominados de mestres. Antonio Francisco Lisboa, o mestre Aleijadinho (Vila Rica, MG, 1738 – Ouro Preto, MG, 1814) era mulato, filho de escrava e pai português, assim com o também não foram reconhecidos em vida outros grandes nomes como Mestre Valentim da Fonseca e Silva (Serro, MG, c. 1745 – Rio de Janeiro, RJ, 1813), também mulato, filho de uma escrava com um português; Mestre Inácio Ferreira Pinto (Rio de Janeiro, RJ, 1765 – idem, 1828), tudo indica que fosse mulato, pois seu batismo não constava dos brancos, nem dos libertos. E Mestre Manuel da Costa Ataíde (Mariana, MG, 1762 – idem, 1830), filho de portugueses e com mais respeitabilidade por ser branco. [3]

 

Aleijadinho foi precursor e o grande nome do Barroco Mineiro. Apesar de sua ascendência escrava, Aleijadinho e outros tiveram acesso a produção de artistas que encantaram o Renascimento através das gravuras (reproduções) que chegaram através dos viajantes. Aleijadinho foi um fã dos trabalhos do artista do Quattrocento Italiano Lorenzo Ghiberti (Pelogo, Itália, 1378 – Florença, Itália, 1455).

Todo o reflexo do Barroco das Minas Gerais no século 18, teve a base da imaginação e da alegoria que eclodiu nos séculos 16 e 17 na Europa e nos países baixos. Mas com princípios muito particulares exacerbados pelo ouro das Minas Gerais, a ponto de ser reconhecido pela História da Arte como um Barroco genuíno. O Barroco Mineiro tão belo ou mais que o Barroco Europeu.

 

Os grandes mestres brasileiros do Barroco do século 18 conheciam os objetos do Barroco Religioso Europeu, vistos nas igrejas na Bahia, no Rio de Janeiro e no Recife desde o auge do Barroco Periférico do século 17. Em temporalidades distintas, e de adaptações culturais construíram elementos particulares, em princípio à margem, mas depois aplaudidos pela história da arte.

Segundo José Gomes Machado (2003) há um Barroco luso brasileiro de posições contrárias ao Absolutismo.[4] Sabendo que o Barroco Europeu foi fruto das monarquias absolutistas, mas em meados a final do século 18 passou por diversos reveses pelas revoluções.[5]

No entanto, o Brasil Colônia do século 18 ecoou no Iluminismo e adentrou através do Marques de Pombal ao assumir inúmeras reformas, dentre elas, a expulsão dos jesuítas da colônia em 1759, além de acabar com a discriminação aos cristãos novos (judeus) e proibição da escravidão indígena. O contexto histórico também confluiu em repercussões na Conjuração Mineira em 1789 [6], além do impacto da Revolução Francesa.

Ligado a essa figura imponente do Marques de Pombal, cabe destacar a valorização dos azulejos artísticos. Antes de vir para o Brasil, Pombal foi deveras importante na reconstrução de Lisboa e Algarves, em 1755, quando houve o terremoto (além de incêndio). Todo o projeto de reconstrução foi calcado em larga escala nos azulejos, que por sua vez foram pintados como nunca, para recontar a história dessas cidades que sofreram com a destruição. [7]

Os azulejos sempre foram usados artisticamente em Portugal e repassados ao Brasil como parte artística do estilo Barroco ao Rococó. Mas no século 17, os azulejos não eram tão vastamente desenhados como no século 18, ápice da economia do ouro das Minas Gerais. Os azulejos passaram a compor um contexto exacerbado de signos, através de muitos santos, talhas douradas, revestimentos de ouro, prata, objetos litúrgicos, pinturas etc., do Barroco ao Rococó.

Há exemplos da vista da cidade de Lisboa pintado nos azulejos na Sacristia da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, Salvador, Bahia, no século 18; e no claustro há um outro painel de azulejos figurados do Convento de São Francisco com a inscrição latina “Concordia Populi Insuperabilis” – Pela Concórdia o povo é invencível. (Tirapelli, 2005)

Os holandeses também foram adeptos ao uso dos azulejos, mas em geral com menos figuras humanas, ressaltando a vestimenta típica dos países baixos; ou formas geométricas comumente usadas na Europa Oriental. Esses azulejos são vistos no Convento Santo Antônio, no Recife, que tem um acervo datado de 1660; e há uma cúpula revestida de azulejos de padrões mouriscos em três cores datados de 1780.[8]

 

Em tese, O Barroco europeu se desfez pelo Neoclassicismo no século 19, buscando o retorno da estética do Renascimento, ou seja, o Clássico na estruturação da cultura figurativa sobre o modelo antigo… de um historicismo heroico e moralista. (Argan,1999, 283)

No Brasil, o Neoclássico chegou na colônia alterando o vetor artístico à outra fase colonizadora, ou seja, com a chegada da Família Real portuguesa, em 1808, e a chegada da Missão Artística Francesa, em 1816.

Mas, o Barroco no Brasil efetivamente terminou no século 19? A produção artística do Barroco no Brasil, segundo Eugenio D’Ors (In: Machado, 2003) criou uma amálgama conceitual chamada Eon (potência re-criadora) que hoje é vislumbrado nas igrejas neo-Barrocas recriadas na simplicidade, dos objetos artesanais às imagens de santos da cultura popular e religiosa.

 

Notas:

(*) Sobre a tradição oral à musicalidade ver textos: Série Retorno I: “Matuiú”  & Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème

[1]  Era um Brasil Colonial, depois Imperial do escambo humano. Triste história da escravidão no Brasil que perdurou até 1888; O tráfico – estigma oficial de último país a abolir a escravidão, um século depois da Revolução Industrial Inglesa e  Revolução Francesa. Além do estigma aniquilador de culturas indígenas. Se analisarmos com seriedade ainda não foram sanados os prejuízos com os africanos e com os negros brasileiros; a mestiçagem é inerente à História da cultura brasileira. Cabe a sugestão RIBEIRO, Darcy. O povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[2]Hans Staden esteve duas vezes no Brasil. A primeira veio com uma embarcação portuguesa em 1547, ficando apenas um ano. A segunda, numa embarcação espanhola que naufragou no litoral de Santa Catarina em 1550; salvou-se e permaneceu alguns anos no Brasil; foi capturado e ameaçado de morte pelos Tupinambás, mas resgatado pelos franceses. Quando retornou a Alemanha publicou seus desenhos. Sugestão fílmica Hans Staden. Direção Luiz Alberto Pereira, 1999.

