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Oswald de Andrade: “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo”[1]

26 nov

por Gisèle Miranda & Lia Mirror

Resgate histórico e artístico

Para dialogar historicamente essa fase de Oswald de Andrade, se faz necessário resgatar a base institucional e artística adaptada aos trópicos, ou seja, a importância do Neoclassicismo Francês no Brasil, perfilado por um Barroco endógeno e um percurso academicista cutucado pelo nacionalismo internacional da Primeira Guerra Mundial e os Movimentos da vanguarda europeia. Sabemos que todo essa história culminou na Semana de Arte de 1922, e a arte nacional estrangeiro acompanhou de perto o processo de industrialização em São Paulo.

Quando finda o Neoclássico na França, começa uma nova adaptação do Neoclássico no Brasil, com a chegada da Missão Artística Francesa, em 1816. Logo, o Realismo assumiu uma importante função social até a entrada dos Movimentos de Vanguarda, quando os valores estéticos, técnicas, aspirações são discutidos através de inúmeras possibilidades .

Em cem anos, a nova lingua entranhou aos costumes da colônia à República. A base da arte no Brasil derivou de um discurso monárquico que se desdobrou em um academicismo subserviente para os artistas nascidos aqui.  

No mais, o Barroco no Brasil não terminou no século 19, com a vinda dos Neoclassicistas franceses, porque, segundo Eugenio D’Ors (In: Machado, 2003), o Barroco criou uma amálgama conceitual chamada EON (potência re-criadora), hoje encontradas nas igrejas neobarrocas.

O processo histórico, cultural e artístico brasileiro de 1922, equiparou, não facilmente,  as discussões sobre a Arte Moderna na Europa. Sabemos, muito claramente, a importância do Expressionismo de Anita Malfatti (vindo de seus estudos na Alemanha e EUA), que lhe valeu a histórica crítica negativa de Monteiro Lobato, mas também, a histórica defesa de sua arte por Oswald de Andrade, entre outros. Sabemos da importância do Cubismo em Tarsila do Amaral (e seus estudos na França), do Surrealismo em Ismael Nery, enfim, tivemos representantes dos movimentos da vanguarda europeia, além de teóricos de nossas próprias manifestações com Oswald de Andrade e Mario de Andrade, antropofagicamente e de reconhecimento de nossa cultura.

Mas, e o Dadá no Brasil? As premissas do Dadá não foram fáceis de serem assimiladas, seja pelo discurso antiarte ou antiguerra. O Brasil esteve neutro em quase todo o período da guerra. E a elite cafeeira em processo de urbanização e industrialização, mas, a politica e a economia dependentes de países em guerra. Com características particulares, essa elite, em 1914 – apenas 26 anos da abolição da escravidão no Brasil, aceitou o abandono dessa população, a limpeza social, e o fluxo imigratório (branco) como mão de obra substituta.

Nossa segunda lingua era o francês e a nossa elite de ascendência estrangeira. Os filhos bem educados, poliglotas estavam sempre antenados aos acontecimentos na França e, posteriormente, nos EUA.

Do ponto de vista artístico, o intelectual e escritor Oswald de Andrade, já em artigo de 1912, reclamaria características nacionais para a arte do país, reivindicando uma forma de expressão que não fosse a arte acadêmica consagrada na Europa. (AMARAL, 2004, p. 22)

Antes de ser um teórico da Semana de Arte de 1922,  de criar o Manifesto Antropofágico, Oswald foi o Cozinheiro das Almas, em um reduto masculino, alimentado pela liberta DadaCyclope. A fonte de DadaOswald, não foi a Tarsila, nem a Pagú, foi a CYCLOPE.

La femme Cyclope, uma história de amor coletiva

Alguns dos intelectuais da cidade de São Paulo foram acolhidos por Oswald de Andrade em 1918, registrado em um diário de encontros do cozinheiro com as almas perdidas.  O anfitrião e seus convidados, em português ou em francês, debatiam ou escreviam, filosofavam, faziam críticas, desenhavam, colavam, nem sempre com sentido, pois experienciavam possibilidades, brincavam com seus codinomes, bebiam e comiam. O contexto artístico-literário desse exato momento tinha a “verve parnaso-a-cadêmica …nossa leviana e retardada belle èpoque.[2]

O reduto intelectual masculino amalgado pour la femme Cyclope quebrou protocolos, discursos da época e a quebra de seus pares frente à uma mulher, que ia e voltava sem nada dizer ou dever. Não só, de inteligência impetuosa e poética.

Cyclope, um dos apelidos ou pseudônimos, tal como todos os reunidos. Mas o que se passou entre 1917, 1918 e 1919 – foi um curto período que transformou a todos e, dolorosamente findou com a morte da jovem poeta.

Oswald de Andrade e Maria de Lourdes, Ou, Miramar e Cyclope, c. 1917.

Eles vinham comparando-a com Dulcinéa, o amor de dom Quixote. Ela respondia na escrita – Primeira receita: Nos casos de amor á Dulcinéa prefira-se a Dulce núa. Inúmeros textos com derivações à Cyclope, ela respondia: A Cyclope é o grande vício desta vida.[3] Até o último instante ela não parava de cutucar e expressar.

Começo a prever que também já tenho meu coração de moça, e de menina, estrangulado por um sentir devotado e malígno, mordido pela volupia da vida incognita que me offerecem.[4]

Evidentemente, todos esses atributos mexeram com seus admiradores, mas no covil, ela era la femme de Oswald de Andrade. Fora do grupo, ela amava quem queria. Oswald sabia, e a respeitava. Ela era o riso inteligente de uma boa conversa; era a volúpia diante dos valores morais da época, principalmente para as mulheres. Desde cedo uma poeta de lingua afiada. Viveu pouco, partiu como muitas mulheres (até hoje), decorrente de um aborto clandestino. Sua poesia sumiu, perdeu-se no reduto masculino. Ela era “um embrião caótico”, “musa polifônica”, “musa palimpséstica” em ‘guerra’ com o universo masculino… ela era a novidade da estrutura aleatória e da forma ready-made para o Pré Modernista de 1922.[5]

Todos a amavam, mesmo, os inicialmente reticentes. Outros explicitamente desejavam-na, com total ciência de Oswald. Ela era o manifesto Dada em pessoa, em um núcleo intelectual, elitista e, em parte, conservador. Todos a respeitavam porque ela os enfrentava. Cyclope bailava entre eles; essa era a beleza que transbordava.

