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WARGASMO, parte II (2015)

20 out

por Byra Dornelles

 

EU PRETIRO

Eu sonhei que nos deitávamos de lado, assim, e nos beijávamos. Senti o cheiro de
sua boca no sonho, seu hálito de chá de erva cidreira. Eu não deveria sonhar com você e acordei culpado.

Parece falso dito desse jeito. E você falava no sonho que eu andava bebendo demais. Poderia beber pelo caminho, mas não queria que ela pensasse que eu andava bebendo mais que o normal, diário, quatro latas de cerveja, mas eu andava bebendo sim. Não queria que ela pensasse que eu andava me alimentando mal e eu e andava sim.
Ela tentava me incluir num certo acerto de contas com o real inábil e farposo. Sonhar com ela nos beijando num sonho real, numa cama e num apartamento real.

Parece falso sim, dito, desse jeito. No sonho eu não facilitaria as coisas por cegueira dela, o cruel era a palavra verbalizada por mim, no sonho e no dia a dia nosso que havia terminado há anos.

Eu amava tudo que doía nela. E o verbo era mal? Mas o silencio também. Nossos últimos meses foram pautados pelo silencio, discutíamos política e comportamento o tempo todo e ela balançava a cabeça quando eu me dizia revolucionário, talvez ela não merecesse sofrer aquela dor.

 

 

Heen Kim, s/ título, s/d.

Heen Kim, s/ título, s/d.

 

Eu amava tudo que doía nela, feito um Wargasmo, um orgasmo bélico e cruel.

Não costumo subestimar as pessoas e nem os possíveis adversários, respeito.

Eu via o mundo inteiro nas suas lágrimas, no sonho, mas eu já estava tão longe.

 

(Baseado em Caio Fernando Abreu)

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WARGASMO, parte I

2 out

Por Byra Dornelles

 

Não sei!

(Minha era tem necessidade de Violência!)

Na primeira vez eu escondi algumas latas de cerveja, começou assim.
Depois comecei a mascarar meu cheiro e hálito de álcool com hidratantes na madrugada.

Escondi uma garrafa de vinho vazio , outra de uísque e quando percebi eu não era mais eu. Estava me escondendo pelos cantos, fingindo, me malocando, coisa que eu sempre abominei. Cheguei a sonhar que acordava de barriga pra cima e feito personagem de Kafka não conseguia me virar. Noutro sonho dizia que ia morar novamente com minha primeira ex-mulher: tudo sonho persecutório. Não. Eu não amava mais nenhuma delas.

Eu sabia que fugíamos de uma conversa mais íntima,mas eu evitava esse aproach. Sabia que ela e eu  tínhamos  tantas palavras que não poderíamos dizer.
Sim. Quando eu a conheci as palavras eram grandes, amor, viagens pelo planeta, amizade, criar filhos e livros.

Sabia também que sua vida estava repleta de fantasias, com um filho de dois anos tinha planejado montes de sonhos, devaneios, ir pra Paris, Buenos Aires, qualquer lugar que não lembrasse sua formação rural , também outro sonho persecutório, sua contradição em viver na maior cidade da América  do Sul e ser oriunda de uma cidade que nem água havia mais mas o orgulho rural permanecia em choque com seus cosmopolitismo. Geo narcisismo.

Não se pode fugir do seu destino, quando você não tem noção do que poderia ser o novo, quando não se sabe o que é o novo, como explicar pra um cego as cores ou o som sussurrado pra um surdo. Não. Queria que ela voltasse a realidade e me escutasse ou me visse pelo menos.

byra 1

Henn Kim, s/ título, s/data.

Ela me amou pela minha poesia, pela crueldade, e eu não hesitaria em destrui-la sem compaixão. De verdade. Ela adorava minha capacidade em magoar, se tornou um vicio.

Ela não queria ouvir meus argumentos de drop’n out, eu sempre o freak insano, ela abanava a cabeça e dizia: ‘temos um filho´.