[3] Frans Post e Albert Eckhout chegaram juntos ao Brasil através da expedição de Maurício de Nassau (Dillenburg, Alemanha, 1604 – Cleves, Alemanha, 1649) em 1637 que permaneceu até 1644. Vale destacar a importância de Nassau no Nordeste Brasileiro, pois ele permitiu o culto do Barroco Laico, assim como outros cultos de povos perseguidos pela inquisição, a exemplo dos judeus. Por conta disso foi criada a primeira sinagoga das américas no Recife. No entanto é sabido que no Brasil não houve inquisição como ocorreu em Portugal e Espanha – na queima de pessoas consideradas bruxas ou que professavam outros cultos.

[4] O Absolutismo na Europa tem sua temporalidade delimitada entre 1600 a 1815. E no Brasil desde o processo de colonização a 1889, ano da República. Imagem do Soberano

[5] Em 1750, Revolução Industrial; 1776, Revolução Americana; 1789, Revolução Francesa.

[6] Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal e Conde de Oeiras (Lisboa, Portugal, 1699- Pombal, Portugal, 1782). Pombal foi ministro do Rei D. José I, e figura notória durante o trágico momento de Lisboa e Algarves. Mesmo apoiando o Absolutismo, agiu com a racionalidade Iluminista (despótico esclarecido).

[7] Cabe lembrar que os azulejos foram utilizados pelas antigas civilizações como Egito e Mesopotâmia e com referências de povos nômades; também foram difundidos durante o medievo oriental com a arte dos mosaicos. 

[8] TIRAPELI, Percival. Igrejas Barrocas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008.  Acervo Barroco Memória Viva

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BURY, John. Arquitetura e arte no Brasil Colonial. Organização Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira. Brasília, DF: IPHAN / Monumento, 2006.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

KIEFFER, Anna Maria (Org). Teatro do descobrimento (CD). São Paulo: Estúdio Cia. do Gato, 1999.

MICHELANGELO Buonarroti (1475-1564). Org. Maria Berbara. Campinas, SP: Editora da UNICAMP; São Paulo: Editora da UNIFESP, 2009.

MACHADO, Lourival. Barroco Mineiro. São Paulo: Perspectiva, 2003.

PROENÇA, Graça. História da arte. São Paulo: Ática, 2007.

TIRAPELI, Percival (Org.) ARTE Sacra Colonial: Barroco Memória Viva. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo; Editora UNESP, 2005.

TIRAPELI, Percival. Igrejas Barrocas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008.

Série: O Barroco no Brasil e a vertente européia, parte II

13 jun

por Gisèle Miranda

 

A primeira igreja construída no Brasil foi de São Cosme e Damião, em Igarassu, Pernambuco, em 1535, mas ao longo do tempo foi totalmente modificada. Nessa época a técnica era a Taipa de Pilão, muito utilizada pelos portugueses e espanhóis. No Brasil utilizou-se bastante barro vermelho para a taipa, depois as argamassas de cal e a areia; outro material utilizado era a pedra, muito difundida nas construções de fortificações e nas igrejas Barrocas das Minas Gerais.

A igreja da Sé em Olinda foi construída em 1537 em taipa ao estilo chão Maneirista, mas alterada e ampliada diversas vezes em alvenaria até ser praticamente destruída em um incêndio em 1631, provocado pelo Holandeses durante seu domínio a essa região do Brasil. Depois do incêndio, novamente a igreja foi reconstruída, mas descaracterizada do estilo original, tornando-se totalmente Barroca.

O Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro também é um outro exemplo da mescla da arquitetura Maneirista ao Barroco. Foi desenhada por um militar em 1617, mas somente construída em 1633, tendo o projeto ampliado, alguns anos depois, pelo frei beneditino português Bernardo de São Bento Correia e Souza (c. 1624 -?).  Foram acrescidas mais três naves[1] à construção, mas ainda hoje é possível visualizar a fachada Maneirista. Apesar que, desde sua construção, o interior do Mosteiro sempre foi decorado ao estilo Barroco ao Rococó. O grande artista português do interior do mosteiro foi o frei beneditino Domingos da Conceição (Matosinhos, Portugal, c. 1643 – Rio de Janeiro, RJ, 1718).[2]

 

 

As igrejas das Minas Gerais, construídas no século 18, durante o ciclo do ouro, são consideradas fachadas Maneiristas pela simplicidade, embora os interiores sejam sem dúvida alguma, no estilo Barroco. Os exemplos mais veementes são a catedral de Vila Mariana e a matriz de Sabará, embora suas construções sejam acrescidas de outras torres e naves. Mas mantêm a simplicidade embrionária da marca do Barroco Mineiro.

Afora as fachadas, todo o interior das igrejas é de grande exuberância. A talha dourada marca todo o processo escultórico do Barroco no Brasil, seja ele realizado por europeus ou na singularidade Mineira dos grandes mestres.

A estatuária sacra do século 16 no Brasil, aos poucos foi ganhando dramaticidade e contornos mais expressivos quando adentrou o século 17. Poucas esculturas têm autorias, visto que na grande maioria foi realizado por anônimos. Diz-se anônimos aos já nascidos no Brasil, que como dito anteriormente, não eram considerados artistas, no máximo chegaram a mestres no século 18.

 

As esculturas iniciais eram realizadas por artistas religiosos, lembrando que o ofício artista somente teve reconhecimento e valia a partir do Quattrocento italiano, ou seja, na primeira fase do Renascimento. Portanto, os missionários artistas são os primeiros escultores no Brasil.

Cabe destacar dois grandes nomes de artistas missionários e suas obras: O frei beneditino Agostinho da Piedade (Alcobaça, Portugal, c. 1580 – Salvador, Bahia, 1661) que entre suas esculturas, destaca-se a Nossa Senhora de Montserrat, feita de barro cozido policromado, que está no Museu de Arte Sacra da Bahia. E, o frei também beneditino Agostinho de Jesus (Rio de Janeiro, c. 1600 – idem 1661) com a Nossa Senhora da Purificação, feito de barro cozido policromado, que estava na igreja matriz de Santana de Parnaíba/ SP e, atualmente encontra-se no Museu de Arte Sacra de São Paulo/SP.