Por fim, a nota de falecimento de Cyclope e a referência do intempestuoso casamento com Oswald em seus últimos dias. Ela só tinha dezenove anos. Todos os manuscritos dela se perderam – Oswald em um determinado momento da vida assumiu a culpa da perda desses manuscritos, pois estavam com ele. Quanto a culpa pela morte anunciada, ao sabê-la moribunda colocou-se responsável, casando com ela.

Dona Maria de Lourdes Castro de Andrade – falleceu, hontem, nesta capital, a exma. Sra. Maria de Lourdes…., ha dias casada como nosso distincto collega de imprensa e ex comoanheiro de redação, bacharelando Oswald de Andrade.  (…) A Dayse o teu pobre Oswald… (Agosto, 25, 1919. Colagem de recorte de jornal na última página do Diário Coletivo)

Nota de falecimento de Cyclope, 25 de Agosto de 1919. Colada na última página s/n do Diário Coletivo.

Referências:

AMARAL, A. A. Artes Plásticas na Semana de 22. São Paulo: Editora 34. 1998, segunda Reimpressão, 2004.

ANDRADE, Oswald de. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. Diário coletivo da garçonière de Oswald de Andrade. São Paulo, 1918.Edição fac-similar. Textos de Mário da Silva Brito & Haroldo de Campos. Transcrição tipográfica de Jorge Schwartz. Editora Ex Libris, 2015. (A Garconière era o codinome do apartamento).

MACHADO, Lourival. Barroco Mineiro. São Paulo: Perspectiva, 2003.

MICELI, S. Nacional Estrangeiro: História Social e Cultural do Modernismo Artístico em São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

WALKER, José Roberto. Neve na manhã de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


[1] O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo: Diário coletivo da garçonière de Oswald de Andrade. Coletivo da garçonière de Oswald de Andrade. São Paulo, 1918. As citações mantêm a grafia original da época, assim como nesse texto.

[2] Réquiem para Miss Cyclope, musa dialógica da pré-História textual Oswaldiana, p XVI. IN: Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo, 1918. Outros nomes de Cyclope: Daisi (Dayse), Dasinha, Miss Terremoto, Tufãonzinho. Oswald era Miramar; Os adeptos se reuniram na rua Líbero Badaró, região central de São Paulo. Entre os  participantes estavam: Menotti del Picchia, Ricardo Gonçalves, Fer­rignac, Monteiro Lobato e Guilherme de Almeida.

[3] Idem, página 9.

[4] Idem, p. 18.

[5] Idem, p. XVI a XXII. Segundo Oswald, a decisão do aborto foi de Cyclope. Porque não queria ter e não sabia quem era o pai. Ele a apoiou e esteve a seu lado até o fim.

Série Movimentos de Vanguarda IV – DADÁ/DADAÍSMO, parte II

5 nov

por Gisèle Miranda & Lia Mirror

Hoje, a antiarte é praticamente um nome agressivo para a arte moderna. Para Duchamp, porém, ela aparecia como a fratura possível (e necessária) entre o gesto criador e o objeto artístico. (Rodrigo Naves. Duchamp: cínico, cético, trágico. In: O vento e o moinho, 2007, p. 441.)

&

“Só um detalhe diante de todo esse massacre, que ainda visualizo… uma mulher, deitada de costas, no chão, atada ao eixo de um carro pelo pescoço e ombros, para não poder virar a cabeça. Ela não havia sido queimada nem degolada viva. Mas sua exxpressão estava convulsionada. Claramente ela havia morrido de pavor. Diante dela, havia uma grande estaca fincada no chão. E um bebê nu, amarrado nela. Totalmente queimado, os olhos arregalados. Ao lado, uma grelha com cinzas de carvão” ( In: Malmkrog, 2020[1])

A participação de Marcel Duchamp (Blainville-Crevon, França, 1887- Neuilly-Sur-Seine, França, 1968) no DADÁ e sua renúncia voluntária à uma arte rica em material sensível, foi de uma coerência histórica, ética, cínica e cética [2]em meio a tragédia da Primeira Guerra Mundial e das guerras concomitantes.

Duchamp estudou o Impressionismo, flutuou entre o Fauvismo e o Cubismo, e não se interessou pela teoria do Futurismo, mas se encontrou com a antiarte Dadá. No Surrealismo chegou a ser considerado por Breton, o homem mais inteligente do século XX.[3]

E o século XX, abarcou as duas grandes guerras mundiais como males necessários que através dos tempos, estende-se como uma calamidade tolerada. A guerra é a grande pátria, honorável pela coragem de seus soldados e sagrada em nossa história – dos deuses aos santos e sob as imposições politicas e religiosas.

Sem dúvida, Duchamp fugia da guerra e de todo o discurso de tolerância. Ele saiu da França e foi para os EUA, em 1914. Quando o patriotismo norteamericano foi à guerra, em 1918, Duchamp embarcou para a Argentina, um país neutro. Lá ficou sabendo da morte de seu irmão Pierre Maurice Raymond Duchamp Villon (Danville, França, 1876- Cannes, França, 1918), artista, soldado e médico que morreu de febre tifóide, no final da guerra.

Marcel Duchamp (1887-1968). Foto Man Ray, 1916.

Também tomou conhecimento da morte de escritor e pugilista Arthur Cravan (Lausanne, Suíça, 1887-México, 1918), Dadaísta controverso, de tom e gestos agressivos[4], contudo um Dadá convicto, que ao fugir da guerra, como desertor, foi para o México com a poeta Mina Loy (Londres, Reino Unido, 1882- Aspen, Colorado, EUA, 1966), e se casam. O dinheiro da passagem dela para os EUA, no final da guerra, foi conseguido com uma luta de boxe, do qual Cravan entrou bêbado no ringue, e obviamente foi nocauteado por um pugilista profissional. Após o Dadá-boxe, Cravan embarcou em um barco, sozinho, com a promessa de encontrar sua amada Mina Loy nos EUA, mas desapareceu no Golfo do México, para onde levou sua maior obra Dadá, mas antes, não resistiu ao casamento, tal como Duchamp, Breton, Arthur Cravel…, lembrando que sempre foram anticasamentos, único ponto suportável entre os dadaístas apaixonados.

