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Série Movimentos de Vanguarda III: BAUHAUS, a Casa Construída (parte II)

25 jun

por Gisèle Miranda

A Bauhaus, “síntese casa-escola-oficina” ou “escola fábrica” teve o ícone-vértice da Arquitetura Moderna: Walter Gropius (1883-1969). Com ele, proliferaram as experiências artísticas em coletividade. Seu fazer arquitetura era essencialmente alimentado, exercido com todos os aportes da arte: explicando e sensibilizando em meio à intensa crise da sociedade.

Gropius formou-se em arquitetura em 1907. Foi assistente do arquiteto e designer Peter Behrens (1868-1940). De 1914 a 1918 foi um combatente na Primeira Guerra Mundial. Entre a guerra e a criação da Bauhaus, ele viveu uma história de amor com Alma Mahler (1879-1964), viúva do musicista Gustav Mahler (1860-1911). Alma e Gropius foram casados por cinco anos; em meio a essa relação, Alma teve uma paixão pelo pintor Oskar Kokoschka (1886-1980). O término dessas histórias de amor com Gropius e Kokoschka emendou com o casamento de Alma com o poeta Franz Werfel (1890-1945). Mais do que a arquitetura, Gropius viveu o amor com uma mulher intensa e de brilhantismo intelectual, além da guerra, do front, da perda e da dor às vésperas da criação da Bauhaus (1919).

Gropius está internado em algum hospital militar do front. (jan, 1915). Há mais de um ano estamos casados… não temos um ao outro, e às vezes tenho medo de que nos tornemos estranhos. Meu sentimento por ele deu lugar a um sentimento conjugal entediante…. Não se pode manter um casamento a distância.” (out. 1916) (In: Alma Mahler, Minha Vida, 1988, p.65; 76)

Walter Gropius posteriormente casou com Ise Frank, homenageada pelo Instituto Goethe de Brasília (2019), na primeira série sobre as Mulheres da Bauhaus.

De 1934 a 1937, o casal se refugou na Inglaterra. Em 1937 partiram para os EUA, onde Gropius trabalhou em Harvard até 1953; nesse mesmo ano recebeu o Grande Prêmio Internacional de Arquitetura, em São Paulo, Brasil.

Gropius regressou a Alemanha quase 30 anos depois de seu exílio para a realização de um projeto. Ele faleceu em Boston, EUA, em 5 de julho de 1969.

Gropius e a Bauhaus: algumas experiências artísticas

O vértice: o arquiteto Walter Gropuis ou a representação da arquitetura moderna da Bauhaus alinhavou diversas expressões artísticas, além da importância do Design e do próprio fazer arquitetura. O Teatro Total adentrou a Bauhaus como Centro de Educação Coletiva, onde:

A arquitetura transpôs o limite além do qual uma realidade e uma ilusão, uma matéria e um símbolo, não são separáveis… (…) arquitetura em movimento… que faz o espaço… (…) Do palco circular, nascido da arena agonística. In: Argan, 2005, p. 130; 131.

O Teatro Total nasceu na crise da consciência moderna. E com ela, a comicidade sobressaiu como uma incontrolável dificuldade de lidar com os dramas do pós-guerra e com a falta de diálogo com uma burguesia vertida ao fascismo. A dramaticidade foi a dificuldade de lidar com um mundo físico e moral em um processo irreversível pela desumanidade.

O Teatro da Bauhaus trabalhou conflitos com uma cenotécnica criada por Oskar Schlemmer (1888-1943) – a interação com os espectadores foi vital para desenvolver a luz, as cores, os sons, figurinos em bombardeios de sensações. (Argan, 2005:74) Schlemmer desenvolveu a Teoria do Compressionismo:

As pinturas murais em estuque… com superfícies capazes de compensar ou preencher o vazio… estabelecer identidade entre o cheio e o vazio, entre o espaço real e o espaço figurado” (Argan, 2005: 68)

As experiências dos movimentos de vanguardas da Europa e da Rússia foram referências para os mecanismos da arquitetura. As esculturas de Pevsner (1902-1983) e Gabo (1890-1977) transformaram o espaço da terceira para a quarta dimensão; O suprematismo de Malevich (1879-1935) interferiu para no princípio abstrato com a realidade concreta da ´coisa que se move´… a superação da forma geométrica como forma a priori…” (Argan, 2005: 138; 140).

Na tecelagem sob a orientação de Gunta Stöl (1889-1973) as pinturas sobrepunham ao tecido. No mobiliário, Marcel Breuer (1902-1981) priorizou o metal. Em 1925:

A cadeira de tubo metálico que substitui por um conjunto de linhas tensas e curvas elásticas, que visam a secundar os movimentos espontâneos do corpo humano. (Argan, 2005: 65)

Anni Albers (Berlim, Alemanha,1899- Orange, Connectcut, EUA, 1994), Foto de Nancy Newhall, 1947; Gertrud Arndt (Racibórz, Polônia, 1903- Darmstadt, Alemanha, 2000) foto Otti Berger c. 1930;  Gunta Stölzl, (Munique, Alemanha, 1897- Zurique, Suíça, 1983. Foto s/d.

1. Anni Albers (Berlim, Alemanha,1899- Orange, Connectcut, EUA, 1994), Foto de Nancy Newhall, 1947; 2. Gertrud Arndt (Racibórz, Polônia, 1903- Darmstadt, Alemanha, 2000) foto Otti Berger c. 1930 com uma construção da Bauhaus; 3. Gunta Stölzl, (Munique, Alemanha, 1897- Zurique, Suíça, 1983. Foto s/d. (*)

Paul Klee (1879-1940) procurou nas primeiras formas do Construtivismo, as reverberações infantis. As forças ativas e passivas das linhas ao remontar a origem das formas. Kandinsky (1866-1944) teorizou sobre as cores – atração e repulsão das linhas e das cores.

Josef Albers (1888-1976) e Moholy-Nagy (1895-1946) utilizaram os recursos de collage e do readymade surrealista para reconhecer a matéria original da arte nas coisas de uso corrente, além de Moholy-Nagy destacar o aço cromado, alumínio e níquel para objetos de iluminação. (Argan, 2005: 61; 66).

Referências:

Alma Mahler. Minha Vida. São Paulo: Martins Fontes, 1988. Coleção Uma Mulher. (publicado em 1960 a partir dos diários de Alma Mahler)

ARGAN, Giulio Carlo. Walter Groupius e a Bauhaus. Tradução Joana Angélica d´Avila Melo; posfácio de Bruno Contardi. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

STANGOS, Nikos (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

TASSINARI, Alberto. O Espaço Moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

Catálogo Bauhaus.foto.filme: ideias que se encontram. Sesc Pinheiros, 2013.

https://goethebrasilia.org.br/blog/ise-gropius-frau-bauhaus/ em 23/06/2019.

https://tecituras.wordpress.com/2016/06/02/as-experiencias-de-julio-le-parc-mendonza-1928/

Mulheres na Bauhaus – os mestres subestimados

Imagens de mulheres: Os artistas esquecidos na Bauhaus

(*) Notas:

  1. Anni Albers: Foi aluna e professora da Bauhaus em Tecelagem e Design; exilada nos EUA com o marido Josef Albers, também professor da Bauhaus.
  2. Gertrud Arndt: foi aluna da Bauhaus em Fotografia.
  3. Gunta Stölzl: professora da Bauhaus em Tecelagem/ oficina têxtil.

Série Movimentos de Vanguarda III: BAUHAUS, a Casa Construída (parte I)

18 jun

por Gisèle Miranda

 

Na Bauhaus encontramos vestígios do Cubismo (sem veleidades gnosiológicas), do Futurismo (sem nacionalismos), do Suprematismo (sem niilismo), do Surrealismo (sem complexos sexuais), do Stijl e Neoplasticismo (sem o limite do formalismo). In: Argan 2005, p. 84.

