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Copa 2018: Um Brasil Real

6 jul

por Gisèle Miranda e Lia Mirror

 

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão… .  (Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014.)

 

Sim, espera-se tudo porque somos desiguais. Em tudo! Também o país da corrupção, mundialmente conhecido. A miséria de um pais tão próspero.

Os 7 x 1 da última Copa, as prisões, o Rio de Janeiro falido sendo uma das maravilhas do mundo. Da Copa aos Jogos Olímpicos…. talentos?  Só a sobrevivência. Como não pensar sobre isso? Quantos talentos perdidos… quantas famílias nas ruas?! Estamos em 2018!

Não é o jogador mais caro do mundo que vai mudar o Brasil. Também não devemos crucificar Jesus. Afinal ele não é o nosso Cristo Redentor.

A Copa está para Cristiano Ronaldo.  Ele bateu uma falta linda e também perdeu um pênalti! Perdeu a Copa? Que gesto lindo com Cavani (ou com Mujica)!!! Você ganhou a Copa. Como faltam gestos!

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Foto divulgação/ 2018

 

Venceu a diversidade, a força e a garra dos refugiados da histórica República Francesa e uma bela discussão sobre o tema que assola o mundo. Precisamos de mais Liberdade, Igualdade e Fraternidade!

“O meu país é a terra” em um mundo tão carente de tudo e tão desigual! Mas “o pulso ainda pulsa… estupidez… hipocrisia… ( e até) Sarampo. O corpo ainda é pouco” (*)

S´Alah!

 

Neno Ramos, sem palavras, 2018

Neno Ramos, Sem Palvras, 2018.

 

 

(*) O Pulso de Marcelo Fromer / Tony Bellotto / Arnaldo Antunes, 1989.

Futebol arte e alienação: ginga ou assepsia?

 

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Droga é legal, o homem que não é.

4 jul

Por Byra Dornelles

 

Domingo passado estava conversando com um amigo meu que é musico e constatei algo que penso há anos: droga é legal! Pense em toda a obra dos Stones, Brown Sugar na década de 70 e dos Doors, se não houvesse drogas. Sem apologia , eu só uso drogas ilegais duas vezes ao ano, no meu aniversario e no reveillon, mas fico pensando…Cabeça de Dinossauro dos Titãs, sem o Arnaldo Antunes drogado, seria possível? Sgt. Peppers, dos Beatles sem ácido lisérgico?

Rimbaud…?
Uivo do Allen Ginsberg?
As portas de Percepção de Aldous Huxley sem drogas?
Flashbacks, de Timothy Leary?

O A E O Z, dos Mutantes?

Meu amigo dizia: “sou um homem! Como é que é!?
Alguém ou o sistema vai me dizer o que eu devo comer ou beber? A maconha é meu samba!”

A proibição provém justamente do medo que ‘eles’ têm da máquina parar de funcionar e de que todos acabem com sua rotina febril e estagnante, de que nasça uma nova ordem em que os princípios cristãos caóticos e caducos venham ser questionados.

A partir do momento que a sociedade rotula a pessoa de ‘viciado’ ele é excluído de uma possível participação e é discriminado.

 

Byra tirinha

 

Ralph Emerson, que nasceu em 1803, usava haxixe e ópio e defendia um sistema de idéias basicamente fundamentado na individualidade, crescimento interior, autoconfiança e rejeição à autoridade, instigando assim, as pessoas a procurar um Deus interior e abandonar o cristianismo.

Qual a importancia das drogas? Elas são usadas desde que o mundo é mundo! Qual o medo que elas despertam? Na Hollanda e alguns bairros de Londres tem espaços liberados pra seu uso com controle da sociedade e não tem casos de violência ou quaisquer distúrbios.

Nesses casos acima em que cito alguns artistas que usaram e fizeram obras maravilhosas, alguém pode argumentar referindo-se às mortes de overdose e tal… . É por isso que digo que a droga é legal e como o homem é que não sabe manipular e perde o controle, se Freud conseguisse conter sua fome de cocaína talvez chegasse a resultados enormes. Se Hendrix não se chapasse daquela maneira não teria morrido de sufocamento pelo vômito… Janis Joplin estava acostumada com uma dose de heroína sarapa e naquele dia fatal veio uma carga muito pura e… Elis Regina me parece que foi a mesma coisa.