A bandeira de Duchamp se desdobrou em não gerar filhos para a guerra, pois a guerra tornou-se outra grande guerra. As duas Grandes Guerras Mundiais foram marcas históricas da geração desses artistas. Por isso, nenhum teórico foi mais coerente (embora tenha casado duas vezes[5]); Duchamp se defendeu o quanto pode da família, ou da sociedade que, segundo ele: força você a abandonar suas ideias reais para trocá-las por coisas aceitas por ela…[6] .

O ver, puramente retiniano, tornou-se empilhamentos de corpos, fugas e barbáries. Tudo com muito cheiro de carne humana. A fase dadaísta de Duchamp, foi intensa no aprimoramento Conceitual na Arte, paralelo à morte da pintura, com o odor nauseabundo do contexto histórico, do qual teorizou e criou uma vanguarda sobre a vanguarda dadaísta. Levando consigo a irmã-artista (enfermeira na guerra), Suzanne Duchamp (Blainville-Crevon, França,1889-Neuilly-sur-Seine, França, 1963), a quarta, dos seis irmãos Duchamp. O irmão mais velho Gaston Duchamp (Damville, França, 1875- Puteaux, França, 1963), também artista, ficou conhecido pelo peseudônimo  Jacques Villon; na guerra ele foi um soldado-cartógrafo.

Suzanne manteve estreitos laços com seu irmão Marcel. Assinou o Manifesto Dadá, em uma contraposição ao fascismo Futurista de Marinetti.  Ela se tornou uma importante pintora dadaísta, a partir do conhecimento minucioso sobre os ready-mades e a necessidade do Conceito na arte-não arte de Marcel Duchamp; não importava o tamanho do conceito, mas o menor que fosse, como disse Marcel Duchamp, em uma das tantas vezes: – o que não gosto é do completamente não-conceitual, que é puramente retiniano, isso me irrita. No entanto, não era comum e nem tampouco utilizável na época. [7]

Suzanne casou em 1919, com o pintor suíço Jean Crotti (Bulle, Suíça, 1878- Paris, França, 1958) amigo de Marcel Duchamp. Crotti também assinou o Manifesto Dadá. No entanto, Suzanne Villon Crotti, mesmo com sua boa arte, alcançou pouco, como as demais mulheres de sua época. Ela era a irmã dos Duchamp e a esposa de Crotti. Suzanne, sem dúvida alguma, merece a referência histórica corrigida e destacada. Suzanne foi uma grande artista dadaísta.

Francis Picabia (Paris, França, 1879- Idem, 1953) foi o motor do Dadá suíço na França, nos EUA e na Espanha. Ele por sorte não foi deserdado pelo pai por seu temperamento, como era comum naquela época. Casado desde 1909 com a escritora e crítica de arte dadaísta Gabrièle Buffet (Fontainebleau, França, 1881- Paris, França, 1985), o casal vivia de regalias financeiras, que foram suportes para viagens, investimentos artísticos, ajuda aos amigos e tipografias de duas revistas criadas para o Dadá. Picabia foi um Dadá rico e com uma arte rica em teoria, e grande amigo do poeta Apollinaire (homenagem In Memorian no Dadá) e amigo dos irmãos Duchamp, com estreitos laços com Marcel Duchamp – que sempre afirmou ter sido Picabia o articulador, a voz artística do Dadá em várias linguas. Picabia foi um dos poucos a não abraçar o Surrealismo, em 1924.[8]

O tripé Marcel Duchamp, Picabia e Man Ray (Filadélfia, Pensilvânia, 1890- Paris, França, 1976) criou um Dadá Conceitual. Pois que os três se encontraram inúmeras vezes para longas interlocuções, além das correspondências.

Man Ray foi o pseudônimo de Emanuel Radnitzky, que fotografou Impressionistas, Expressionistas, Fauvistas, Cubistas, Dadaístas, Surrealistas… . O Dadá o instigou a criar, interferir, além de registrar. Man Ray enriqueceu e ampliou o conceito da fotografia. E com Duchamp foi para o Surrealismo.


[1] Texto retirado do filme: MALMKROG. Direção Cristi Puiu. Co-produção Romênia, Sérvia, Suíça, Bósnia-herzegovina, Macedônia do Norte, 2020. Cor. 200 min. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Baseado no texto do filósofo Russo Vladimir Soloviov. No filme, a personagem lê uma carta de seu marido, um general cossaco, em que relata o massacre de uma aldeia Armênia pelo Turcomanos, durante a Primeira Guerra Mundial. A intenção aqui, é mostrar os conflitos concomitantes à Primeira Guerra, período tratado nesse texto. Até hoje, a Turquia não assumiu as mortes de 1,5 milhão de pessoas no histórico Massacre Armênio, que começou em 1914 e se estendeu até depois da Primeira Guerra Mundial.  A carta dizia que os soldados Turcomanos deixaram uma cozinha: assaram mulheres e crianças vivas; além do estupro, seios arrancados, barrigas abertas.

[2] NAVES, Rodrigo. O Vento e o Moinho: ensaios sobre arte moderna e contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.  p. 437-438.

[3] CABANNE, Pierre. Marcel Duchamp: engenheiro do tempo perdido. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 24.

(*) Independente do desinteresse de Duchamp pela teoria do Futurismo, algumas obras foram consideradas como do Futurismo. Seus irmão Jacques Villon e Raymond Villon também têm obras do período da efervescência do Futurismo. O mesmo ocoorreu com Max Ernst, Picabia, Picasso… . In: Futurismo & Futurismi: a cura di Pontus Hulten. Milão: Gruppo Editoriale Fabbri Bompiani, 1986, p. 280-281; 282.; 287.

[4] Segundo Duchamp: Cravan insultou muitas pessoas, entre elas, Sonia Delaulay e Marie Laurencin, no Salão dos Independentes, em 1914. Criando inimizades.  In: Cabane, p. 89.