 

Em 2019, a Bauhaus completou um século como um dos alicerces históricos da Arte. A Arquitetura, a Pintura, o Design, a Fotografia, o Teatro, a Música e a Teoria exercidos na Casa Construída  por homens e mulheres e dirigida pelo artista, arquiteto e teórico Walter Gropius (1883-1969).

Gropius partilhou o processo artístico e didático com os professores-artistas residentes, tais como Josef Albers (1888-1976), Hinnerk Scheper (1877-1957), Georg Muche (1895-1987), László Moholy-Nagy (1895-1946), Herbert Bayer (1900-1985), Joost Schmidt (1893-1948), Marcel Breuer (1902-1981), Wassily Kandinsky (1866-1944), Paul Klee (1879-1940), Lyonel Feininger (1871-1956), Gunta Stölzl (1897-1983), Oskar Schlemmer (1888-1943). Johannes Itten (1888-1967), Theo van Doesburg (1883–1931), entre outros.

No telhado da Bauhaus Dessau.Da esquerda para a direita: Josef Albers, Hinnerk Scheper, Georg Muche, László Moholy-Nagy, Herbert Bayer, Joost Schmidt, Walter Gropius, Marcel Breuer, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Lyonel Feininger, Gunta Stölzl e Oskar Schlemmer. 1925.

No telhado da Bauhaus Dessau. Da esquerda para a direita: Josef Albers, Hinnerk Scheper, Georg Muche, László Moholy-Nagy, Herbert Bayer, Joost Schmidt, Walter Gropius, Marcel Breuer, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Lyonel Feininger, Gunta Stölzl e Oskar Schlemmer. 1925.

 

A proposta da Bauhaus ressurgiu nos EUA, quando Gropius e outros partiram para o exílio entre 1930 e 1940. Também reinventada na década de 1950, pelo arquiteto e artista Max Bill (1908-1994), que foi aluno da Bauhaus em Dessau e posteriormente, docente na Escola de Arquitetura em Ulm (Alemanha) com o método da Bauhaus. Max Bill foi o destaque da 1ª Bienal de Arte de São Paulo em 1951 com a escultura Tripartida.

 

MAX BILL (Berna, Suíça, 1908- Berlim, Alemanha, 1994). Unidade Tripartida, 1948/49. Aço inoxidável, 114,0 x 88,3 x 98,2. Prêmio Bienal de Arte de São Paulo, 1951.

MAX BILL (Berna, Suíça, 1908- Berlim, Alemanha, 1994). Unidade Tripartida, 1948/49. Aço inoxidável, 114,0 x 88,3 x 98,2. Prêmio Bienal de Arte de São Paulo, 1951.

 

O Modernismo no Brasil a partir de 1922 também deve muito a Bauhaus e aos Movimentos da Vanguarda europeia. Foi a virada de valores culturais brasileiros em um vetor nacional (antropofágico) e internacional vanguardista, encabeçados por pintores, arquitetos, poetas numa profusão de novos olhares, contrapondo ao academicismo.

 

 

Em 2013, o SESC Pinheiros[2] apresentou Bauhaus.foto.filme: ideias que se encontram. As fotografias e os filmes apresentados trouxeram desafios para pensar o século 21. Para repensar o Modernismo, a prática e a reflexão sobre a experimentação com Walter Groupius, Lázló Moholy-Nagy, Kandinsky, entre outros convidados interagindo com alunos em um magnífico túnel do tempo à atualidade. Vozes, imagens de uma geração com intervalo entre das duas Grandes Guerras Mundiais.

 

A Bauhaus, um típico exemplo de escola democrática, baseada no princípio da colaboração entre professores e alunos… (…) a colaboração entre eles prosseguia inclusive nas horas de lazer dedicadas a audições musicais, conferências, leituras, discussões, assim como a organização de mostras… Procurava-se, assim, remover da criação artística qualquer caráter de excepcionalidade e de sublimidade, para resolvê-la num ciclo normal de atividades e produtividades… In: ARGAN, 2005, p. 46.

 

Em 2019, o arquiteto russo naturalizado brasileiro Gregori Warchavchik (1896-1972) foi homenageado na 44ª Ocupação Itaú Cultural, no Museu Lasar Segall e na primeira Casa Modernista do Brasil projetada por ele em 1927 e construída em 1928. Essa homenagem remonta 97 anos da Semana de Arte Moderna de 1922 e os 123 anos de nascimento de Wharchavchik. [3] Ademais, reverbera a grandeza do Modernismo vivido entre guerras com desterrados e refugiados que contribuíram sobremaneira na arte e arquitetura cultural brasileira.

 

Notas:

[1] Walter Gropius dirigiu a Bauhaus em Weimar (1919 a 1925) e a Bauhaus de Dessau  de 1925 a 1928. Hannes Meyer dirigiu Dessau de 1928 a 1930. Em 1932 a Bauhaus foi para Berlim sob a direção de Van der Roeh por mais um ano até fechar.

[2] Sesc Pinheiros  de 17 maio a 4 de agosto de 2013, sob curadoria de Anja Guttenberger (Bauhaus – Arquivo Berlin), Christian Hiller Oswalt e Thomas Tode (Bauhaus Dessau)

[3] Curadoria de Silvia Prado Segall com assessorias do historiador Jayme Vargas Agente, Silvia Maglioto e da artista e produtora Bel Kook. Ocupação Itaú Cultural, Casa Modernista, Museu Lasar Segall.

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Walter Groupius e a Bauhaus. Tradução Joana Angélica d´Avila Melo; posfácio de Bruno Contardi. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

STANGOS, Nikos (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

TASSINARI, Alberto. O Espaço Moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

Catálogo Bauhaus.foto.filme: ideias que se encontram. Sesc Pinheiros, 2013.

https://tecituras.wordpress.com/2014/01/19/territorio-social-na-arquitetura-do-brasil-i/

https://tecituras.wordpress.com/2011/03/28/cura-dores-arte-para-que/

https://tecituras.wordpress.com/2016/01/14/da-31a-bienal-de-sao-paulo-como-coisas-que-nao-existem-a-29-de-abril-de-2015-2/

https://tecituras.wordpress.com/2009/03/02/bienais-de-arte-de-sao-paulo-salve-basquiat/

 

 

 

 

Série Movimentos de Vanguarda II: Expressionismo e Cubismo

6 maio

por Gisèle Miranda

O Expressionismo nasceu por volta de 1905 com um subjetivismo antinaturalista e obviamente com atritos pelo contexto técnico e temático do Impressionismo. Tanto que na Alemanha, o Impressionismo não floresceu, mas foi terreno fértil do Expressionismo Alemão – nomeado também a partir de um comentário crítico e de uma fusão literária, teatral, da música, da arquitetura nos desenhos e nas pinturas.

O Expressionismo resgatou Paul Gauguin (1848-1903) com seu Expressionismo Primitivo encarnado na Polinésia francesa; Vincent Van Gogh (1853-1890) pelo ardor da cor associado ao seu tormento e Paul Cezánne (1839-1906) com suas máscaras africanas.

O Fauvismo mesmo sem manifesto influenciou sobremaneira o Expressionismo. A iminência da guerra (1914-1918) e as emoções inflamadas tomaram curso nas cores intensas e com texturas. Na Alemanha eclodiram dois grupos importantes com artistas em destaques: A Ponte (Die Brücke, 1905-1913) e o Cavaleiro Azul (Der Blaue Reiter, 1911-1919).

A Ponte foi fundada por Erich Heckel (1883-1970), artista e estudante de arquitetura; parte de sua obra foi destruída na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), assim como de muitos outros artistas.

Erich Heckel (Dobeln, Alemanha, 1883- Radolzell, Alemanha, 1970), Menina deitada (nu no sofá), 1909. Óleo sobre tela 96,5 x 121,2 cm.  The Pinakothek Museum of Modern Art (Pinakothek der Moderne Munich, Alemanha).

Erich Heckel (Dobeln, Alemanha, 1883 – Radolzell, Alemanha, 1970), Menina deitada (nu no sofá), 1909. Óleo sobre tela 96,5 x 121,2 cm. The Pinakothek Museum of Modern Art (Pinakothek der Moderne Munich, Alemanha).