Em 2003 houve um congresso aqui no Brasil, chamado Narco News, no qual um professor norte-americano, Robert Stephens, tentando espalhar o medo, como fizeram em 1937 quando foi proibida a maconha nos EUA, querendo apertar o cerco aos usuários e tambem visando aqui, a implantação de clínicas de ‘tratamento’, (esse terrorismo chamado de justiça terapêutica ), fez varias falsas afirmações sobre a droga:

1 – causa insônia
2 – náusea
3 – nervosismo
4 – ansiedade e perda de apetite(!!!)

É claro que foi desmascarado lá mesmo na terra dele, imagine aqui, dizer que maconha provoca insônia e perda de apetite! No mínimo ele nunca experimentou!

Alguns nomes históricos que usaram/pesquisaram drogas:

Carlos Castaneda, Aleister Crowley, William Burroughs, James Joyce, Ken Kesey, Torquato Neto, Alan Watts, Lennon, Paolo Mantegazza, Sergio Sampaio, Miles Davis, Jim Morrison, Keith Richards, Raul Seixas, Mick Jagger, Tim Maia, Jerry Rubin, Eduardo Bueno, Abbie Hoffman, Kurt Cobain, Arnaldo Baptista, Albert Hoffman, Allen Ginberg, Timothy Leary, Arnaldo Antunes;

Concluindo, vamos usar todas as drogas, plantas, com responsabilidade e moderação pois seu uso pode causar dependência, pensando que é fundamental:

1- Construir seu próprio e desfrutável universo,

2 – Pense por si mesmo e questione a autoridade, como disse Burroughs: “ Na verdade, tudo é permitido”.

3 – “ O fato de todo homem e toda mulher ser uma estrela”.

Eu não posso causar Mal nenhum a não ser a mim mesmo… (Lobão e Cazuza)

 

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*Byra Dorneles (Auto-didata, ex-calafate e estuda sobre drogas desde os 13 anos)
Base do texto:

www.narconews.com 
“Flashbacks” de Timothy Leary.

 

A amizade e a cumplicidade artística e política de Gontran Guanaes Netto e Júlio Le Parc: Luto e Luta.

18 jun

 por Gisèle Miranda

 

Quando o ser humano vem a ser cores, quando a cor vem a ser forma humana, quando o ser humano este ligado à terra… Quando estes frutos são usurpados, quando esta usurpação gera a miséria, quando esta miséria gera revolta… quando suas cores são aquelas da dignidade, quando suas cores são aquelas da luta, quando suas cores são aquelas da esperança. (Gontran Guanaes Netto & Julio Le Parc. Cores da Esperança, s/d)

 

Contextos políticos estão indissociáveis das biografias dos artistas Gontran Guanaes Netto (Vera Cruz, SP, Brasil, 1933- Paris, França, 2017) e Júlio Le Parc (Mendoza, Argentina, 1928-). Conheceram-se em Paris como refugiados políticos vindos de prisões e torturas por lutarem pela Democracia em seus países.

Gontran e Le Parc combateram as ditaduras militares na América Latina, guerras, guerrilhas, conflitos de diversas naturezas e em vários lugares do mundo, alicerçados pela arte. Vivenciaram as mutações das sociedades e se colocam como sujeitos políticos potencializando os discursos sobre arte e, consequentemente, na produção artística como luta e luto; consciência e resistência; memória e história.

Eles amealharam recursos para criações de Museus, através de doações de seus trabalhos, assim como recursos financeiros através da venda de suas obras para resgatar pessoas em risco, seja em luta pela democracia, contra a exploração, violência, miséria.

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Eles são testemunhos viscerais de quase um século de produção artística e política, além de uma nova ética como resultante dos traumas próprios e dos outros numa constante aliança solidária (Seligmann-Silva, 2018).