 

Mas, em geral, nas oficinas dos missionários havia escravos negros e indígenas como ajudantes. E o processo de miscigenação entre europeus acabou criando uma leva abastarda que logo se tornariam representantes brasileiros – alguns escravos e outros libertos.

Nos estudos de Arte Sacra Colonial (Org. Tirapelli, 2005) há registros de inúmeras interferências indígenas e da natureza tropical. Plumagens escultóricas próximas a diversidade da fauna brasileira. Os exemplos dessa mescla escultórica são:  São Francisco das Chagas, da Capela de Nossa Senhora dos Aflitos (século 18), que é um trabalho narrativo ingênuo feito de barro cozido policromado com asas de madeira e que atualmente encontra-se no Museu de Arte Sacra de São Paulo/SP; e a figuração simbólica da aparição do divino na anunciação de Cristo no dia de Petencostes (século 17), de madeira esculpida e policromada, que está na igreja de Araçariguama, SP. Ambas esculturas são de anônimos.

Mesmo sob controle das ordens religiosas, por vezes era incontrolável esse traço peculiar. Conforme a passagem para os séculos 17 e 18 os escultores anônimos vão produzindo um Barroco genuíno.

 

Notas:

[1] Nave: origem grega “naos”; dizer-se ala central da igreja ou catedral.

[2] Vale destacar que o Mosteiro de São Bento em Salvador, Bahia, ao estilo Maneirista de 1582, criado pelos monges beneditinos e depois destruído em 1624 pelos holandeses, foi reconstruído em 1624 pelo frei espanhol beneditino Macário de São João (Reino de Castela, Espanha, c.162? – Salvador, Bahia, 1676). Anterior ao Mosteiro, no mesmo lugar houve uma pequena igreja construída pelos jesuítas)

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BURY, John. Arquitetura e arte no Brasil Colonial. Organização Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira. Brasília, DF: IPHAN / Monumento, 2006.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

KIEFFER, Anna Maria (Org). Teatro do descobrimento (CD). São Paulo: Estúdio Cia. do Gato, 1999.

MICHELANGELO Buonarroti (1475-1564). Org. Maria Berbara. Campinas, SP: Editora da UNICAMP; São Paulo: Editora da UNIFESP, 2009.

MACHADO, Lourival. Barroco Mineiro. São Paulo: Perspectiva, 2003.

PROENÇA, Graça. História da arte. São Paulo: Ática, 2007.

TIRAPELI, Percival (Org.) ARTE Sacra Colonial: Barroco Memória Viva. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo; Editora UNESP, 2005.

TIRAPELI, Percival. Igrejas Barrocas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008.

 

Série: O Barroco no Brasil e a vertente européia, parte I

13 jun

por Gisèle Miranda

 

Para adentrar a Arte no Brasil Colonial – do Maneirismo ao Barroco Mineiro, correspondente aos séculos 16, 17 e 18 – é necessário resgatar a historicidade dos séculos 14, 15, 16 e 17 da Europa Ocidental, pois o contexto histórico eclodiu em mudanças intensas nas nações saídas da Idade Média à passagem para a Idade Moderna.

Nessa passagem há a valorização do poder real em detrimento ao da igreja e as buscas do saber e dos valores carnais que impulsionaram as artes a tomarem as rédeas do Renascimento Cultural.

O conceito Clássico Anticlássico do historiador da arte Giulio Carlo Argan (1999) especifica bem o temperamento estético dessa fase. O Clássico pelo valor universal via Antiguidade e a engrenagem do Anticlássico:

Na leitura do antigo com pluralidade de dados particulares que podem e devem ser revitalizados numa prática contemporânea que os recrie, acrescentando o distanciamento histórico. [1]

No entanto, o conceito Anticlássico não deve ser estendido ao Maneirismo, pois pertence ao diálogo com o Clássico. Nessa eclosão artística ocorreu a modificação da escala urbana, novos profissionais das artes ascenderam à valorização.

Os artistas detinham habilidades múltiplas, ou seja, eram pintores, escultores, arquitetos e foram os destaques do Renascimento com estudos matemáticos, estudos da anatomia humana, invenções, irradiações intelectuais, assimilação da perspectiva, a tinta a óleo e a gravura – técnicas de reproduções estéticas que tomaram pulso pela imprensa e atravessou oceanos até chegarem ao Brasil Colonial sob a égide de artistas-arquitetos ligados às Ordens religiosas dos jesuítas, beneditinos, carmelitas e franciscanos; também dos construtores militares que vertiam estratégias no processo de colonização.

Os colonizadores eram preponderantemente portugueses e espanhóis, principalmente no período da União Ibérica (1580-1640), através das alianças dos reinos de Portugal e Espanha. Mas em menor quantidade vieram os holandeses que dominaram a região nordeste do Brasil (1630-1664), além dos italianos, germânicos, franceses, enfim, diversas linguas vindas de uma tradição oral dos viajantes (marujos, aventureiros, fugitivos) e que remetem a um memorial musical multicultural que influenciou subliminarmente a estética colonial com relatos, cantos e desenhos numa fusão de etnias.

Outros fatores históricos importantes para estética vindoura do Brasil Colônia, foram a Reforma (1517) e a reação do Concílio de Trento com  a Contrarreforma (1545). Argan acabou produzindo dois conceitos artísticos ligados ao Barroco: o Barroco Laico – dos países baixos ligados a Lutero e Calvino; e aos Ingleses, em 1534, quando Henrique VIII rompeu com catolicismo do Barroco Religioso (extremamente católico). [2]

Dadas essas premissas, quais os artistas e suas variantes que fizeram as transformações da estética da Renascença ao Maneirismo? E como foram incorporados esses valores à colônia?

Através da Alta Renascença, ou o Cinquecento italiano, conhecido pelos irrefutáveis nomes de Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475-1564), Rafael (1483-1520), Ticiano (c. 1485 – 1576), entre outros.

O Maneirismo foi um campo de ação da arte – da singularidade do objeto à escala urbana. E que teve na figura de Michelangelo a estética transitória quando deixou de lado a razão do Renascimento para compor as emoções do Maneirismo.

O Maneirismo na Europa Ocidental tem uma temporalidade de 1515 a 1560, podendo oscilar para mais ou menos de acordo com permanência do artista ao estilo ou à transição para o Barroco, seja Laico ou Religioso. No entanto no Brasil, o Maneirismo foi amalgamado no Barroco.