Ela não sabia e duvidava que a qualquer momento outra mulher vai tomar minha experiência e me amar pela minha dureza demoníaca e se somará a si.

E isso, obviamente aconteceu 15 meses depois.

Não. Eu não amava mais nenhuma delas, até então conhecer a minha antítese, minha contrária tradução e sedução!

SAD SÃO PAULO,TRISTE SÃO PAULO (uma anti bossa nova)

18 dez

por Byra Dornelles (Letra) & Miguel Dornelles (Direção de imagens, base eletrônica e mixagem / Gravado no centro de São Paulo, Praça da República e Metrô Santa Cecilia, 2013)

 

SAD SÃO PAULO, TRISTE SÃO PAULO (uma anti bossa nova)

ESTRELAS EU NUNCA VI

DA LUA OUVI FALAR

PORRA DE PASSARINHO

AQUI

NÃO GORJEIA COMO LÁ

AQUI TEM É URUBU E

POMBO INFECTADO

EU MORO EM SÃO PAULO

O SOL-QUANDO NASCE- EU

VEJO QUADRADO

A MINHA JANELA É CRIVADA DE BALAS

AQUI BARQUINHO NÃO VAI,

NEM BARQUINHO VEM

OS RIOS SÃO INAVEGÁVEIS

E EXALAM UM FORTE

CHEIRO PUTRIFICADO

PODRE, DE LIXO PARADO

EU MORO EM SÃO PAULO

QUANDO CHOVE, A CHUVA

ÁCIDA DESTRÓI

ESTÁDIOS, ARRASTA CASAS

LEVA CARROS EMPILHADOS,

CAEM METRÔS

EU MORO EM SÃO PAULO

EU MORO EM SÃO PAULO…

Lembrar-me de esquecer-te (KANT)

11 mar

 

por Byra Dorneles

(Co-autorias: Byra Dorneles, Miguel Stavele & Robhison Crusoe. Direção: Miguel Stavele)

 

 

 

 

Aos berros ele corria pela praça Parobé. Não se sabia ao certo quem ele queria atingir mas no topo vinha a sociedade civil higienizada e a sua família, principalmente os caras das ruas, que tomam conta dos carros e vendem bagulhos malhados tentaram se intrometer.

Mas a questão era familiar e secular e os caras que vendem bagulho sarapa não tem moral nem valentia contra os insanos, os bêbados loucos da praça Parobé.

Minha covardia incompreensível me impedia de entender o todo tanta revolta espelhada e espalhada na minha cara… por fim, virei tudo aquilo que ele dizia mas nunca fui… virei tudo aquilo que ele dizia, que ele queria que eu fosse mas eu nunca fui: vitima, objeto de irracionalismo, a fragmentação da família ali, na praça Parobé e todos otários metidos a malandros parados pensando no ataque na praça Parobé.

Ele não sabia que homem algum chegou a ser realmente o que queria ou então ser completamente ele mesmo, mas, ali na praça Parobé aos gritos não era o local ideal pra se discutir isso levando assim, consigo, atitudes de um mundo primitivo.

E foi principalmente por não querer gritar as vezes grito no meu quarto porque não tenho radio e canto minhas canções. Alguma coisa dentro de mim dizia algo sem palavras por isso me calei deixando que a situação familiar se abatesse mais uma vez sobre mim espesso como um tijolo.

Ele não sabia que primeiro teria que se entender como homem, interpretar-se (na praça Parobé) somente a si mesmo e assim depois entenderia uns & outros.

Feito kant anotei na minha agenda: “lembrar-me de esquecer-te”.

“Ah esse obsessão de chegar… o terror de não vir a ser o que se pensa”.

Ver-a-cidade

31 mar

Byra Dorneles & Michelle Sill

 

(Poética sincera e declarativa sobre city-ações que influenciam diariamente movimentos-momentos e distrações tão relevantes da beleza de ser coadjuvante do furacão econômico, maior e melhor nos dias tão terminais de hoje)

 

Ver-a-cidade 

O ar irrespirável da tarde

Irrefutível -arde.
Cidade mutável
mutila
mata
musa o ar
que murmura a música
voraz das businas.