[5] Casou duas vezes. O primeiro casamento com Lydie Sarazin Levassor, de 1927 a 1928 – foram 6 meses de casamento até o divórcio concensual, com as testemunhas vitais de Picabia e Man Ray. O segundo casamento com Alexina Duchamp, de 1954 a 1968; Alexina, no casamento anterior, foi nora de Henry Matisse.

[6] Cabanne, p. 131. Resposta de Duchamp sobre a pergunta de Cabanne: Você se defendia sobretudo da família.

[7] Cabanne, p. 133-134.

[8] Picabia se indispôs com André Breton, mas Breton chegou a divulgar uma obra de Picabia em uma revista Surrealista. Mas ele tomou outro rumo e se encontrou, anos depois, na pintura abstrata.

Outras Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BAITELO JUNIOR, Norval. DADÁ-BERLIM DES/MONTAGEM. São Paulo: ANNABLUME, 1993.

BONA, Dominique. GALA. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 1996.

BORRÀS, Maria Lluïsa. PICABIA. New York: Rizzoli, 1985.

MAN RAY Fhotographe. Introduction Jean-Hubert Martin. Paris: Philippe Sears, 1981.

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

STANGOS, Nikos (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

Série Movimentos de Vanguarda IV – DADÁ/DADAÍSMO, parte I

30 set

por Gisele Miranda & Lia Mirror

Dadá prevê seu fim e se ri disto. A morte é um assunto perfeitamente dadaísta à medida em que ela não significa nem o mais insignificante. Dadá tem o direito de se suprimir e fará uso disto quando for chegada a hora.  (Huelsenbeck. In: Baitelo Junior, p. 28)

DADÁ É O CAOS, POIS A GUERRA É O CAOS. O Dadá surgiu durante a Primeira Guerra Mundial, em 1916.  O Dadá é a dessacralização, a desestabilização, o contraditório e o infantil – dadá – são as primeiras palavras de uma criança com o mundo caótico e complexo. Dadá diz tudo e nada e tornou-se o mais confuso dos Manifestos experimentais da Vanguarda Modernista. Contudo, denso em seu processo pela guerra e no pós guerra.

O Dadá teve reinterpretações em todos os lugares por onde passou. Era o próprio contexto internacional da Primeira Guerra Mundial, articulado com artistas de outros movimentos. A linguagem visual Dadá é nonsense – nada de sintaxe, ou seja, o oposto da poética Futurista, o que não impediu seus adeptos no Dadaísmo. As colagens Cubistas e Futuristas não condizem com as colagens do Dadá. O Dadá acolheu a Metafisica e a expurgou para o Surrealismo, em 1924, acrescido de utopia e onirismo. Também recebeu Puristas e Expressionistas da Bauhaus.

Em meio as polêmicas, antifamília, anticlássico, parte dos jovens artistas são deserdados, expulsos do núcleo familiar, ou mesmo, os próprios artistas rompendo casamentos, abandonando filhos, eventos que resultaram em brigas, quebra quebra proposital e decorrente, ou seja, fora do controle, com prisões e processos. Esses mesmos jovens que foram ao front, mataram, foram feridos, morreram ou retornaram com os traumas inevitáveis do pós guerra.

Ora satíricos, ora aberrativos. Em todo esse processo experimental, nomes como Franz Jung, George Grosz, Max Ernst, Huelsenbeck, Hausmann, Francis Picabia, André Breton, Paul Éluard, René Crevel, Marcel Duchamp, Kandisnsky, Picasso, De Chirico, Hannah Höch, Marcel Janco, Phillipe Soupault, Louis Aragon, Sophie Taueubr, Paul Dermée, Celine Arnaud, Man Ray, K. Schwitters, os outros. Sim, todos beberam do Movimento Dadá – Dadá é nada, i.e., tudo. (In: Baitelo Junior, 1994, 13)

Do Cabaret Voltaire (Suíça, 1916) à Primeira Feira internacional Dadaísta (Berlim, 1920):

“O homem dadaísta é adversário radical da exploração… Portanto, mostra o homem DADAÍSTA como VERDADEIRAMENTE real diante da fedorenta mentira do pai de família e capitalista espreguiçando em sua poltrona.” (Hausmann. In: Baitelo Junior, p. 68)

A crise da cultura internacional acionada pela guerra colocou em xeque o objeto artístico, ou o conteúdo contido na obra:

A verdadeira arte será antiarte… reduz-se assim a uma pura ação… Dadá não quer produzir obras de arte, e sim ‘produzir-se em intervenções (…) o Dadaísmo propõe uma ação pertubadora, com o fito de colocar o sistema em crise, voltando contra a sociedade seus próprios procedimentos… utilizando de maneira absurda as coisas a que a ela atribuía valor. (ARGAN, 1992, p. 356)

Marcel Duchamp ao colocar bigode na Monalisa, contestou o valor comum. Nada pessoal ao grande Leonardo da Vinci, nem mesmo a Gioconda, mas os tempos eram outros. No readymade, Duchamp brinca com os valores de objetos comuns como a roda da bicicleta, o mictório e os expõem querendo que a sociedade internacional refletisse sobre a guerra – quando tudo ao redor é morte ou quando o progresso se alia a morte no discurso da guerra e sua associação ao desenvolvimento científico e tecnológico. Por isso o Dadá rejeitou as técnicas anteriores. O que importante é que houvesse uma ação questionadora e pertubadora que instigou a civilização a pensar e a começar do zero: a obra é mental.

Jovens, doenças, guerras e amores

Jovens refugiados proclamam o Dadá em território neutro. Mas o Dadá sobrepôs fronteiras porque todos sentiam-se refugiados durante a guerra. A juventude artística grita em Paris. Os jovens ex combatentes, poetas, pintores, articuladores do pensamento libertário promovem encontros, escrevem em revistas, montam exposições e performances.

A tuberculose, doença infectocontagiosa atormentou muitos jovens dos séculos XIX e XX, embora sua existência remonte oito mil anos. O termo só foi cunhado em meados do século XIX, antes era conhecida como peste branca.

Muitos procuravam os bons ares em um sanatório na Suíça, caro, contudo eficaz em isolamento pelos bons ares dos Alpes – os sanatórios eram comumente conhecidos como hospitais para tratamento da tuberculose.