Dentre os grandes nomes do Maneirismo além de Michelangelo, estão Tintoretto (1518-1594), Andrea Palladio (1518-1580), El Greco (1541-1614), Hans Holbein, o jovem (c.1497-1543), Brueguel, o velho (1525-1569), Arcimboldo (1527-1593), Giorgio Vasari (1511-1574), a quem atribui-se o uso do termo Maniera ou Maneirismo ou à maneira de verter a leveza, a graça à obra de arte. Vasari era pintor, escultor e arquiteto e tornou-se um grande biógrafo dos artistas, considerado um teórico importante do Gótico, do Renascimento e do Maneirismo.

 

Quais os princípios do Maneirismo, além da inserção da emoção frente ao racionalismo? Um certo exagero de detalhes se comparado ao ponderado clássico.

O Maneirismo é a arte labiríntica, das proporções estranhas sem a rigidez clássica. A forma dos espirais, decorações com guirlandas, frutas, flores, caracóis; a arquitetura triangular em contraponto ao quadrado renascentista.  A presença de escadas, de figuras sobrepostas em um mesmo espaço tanto nas pinturas como nas esculturas. Músculos retorcidos, rostos melancólicos à visibilidade do drama; drapeados nas roupas e a luz que passa a projetar sombras.

Como essas referências chegaram ao Brasil? E como inicia o Maneirismo na colônia portuguesa?

Na passagem para a Idade Moderna, nas inovações técnicas ligadas a difusão do conhecimento muito mais acessível e vinculada a reprodução, ou seja, na criação da imprensa que deu a tônica para que, por mais distante que fosse o território, as informações chegavam com as minúcias de suas variantes transformações. As técnicas para as gravuras, em tamanho menores e de fácil transporte acrescentaram tanto o potencial visual, quanto as teorias para os desenvolvimentos artísticos.

Argan (2004) sustentou que o Barroco inventou a modernidade com suas imagens e persuasões destiladas pelo Barroco Religioso e periférico (nas colônias). E o caso mais explícito foi no Brasil, onde incluso criou um Barroco genuíno denominado Barroco Mineiro, ocorrido no século 18.

Associado aos colonizadores portugueses estavam os religiosos de várias Ordens que, via de regra, detinham o conhecimento. Com exceções de militares engenheiros que fizeram construções estratégicas e bélicas de proteção dos territórios – os fortes, os faróis e centros militares aos espaços públicos.

As primeiras construções na colônia são Maneiristas. Embora a maioria tenha sido modificada ou demolida pelo fervor do Barroco Religioso ou por atritos com os holandeses. Por conta disso, a arquitetura tem um acervo pequeno, mas vivo em registros documentais.

Essa mescla é conhecida como uma arquitetura de chão ou estilo de chão, caracterizado por uma planta básica com uma nave única retangular, capela Mor alongada, ou seja, com profundidade e não largura; frontão triangular – formato que diferenciava do quadrado clássico.

Inicialmente foram construções realizadas por jesuítas e franciscanos, posteriormente também desenvolvidas por beneditinos e carmelitas. Essas construções começaram a ser realizadas na região Nordeste (Olinda, Recife, Salvador) e depois na região sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo) do Brasil. Esse processo construtivo tem muito a ver com a importância das regiões de acordo com suas capitais, ou seja, Salvador foi a capital do Brasil de 1549 a 1763. De 1763 até 1960, a cidade do Rio de Janeiro passou a ser a capital, até ser transferida para Brasília, DF, em 1960.[3]

 

 

Notas:

[1] Arquiteto, Historiador e Crítico de Arte Giulio Carlo ARGAN (Turim, Itália, 1909 – Roma, Itália, 1992). In: Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel, 1999, p. 11. Cabe destacar que Argan esteve no Brasil em 1991 como palestrante no Congresso Internacional Patrimônio Histórico e Cidadania. São Paulo/SP.

[2] Conceitos criados pelo arquiteto e historiador e crítico de arte italiano Giulio Carlo ARGAN. In: Imagem e Persuasão, 2004.

[3] Vale destacar o nome de Lúcio Costa (Toulon, França, 1902 – Rio de Janeiro, RJ, 1998) como um grande estudioso do Maneirismo, Barroco e Rococó, apesar de ser largamente conhecido por sua participação na construção de Brasília por uma Arquitetura Moderna e altamente valorizada pelo estilo único do grande arquiteto Oscar Niemeyer (Rio de Janeiro, RJ, 1907 – Rio de Janeiro, RJ, 2012).

Sugestão sobre o Absolutismo: Imagem do Soberano

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BURY, John. Arquitetura e arte no Brasil Colonial. Organização Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira. Brasília, DF: IPHAN / Monumento, 2006.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

KIEFFER, Anna Maria (Org). Teatro do descobrimento (CD). São Paulo: Estúdio Cia. do Gato, 1999.

MICHELANGELO Buonarroti (1475-1564). Org. Maria Berbara. Campinas, SP: Editora da UNICAMP; São Paulo: Editora da UNIFESP, 2009.

MACHADO, Lourival. Barroco Mineiro. São Paulo: Perspectiva, 2003.

PROENÇA, Graça. História da arte. São Paulo: Ática, 2007.

TIRAPELI, Percival (Org.) ARTE Sacra Colonial: Barroco Memória Viva. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo; Editora UNESP, 2005.

TIRAPELI, Percival. Igrejas Barrocas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008.

 

 

 

 

 

Pré-História e seus Meios de Comunicação (I): Arte Rupestre

26 maio

por Gisèle Miranda

A Arte Rupestre contempla um conjunto estético da Pré-História de inscrições, desenhos e pinturas. Esse arcabouço visual é fruto de descobertas que vem ocorrendo e não findou, pois ora ou outra há notícias de artigos acadêmicos e midiáticos sobre novos achados e novas abordagens.

Além dos arqueólogos há colaboração de diversas áreas de pesquisas, tais como paleontólogos, espeleólogos, geólogos, antropólogos, geógrafos, historiadores, químicos entre outros, para compor análises desde geofatos (ação de forças da natureza) a artefatos (fruto do trabalho do homem).

Embora a Arte Rupestre esteja em denominados sítios arqueológicos, por vezes são transformados em Parques Nacionais para a visitação guiada, onde se realizam tombamentos, ou seja, são patrimônios da humanidade designados pela UNESCO, criada em 1945, que visa a proteção para a Educação, Ciências Naturais, Ciências Humanas e Sociais, Cultura e Comunicação e Informação.