Edvard Munch (1863 -1944) esteve ligado com A Ponte; Munch sofreu com a morte da mãe, irmãs e incompatibilidades com pai. Sua obra Expressionista reflete todo o desassossego familiar, depressão e internações.

Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938) também foi integrante do grupo A Ponte. Em 1906 discursou:

Estão conosco todos aqueles que, diretamente e sem dissimulação, expressam aquilo que os impele ao criar. (Stangos, 1991: 28).

Kirchner foi ferido na guerra e incorporou todos os traumas do pós- guerra que o levou ao suicídio. Na Ponte, também estiveram Emil Nolde (1867-1956), Otto Mueller (1874-1930), Max Pechstein (1881-1955), Karl Schmidt-Rottluff (1884-1976), entre outros.

Ernst Ludwig Kirchner (Aschafemburgo, Alemanha, 1880 - Davos, Suíça, 1938) Autorretrato como soldado, 1915. Óleo sobre tela, 69, x 61 cm. Allen Memorial Art Museum, Oberlin College

Ernst Ludwig Kirchner (Aschafemburgo, Alemanha, 1880 – Davos, Suíça, 1938) Autorretrato como soldado, 1915. Óleo sobre tela, 69, x 61 cm. Allen Memorial Art Museum, Oberlin College

O Cavaleiro Azul teve autoria de Kandinsky, um artista intelectual que integrou o quadro docente da Bauhaus (de 1922 a 1933) e tornou-se um importante teórico. Ele acreditou que a pintura e a música exprimiam a vida interior, que a arte eclode da espiritualidade. Assim nasceu Do Espiritual na Arte, escrito em 1910; publicado em 1912. São outras possibilidades de pensar as cores e, em parte, a sustentação teórica da Arte Abstrata.

Franz Marc (1880-1916) participou do grupo de Kandinsky. Foi a óbito aos 36 anos ferido em combate no final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Também estiveram no Cavaleiro Azul, Paul Klee (1879-1940), Lyonel Feininger (1871-1956), Alfred Kubin (1877-1959), entre outros.

Franz Marc (Munique, Alemanha, 1880- Braque, França, 1916) O Destino dos Animais, 1913. Óleo sobre tela, 1,96 x 2,66 cm. Kuntmuseum, Basileia, Suíça.

Franz Marc (Munique, Alemanha, 1880- Braque, França, 1916) O Destino dos Animais, 1913. Óleo sobre tela, 1,96 x 2,66 cm. Kuntmuseum, Basileia, Suíça.

Oscar Kokoschka (1886-1980) foi um Expressionista mais independente e teve vínculo com o teatro. Em seus trabalhos reforçou a barbárie da vida e o sofrimento amoroso. Vindo do Império Austro-Húngaro, ferido de guerra com uma bala na cabeça e o corpo rasgado por uma baioneta.

Kokoschka viveu uma história de amor com Alma Mahler (1879-1964), uma fantástica mulher de inteligência múltipla que também arrastou os corações do compositor/maestro Gustav Mahler (1860-1911), do arquiteto e criador da Bauhaus Walter Groupius (1883-1969), e do poeta Franz Werfel (1890-1945).

Oskar Kokoschka (Pölchrn, Áustria, 1886 - Montreaux, Suíça,1980), Pietà cartaz assassino, esperança das mulheres, 1909. Litografia. (MOMA)

Oskar Kokoschka (Pölchrn, Áustria, 1886 – Montreaux, Suíça,1980), Pietà assassino, esperança das mulheres, 1909. Litografia. Cartaz para uma peça de teatro. MOMA/ NY, EUA.

Quando Alma Mahler deixou Kokoschka, ele passou a andar com uma boneca inflável chamada Alma Mahler e sem pudores saía às ruas, aos cafés com ela. Kokoschka deixou registrada essa relação em desenhos e pinturas tais como Retrato de Kokoschka e Alma Mahler (1912/13), Noiva do Vento (1913), Amantes (1913).

Oskar Kokoschka (Pölchrn, Áustria, 1886 - Montreaux, Suíça,1980) Retrato de Kokoschka e Alma Mahler, 1912/13. Óleo sobre tela 100 x 90 cm. Essen Museun Folkwang.

Oskar Kokoschka (Pölchrn, Áustria, 1886 – Montreaux, Suíça,1980) Retrato de Kokoschka e Alma Mahler, 1912/13. Óleo sobre tela 100 x 90 cm. Essen Museun Folkwang.

Em meio ao Expressionismo, O Manifesto Futurista (Itália, 1909) e exposições de Cubistas (na França) movimentaram as discussões sobre a arte e política, arquitetura e funcionalidade, pintura e música.

Marc Chagall (1887-1985) se destacou no Expressionismo, no Cubismo e no Surrealismo. Vale lembrar que em 1957, a 4ª Bienal de São Paulo dedicou uma sala especial às obras de Chagall.

Modigliani (1884-1920) com suas personagens longilíneas remeteram às máscaras africanas. O MASP – Museu de Arte Moderna de São Paulo – possui cinco retratos com essas características e realizados entre 1915 e 1919. A vida de Modigliani foi marcada por problemas de saúde, bebidas e drogas. Quando Modigliani faleceu sua esposa desesperada se atirou pela janela, grávida de cinco meses.

Pablo Picasso (1881-1973) vivenciou o Fauvismo, Expressionismo, Cubismo e andou por outros tantos movimentos. Em Les Demoiselles d’Avignon de 1907*, Picasso sem dúvida bebeu da fonte de Matisse (1869-1954) em Luxe (1904) e Joie de Vivre (1906). Matisse fez sua famosa A dança (1910) como uma junção divina entre sua obra e a de Picasso.

Pablo Picasso (Málaga, Espanha 1881- Mougins, França,1973)   Les  Demoiselles d'Avignon, 1907.Óleo sobre tela 243,9 x 233,7 cm. MOMA/NY.

Pablo Picasso (Málaga, Espanha 1881- Mougins, França,1973) Les Demoiselles d’Avignon, 1907. Óleo sobre tela 243,9 x 233,7 cm. MOMA/NY, EUA.

O Cubismo vem da fusão da obra de Cézanne e sua relação com os negros às máscaras africanas pelos rastros de Gauguin e do Fauvismo. A pintura de Cézanne abre elementos à teórica:

Como superar o limite histórico da pintura de Cézanne? Não havia qualquer sentido em acolher os entalhadores negros de máscaras e fetiches no paraíso da arte universal; o necessário era resolver dialeticamente a contradição pela qual soluções opostas por uma ´civilidade extrema´ e por uma ´barbárie extrema´… apenas assim o elemento ´barbárie poderia atuar como elemento de ruptura de um limite histórico como fator revolucionário… Argan, 1992, p. 126

Às vésperas do Cubismo ou no processo de criação estavam Picasso e Georges Braque (1882-1963) como aliados experimentais e teóricos pela arte.

{Picasso e Braque} Resolveram o problema da terceira dimensão por meio de linhas obliquas (já indicativas da profundidade) e curvas (já indicativas do volume) trazendo para o plano o que se apresenta como profundidade ou relevo. In: Argan, 1992, p. 427.

Braque veio do Fauvismo. Trabalhou com Picasso de 1907 a 1914. Segundo Giulio Carlo Argan (p. 430), Braque tinha o rigor do método, pois o Cubismo se definia com a base intelectual instigando uma passagem para a colagem. Em 1915, Georges Braque sobreviveu a um tiro na cabeça durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Georges Braque (Argenteuil, França, 1882- Paris, França, 1963), La Tasse, 1911 Óleo sobre tela 24,1 x 33 cm. Coleção particular.

Georges Braque (Argenteuil, França, 1882- Paris, França, 1963), la Tasse, 1911. Óleo sobre tela 24,1 x 33 cm. Coleção particular.