Gontran Guanaes Netto deixou-nos as cores de sua esperança e a força de sua luta: “antigo combatente, jamais!”

Júlio Le Parc continua a LUTA!

 

 

 

Referências:

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Café Filosófico, TV Cultura, 2018. O testemunho como chave ética 

Textos do Blog Tecituras :

Julio LE PARC por Gontran Guanaes Netto

O encontro nas cores/luz: Gontran Guanaes Netto e Julio Le Parc por Gisèle Miranda

Grito do silêncio por Gontran Guanaes Netto

Série Cartas (ensaios) de leitores I: Gontran Netto, o Diógenes da pintura brasileira. por Maria Aparecida Correa Paty

Reminiscências e reflexões por Gontran Guanaes Netto, parte I e II

Série Retecituras V: Gontran Guanaes Netto e seu manifesto pelo Chile por Gisèle Miranda e Gontran Guanaes Netto.

Dados biográficos de Gontran Guanaes Netto por Gisèle Miranda

Provocativas por Gisèle Miranda

Autobiografia de um artista bem-sucedido por Gontran Guanaes Netto

História e Memória sob tortura por Gisèle Miranda e Jozy Lima.

Brava Luta por Gisèle Miranda

As “experiências” de Julio Le Parc por Gisèle Miranda

Série Ficcional H. Miller XXVIII: Coração

12 jun

por Lia Mirror

 

“… o espírito é como um rio que procura o mar. ” (Henry Miller)

 

“- Pode entrar, Dr. Fausto lhe aguarda. ”

Apreensiva adentrei novamente o consultório. De imediato avistei Dr. Fausto e o elogiei pela bela aparência ´jovem´; a minha corria o tempo dos mortais.  E mesmo sem alma (1) fui agraciada pelas belas palavras do doutor ao referir a mim, como uma ´jovem liberta´ devido a constância nos estudos. Disse-me enfaticamente: “estudar nos torna jovens! (2) Mas, o que a trouxe dessa vez? Ainda há um coração? Ou devoraste o teu como Rimbaud? ”

Coração coeur-de-louise bourgeois, 2004

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), HEART, 2004.

Meu coração pesa mais do que eu; é como o coração de um beija flor, tem 80 batimentos por segundo quando sofro. Pode chegar a 90 batimentos quando sinto ciúmes. Diminui para 50 quando vislumbro um escape. Mas no escape são todos urubus disfarçados de cordeiros. Entre o assado e a carniça há um coração e um Dürer.

– “Desculpe doutor, o sr. Thomas Mann pede urgência! ”

– “Fausto, meu caro.  Venho interceder por esse coração… se a alma não foi vendida pela juventude, o coração não deve ser leiloado.  Uma alma pelo Dürer foi a abdicação do ego e do valor ao outro. Dürer será preservado. O coração de um beija flor também merece ser inscrito nessa história, aquém da juventude e da riqueza. Deixe-a ir. Interfiro nessa escrita por conhecer o que sustenta esse Ser. “

corações louise 2006

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), Untitled (Hearts), 2006.

Mais uma vez, Dr. Fausto riu como Mr. Ryde, mas logo respondeu como Dr. Jakyll e por conseguinte como H. Miller.

Robert Louis Stevenson invadiu o consultório. Mann e Stevenson chegaram a esboçar o confronto, mas gritei a efusão literária até falhar a voz. O coração era meu, a dor era minha. Peguei minha bolsa e saí sem olhar para trás, sussurrando as seguintes palavras: “Diga que eu só vou voltar depois que eu me encontrar. ” (3)

A transformação foi imediata: “pele por escamas, pernas por cauda, guelras e música” (4)… ao MAR.  ‎

 

 

Referências:

(1) Minha Alma Imortal

(2) MANN, Thomas. Doutor Fausto. Tradução Herbert Caro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1952. Volume II, p. 417.

(3) Preciso me encontrar

(4) A(…)MAR ou “vivendo com saudades”

A(…)MAR ou “vivendo com saudades”

13 abr

Por Caio Madeira

 

Ela vivia num tempo diferente do meu. A vida dela passava com mais rapidez, e meus pensamentos sobre ela eram como ela se comportava, e como ela agia, e como ela rompia os relacionamentos dela com tamanha facilidade.