Os mais famosos sítios arqueológicos estão na França e na Espanha. O maior está no Continente Africano; há na Ásia, Oriente Médio, entre outros, em menores proporções. No Brasil também há importantes sítios e parques. No Piauí, o mais antigo, criado em 1979 (ampliado em 1990 e em 1991 reconhecido pela UNESCO) é fruto do trabalho incansável da arqueóloga brasileira Niède Guidon (Jaú/SP,1933-), e que abarca os estados da Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Alagoas.

Também há sítios na Bahia, Minas Gerais e Santa Catarina, entre outros lugares. Acredita-se que há muito o que descobrir. E como dito anteriormente, não podemos delimitar essas descobertas e há muitas hipóteses que não param de surgir, assim como lugares a serem descobertos.

Em meio as interpretações há argumentações precisas no que diz respeito às datações através da técnica do Carbono-14, criada em 1949 pelo químico norte americano Wielard Libby (1908-1980), Nobel de Química em 1960. E também através da Geomorfologia e suas técnicas de Luminescência Opticamente Estimulado (LOE) e Isótopos Cosmogênicos, Ressonância Paramagnética Eletrônica (RPE), entre outras.  Resultante da datação pode-se pensar a ocupação humana e sua temporalidade cognitiva; também a ocupação animal em suas variações a extinção de algumas espécies.

Os pigmentos mais comuns na Arte Rupestre são o vermelho ocre, o preto e o amarelo ocre. Vermelho (sangue) como a premissa da vida; o preto associado a morte. Colorações do carvão ou osso queimado e misturados às gorduras aquecidas de animais. A cor verde inexistia. As ferramentas utilizadas eram de pedras e ossos de animais. O pinceis eram de pelos de animais.

E as formas? As inscrições, os desenhos? O que representavam? As respostas apontam para um ritual mágico ou na apreensão e domínio dos animais na futura caça, controle do medo através da coragem vindoura – do acontecimento futuro e não do que ocorreu.

Ou ainda, para quem eram representados? Eram representados para si. Fato é que muitos desenhos e pinturas foram realizados em cavernas e espaços protegidos. Muitas vezes realizados em locais tão dificultosos que foram inscritos por pessoas na posição vertical, ou seja, deitados, levando a crer que não eram para serem vistos ou admirados. Não havia o propósito expositivo; não havia a intenção da contemplação.

Outro fato recorrente era designação de homem pré-histórico ou homem das cavernas como se somente os homens pudessem fazer parte desse ritual. No entanto, recentes pesquisas realizadas pelo arqueólogo norte americano Dean Snow (1940-) e sua equipe da Penn State University (EUA) nos sítios da França e Espanha descobriram que as mãos impressas em cavernas, em sua maioria, são de mulheres e não de homens. Que das 32 mãos encontradas nos 11 sítios arqueológicos, 24 mãos são de mulheres. Mais hipóteses foram levantadas quanto os rituais de caças até então atribuídos aos homens.

Caverna de El Castillo, Espanha, 40.800 a.C. In: Ciência e Saúde Globo.com (foto AFP)

Caverna de El Castillo, Espanha, 40.800 a.C. In: Ciência e Saúde Globo.com (foto AFP)

Referências:

GOMBRICH, Ernst H. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

Biblioteca Digital Revista da Fundação Museu do Homem Americano, a Fumdhamentos Parque Nacional Serra da Capivara, Piauí http://www.fumdham.org.br/fumdhamentos consulta em 23/05/2017.

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo5354/arte-rupestre consulta em 22/05/2017.

Revista Galileu http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI344484-17770,00-AS+PRIMEIRAS+ARTISTAS+PINTURAS+RUPESTRES+FORAM+FEITAS+POR+MULHERES.html consulta em 22/05/2017.

Uma breve olhar sobre o violão

13 jan

por Yan Kimura

O intuito deste texto é compreender um pouco mais sobre as origens do violão, instrumento tão difundido e que se tornou indispensável na música popular brasileira e comumente resgatado nas artes visuais por Juan Gris, Georges Braque, Picasso, Lipchitz, entre outros.

O instrumento musical de cordas mais popular durante a Idade Média foi o alaúde. Tocado sozinho ou acompanhado, o alaúde foi um dos mais importantes instrumentos musicais ocidentais, que enriqueceu e popularizou a música medieval, ora sacra, ora profana.

O alaúde medieval é um descendente direto do ud ou oud, instrumento de cordas árabe introduzido na Espanha com a conquista mulçumana da Península Ibérica na Batalha de Guadalete no ano de 711. O alaúde se assemelha ao ud pelo seu formato de pera cortado ao meio. Ud e alaúde derivam da mesma palavra árabe al’ud que significa “madeira”, material usado para sua confecção. Estes se distinguem pela tocabilidade: o ud árabe não possui trastes e é tocado com uma palheta, enquanto o alaúde medieval possui trastes, e que no decorrer do século 15 passou a ser tocado de forma dedilhada, contribuição técnica do músico flamenco Johannes Tinctoris. (1435-1511)

Por volta do século 14, o alaúde já estava presente em praticamente toda a Europa medieval. Vale destacar que os séculos 15 e 16 foram marcados por um florescimento cultural de Portugal e da Espanha, juntamente ao aprimoramento da imprensa, às reformas religiosas, aos recursos da Igreja Católica e de seus domínios no Novo Mundo.

É neste período que na Espanha, o alaúde tornou-se o principal instrumento de cordas à vihuela, a notória precursora do violão (o nome ‘vihuela’ designa o termo viola, que não é um instrumento, mas uma família de instrumentos de cordas), e que possivelmente é o elo perdido entre o alaúde medieval e o violão clássico ao moderno. Com seis pares de cordas, a vihuela se desenvolveu na Espanha (com equivalentes na Itália e em Portugal), sendo o compositor renascentista Luis de Milán (1500-1561?) o primeiro a compor com o instrumento e um dos primeiros a publicar especificações sobre o andamento da música. Com um formato característico e próximo a de um violão, a vihuela e outros instrumentos de cordas, acompanharam o florescimento da música do Renascimento ao Barroco.

passaram a receber a forma do modelo clássico que reconhecemos nos modelos contemporâneos. Façanha do luthier espanhol Antônio de Torres (1817-1892), que aperfeiçoou o sistema de ressonância de seus instrumentos e redefiniu os traços da maioria dos violões atuais que derivam de seu projeto.