A aliança de trabalho de Picasso (a força da ruptura) com Braque deu-se de forma tranquila e encontraram caminhos dentro do Cubismo que se integraram: o volume de Picasso e a cor de Braque. Surgem as naturezas-mortas e a ordenação analítica dos objetos conhecidos, para pensar as coisas e o espaço.

Pablo Picasso (Málaga,Espanha 1881-Mougins, França,1973), Natureza morta espanhola, 1912; tela oval de 0,46 x 0,33m. Coleção particular.

Pablo Picasso (Málaga,Espanha 1881-Mougins, França,1973), Natureza morta espanhola, 1912; tela oval de 0,46 x 0,33m. Coleção particular.

Assim, outros grandes Cubistas surgiram nessa atmosfera mental como Marcel Marcel Duchamp (1887-1968), Juan Gris (1887-1927), Fernand Léger (1881-1955), o escultor Henry Laurens (1885-1957).

Com Juan Gris, a profundidade deixou de existir e os objetos encontraram-se no plano. O quadro passa ser o objeto e não a representação. Gris é quem dá a espacialidade da arquitetura de Le Corbusier, segundo Argan.

juan grisJuan Gris (Madri, Espanha, 1887- Boulogne-Billancourt, França, 1927), Fruta em uma toalha de mesa quadriculada, 1917. Óleo sobre madeira 80,6 x 53,9 cm. Solomon R. Guggenheim Museum, New York.

Juan Gris (Madri, Espanha, 1887- Boulogne-Billancourt, França, 1927), Fruta em uma toalha de mesa quadriculada, 1917. Óleo sobre madeira 80,6 x 53,9 cm. Solomon R. Guggenheim Museum, New York.

Houve também o denominado Cubismo Órfico de Robert Delaunay (1885- 1941), batizado assim por Guillerme Apollinaire (1800–1918). O Cubismo Órfico não é analítico nem sintético, indo ao encontro do Futurismo (1909), principalmente quando as cidades projetam-se às alturas, uma destruição com ritmo onde a luz consegue deformar. Mas o tema da velocidade do Futurismo destoa.

torre eiffel

Robert Delaunay (Paris, França,1885 – Montepelier, França, 1941) Torre Eiffel, 1911. Óleo sobre tela 1,98 x 1,36 m. Solomon R. Guggenheim Museum, New York.

Quando Delaunay realizou a Série dos Discos e das Formas Circulares Cósmicas (1912) fixou de súbito em sinais simbólicos, logo foram associadas às discussões de Kandinsky sobre O Espiritual através das cores, revelando algo significativo para a História da Arte europeia: as primeiras pinturas não-figurativas. (Argan, 1992, p. 433).

Apollinaire foi o mestre de cerimônias do Cubismo, pensador e poeta visual, adentrou o Dadaísmo e o Surrealismo como poeta in memoriam. Antes pensou o Cubismo em seus diferentes processos. Assim percebeu em F. Kupka (1871-1957), a importância dos discos de Newton (1912) como de uma pintura abstrata “pura” do Cubismo Órfico com a força vital e mitificadora.

Kupka, F. (Opocno, República Checa, 1871 – Puteaux, França, 1957), Discos de Newton, 1911-12. Óleo sobre tela, 100 x 73 cm.

Kupka, F. (Opocno, República Checa, 1871 – Puteaux, França, 1957), Discos de Newton, 1911-12. Óleo sobre tela, 100 x 73 cm.

Com Fernand Léger, Apollinaire ressaltou o Cubismo dinâmico da vida moderna. Viés esse absorvido por sua aluna Tarsila do Amaral (1886-1973). Francis Picabia (1879–1953) se destacou no Cubismo do dinamismo psíquico. (Stangos, p. 64)

Fernand Léger (Argentan, França,1881-, Gif-sur-Yvette, França, 1955),   La Ville ( Cidade ), óleo sobre tela, 231,1 x 298,4 cm. Museu de Arte da Filadéfia.

Fernand Léger (Argentan, França,1881-, Gif-sur-Yvette, França, 1955), La Ville ( Cidade ), óleo sobre tela, 231,1 x 298,4 cm. Philadelphia Museum of Art, EUA.

Marcel Duchamp passou pelo Cubismo analítico com críticas, pois se ateve ao elemento cinético do Cubismo. Ele rejeitou a pintura de tradição indo pelo caminho do puro ato estético, ou seja, para o Dadaísmo. Duchamp foi um crítico da sociedade moderna, além de um grande intelectual.

Marcel Duchamp (Blainville-Crevon, França, 1887 – Neuilly-sur-Seine, França, 1968). Nu descendo a escada, 1912. Óleo sobre tela 147 x 89,2 cm. Philadelphia Museum of Art, EUA.

Marcel Duchamp (Blainville-Crevon, França, 1887 – Neuilly-sur-Seine, França, 1968). Nu descendo a escada, 1912. Óleo sobre tela 147 x 89,2 cm. Philadelphia Museum of Art, EUA.

(*) Les Demoiselles d’Avignon, título inventado pelo poeta André Salmon (1881-1969), anos mais tarde. Argan, 1992, p.422.

(**) A Fundação em Memória a Oskar Kokoschka foi criada em 1988 pela viúva do artista, Olda Kokoschka. Em 2012 foi anexada ao Museu Jenisch de Vevey – Fundação Oskar Kokoschka. Consulta em 6/5/2019. São 489 pinturas catalogadas.

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. Walter Gropius e a Bauhaus. Tradução Joana Angélica d´Avila Melo. Rio de Janeiro: Jos.

FERRREIRA, Glória; COTRIM, Cecilia (Org.) Clemente Greenberg e o debate crítico. (Tradução Maria Luiza X. de A. Borges). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

GIROUD, Françoise. Alma Mahler ou a arte de ser amada. Tradução Ana Maria Chabloz-Scherer. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1989.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2ª ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

STANGOS, Nikos (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

TASSINARI, Alberto. O Espaço Moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

Série Movimentos de Vanguarda I: Impressionismo, Neoimpressionismo, Fauvismo.

5 maio

por Gisèle Miranda

O conceito de Arte Moderna a ser apresentado situa-se nos escritos literários de Charles Baudelaire (1867-1921) e no turbilhão artístico ocorrido em final do século 19 até meados do século 20.

Nesse breve período surgiram os Movimentos de Vanguarda. Alguns com manifestos outros sem. Essa Modernidade é amparada historicamente pela Idade Moderna – mas são conceitos distintos.

Essa modernidade é ditada por mudanças de fases e processos de depuração. A perspectiva foi desaparecendo e a Arte Abstrata alçou pilar próprio e conquistou espaço paralelo ao figurativo. A colagem ganhou o ápice do Op antinaturalismo, ou seja, o espaço moderno.

O que o artista moderno procura… Ele procura algo que nós nos permitimos chamar modernidade… o eterno no transitório. (Baudelaire,1995: 694).

O Impressionismo

Alguns pensadores não creditam no Impressionismo como um movimento de experimentação se comparado aos que surgiram posteriormente. O Impressionismo perto do Fauvismo, Expressionismo ou Cubismo tornou-se mais de retaguarda do que de vanguarda. Mas em relação aos movimentos anteriores essa visão de retaguarda enfraquece.

A primeira exposição Impressionista ocorreu em 1874. O grande público e os críticos ficaram chocados com o que viram, pois estavam calcados em uma longa história do figurativo Clássico, Neoclássico e do Realismo.

O Impressionismo abriu o espaço público para a pintura fora dos estúdios, utilizando a luz solar, os primeiros raios do sol, o entardecer, os movimentos das nuvens, o vento no vestido, no cabelo, na embarcação à vela, nas ondas do mar, na fumaça dos trens.

A bandeira do Impressionismo foi levantada por Claude Monet (1840-1926), unanimidade dos teóricos. Só ele capturou o caráter aéreo em turbilhões de fumaça branca e azul.[1] Contudo, entre os jovens artistas o Impressionismo foi bem recebido e incorporado.

Claude Monet (Paris, França, 1840 - Giverny, França, 1926), A Estação Saint-Lazare, 1877.  Óleo sobre tela, 74,9 x 100,3 cm. Museu d’Orsay, Paris.