O poeta René Crevel era um tuberculoso. Foi para a guerra. Sobrevivente e Dadaísta, abandonou os estudos sobre Diderot, até que, bem doente, cometeu suicídio. Ele era amigo de outro Dadaísta doente dos pulmões, o poeta Paul Éluard (Eugène Emile Paul Grindel).

Paul estava internado em um sanatório quando conheceu Gala (Elena Ivanovna Diakonova), a russa por quem se apaixonou durante o tratamento. Receberam alta e cada qual foi para seu lar, ela na Rússia e ele na França. Entre cartas, a guerra começou. Éluard foi para o front e ficou algumas vezes hospitalizado no meio do caos.

Meu ideal não está mais no céu,

E lanço meu estribilho

Às estrelas… em teus olhos! (Paul Eluard, 1913. In: Bona, p. 36)

Em 1917, Paul e Gala se casaram em Paris, durante a ocupação alemã, ou seja, em uma Paris bombardeada. Gala foi o motor do amor na guerra. Ela saiu da Rússia, durante a queda do Império e a Revolução Russa. Ela atravessou territórios de trem em meio a conflitos em plena Primeira Guerra Mundial. Ela aos 22 anos e ele aos 21 anos.

Gala tornou-se a musa de seus poemas. Musa de sua vida, mãe de sua filha e Dadaísta, ou melhor, a mulher de um Dadaísta. Assim era o mais comum, sem a participação feminina. Pouco se tem de referência de mulheres, todas nas sombras de seus maridos ou namorados. Ajudavam, mas não eram reconhecidas. Salvo exceções da poetisa Celine Arnaud (esposa de Paul Dermée, que se suicidou em 1952, um ano após a morte do marido) e das pintoras Hannah Höch, Sophie Taeubr (esposa de Arp) e Sonia Delaunay (esposa de Robert).

“Vivam as concubinas e os concubistas!” (Picabia) Dadá odeia hábitos e convenções, tolera o amor, mas detesta o casamento. (In: Bona, 1996, 117)

Francis Picabia abandonou esposa e filhos. André Breton se separou e sua amante casada decide agir conforme o Dadá, e num acesso de fúria:

Destruiu fotos, cartas, livros de Apollinaire com dedicatória, textos manuscritos de Jacques Vaché e alguns quadros – dois Derain, três Marie Laurencin, um Modigliani. Inspirada pelos métodos de Tzara e seu bando – destruir tudo, dizia Dadá -, verdadeira Átila. (…) Ela apenas deixou uma mensagem em forma de poema dadaísta: “Tudo remonta à mais recuada Antiguidade, as pichações que encantam os menininhos não passam nunca de corações e triângulos cercados de fogo.” (In: Bona, p. 117-118)

A dadaísta não oficial, Georgina Dubreuil, desapareceu depois do ocorrido. “Breton ficou em choque”.  Os livros e dedicatórias de Apollinaire se foram. Apollinaire era seu amigo, escritor, poeta italiano que lutou pela França e se naturalizou francês. Poeta e soldado da artilharia, que sobreviveu aos ferimentos na cabeça, mas faleceu em 1918, no fim da guerra de gripe espanhola.

Breton deixou a medicina e rompeu com a família. Em 1921, casou com Simone Kahn, considerada uma intelectual não Dadaísta. Louis Aragon também deixou os estudos em medicina e rompeu com a família.

O casal Éluard, a despeito de todos os abandonados no amor ou na guerra, manteve-se firme. A força do amor se expandiu quando em 1921, Max Ernst, um ex militar da artilharia alemã e dadaísta, deserdado pelo pai, expõe em Paris suas colagens e pinturas. Tão logo Paul Éluard  e Max Ernst se conheceram, tornaram-se irmãos; e descobriam que, por pouco não se enfrentaram na guerra em 1917, pois, no front em Somme, estavam frente a frente, ambos os soldados em trincheiras inimigas. (In: Bona, p. 138)

Ernst era conhecido como DadaMax, dentro dos títulos honoríficos dadaístas.[i] Éluard tornou-se o melhor amigo e meio de Ernst e logo passou a escrever sobre suas pinturas. Também escreveram juntos poemas e passaram a dividir os braços de Gala, sem rivalidades.

Éluard deixou que Gala vivesse o amor sem cobranças. Amou Paul e Max de maneira dadaísta, mas o clube masculino Dadá se ressentiu de Gala. A resposta de Dadamax ao clube, foi inserir Gala numa pintura como parte do grupo Dadaísta, e mais, inseriu Doistoiéviski, abominado pelos dadaístas, mas amado por Gala. Dadamax aproveitou o ensejo do amor e inseriu o Renascentista Rafael Sanzio, também abominado pelo grupo.

Em Au rendez-vous des amis,  Ernst numerou os personagens de 1 a 17… ele próprio leva o número 4 (sentado no colo de Dostoiéviski), Eluard, o número 9. Entre todos esses homens, uma única mulher, o número 16: Gala… Breton parece presidir a sessão… Aragon… Crevel toca um piano invisível… Perét como seu monóculo, Desnos meio apagado… (In: BONA, p. 155)

MAX ERNST. Le rendez-vous des amis, 1922. De pé, da esquerda para a direita: Philippe Soupault (1887-1990), Jean Arp (1886-1966), Max Morise (1900-1973), Rafael Sanzio (1483-1520), Paul Éluard (1895-1952), Louis Aragon (1897-1982), André Breton (1896-1966), Giorgio de Chirico (1888-1978) e Gala Éluard (1884-1982). Sentados, de esquerda para a direita: René Crevel (1900-1934), Max Ernst (1891-1976), Fiódor Dostoyevski, Théodore Fraenkel (1896-1964), Jean Paulhan (1884-1968), Benjamin Péret (1899-1959), Johannes Theodor Baargeld (1892-1927) e Robert Desnos (1900-1945). Museum Ludwig, Colonia.

Em 1922, mesmo com o discurso de abandonar tudo, Éluard continuou a declarar seu amor a Gala e sua enorme admiração por seu amigo-irmão Ernst, ajudando-o, inclusive, financeiramente. Ernst pintou muito a Gala, mas algumas dessas telas foram destruídas durante a Segunda Guerra Mundial, em 1937, com o argumento de “arte degenerada”.

Paul Éluard deixou de escrever sobre as dores da guerra e passou a escrever sobre as dores do amor.