Os primeiros instrumentos musicais chegaram ao Brasil nas embarcações dos navios portugueses a partir do ano de 1500. Sendo o Brasil a mais importante colônia do império português, as atividades musicais estavam estreitamente ligadas aos moldes vindos da metrópole.

A música do período colonial brasileiro era sobretudo religiosa, erudita e, portuguesa. Chegou a ser usada pelos padres jesuítas e franciscanos para catequizar indígenas desde sua chegada, e foi transmitida aos afro-descendentes e mestiços que tocavam nas escolas religiosas. Logo a música naquele período estava ligada aos elementos culturais ibéricos (Portugal e Espanha) e que foram introduzidos na cultura brasileira.

Catulo da Paixão Cearense (1863-1946), que foi um compositor que deu ao violão brasileiro uma nova identidade, Heitor Villa-Lobos (1887-1959) a Cartola (1908-1980), o violão está imerso nas infinidades da música brasileira. Podemos facilmente encontra-lo nas mãos de músicos amadores e profissionais, de concertos acústicos a apresentações de orquestras. De modelos, tamanhos e materiais diferentes; o violão é um item comum na lista de bens dos brasileiros.

Muitos dos instrumentos popularmente tocados e comumente associados ao violão, são exemplares de violões fabricados em série, feitos por marcas conhecidas (nacionais ou importadas), com poucos requintes no acabamento e produzidos em grande escala (decorrência do processo de industrialização). Graças ao custo-benefício e à versatilidade destes instrumentos, tornaram-se a opção da maioria dos brasileiros e viabilizaram um maior  acesso ao instrumento musical no Brasil.

Diferentemente da aquisição de um violão erudito, que geralmente é um objeto fabricado a mão, de altíssima qualidade (feito por um luthier, especialista na construção e no reparo de instrumentos de cordas), e que é menos acessível pelas suas especificidades: medidas personalizadas, tipos diferentes de madeiras, acabamento requintado, e principalmente pelo seu preço, pois são feitos sob encomenda. Apesar dessas diferenças, ambos são tecnicamente iguais, atendem igualmente aos requisitos musicais básicos de um violão clássico moderno, e curiosamente possuem a mesma origem histórica.

Assim, torna-se evidente a herança cultural por trás deste instrumento que se tornou o símbolo da MPB e de tantos outros ritmos brasileiros que contagiam o mundo da música.

 

 

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BLUNT, Anthony. Teoria artística da Itália 1450-1600. Tradução João Moura Jr. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

BURKE, Peter. O Renascimento Italiano. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Nova Alexandria, 2010.

CANDÉ, Roland de. História universal da música (tradução: Eduardo Brandão). São Paulo, SP: Martins Fontes , 2001. 2. ed.
HENRIQUE, Luís L. Instrumentos musicais. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian (Serviço de Educação e Bolsas), 2004. 4. ed.

RAYNOR, Henry. A história social da música.(tradução: Nathanael C. Caixeiro). Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

DUBY, Georges. Ano 1000 ano 2000: na pista de nossos medos. Tradução Eugênio Michel da Silva & Maria Regina Lucena Borges-Osório. São Paulo: UNESP, 1998.

_____________ & PERROT, Michelle. Imagens da mulher. Porto: Edições Afrontamento, 1992.

GOMBRICH, Ernst H. História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

GONÇALVES, Newton de Salles; AMOROSINO, Wagner. Enciclopédia do estudante: musica – compositores, gêneros e instrumentos, do erudito ao popular (tradução Oscar Pilagallo). São Paulo: Moderna, 2008.

HENRIQUE, Luís L. Instrumentos musicais. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian (Serviço de Educação e Bolsas), 2004. 4. ed.

SCHAPIRO, Meyer. A arte moderna – Séculos XIX –XX. São Paulo: Edusp, 1996.

KINDERSLEY, D. Música: guia visual definitivo (tradução Clara Allain e Henrique do Rego Monteiro). São Paulo: Publifolha, 2014.

SAD SÃO PAULO,TRISTE SÃO PAULO (uma anti bossa nova)

18 dez

por Byra Dornelles (Letra) & Miguel Dornelles (Direção de imagens, base eletrônica e mixagem / Gravado no centro de São Paulo, Praça da República e Metrô Santa Cecilia, 2013)

 

SAD SÃO PAULO, TRISTE SÃO PAULO (uma anti bossa nova)

ESTRELAS EU NUNCA VI

DA LUA OUVI FALAR

PORRA DE PASSARINHO

AQUI

NÃO GORJEIA COMO LÁ

AQUI TEM É URUBU E

POMBO INFECTADO

EU MORO EM SÃO PAULO

O SOL-QUANDO NASCE- EU

VEJO QUADRADO

A MINHA JANELA É CRIVADA DE BALAS

AQUI BARQUINHO NÃO VAI,

NEM BARQUINHO VEM

OS RIOS SÃO INAVEGÁVEIS

E EXALAM UM FORTE

CHEIRO PUTRIFICADO

PODRE, DE LIXO PARADO

EU MORO EM SÃO PAULO

QUANDO CHOVE, A CHUVA

ÁCIDA DESTRÓI

ESTÁDIOS, ARRASTA CASAS

LEVA CARROS EMPILHADOS,

CAEM METRÔS

EU MORO EM SÃO PAULO

EU MORO EM SÃO PAULO…

Conto: O Sub-Término do Consciente (Parte I)

29 nov

por Caio Madeira

 

O sub-término do consciente ocorreu durante um jantar à luz de velas com comida congelada servida a dois, preparada às pressas pelo namorado. O apartamento, no 8º andar, era pouco mobiliado e a mesa balançava com o sobrepeso da comida em um dos lados. A música que impulsionava o clima era o incessante andar do cachorro hiperativo do vizinho de cima. A namorada sentada no canto da mesa pensava estar em mais um encontro com seu namorado, enquanto o namorado no outro canto chamou-a aquela noite para terminar o namoro.  

A história a seguir se passa no fundo da mente do namorado durante o término – mais precisamente na ponte que liga o consciente e o subconsciente, narrado por um pensamento que leva a outro, que vem de outro, que lembra outro, mistura-se a outro e forma outro, podendo deformar outro ou a si próprio antes (ou depois) de se apresentar ao consciente. E a consciência não é necessária no fundo da mente de quem se deixa levar, conscientemente, pela inconsciência. Por este motivo, não confie em tudo que lê como sendo tudo que ouve ou tudo que falam. Mas desconfiar de tudo seria um erro ainda maior. 