Ela é uma mulher que entregou seu corpo ao mar sem medo da solidão do oceano, e que, em retorno, recebeu a dádiva de ser parte das águas. Pele por escamas, pernas por cauda, guelras e música. Uma mulher que tinha sua beleza refletida sobre as águas cristalinas, com o cabelo salgado e o corpo nu molhado, sem o medo narcisista de se matar ao entregar-se ao próprio reflexo na água. Ela nadava com todos os peixes, em conversas intimas com as criaturas sob a maré calma, e quando sentia que sua humanidade à chamava, respirava o oxigênio com orgulho de ser a mulher que era.

Acima da água, ela alegrava-se pensando no que lhe trazia alegria e sentia saudades do que lhe trazia lembranças. E no meio de sua vida tão completa, marinheiros apareciam aqui e ali, seduzidos pela sua beleza. Eles saudavam-na, desejavam-na, atiçavam-na e queriam a bela sereia de qualquer jeito, e, ela ali no seu mar apenas olhava eles se fazerem de bobos.

Seu canto deixavam os idiotas em seus barcos gritando qualquer poesia barata, elogiando e se decompondo nas ideias que eles nem entendiam só pela esperança de conquista-la. E a sereia, tão bondosa, aceitava os desesperos dos homens que achavam que o mar era um trilho para seu automóvel, tão egoisticamente.

Os homens iam e vinham, se jogando no mar e nadando sem futuro para matar a fome dos peixes; as sereias alimentavam o mar antigamente, sabia? Pelo mar todo boiavam e afundavam corpos de homens estúpidos, que alimentavam os peixes enquanto caiam e caiam até o fundo do oceano, não sobrando nada na escuridão mais funda…

E. Nery, A mulher dos quadros do museu, 1988.

Emmanuel Nery (Rio de Janeiro, RJ, 1931- Rio de Janeiro, RJ, 2003) A mulher dos quadros do museu, 1988.

 

 

– E como eu nasci então?

– Você nasceu das linhas de um poema de amor – dela com o mar.

Série Ficcional H. Miller XXVII: O corpo por um fio

13 abr

por Lia Mirror

 

Se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe.

(Henry Miller)

 

Em um daqueles dias torrencialmente chuvosos corri pelas ruas como um dia de sol. O sol era interno no manicômio do meu copo. Despi as vestimentas morais e ri dos insanos olhares. Molhada também de prazer, torci o peso do encharque e continuei bendizendo meu desejo.  Blasfemei os tropeços e me joguei como um tênis sobre um fio de alta tensão.

 

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010)  Arch of hysteria, 1993.

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010) Arch of hysteria, 1993.

 

Por alguns segundos oscilei como um pêndulo; mas logo caí. A queda foi amortecida pelo divã abandonado. As mãos me protegeram do embate corporal; mas as linhas foram alteradas, foram reescritas. Levantei e caminhei contra o tempo. Confrontei e abri frestas subterrâneas. Nadei rios de correntezas e subi o morro para avistar o mar. Era o meu morro do nascimento. Meu Morro, Morro de saudades. Meu desejo, Morro de desejos.

Ao poetizar o Morro dei conta de que nosso encontro não estava previsto. Insurgimos e esculpimos nosso próprio tempo. Nossa mistura de segredos e diferenças. O gosto do gozo. O prazer da ficção.

 

Antonio Peticov: alquimia dos mestres!

1 fev

por Gisèle Miranda

 

Eu tenho cada vez menos tempo, embora tenha  cada vez mais coisas para dizer. E o que eu tenho para dizer é, mais e mais, algo que  se move para a frente , junto ao movimento de meu pensar.

Eu sou como um rio que continua a correr…

Pablo PICASSO (Málaga, 1881- Mougins, 1973)

 

 

 

ANTONIO PETICOV nasceu em Assis (SP/ Brasil), em 1946. Filho de imigrante búlgaro que chegou no Brasil na década de 1920, pressionado pela guerra dos Balcãs e da Primeira Guerra Mundial. Por outro lado, absorvido por uma das etapas imigratórias pós escravidão do Brasil, sob pesadas condições e adversidades.