O desespero não tem asas,

Nem o amor

Não me mexo,

Não os olho, Não lhes falo

Mas estou tão vivo quanto meu

amor e meu desespero.

(Paul Éluard, Nudez da verdade, da coletânea Morrer de não morrer. (In: Bona, 167)

Paul Éluard desepareceu em março de 1924. Dois meses depois, escreveu a Gala, do Taiti.  Paul, Gala e Max se reencontraram em Saigon. De lá, retornaram Paul e Gala para a casa sem Max Ernst, que resolveu tomar um novo rumo. Ao chegarem em Paris, o Surrealismo eclodiu sob a égide de André Breton.

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BAITELO JUNIOR, Norval. DADÁ-BERLIM DES/MONTAGEM. São Paulo: ANNABLUME, 1993.

BONA, Dominique. GALA. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 1996.

BORRÀS, Maria Lluïsa. PICABIA. New York: Rizzoli, 1985.

COUTO, Renan Cardozo. A Imagem conceitual – uma contribuição ao estudo da arte contemporânea. Tese de doutorado, 2012. UFMG. (consulta em setembro 2020) https://docplayer.com.br/9082502-Ronan-cardozo-couto-imagem-conceitual-uma-contribuicao-ao-estudo-da-arte-contemporanea.html

DIEHL, Gaston. Max Ernst. New York: Crown publishers, 1973.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

MADEIRA, Gisele (dissertação) Pulsações de formas, cores e temas: imagens do cotidiano da obra de um artista (1967 a 1988) PUC/SP, 1995.

MENEZES, Philadelpho. A crise do passado. São Paulo: Experimento, 1994.

SANOUILLET, Michel (apresentação) DADÁ – Réimpression intégrale et dossier critique de la revue publiée de 1916 à 1922 par TRISTAN TZARA. Nice: Centre du XX e siècle, 1976.

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

STANGOS, Nikos (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.


[i] Havia uma relação de dadaístas como títulos honoríficos. Raoul Hausmann era Dadásofo; George Grosz era Politidadá; Richard Huelsenbeck era Dadamundi; Franz Jung era Dadanarquista, entre outros. In: Baitelo Junior, 1994, p. 106)


O TECER dos 10 Anos do Blog TECITURAS

11 abr

por Gisèle Miranda, Lia Mirror & Laila Lizmann

 

O Blog Tecituras nasceu nas paredes de um quarto, gestado e parido. As palavras foram esculpidas, ora na pena, ora com as unhas. O caos, a dor e a “solidão do porvir de poucos” atentou que a “consciência sobrevive a qualquer circunstância”. As incisivas palavras são do artista Gontran Guanaes Netto* (Vera Cruz, São Paulo, Brasil, 1933 – Cachan, França, 2017), amigo, professor e tutor às avessas. Do Sujeito Histórico, Artista Realista Político, Professor da Memória à História.  Gontran Netto deu-nos a honra de sua colaboração no Tecituras com suas obras e suas reflexões em manuscritos e interferências.

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A homenagem dos 10 anos do Tecituras vem de um conteúdo Histórico, Artístico, Crítico e Político. De conteúdo imaterial, inquietações do pensamento à escrita com o objetivo de compartilhar conhecimentos, experienciar e zelar pelos bens culturais, com colaboradores – com ou sem vínculos acadêmicos e com uma bagagem de textos não perecíveis ao tempo, atualizados, conscienciosos de sua necessidade, por isso, nossa justa homenagem a Gontran Guanaes Netto! Há inúmeros textos sobre sua arte, sua luta, além de tutelar um pequeno espaço tecido há 10 anos.

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O conteúdo artístico faz uma grande diferença. O conteúdo crítico é uma filtro necessário diante da abundância do vazio, da educação cara e fria, frente a educação da exclusão. Dessa homenagem, tecemos reverência a missão ou o ofício dos professores em situações de falta d´água, restrições, endividamento, aluguel atrasado, ajuda de familiares e amigos. Inevitavelmente, ratificar a data de 29 de abril de 2015, o cenário ápice da violência na Educação brasileira, ao Brasil atual, machista a misógino, ignorante que enaltece a intervenção militar quando desconhece a violência histórica, cuspiu na História e na Educação. Após cinco anos dessa violência, e de tantas não sanadas, vem a público, o Ministro da Educação (des) mascarado na mesa de reunião do horror (!), entre os seus pares. (**)

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Nosso Brasil tão diverso, nascido de um histórico de pura violência, dos séculos de escravidão, da exclusão, dos preconceitos, Esses séculos não foram sanados, tão pouco, os 21 anos de violência do Estado Militar Brasileiro, porque não há Consciência Histórica.
As ditaduras devastaram toda a América Latina. Torturaram violentaram, reprimiram, subornaram, difamaram e mataram. Toda essa herança resiste e, que cada vez mais, estratifica nos professores, na moral da violência e da “sub -missão”  material, nos salários, na ausência dos livros, das leituras, do tempo, das escritas, numa “missão impossível”.
Entre a teoria, o discurso frio e confortável da boa escrita (e cara educação) há o extremo da prática, do discurso de luta, nada confortável. Entre as fases antagônicas existem mais falas sujas, oportunas e arrogantes. Sem dúvida, a figura opressora tem cúmplices entre os próprios oprimidos. (1)

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Entre os traumas, há sobreviventes na floresta dos homens e mulheres livros (2), independente da indexação, do conforto, da assepsia, da insensibilidade, do apodrecimento, dos muros, onde os discursos, principalmente econômicos, falam mais alto, não por acidente, mas por natureza. (3)
Os professores que apanharam em 2015, os que mais adoecem a olhos (não) vistos nos representaram no front, e hoje, unidos a população em geral, principalmente com os mais pobres para aplaudir os profissionais da área médica e de serviços essenciais à beira do precipício Humano e Político, na pandemia Covid-19.

Já dizia nosso querido Gontran Guanaes Netto: Antigo combatente, jamais!

Então, Antigas combatentes, Jamais! & Marielle, presente! João Pedro, presente!