A história a seguir começa exatamente um segundo antes do término, atinge seu clímax no ápice do sub-término da consciência e termina além da vida que é narrada, e nada além disso.

 

ismael-nery-agonia-1931

Ismael Nery (1900-1934) Visão interna – Agonia, 1931. Óleo sobre tela.

…desfaça seu olhar ou vou ter que me exaltar.

Essa expressão em teu rosto, tão leve e bela, amargura o meu. Sei que teu amor ainda vive, mas o meu já pereceu. Esse teu olhar apaixonado faz meu corpo tremer e meu pulso fechar, enchendo-me com uma vontade pulsante de te estrangular. Como pode manter a beleza em seu rosto a me ver sobrecarregar? Comparo-me a um leão mirando ao longe uma jugular, com motivação instintiva incendiando o olhar. Fiz-te um jantar, que sem tua presença estaria congelado, intragável, assim como seu amado namorado que lhe dirige palavras em meio de um pestanejar não tão bem pensado, usurpado de forma e com emoção instável,

eu me sinto incontrolável,

…deslocando meus pensamentos para um assunto que não havia sido nem ao menos comentado durante a mesa, levando-me a agonizar com diálogos isentos de qualquer valor à sanidade que por tanto tempo me fora proporcionada – porém não tão bem calculada – e que, com o tempo, achou um atalho depositado em latas, copos e principalmente taças. Taça igual a esta que seguro na mão, descontroladamente pingando gotas no chão, provavelmente devido ao tremor causado pela forte emoção de estar aqui contigo nesta noite, com pensamentos e ideias em perigosa comunhão.

E não!, não fale nada, pois sei bem como você despreza esse meu eu tão alterado, embriaga-… extasiado. Como detesta ver teu amor defronte a ti internamente violentado por um líquido que não mata a sede em uma garrafa apenas. E você pode ter certeza que essa insanidade misturada na bebida já respingou insensatez em alguns momentos de fraqueza em outras ocasiões, mas que poucos – muito poucos – perceberam que havia algo errado. Foram sempre alguns poucos respingos em ocasiões que pediam trajes secos ao invés de ligeiramente molhados, mas que todos culparam o manchado traje a um descuido com o copo que me fora dado, e que provavelmente deve ter molhado também os pobres desavisados que estavam ao meu lado, que riram de um embaraço ou coisa qualquer que possa ter causado o descuido por minha parte. Pequenos momentos são fortes como qualquer grande momento quando são repetidos em quantidade e honesto intento. Aumentam também em intensidade quando são alimentados pelo tempo que passa. Mas eu divago à sua companhia.

Esta noite, última noite, é nossa! E olha pra você…

Mesmo depois de eu esquentar o jantar e acender estas velas sob a transcendente luz do luar, você me trata como se estivesse desesperada, como se estivesse acabando todo seu ar. Então lhe pergunto: estou eu respirando todo seu ar? Não consegue tomar fôlego com minha mente a reclamar? Estou aqui a terminar!, a revogar teu acesso ao meu afeto. Estou a ausentar teu julgamento de certo e errado, pois estou cansado de vaguear contigo por anos e anos a fio, sentindo que estou me despedindo de meus próprios aniversários no caminho.: estou sentindo o tempo deformar!, captando o instante com um relógio quebrado que não sei consertar – e que muito menos posso pagar por um conserto, pois vivo num rotineiro anti-deleito em nossos encontros que me toma a vida inteira, fabricando calendários anuais diariamente, cada um com um ano diferente e com os feriados ausentes para descansar;

Ou até pior: Todo minuto que passo contigo é dois de janeiro do ano seguinte, onde volto de carro num engarrafamento na estrada, relembrando à força de todos os compromissos que havia pendurado no varal do esquecimento antes de ir celebrar um novo ano na praia, otimista no réveillon. Dois de janeiro, onde passo por acidentes rodoviários e tenho meus devaneios imaginários cortados por buzinas de caminhão, enquanto tento – mesmo que por um momento – sentir mais uma vez meus dedos do pé carinhosamente enterrados na areia e ter meu mundo focado apenas nos desenhos barulhentos que fizeram os fogos de artificio na noite anterior. Mas, assim como nosso amor, é apenas possível lembrar o que passou e impossível sentir de novo – pois você me prende num presente amargo filtrado por pensamentos de um passado nostálgico. O tempo contigo vai longe e me envelhece, e você esquece que eu como comida congelada todo dia e vou morrer cedo

…e não é sua vez de falar!

Não há diálogo neste monólogo a dois. O que tenho a dizer não foi construído esta noite, sabe? Meu delírio foi arquitetado nas madrugadas em que a insônia deixava minhas pálpebras acorrentadas à inercia de um quarto escuro, conduzindo meu pensamento inquieto e intrigado pelo meio como o amor preenche o vazio que, agora, se alimenta do meu ânimo; e que não parece dar-se nunca como satisfeito. Está noite é apenas a culminante explosão de algo que se amontoou em meu peito e, dito e feito, aqui estou. Minha cabeça sobrecarrega afoita sobre meu fino e exageradamente comprido pescoço toda a originalidade do nosso amor, que por um tempo até nos serviu de um apertado cobertor neste intranquilo mundo frio; mas que agora não parece ser nada mais do que um esboço de um projeto recíproco e indolor, fadado a se contentar com a bruta realidade de se encontrar num dolorido passado sem cor.

Mas ainda assim, para mim, este término é o mérito de uma busca pela harmonia de dois corpos que servem como depósitos de emoções, e que buscam um traço recíproco de passados sinuosos e presentes afagáveis – em busca de um futuro perfeito. De duas mentes que não mentem, ou pelo menos não mentem tão bem quanto suas bocas parecem deixar aparente ao beijarem-se de maneira fosca, de modo que possam suprimir o difícil comprometimento das palavras que devaneiam em pensamento ciumento e duvidoso ao longe, mas que é frenético e animalesco de perto – e apenas de perto. Fervoroso a ti, ruidoso a mim, e vice-versa, num ciclo que segue tanto rumo quanto o alheio entendimento da vida após a morte por pessoas ainda vivas, no qual ainda me falha o entendimento. Se não há como descrever a vida de modo fiel, como crer nos detalhes que entendemos da morte? Parece inacreditável para mim, inaceitável até, mas não parou você de tentar me fazer entender o que há após o fim, e ainda logo no começo do relacionamento!