Autodidata, Peticov traçou uma formação artística alicerçada de boas leituras em contrapartida a construção crítica a educação Batista do pilar teológico paterno.

Desde os doze anos idade, Peticov vem exercendo sua inesgotável fonte criativa, e hoje, aos 71 anos extasia a todos com a consolidação de sua obra na História da Arte. Além de exercer diariamente a dimensão da memória em proporcionalidade a imaginação.

A notoriedade plástica construída está aliada a vanguarda tropicalista dos anos de 1960; com interferências do Surrealismo, Pop Art e experimentalismos musicais e processos psicodélicos – de Hendrix a Mutantes, o que fatalmente o levou a prisões e, por sobrevivência, exilou-se na Inglaterra, Itália e Estados Unidos.

Entre o final da década de 1980 e início de 1990, quando retornou ao Brasil, esteve ligado a projetos ambientais e diversos outros trabalhos, entre os quais, o resgate do Modernismo Brasileiro e sua vertente antropofágica, em parte revertido para o acervo artístico do metrô de São Paulo.

 

 

Antonio Peticov tornou-se o mestre das cores, o alquimista da virtualidade aberta, o representante da escada cósmica, o Dédalo labiríntico, o maestro de partituras da fauna e da flora Brasileira. O artista do diálogo com o tempo e releituras de grandes mestres como Rembrandt, Velazquez, Constable, Millet, Picasso, Magritte, entre outros.

 

 

Peticov é o porta voz do pincel, o corpóreo de Fibonacci. A máquina ambulante da ciência ao empírico em comunhão. O pote de riquezas do arco íris é a materialização da obra desse múltiplo, inquietante e fascinante artista.

 

Série Ficcional H. Miller XXVI: Do Pacífico ao Atlântico

26 jan

por Lia Mirror

 

 (…) Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina…
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico… E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Ode Marítima, 1890.

 

 

Enquanto içava as velas no Atlântico lembrei dos 23 tripulantes resgatados de um naufrágio; um não sobreviveu a sua própria tormenta. Antes mesmo de chegarmos em terra firme, o lobo do mar jogou-se no Pacífico como isca para tubarões, amarrado à proa numa enorme corda. O nó que o galego marinheiro fez tem nome: chama-se Bispo do Rosário, em homenagem a outro marinheiro.

Logo, contando comigo retornamos aos 23. Somados 2+3 resultou no número de tripulantes dessa nova empreitada pelo Atlântico.

 

O propósito dessa viagem é resgatar Bas Jan Ader, ou, quiçá oferecer-lhe minha escuta ou o desejo de percorrer limites e sentir do ardor a dor. Ser ridícula como no poema de Álvaro de Campos: só para ridículos como nós. Debater a queda; cair da bicicleta, cair do telhado, cair da árvore, cair no rio que leva o corpo, que afoga por instantes e que salva por um ‘triz’. Adentrar as profundezas do mar. E de tanto borbulhar o mar, tropeçar e dizer amar.

 

 

Não! Bas Jan Ader não foi salvo. Ele foi libertado. Cansou do riso fácil, enquanto a olhos nus relampejavam seus estudos sobre a queda e o limítrofe de vida e morte. Tênue fio da navalha. “Ele partiu e nunca mais voltou…”.

Quando dei por mim, estávamos nós cinco: Bas Jan Ader, seu Alberto, meu amigo ancião Blake, Miller e eu.

O medo da solitária viagem pelo Atlântico dissipou-se. Abrimos nossos braços às tempestades, gritamos aos deuses impropérios, embriagamo-nos de nossas falas ao falo. Trituramos nossa própria carne, cuspimos trovoadas e retornamos ao desejo. Do desejo ao gozo como em um álbum além  mar… mar… mar… a… mar!

 

WARGASMO, parte II (2015)

20 out

por Byra Dornelles

 

EU PRETIRO

Eu sonhei que nos deitávamos de lado, assim, e nos beijávamos. Senti o cheiro de
sua boca no sonho, seu hálito de chá de erva cidreira. Eu não deveria sonhar com você e acordei culpado.