Claude Monet (Paris, França, 1840 – Giverny, França, 1926), A Estação Saint-Lazare, 1877. Óleo sobre tela, 74,9 x 100,3 cm. Museu d’Orsay, Paris.

Édouard Manet (1832-1883) era bem estabelecido no mercado de arte e vindo de trabalhos ligados ao Realismo. Manet aplaudiu, aderiu, renovou e tornou-se também um Impressionista.

O movimento batizado ironicamente por um crítico à tela Impressões, nascer do sol de Monet. Chamando-a de impressões, de borrõesUm papel de parede é mais elaborado que esta cena marinha[1].

Claude Monet (Paris, França, 1840 - Giverny, França, 1926), Impressão, nascer do sol, 1872. Óleo sobre tela 48 x 63 cm. Museu Marmottan Monet, Paris.

Claude Monet (Paris, França, 1840 – Giverny, França, 1926), Impressão, nascer do sol, 1872. Óleo sobre tela 48 x 63 cm. Museu Marmottan Monet, Paris.

Nomes como Camille Pissarro (1830-1903), Edgar Degas (1834-1917), Alfred Sisley (1839-1899), Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Vincent van Gogh (1853-1890), Berthe Morisot (1841-1895), uma das raras mulheres da História da Arte em um mundo totalmente masculino e muito reticente com a presença da mulher como artista. Morisot casou com o irmão de Manet e aluna dos pintores Realistas Jean-Baptiste Corot (1796-1875) e Jean-François Millet (1814-1975).

Berthe Morisot (Bourges, França, 1841 - Paris, França, 1895), O Berço, 1872. Óleo sobre tela, 56 x 46 cm. Museu d’Orsay, Paris.

Berthe Morisot (Bourges, França, 1841 – Paris, França, 1895), O Berço, 1872. Óleo sobre tela, 56 x 46 cm. Museu d’Orsay, Paris.

O Impressionismo passou por uma divisão quanto à técnica criada pelo pontilhismo ou Neoimpressionismo. Nomes como Georges Seurat (1859-1891), Maximilien Luce, (1858-1951) Paul Signac (1863-1935), entre outros.

Georges Seurat (Paris, França, 1859- Paris, França, 1891), Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, 1884 – 1886. Óleo sobre tela 2017,5 x 308,1 cm. Art Institute of Chicago.

Georges Seurat (Paris, França, 1859- Paris, França, 1891), Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, 1884 – 1886. Óleo sobre tela 2017,5 x 308,1 cm. Art Institute of Chicago.

Henri Matisse (1869-1954) fez nus simplificados com o pontilhismo que o marcou no Neoimpressionismo, assim como sua tridimensionalidade através das fortes manchas.

Henri Matisse (Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954), Luxe, Calme et Vulupté, 1904. Óleo sobre tela, 98,5 x 118,5 cm. Museu d’Orsay, Paris.

Henri Matisse (Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954), Luxe, Calme et Vulupté, 1904. Óleo sobre tela, 98,5 x 118,5 cm. Museu d’Orsay, Paris.

Matisse era conhecido e respeitado mesmo assim sofreu com as críticas, principalmente com a forma para representar o corpo feminino e como deixava suas modelos feias em sua fase Fauvista (1904-1907)

O retrato de sua mulher usando um enorme chapéu foi interpretado como sendo de um inexplicável mau gosto, uma caricatura da feminilidade. (Stangos, p. 17)

Matisse (Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954), Mulher com Chapéu, 1905. Óleo sobre tela 80,6 x 59,7 cm. Coleção particular.

Henri Matisse (Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954), Mulher com Chapéu, 1905. Óleo sobre tela 80,6 x 59,7 cm. Coleção particular.

O irmão da escritora Gertrude Stein (1874-1946) adquiriu o Retrato de Madame Matisse. Leo Stein deixou registrado: Era o mais nojento borrão de tinta que jamais vi. (Stangos, p.17)

(Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954) Madame Matisse, 1905. Óleo sobre tela, 40,.5 cm × 32,5 cm. Statens Museum for Kunst

Henri Matisse (Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954) Madame Matisse, 1905. Óleo sobre tela, 40,.5 cm × 32,5 cm. Statens Museum for Kunst

Matisse passou pelo Fauvismo, Expressionismo e Cubismo. O Fauvismo foi um movimento de cores puras, exageradas e com o contraste das cores complementares, do qual Maurice de Vlaminck (1876-1958) com seu espírito livre tornou-se um expoente; e oponente veementemente ao pontilhismo dos Neoimpressionistas.

Maurice de Vlaminck (Paris, França, 1876 – Rueil-la-Gadelière, França, 1958), Hauses at Chateau, c.1905. Óleo sobre tela 81,3 x 101,6 cm. Art Institute of Chicago

Maurice de Vlaminck (Paris, França, 1876 – Rueil-la-Gadelière, França, 1958), Hauses at Chateau, c.1905. Óleo sobre tela 81,3 x 101,6 cm. Art Institute of Chicago

Vlaminck, Matisse e Picasso (1881-1973) tornaram-se grandes colecionadores de esculturas africanas, a principal fonte para a primeira fase Cubista, das interferências da cultura africana e suas máscaras.

Matisse apadrinhou André Derain (1880-1954) no Fauvismo e no Cubismo, a ponto de interceder junto aos pais de Derain sobre o importante ofício e a qualidade da obra do artista/filho. Eles se tornaram os Les Fauves, os feras, os selvagens para falar das cores. Outros foram agregando ao grupo como Georges Braque (1882-1963), Raoul Dufy (1877-1953), Georges Rouault (1871-1958), Albert Marquet (1875-1947), Jean Puy (1876-1960) e sempre Picasso por perto, entre outros.

André Derain (Chatou, França, 1880 - Garches, França, 1954), Henri Matisse, 1905. Óleo sobre tela 46 x 34 cm. Tate Modern, London

André Derain (Chatou, França, 1880 – Garches, França, 1954), Henri Matisse, 1905. Óleo sobre tela 46 x 34 cm. Tate Modern, London

Para alguns artistas como Matisse, Derain, Picasso, as passagens de Movimentos, de fato, tornaram-se depurativas. Também Vincent van Gogh e Paul Gauguin (1848-1903) na fase Expressionista, entre outros.

Houve sobreposição de movimentos, não como rupturas, mas como fases, experimentações e, obviamente, a relação dessas vanguardas com o momento histórico. A guerra Franco-Prussiana (1870-1871), ou concomitante às duas Guerras Mundiais (1914-1918 e 1939-1945). Essa relação artista/soldado foi presente na estética dos feridos, dos sobreviventes aos traumas de guerra e morte.

[1] Exposição Impressionismo: Paris e Modernidade, Obras-Primas do Acervo do Museu d’Orsay de Paris, França. CCBB SP, 2016. Obra roubada em 1985 e recuperada em 1990.

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do mal. Edição bilíngue. Tradução de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

FERRREIRA, Glória; COTRIM, Cecilia (Org.) Clemente Greenberg e o debate crítico. (Tradução Maria Luiza X. de A. Borges). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2ª ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

SCHAPIRO, Meyer. Impressionismo: percepções e reflexões. Tradução de Ana Luiza Dantas Borges. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

STANGOS, Nikos (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

TASSINARI, Alberto. O Espaço Moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

(*) Parte desse texto foi realizado no Instituto de Arte e Cultura Antonio Peticov.

Série Releituras Visuais e Breves Comentários IV: VELÁZQUEZ (1599 – 1660) e a Releitura de Antonio Peticov (1946-)

2 maio

por Gisèle Miranda

 

Diego Rodríguez de Silva VELÁZQUEZ (Sevilha, Espanha, 1599 – Madrid, Espanha, 1660), neto de portugueses, pelo lado paterno, casou com Juana, a filha de seu professor de teoria da arte, Francisco Pacheco.