E eu, que fingi aceitamento aos seus entendimentos; o que isso diz de mim? E é por isso que não te culpo ao se surpreender com este término, pois sempre diante do divino, acaba esquecendo-se da realidade. Passa a vida em constante preocupação com o que há depois da fatalidade, com toda essa religiosidade sufocando tua jovialidade, que até se esquece de se preocupar com a infinidade de momentos que lhe escapam a sua frente, que se perdem com o lento reinvento de um momento mais interessante vindo da minha parte, quase sempre. Entende o mérito que vejo no término? Jogamos-nos intérritos a uma incerteza e nos julgamos certos por todo o tempo, isentos de preconceitos, buscando um entendimento maior do que “o que pode estar observando o olhar que estamos observando olhar a nós”, e chegamos a isso: um vestígio de um amor que pareceu propicio a todo o momento e que, neste momento, estou botando um ponto final.

Não sou bom moço, tuas lagrimas molham apenas teu rosto. Aliás, mentira. Elas salgam também a comida e brindam com o desgosto, que me faz perceber que o gosto do álcool é como poesia, como maresia: É como se a plenitude do Amor descansasse à margem da praia, com cada grão de areia representando um Amor entre duas pessoas em qualquer parte do mundo. E nosso Amor tão profundo, grão de areia único, vivendo junto a outros grãos por tanto tempo seco, afogou-se ao ser levado pela correnteza forte, levando nosso Amor e outros grãos de areia a um outro lugar, desacatando-os bem no meio de uma vida pacata de observar vôlei de praia e crianças e castelos e mulheres lindas com biquínis pequenos, além das diárias de um cinema belo em uma tela ao horizonte que tem sessões às seis da manhã e da tarde… e levando-os a uma viagem forçada a um mundo mergulhado em hostilidade, submetendo os grãos submersos a uma visão desprivilegiada da que tinham anteriormente, vendo agora apenas uma imensidão azul onde o sol mente sua beleza com uma distorcida iluminação difícil de encantar ao ser vista do fundo do mar. Porque você insiste em brincar de mar é o motivo pelo qual eu não consigo mais te amar.

Não consigo erguer a cabeça para respirar, só consigo perder a cabeça ao sentir você me afundar. Não consigo ter certeza do chão que piso, e sinto isso já faz meses. Não consigo nem mais olhar você como olhava antes, com críticas observações peneiradas em sorrisos enamorados e confiança e encanto, fotografada em casamentos da realidade com a minha imaginação. Já se foi o tempo que a via como rotineira ambição, e meus olhos agora buscam de sua imagem uma sofrida emancipação. Vejo-me como veria um documentarista amador que percorre os fatos que alimentaram nosso falso amor até ter uma indigestão, vomitando tudo pra fora e morrer por inanição. Agora é a hora de se desfazer; de fazer desaparecer uma angústia que botou uma máscara antiga, que tão precocemente chamamos de amor; e será que devo parar de falar? Será que deixei meu ponto claro? Nem falei sobre querer minha liberdade. Ela está abrindo a boca, ela vai tentar rebater, vai falar de mim, o que vai ser? Vai me quebrar, vai me contradizer, vai querer partir pra cima e me bater, jogar pratos, vai.

Ela se levantou e começou a falar.

Série Retorno V: O Realismo de Courbet

15 nov

por Gisèle Miranda

 

Jean Désiré Gustav COURBET (1819-1877) veio de uma família rural bem estabelecida. Iniciou Direito como um filho comportado mas abandonou o sonho do pai para estudar desenho de maneira independente e condizente ao seu Realismo – da construção do discurso e da prática.

Em suas andanças pelo Museu do Louvre ficou fascinado pelo Barroco Laico de Frans  Hals (1580-1666), Rembrandt (1606-1669), Rubens (1577-1640), entre outros. E se curvou ao retratista do Barroco Religioso espanhol, Diego Velazquez (1599-1669).

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Empenhado como a estética Realista e a causa popular, Courbet foi descaracterizando-se do rapaz bem trajado do autorretrato com cachorro preto (1841) ao andarilho em Bonjour Monsieur Courbet (1854).

Nesse processo visível de embrutecimento físico e de sensibilidade com os menos favorecidos, Courbet manteve boas relações de Daumier (1808-1879), Proudhon (1809-1865), Champfleury (1821-1889), Baudelaire (1821-1867), Mallarmé (1842-1898).

Mesmo com radicalismo em prol dos trabalhadores, Courbet manteve laços com pensadores distantes da vertente popular, tal como Baudelaire – que na pintura O atelier do pintor de 1855, encontra-se do lado direito da tela lendo ou flanando.

Baudelaire, que pertencia à geração de Courbet e por ele foi pintado duas vezes ainda estava ligado à visão aristocrática e desprezava o realismo; fala frequentemente da diferença entre Delacroix que era uma mente soberana e universal… (Schapiro, 1996, 118)

Courbet se diferenciou do Realismo de Delacroix (1789-1863) por volta de 1848 ao posicionar-se a favor da Comuna Francesa e por assinar ilustrações populares. Delacroix ilustrou Shakespeare e Goethe evitando panfletagem e mantendo-se revolucionário em 1830, mas contra revolucionário em 1848, muito embora a obra A liberdade Guiando o povo, seja de fato o maior ícone da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Com Daumier, Courbet assumiu uma parceria artística e política através dos desenhos e de pinturas de populares, charges em jornais não consideradas como arte e pejorativamente chamada de  primitiva e considerada vulgar.

A pintura de Courbet foi anticlerical e tinha uma técnica de trabalho peculiar a Caravaggio (1571-1610) – o uso da faca na pintura – embora o mote não tivesse a duplicidade aliada à segurança ou intempéries. Também fazia uso do polegar e irritava os críticos da metade do século 19 com o grande tamanho de sua assinatura, o tamanho e a energia de suas telas…considerados provocação para os críticos conservadores. (Schapiro, 1996, 124-125)

Courbet sempre acreditou na força da pintura e conseguiu romper com a dramaticidade vazia do objeto; para ele o artista não precisava gostar da obra. Procurou na realidade de seu tempo as contradições, mas sem a idealização estética.

 

Referências:

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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