 

 

(*) Sobre O Artista GONTRAN GUANAES NETTO

(**) https://www.youtube.com/watch?v=cIWzeiEMpko; https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/05/25/weintraub-diz-que-desabafo-em-reuniao-nao-foi-pensado-e-e-sincero-e-educado.htm

(1)  BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo Vol 2: A Experiência Vivida, Difusão Européia do Livro, 1967. “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.

(2) homens e mulheres livros e livres. t tecituras.wordpress.com/2010/03/11/serie-retecituras-iii-fogo-451-aos-doutores-de-historia/

(3)  DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 2010, p. 221. 

 

Série Ficcional H. Miller XXIX: A cama divã

26 jan

por Lia Mirror, Laila Lizmann, Lara Kleine Augen & Gisèle Miranda

 

 

(…) As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
(Álvaro de Campos pseudônimo de Fernando Pessoa)

 

 

 

Após a morte de nosso amigo ancião Blake, os livros foram dispersos, as histórias perderam os fios de Ariadne e os monstros que roíam as entranhas dos que LIAm, deixaram de existir.

O salto para o abismo se deu entre a realidade e a ficção; passou por Foucault* e se deleitou no escarnio de Henry Miller. Assim sucedeu a árdua tarefa.

– Ele pegou a caneta, os olhos, o papel, o corpo dela e riu. Riu e os colocou no tempo perdido, díspares. O bicho raivoso da vaidade predatória, desumanizou e fez das suas noites, outras bocas, outros corpos na cama dela.

 

Louise Bourgeois (NY, EUA,1911– Paris, França, 2010) Sete na cama, 2001.

 

Todos riram! A nobreza plebeia construída nas solitárias leituras rasgou uma carta. Uma, das tantas cartas de amor, porque só os ridículos escrevem cartas de amor. **

Ela rasgou o tempo, cortou as letras, os segredos, as palavras, as mãos, a grafia, o cheiro, a tinta, o gosto e as fotos. Não bastasse, ela devorou o próprio coração, assim como Rimbaud, lentamente.

A memória será esquecida. O olhar não enxergará. O gosto não provará. O toque será um iceberg. Reconstruirá um Frankenstein, só amado por seu criador; ou, uma Alma Mahler inflável e amada por Kokoschka?

Alma Margaretha Maria Schindler ou Alma Mahler-Werfel (Áustria, Viena, 1879- NY, EUA, 1964) de Oscar Kokoschka (Áustria, Pöchlarn, 1886 – Suíça, Montreux, 1980). A boneca Alma Mahler. Projeto/desenho de Kokoschka para a feitura em tamanho natural s/d.


A febre foi testemunha, enquanto ela confeccionava seus monstros, ardia e jorrava larvas. No delírio ela foi em busca de um livro, o que desencadeou um pesadelo Shakespeariano. Aos prantos, ela gritou por Shakespeare diversas vezes.

Amanhã será outra dor. Enquanto as pessoas rirem, nós protegeremos a ingenuidade, o sorriso do olhar menina que percorreu os mesmos rios dos algozes e enfrentou a fadada miséria, violência, pedras, precipícios, afogamentos, curras, enforcamentos e surras.

Da pedra bruta brotou uma flor rara. Da brutal fragilidade nasceu um vento forte para as ondas de um mar tempestuoso. Náufraga, salva pelo olhar atento do lobo do mar.

Louise Bourgeois (NY, EUA,1911– Paris, França, 2010) Cama azul, 1998 gravura 49,5 x 67,3 cm

Em terra firme ela foi jogada no picadeiro com nariz de palhaço. De lá viu o lixo abundante, nada reciclável. Viu a crosta numa casca podre que escorria água suja.


Ah, esse monstro que nos rói as entranhas tem nome, tem história, tem o valioso conteúdo dos livros, dos saberes e até do rejuvenescimento, segundo Thomas Mann. Ah, Henry Miller, Rimbaud, Dostoiévski e tantos outros que venham eternizar nossos sentimentos, nossas falas, nossos sexos, nossas dores, nossas palavras.

“Agora

não navega

nem tampouco vive

erra

se

escrito” ( C. Vogt, Marinheiro Pessoa***)

 

Nota:

(*) Foucault: “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” (Foucault, 1990)

(**) Álvaro de Campos, in “Poemas” Heterônimo de Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 1888- Idem, 1935): “Todas as cartas de amor são ridículas” Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 84. 1ª publ. in Acção, nº41. Lisboa: 6-3-1937.

 (***) Carlos Vogt. O Itinerário do Carteiro Cartógrafo – Cantografia. São Paulo: Massao Ohno, 1982.

(1) MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963.

 

 

Copa 2018: Um Brasil Real

6 jul

por Gisèle Miranda e Lia Mirror

 

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão… .  (Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014.)

 

Sim, espera-se tudo porque somos desiguais. Em tudo! Também o país da corrupção, mundialmente conhecido. A miséria de um pais tão próspero.

Os 7 x 1 da última Copa, as prisões, o Rio de Janeiro falido sendo uma das maravilhas do mundo. Da Copa aos Jogos Olímpicos…. talentos?  Só a sobrevivência. Como não pensar sobre isso? Quantos talentos perdidos, quantas famílias nas ruas?! Estamos em 2018!

Não é o jogador mais caro do mundo que vai mudar o Brasil. Também não devemos crucificar Jesus, afinal ele não é o nosso ´Cristo Redentor´.

Destacamos Cristiano Ronaldo (atual “melhor jogador do mundo”) que bateu uma falta linda e também perdeu um pênalti! Perdeu a Copa? Ficou um gesto maravilhoso com Cavani (ou com Mujica)!!!  Como faltaram gestos!

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Foto divulgação/ 2018

Mas venceu a diversidade, a força e a garra dos refugiados da histórica República Francesa e uma bela discussão sobre o tema que assola o mundo. Precisamos de mais Liberdade, Igualdade e Fraternidade!

“O meu país é a terra” em um mundo tão carente de tudo e tão desigual! Mas “o pulso ainda pulsa… estupidez… hipocrisia… ( e até) Sarampo. O corpo ainda é pouco” (*) para um Brasil com “27 milhões de desempregados, o quinto país do feminicídio” (**) e um crescente aumento do estupro, embora saibamos que o silêncio das vítimas predomina e não contabiliza; o estupro é historicamente uma arma de guerra, ou seja, estamos em guerra!

S´Alah!