Velázquez foi pintor de câmara do reinado de Felipe IV e de convívio diário com o principal pintor da corte espanhola, Peter Paul Rubens (1577-1640), que foi considerado o maior pintor da época e um proeminente diplomata, pois como alemão, família calvinista tornou-se importante na Corte Espanhola Católica.

Velázquez alçou séculos onde se registrou com o seu lado humano e social, na pintura, além da pomposidade dos retratos da corte em função de seu cargo. Ele tornou-se ídolo para os Impressionistas – ´le peintre des peintres´ para Manet. (In: Argan, 2004; p. 116)

Há inúmeras releituras acadêmicas sobre essa obra, incluso um ensaio de Michel Foucault (1926-1984) sobre a representação e a perspectiva do espectador em As Meninas de Velázquez.

As Meninas ou a Família de Felipe IV, de Diego Velázquez (1656) é um raro autorretrato; poucas vezes se retratou, em geral utilizando recursos de espelhos ou de costas. Rembrandt (1606-1669) tem um histórico de autorretratos. Mas Velázquez, não!

Diego Rodríguez de Silva VELÁZQUEZ (Sevilha, Espanha, 1599 - Madrid, Espanha, 1660) As Meninas ou a Corte de Felipe IV, 1656. Óleo sobre tela, 320,5 x 281,5 cm. Museu do Prado, Madri, Espanha.

Diego Rodríguez de Silva VELÁZQUEZ (Sevilha, Espanha, 1599 – Madrid, Espanha, 1660) As Meninas ou a Família de Felipe IV, 1656. Óleo sobre tela, 320,5 x 281,5 cm. Museu do Prado, Madri, Espanha.

 

Na Releitura, Peticov preferiu a metáfora que usou com Rembrandt (as cores) e muita brincadeira na distribuição das personagens. Em As meninas de Antonio, de Peticov, o jogo cênico do pião tanto pode ser o artista ou  a infanta Margarida que não se conteve e abriu um sorriso do Grafismo.

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Antonio Peticov (Assis, SP, Brasil, 1946-)As Meninas do Antonio, 2017. Acrílica sobre tela  150 x 200 cm. Série Releituras.

 

Mas a sensibilidade que une Peticov a Velázquez é a anã da corte vertida em matrioska, ou seja, com a mesma importância que Velázquez deu em O menino de Vallecas, 1636-1640, o retrato de um anão e sua existência com a mesma magnitude do Retrato de Felipe IV, de 1644.

 

 

(*) Nota: Esse texto foi realizado no Instituto de Arte e Cultura Antonio Peticov https://www.peticov.com.br/

(**) Michel Foucault sobre As Meninas de Velázquez: As Meninas por Foucault

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

BURKE, Peter. (Org.) A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

Série Releituras Visuais e Breves Comentários III: O Realismo de COURBET (1819 – 1877) e a Releitura de Antonio Peticov (1946 -)

2 maio

por Gisèle Miranda

 

Jean Désiré Gustav COURBET (Ornans, França, 1819 – La Tour-de-Peilz, Suiça, 1877) veio de uma família rural bem estabelecida. Iniciou o curso de Direito, mas abandonou para estudar desenho de maneira independente até criar o seu próprio Realismo – da construção do discurso e da prática. 

Courbet foi fascinado pelo Barroco Laico de Frans Hals (1580-1666), Rembrandt (1606-1669) e Rubens (1577-1640). E se curvou ao retratista do Barroco Religioso Diego Velázquez (1599-1669).

A pintura de Courbet foi anticlerical e tinha uma técnica de trabalho peculiar a Caravaggio (1571-1610) – o uso da faca na pintura. Também fazia uso do polegar e irritava os críticos da metade do século 19 com a grandeza de sua assinatura, o tamanho e a energia de suas telas, considerados provocações para os críticos conservadores. (Schapiro, 1996, 124-125)

Jean Désiré Gustav COURBET (Ornans, França, 1819 - La Tour-de-Peilz, Suiça, 1877), O Ateliê do Artista,1855. Óleo sobre tela 359  x 598 cm. Museu D’Orsay, Paris.

Jean Désiré Gustav COURBET (Ornans, França, 1819 – La Tour-de-Peilz, Suiça, 1877), O Ateliê do Artista,1855. Óleo sobre tela 359 x 598 cm. Museu D’Orsay, Paris.

O Ateliê de Courbet tem a amplitude e a força do Realismo construído. Um autorretrato compartilhado com inúmeras releituras: ao lado direito com amigos (intelectuais da época) e seus pais. Ao lado esquerdo a miscelânea  de culturas e de quão popular era em seu ofício – no discurso e na prática! Crianças, cachorro e a representação da Verdade (a mulher).

 

Na Releitura de Antonio Peticov, entitulada Pintando com a Verdade Olhando, 2018 há um recorte do ateliê de Courbet. Esse recorte tornou-se o ateliê de Antonio Peticov, bem mais intimista, mas onde os artistas se confundem em tempos distintos.

O filho de Antonio Peticov, Pedro Antonio, retratado criança (hoje adulto) ativa toda a esperança no aprendizado, no exercício diário do tempo vivido. O ateliê também é representada pelo gato “gordo” e pela saudosa akita, a Yuke.

A representação da mulher (Gisele Miranda/amiga teórica) com o artista autorretratado foi um convite  incorporado nas entrelinhas, a partir da História da Arte e de muitas aulas ministradas sobre o Realismo. E da mesma forma, o conhecimento sobre o artista Antonio Peticov, sua biografia e sua obra.  Agraciada por representar essa fusão de temporalidades e de movimentos artísticos – de todo o processo – da fotografia, do desenho à pintura.

Antonio Peticov (Assis, SP, Brasil, 1946 -) Pintando com A Verdade Olhando, 2018. Acrílica sobre tela 140 x 120 cm. Série Releituras.

Antonio Peticov (Assis, SP, Brasil, 1946 -) Pintando com A Verdade Olhando, 2018. Acrílica sobre tela 140 x 120 cm. Série Releituras.

Revivi o ateliê de Courbet e aproveitei a escada cósmica de Peticov para conversar com Charles Baudelaire (1821-1867), Champfleury (1821-1889), Proudhon (1809-1865), Alfred Bruyas (1821-1876), seus pais e mais dois amigos que na pintura estavam à sua direita.

Baudelaire está lendo um livro; avisei a Baudelaire que o representaria intelectualmente, junto a Peticov, o filho, o gato e o cachorro, os esquadros, a escada cósmica, a ampulheta e os livros.

 

 

(*) Nota: Esse texto foi realizado no Instituto de Arte e Cultura Antonio Peticov https://www.peticov.com.br/

(**) Sobre Realismo e Courbet: Movimento Realista, parte I

Série Retorno V: O Realismo de Courbet   (parte desse texto foi reproduzido aqui)

 

Referências:

AMARAL, Aracy. Arte para que? São Paulo: Nobel/ Itaú Cultural, 2003

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

BURKE, Peter. (Org.) A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

 

Sobre Antonio Peticov:

Antonio Peticov: alquimia dos mestres!

Série Antonio PETICOV I: Cérebro Meditation # 3

Série Antonio PETICOV II: Cérebro Duck Dreams

Série Antonio PETICOV IV: Cérebro Full Circle

Série Releituras Visuais e Breves Comentários II: O Barroco Laico de REMBRANDT (1606 – 1669) e a Releitura de Antonio Peticov (1946-)

1 maio

por Gisèle Miranda

 

O Barroco laico tem três pilares associados a Frans Hals (1580-1660), a Rembrandt (1606-1669) e a Vermeer (1632-1675).

Rembrandt foi um bom articulador de seu próprio nome, por isso alçou em vida um nome importante, incluso com recursos provenientes de seu casamento. Um dos poucos a assumir o primeiro nome – Rembrandt – e não o sobrenome comumente àquela época que em geral correspondia à cidade ou vilarejo de nascimento. O exemplo mais próximo a esses três artistas, ou seja, a reverência inesgotável ao italiano Caravaggio (1571-1610) – que correspondia ao nome da vila onde nasceu Caravaggio.