Parece falso dito desse jeito. E você falava no sonho que eu andava bebendo demais. Poderia beber pelo caminho, mas não queria que ela pensasse que eu andava bebendo mais que o normal, diário, quatro latas de cerveja, mas eu andava bebendo sim. Não queria que ela pensasse que eu andava me alimentando mal e eu e andava sim.
Ela tentava me incluir num certo acerto de contas com o real inábil e farposo. Sonhar com ela nos beijando num sonho real, numa cama e num apartamento real.

Parece falso sim, dito, desse jeito. No sonho eu não facilitaria as coisas por cegueira dela, o cruel era a palavra verbalizada por mim, no sonho e no dia a dia nosso que havia terminado há anos.

Eu amava tudo que doía nela. E o verbo era mal? Mas o silencio também. Nossos últimos meses foram pautados pelo silencio, discutíamos política e comportamento o tempo todo e ela balançava a cabeça quando eu me dizia revolucionário, talvez ela não merecesse sofrer aquela dor.

 

 

Heen Kim, s/ título, s/d.

Heen Kim, s/ título, s/d.

 

Eu amava tudo que doía nela, feito um Wargasmo, um orgasmo bélico e cruel.

Não costumo subestimar as pessoas e nem os possíveis adversários, respeito.

Eu via o mundo inteiro nas suas lágrimas, no sonho, mas eu já estava tão longe.

 

(Baseado em Caio Fernando Abreu)

WARGASMO, parte I

2 out

Por Byra Dornelles

 

Não sei!

(Minha era tem necessidade de Violência!)

Na primeira vez eu escondi algumas latas de cerveja, começou assim.
Depois comecei a mascarar meu cheiro e hálito de álcool com hidratantes na madrugada.

Escondi uma garrafa de vinho vazio , outra de uísque e quando percebi eu não era mais eu. Estava me escondendo pelos cantos, fingindo, me malocando, coisa que eu sempre abominei. Cheguei a sonhar que acordava de barriga pra cima e feito personagem de Kafka não conseguia me virar. Noutro sonho dizia que ia morar novamente com minha primeira ex-mulher: tudo sonho persecutório. Não. Eu não amava mais nenhuma delas.

Eu sabia que fugíamos de uma conversa mais íntima,mas eu evitava esse aproach. Sabia que ela e eu  tínhamos  tantas palavras que não poderíamos dizer.
Sim. Quando eu a conheci as palavras eram grandes, amor, viagens pelo planeta, amizade, criar filhos e livros.

Sabia também que sua vida estava repleta de fantasias, com um filho de dois anos tinha planejado montes de sonhos, devaneios, ir pra Paris, Buenos Aires, qualquer lugar que não lembrasse sua formação rural , também outro sonho persecutório, sua contradição em viver na maior cidade da América  do Sul e ser oriunda de uma cidade que nem água havia mais mas o orgulho rural permanecia em choque com seus cosmopolitismo. Geo narcisismo.

Não se pode fugir do seu destino, quando você não tem noção do que poderia ser o novo, quando não se sabe o que é o novo, como explicar pra um cego as cores ou o som sussurrado pra um surdo. Não. Queria que ela voltasse a realidade e me escutasse ou me visse pelo menos.

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Henn Kim, s/ título, s/data.

Ela me amou pela minha poesia, pela crueldade, e eu não hesitaria em destrui-la sem compaixão. De verdade. Ela adorava minha capacidade em magoar, se tornou um vicio.

Ela não queria ouvir meus argumentos de drop’n out, eu sempre o freak insano, ela abanava a cabeça e dizia: ‘temos um filho´.

Ela não sabia e duvidava que a qualquer momento outra mulher vai tomar minha experiência e me amar pela minha dureza demoníaca e se somará a si.

E isso, obviamente aconteceu 15 meses depois.

Não. Eu não amava mais nenhuma delas, até então conhecer a minha antítese, minha contrária tradução e sedução!

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