Cidade de notas
que numa vórtice auditiva
recrea nossos tímpanos
com seu lerdo tino.
Cidade fermata
em cores e prédios
mutante cidade.

Seu poder destrutivo
eterna pressa criativa
ufana a vida
que no bus entre os bairros alados
caminha sobre a bomba
e recebe no fim da tarde
a mijada garoa poluição.
São tiête é paulo
santa ilusão de verdade.

Olor frio exacerbado
paulicéia temperamental
paulicia
aqueles que vagam nos teus dias
e encontram-se nas tuas noites
as vezes cheias
as vezes vazias
e também aqueles
já cansados
que não tem tempo pra te gozar.

São Paulo’s

25 jun

por Byra Dornelles & Michelle Sill

 

 

 

Lugar de humores indecifráveis

saudade cidades de tantos

que circulam sem direção.

São Paulo é trash.

Indelicadezas, certeza, a de

se perder nessa civilização…

Passageiros no trem sem destino

santo poluição,

nutre a massa de calor parada

pressa presa nos prédios infinitos.

Atirar-se em direção ao chão talvez,

Mas em que céu escolher cair?

Sem vento

sem tempo

feliz, fumando o ar triste

buscando solução inexistente

eu sou toda cidade carente.

No oeste o sol só deita

não nasce e todo dia é sexta

E todo dia é sexta eu bem sei.

DRUMMOND

27 fev

por Byra Dornelles

 

(filmado por Michelle Sill)

Local: mercado Roldão da Corifeu – USP/Sampa*

* Freaks foram interpelados pelo segurança.

 

 

Com a lingua portuguesa eu descobri o mundo
Acordei a princesa
Acendi a chama que ardia dentro de mim

Carlos Drummond de Andrade

Das andadas
Me indicou o caminho do meio
Da rua
O jeito de rebolar
De sacudir as ancas
De acabar com toda essa ansiedade
De fechar os olhos prá essa realidade
Que estão querendo nos vender, nos vencer

Mas luto

Escrevo no papel

Foi Luiz Carlos Maciel quem me aplicou
Juntamente com todo lirismo e beleza
Da lingua portuguesa

Ode & Amor a SP

6 dez

Por Byra Dornelles


Tendo como referência a prosa livre de Jack Kerouac e a poesia visceral de Torquato Neto – o Freak Out Muzik sofre influência nata de alguns trabalhos de spoken words do mundo como Saul Wiliams, Gil Scot Heron e do brasileiro Tavinho Teixeira.

Freak’s:

Byra Dorneles – Vocais
Miguel Stavele – Bases e Produção
DJ Robhinson Cruzoé – Turn Table

(filmado por Georgete Bueno)



Poema Ode & Amor a SP por Byra Dornelles

(Para Xico Sá )


Entre gritos e Ipiranga esgoto a céu aberto

na Augusta e paulistas

os punks as putas os travas os emos
as anfetas as bolas balas todos os vicios e delicias

na consola a desolação, tantos rios pequenos.

Esse cheiro de borracha queimada!!!
E esse cheiro de borracha queimada!!!!

O desespero das filas no roldão a perda da individualidade
a massa nas filas dos metrôs a previsibilidade das massas
a massa e à inércia passiva

a exclusão do amor o apito das fábricas
mutante cidade excitante cidade

ambientes áudio-confusos!
ambientes áudio-confusos!

A impossibilidade prática de ser feliz com tantos automóveis
eles invadiram a simples-cidade

os proto-bandidos de quinta na Corifeu suburbia
o tráfico acéfalo, sem comando, desorientado
o tráfego desorientado

O que Deus fazia antes de criar São Paulo?
O que Deus fazia antes de criar São Paulo?

O QUE DEUS FAZIA ANTES DE CRIAR SÃO PAULO?

O QUE DEUS FAZIA ANTES DE CRIAR SÃO PAULO?

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