Mas como Rembrandt morreu pobre, endividado? Filho de um moleiro calvinista que casou bem e adquiriu notoriedade em seu ofício. Administrar os próprios recursos não foi uma tarefa simples para Rembrandt, se contabilizados gastos com processos: a esposa, a amante, o filho, o sócio, entre outros processos. Os Países Baixos (mercantil e burguês) sempre priorizaram a área do Direito. Não é a toa que Haia tornou-se sede das Conferências de Paz de 1899 e 1907, e continua sede internacional dos Direitos Humanos.

Rembrandt viveu 63 anos –  da juventude a velhice capturou-se através de autorretratos, mas analisando-os, percebe-se, o que menos importava era a vaidade. O autoconhecimento, as rugas ou as expressões através do tempo foram suportes para a estética do Barroco Laico – os melhores Retratos do claro-escuro, os detalhes veementes do gênero Retrato – sobrancelhas, pintas, rugas, a vestimenta e suas rendas ao visível processo de envelhecimento e detalhes capturados magnificamente por Rembrandt.

Na obra O artista em seu estúdio de 1629, Rembrandt estava com 40 anos. Seu ateliê é um autorretrato com sua bela vestimenta à moda holandesa. Mas onde estão os pincéis, as tintas? Onde estão as telas, pinturas?

Rembrandt Harmenszoon Van Rijn (Leida, Países Baixos,1606 - Amsterdã, Países Baixos 1669) O Artista em seu Estúdio, 1629. Óleo sobre madeira 25,1 x 31,9 cm. Museu de Boston, EUA.

Rembrandt Harmenszoon Van Rijn (Leida, Países Baixos,1606 – Amsterdã, Países Baixos 1669) O Artista em seu Estúdio, 1629. Óleo sobre madeira 25,1 x 31,9 cm. Museu de Boston, EUA.

Rembrandt fez esse autorretrato com um visível objeto escatológico, uma mesa e a sensação de vazio. Vinte e três anos depois sua cama foi vendida para ajudar no seu enterro – o autorretrato da vida de um artista na miséria. Mas o tempo deu a ele a admiração dos Românticos e Realistas do século 19.

O mestre Rembrandt viveu há poucas quadras do bairro judeu. Há inúmeros desenhos que registraram essas andanças. Vale ser dito que a Espanha perseguiu os judeus até o início do século 19. Os portugueses mesmo com a União Ibérica (1580-1640) e toda a atrocidade histórica de perseguições à inquisição dos espanhóis – o Brasil não adotou a inquisição; e melhor, acolheu a comunidade judaica que construiu sua primeira Sinagoga no Recife, 1637, durante o domínio do governador do Brasil Holandês, Maurício de Nassau (1604-1679). Em sua comitiva vieram os artistas Albert Eckhout (1610-1666), Georg Marcgraf (1610-1644) e Frans Post (1612-1680), entre outros ofícios.

 

A Releitura que Antonio Peticov fez de Rembrandt é um autorretrato para ambos. O acervo memorial de Peticov, o acúmulo de documentos, fotos, desenhos, pinturas, objetos culturais e o conteúdo imaterial ao longo dos seus 73 anos resultaram na Série Releituras. Na luta e nas oscilações financeiras em um autorretrato da vida. Como manter o Instituto de Arte e Cultura Antonio Peticov?

Antonio Peticov optou pelas cores do espectro em seu autorretrato com o mesmo ambiente que Rembrandt – o atelier – as mesmas dificuldades, o objeto escatológico, o vazio, o silêncio e a necessidade do trabalho diário.

Antonio Peticov (Assis, Brasil, 1945-) O Pintor Holandês, 2017. Acrílica sobre tela, 100 x 120 cm.

Antonio Peticov (Assis, Brasil, 1945-) O Pintor Holandês, 2017. Acrílica sobre tela, 100 x 120 cm. Série Releituras.

Seu autorretrato em cores sobrepostas, irregulares está longe de ser um arco íris. Mas o resultado dessa releitura é um pote de riquezas.

 

 

(*) Nota: Esse texto foi realizado no Instituto de Arte e Cultura Antonio Peticov https://www.peticov.com.br/

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

TIRAPELI, Percival (Org.) ARTE Sacra Colonial: Barroco Memória Viva. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo; Editora UNESP, 2005.

Sobre Antonio Peticov

Antonio Peticov: alquimia dos mestres!

Série Antonio PETICOV I: Cérebro Meditation # 3

Série Antonio PETICOV II: Cérebro Duck Dreams

Série Antonio PETICOV IV: Cérebro Full Circle

 

Série Releituras Visuais e breves comentários I: O Barroco Laico de VERMEER (1632 -1669) e a Releitura de Antonio Peticov (1946-)

1 maio

por Gisèle Miranda

 

Vermeer pintou pouco, demorava e era minucioso na construção da imagem. Apenas 34 obras foram atestadas com suas. Na obra Arte da Pintura ou A Alegoria da Pintura ou O Pintor no estúdio (c. 1666 a c. 1688) percebe-se a representação mais intelectual ao se falar do espaço. Vermeer traz:

Novos termos da percepção-consciência, em um sentido moderno, até antecipador (por isso sua fama se desfez rapidamente, e só no nosso século (século 20) foi possível perceber a medida de sua importância) – muito mais, certamente, do que os artistas que pintavam uma história clássica ou uma natureza clássica. (Argan, 2004, p. 117)

 

Johannes VERMEER (Deft, Países Baixos,1632 -  Idem, 1669) Arte da Pintura ou A Alegoria da Pintura ou O Pintor no estúdio (c. 1666 a c. 1688). Óleo sobre tela 120 x 100 cm. Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria.

Johannes VERMEER (Deft, Países Baixos,1632 – Idem, 1669) Arte da Pintura ou A Alegoria da Pintura ou O Pintor no estúdio (c. 1666 a c. 1688). Óleo sobre tela 120 x 100 cm. Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria.

O meticuloso Vermeer conseguiu chegar à especulação metafísica através das cenas mais comuns. (In: Argan, 2004, 137) Mas, quem foi Vermeer? Sabe-se pouco sobre sua história.

Por que sua história e suas obras sofreram essa suspensão no tempo? Foi reconhecido em vida e apesar das especulações é certo que tenha casado (esposa de família católica) e tido 11 filhos, mas nenhum retratado pelo pai.

Sobre a obra O Pintor no estúdio diz-ser-ia a maior e a mais intrigante, e até a mais querida obra de Vermeer. Há elementos muito claros nessa pintura: a presença da mulher representando Clio, ou seja, a História segurando um livro e uma corneta para alardear a boa escrita, a obra, o conteúdo ou a representação da Verdade. Um Lustre com a águia de duas cabeças da dinastia dos Hamburgos, da Áustria. As partituras, um mapa com 17 províncias dos Países Baixos e, entre tantos detalhes destacados em releituras, Vermeer em seu autorretrato de costas para o mundo. Todo esse cenário milimetricamente pensado à Luz que entra pela janela.

O artista Vermeer foi redescoberto pelo crítico de arte Teóphile Thoré (1892-1975) ou pelo pseudônimo William Bürger, e ganhou notoriedade intelectual ao ser citado por Marcel Proust (1871-1922) na obra Tempo Perdido; ficou extasiado com a Vista de Delft (1660-1661) de Vermeer: ver ou escrever como Vermeer.

 

A Releitura de Antonio Peticov reverteu o mapa dos Países Baixos a Guernica de Picasso de 1937, quando a cidade espanhola Guernica foi bombardeada, mas tornou-se ícone de luta através da arte e marco Histórico e Artístico contra o fascismo de Francisco Franco durante a Guerra Civil Espanhola (1937-1939), e do que vem a ser o fascismo na história. Clio está robótica e exalta Guernica de Picasso como em um livro de História – a professora de História em seu quadro Picasso, assim como ver e escrever como Vermeer.

Se Vermeer se expôs mesmo que de costas, Peticov em respeito ao grande mestre deixou o quadro de tela branca, a mensagem da máxima produção. Discreto, mas presente, porque para ambos, a pintura é o quadro e não o pintor. (In: Argan, 2004, p. 493)

Antonio Peticov (Assis, 1946-) A Arte na Pintura, 2017. Acrílica sobre tela, 150 x 120 cm.

Antonio Peticov (Assis, SP, Brasil 1946-) A Arte na Pintura, 2017. Acrílica sobre tela, 150 x 120 cm. Série Releituras.

No piso, o acolhimento da seção áurea; a luz do holofote que projeta a janela e o espectro já apreendido pela física. Sobre a prateleira, os livros de Peticov, os mesmos que utilizou em sua pintura Meditação de São Jerônimo (2015) ao lado do globo mundo, por terras distantes.

 

(*) Nota: Esse texto foi realizado no Instituto de Arte e Cultura Antonio Peticov https://www.peticov.com.br/

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, 1913; Tradução Fernando Py. online.

TIRAPELI, Percival (Org.) ARTE Sacra Colonial: Barroco Memória Viva. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo; Editora UNESP, 2005.

Sobre Antonio Peticov

Antonio Peticov: alquimia dos mestres!

Série Antonio PETICOV I: Cérebro Meditation # 3

Série Antonio PETICOV II: Cérebro Duck Dreams

Série Antonio PETICOV IV: Cérebro Full Circle

 

 

 

Copa 2018: Um Brasil Real

6 jul

por Gisèle Miranda e Lia Mirror

 

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão… .  (Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014.)

 

Sim, espera-se tudo porque somos desiguais. Em tudo! Também o país da corrupção, mundialmente conhecido. A miséria de um pais tão próspero.

Os 7 x 1 da última Copa, as prisões, o Rio de Janeiro falido sendo uma das maravilhas do mundo. Da Copa aos Jogos Olímpicos…. talentos?  Só a sobrevivência. Como não pensar sobre isso? Quantos talentos perdidos, quantas famílias nas ruas?! Estamos em 2018!

Não é o jogador mais caro do mundo que vai mudar o Brasil. Também não devemos crucificar Jesus, afinal ele não é o nosso ´Cristo Redentor´.

Destacamos Cristiano Ronaldo (atual “melhor jogador do mundo”) que bateu uma falta linda e também perdeu um pênalti! Perdeu a Copa? Ficou um gesto maravilhoso com Cavani (ou com Mujica)!!!  Como faltaram gestos!

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Foto divulgação/ 2018

Mas venceu a diversidade, a força e a garra dos refugiados da histórica República Francesa e uma bela discussão sobre o tema que assola o mundo. Precisamos de mais Liberdade, Igualdade e Fraternidade!

“O meu país é a terra” em um mundo tão carente de tudo e tão desigual! Mas “o pulso ainda pulsa… estupidez… hipocrisia… ( e até) Sarampo. O corpo ainda é pouco” (*) para um Brasil com “27 milhões de desempregados, o quinto país do feminicídio” (**) e um crescente aumento do estupro, embora saibamos que o silêncio das vítimas predomina e não contabiliza; o estupro é historicamente uma arma de guerra, ou seja, estamos em guerra!

S´Alah!

 

Neno Ramos, sem palavras, 2018

Neno Ramos, Sem Palavras, 2018.

 

 

(*) “O Pulso” de Marcelo Fromer / Tony Bellotto / Arnaldo Antunes, 1989.

(**) Dados registrados na mídia “séria” brasileira em agosto 2018.

Futebol arte e alienação: ginga ou assepsia?

 

Droga é legal, o homem que não é.

4 jul

Por Byra Dornelles

 

Domingo passado estava conversando com um amigo meu que é musico e constatei algo que penso há anos: droga é legal! Pense em toda a obra dos Stones, Brown Sugar na década de 70 e dos Doors, se não houvesse drogas. Sem apologia , eu só uso drogas ilegais duas vezes ao ano, no meu aniversario e no reveillon, mas fico pensando…Cabeça de Dinossauro dos Titãs, sem o Arnaldo Antunes drogado, seria possível? Sgt. Peppers, dos Beatles sem ácido lisérgico?

Rimbaud…?
Uivo do Allen Ginsberg?
As portas de Percepção de Aldous Huxley sem drogas?
Flashbacks, de Timothy Leary?

O A E O Z, dos Mutantes?

Meu amigo dizia: “sou um homem! Como é que é!?
Alguém ou o sistema vai me dizer o que eu devo comer ou beber? A maconha é meu samba!”

A proibição provém justamente do medo que ‘eles’ têm da máquina parar de funcionar e de que todos acabem com sua rotina febril e estagnante, de que nasça uma nova ordem em que os princípios cristãos caóticos e caducos venham ser questionados.

A partir do momento que a sociedade rotula a pessoa de ‘viciado’ ele é excluído de uma possível participação e é discriminado.

 

Byra tirinha

 

Ralph Emerson, que nasceu em 1803, usava haxixe e ópio e defendia um sistema de idéias basicamente fundamentado na individualidade, crescimento interior, autoconfiança e rejeição à autoridade, instigando assim, as pessoas a procurar um Deus interior e abandonar o cristianismo.

Qual a importancia das drogas? Elas são usadas desde que o mundo é mundo! Qual o medo que elas despertam? Na Hollanda e alguns bairros de Londres tem espaços liberados pra seu uso com controle da sociedade e não tem casos de violência ou quaisquer distúrbios.

Nesses casos acima em que cito alguns artistas que usaram e fizeram obras maravilhosas, alguém pode argumentar referindo-se às mortes de overdose e tal… . É por isso que digo que a droga é legal e como o homem é que não sabe manipular e perde o controle, se Freud conseguisse conter sua fome de cocaína talvez chegasse a resultados enormes. Se Hendrix não se chapasse daquela maneira não teria morrido de sufocamento pelo vômito… Janis Joplin estava acostumada com uma dose de heroína sarapa e naquele dia fatal veio uma carga muito pura e… Elis Regina me parece que foi a mesma coisa.

Em 2003 houve um congresso aqui no Brasil, chamado Narco News, no qual um professor norte-americano, Robert Stephens, tentando espalhar o medo, como fizeram em 1937 quando foi proibida a maconha nos EUA, querendo apertar o cerco aos usuários e tambem visando aqui, a implantação de clínicas de ‘tratamento’, (esse terrorismo chamado de justiça terapêutica ), fez varias falsas afirmações sobre a droga:

1 – causa insônia
2 – náusea
3 – nervosismo
4 – ansiedade e perda de apetite(!!!)

É claro que foi desmascarado lá mesmo na terra dele, imagine aqui, dizer que maconha provoca insônia e perda de apetite! No mínimo ele nunca experimentou!

Alguns nomes históricos que usaram/pesquisaram drogas:

Carlos Castaneda, Aleister Crowley, William Burroughs, James Joyce, Ken Kesey, Torquato Neto, Alan Watts, Lennon, Paolo Mantegazza, Sergio Sampaio, Miles Davis, Jim Morrison, Keith Richards, Raul Seixas, Mick Jagger, Tim Maia, Jerry Rubin, Eduardo Bueno, Abbie Hoffman, Kurt Cobain, Arnaldo Baptista, Albert Hoffman, Allen Ginberg, Timothy Leary, Arnaldo Antunes;

Concluindo, vamos usar todas as drogas, plantas, com responsabilidade e moderação pois seu uso pode causar dependência, pensando que é fundamental:

1- Construir seu próprio e desfrutável universo,

2 – Pense por si mesmo e questione a autoridade, como disse Burroughs: “ Na verdade, tudo é permitido”.

3 – “ O fato de todo homem e toda mulher ser uma estrela”.

Eu não posso causar Mal nenhum a não ser a mim mesmo… (Lobão e Cazuza)

 

byra rg
*Byra Dorneles (Auto-didata, ex-calafate e estuda sobre drogas desde os 13 anos)
Base do texto:

www.narconews.com 
“Flashbacks” de Timothy Leary.

 

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