 

Neno Ramos, sem palavras, 2018

Neno Ramos, Sem Palavras, 2018.

 

 

(*) “O Pulso” de Marcelo Fromer / Tony Bellotto / Arnaldo Antunes, 1989.

(**) Dados registrados na mídia “séria” brasileira em agosto 2018.

Futebol arte e alienação: ginga ou assepsia?

 

Série Ficcional H. Miller XXVIII: Coração

12 jun

por Lia Mirror

“… o espírito é como um rio que procura o mar. ” (Henry Miller)

“- Pode entrar, Dr. Fausto lhe aguarda. ”

Apreensiva adentrei novamente o consultório. De imediato avistei Dr. Fausto e o elogiei pela bela aparência ´jovem´; a minha corria o tempo dos mortais.  E mesmo com a alma comprometida (1) fui agraciada pelas belas palavras do doutor ao referir a mim, como uma ´jovem liberta´ devido a constância nos estudos. Disse enfaticamente: “estudar nos torna jovens! (2) Mas, o que a trouxe dessa vez? Ainda há um coração? Ou devoraste o teu como Rimbaud? “

Coração coeur-de-louise bourgeois, 2004
Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), HEART, 2004.

Meu coração pesa muito; é como o coração de um beija flor. Entre o assado e a carniça há um coração e um Dürer.

– “Desculpe doutor, o sr. Thomas Mann pede urgência! ”

– “Fausto, meu caro.  Venho interceder por esse coração… se a alma não foi vendida pela juventude, o coração não deve ser leiloado.  Uma alma pelo Dürer foi a abdicação do ego, do valor ao outro. Dürer será preservado! O coração de um beija flor também merece ser inscrito nessa história, aquém da juventude e da riqueza. Deixe-a ir. Interfiro nessa escrita por conhecer o que sustenta esse Ser. “

corações louise 2006
Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), Untitled (Hearts), 2006.

Mais uma vez, Dr. Fausto riu como Mr. Ryde, mas logo respondeu como Dr. Jakyll e por conseguinte como H. Miller.

Robert Louis Stevenson invadiu o consultório. Mann e Stevenson chegaram a esboçar um confronto, mas gritei a efusão literária até falhar a voz. O coração era meu, a dor era minha. Peguei minha bolsa e saí sem olhar para trás.

A transformação foi imediata: “pele por escamas, pernas por cauda, guelras e música” (3)… ao MAR.  ‎

Referências:

(1) Minha Alma Imortal

(2) MANN, Thomas. Doutor Fausto. Tradução Herbert Caro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1952. Volume II, p. 417.

(3) A(…)MAR ou “vivendo com saudades”

Série Ficcional H. Miller XXVII: O corpo por um fio

13 abr

por Lia Mirror

Se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe.

(Henry Miller)

Em um daqueles dias torrencialmente chuvosos, corri pelas ruas como um dia de sol. O sol era interno no manicômio do meu corpo. Despi as vestimentas morais e ri dos insanos olhares. Molhada também de prazer, torci o peso do encharque e continuei bendizendo o desejo. Blasfemei os tropeços e me joguei como um tênis sobre um fio de alta tensão.

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010)  Arch of hysteria, 1993.

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010) Arch of hysteria, 1993.

Por alguns segundos oscilei como um pêndulo; mas logo caí. A queda foi amortecida pelo divã abandonado; as mãos protegeram-me do embate corporal, mas as linhas  foram alteradas, foram reescritas. Levantei e caminhei contra o tempo. Confrontei e abri frestas subterrâneas. Nadei rios de correntezas e subi o morro para avistar o mar. Era o meu morro do nascimento. Meu Morro, Morro de saudades. Meu desejo, Morro de desejos.

Ao poetizar o Morro dei conta de que nosso encontro não estava previsto. Insurgimos e esculpimos nosso próprio tempo. Nossa mistura de segredos e diferenças. O gosto do gozo. O prazer da ficção.

Série Ficcional H. Miller XXVI: Do Pacífico ao Atlântico

26 jan

por Lia Mirror

 (…) Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina…
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico… E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Ode Marítima, 1890.

Enquanto içava as velas no Atlântico lembrei dos 23 tripulantes resgatados de um naufrágio; um, não sobreviveu a sua própria tormenta. Antes mesmo de chegarmos em terra firme, o lobo do mar se jogou no Pacífico como isca para tubarões amarrado à proa numa enorme corda. O nó que o galego marinheiro fez tem nome: chama-se Bispo do Rosário, em homenagem a outro marinheiro.

Logo, contando comigo retornamos aos 23. Somados 2+3 resultou no número de tripulantes dessa nova empreitada pelo Atlântico.

O propósito dessa viagem é resgatar Bas Jan Ader (*), ou, quiçá oferecer-lhe minha escuta ou o desejo de percorrer limites e sentir do ardor a dor. Debater a queda; cair da bicicleta, cair do telhado, cair da árvore, cair no rio que leva o corpo, que afoga por instantes e que salva por um ‘triz’. Adentrar as profundezas do mar. E de tanto borbulhar no mar, tropeçar e dizer amar.

Não! Bas Jan Ader não foi salvo. Ele foi libertado. Cansou do riso fácil, enquanto estudava sobre a queda e o limítrofe de vida e morte. Tênue fio da navalha. “Ele partiu e nunca mais voltou…”.

Quando dei por mim, estávamos nós cinco: Bas Jan Ader, seu Alberto, meu amigo ancião Blake, Miller e eu. O medo da solitária viagem pelo Atlântico dissipou. Abrimos nossos braços às tempestades, gritamos aos deuses impropérios, ficamos embriagados de nossas falas ao falo. Trituramos nossa própria carne, cuspimos trovoadas e retornamos ao desejo. Do desejo ao gozo como em um álbum além  mar… mar… mar… a… mar!

(*) Bas Jan Ader (Winschoten, 1942- Atlântico, 1975) desapareceu “no oceano Atlântico ao tentar atravessá-lo com minúsculo veleiro enquanto realizava a segunda parte de um tríptico chamado In Search of the Miraculous”. In: Catálogo da 30ª Bienal, 2012, p. 110-111. Documentário de Rene Daalder, O desaparecimento de Bas Jan Ader, 1975

Série Ficcional H. Miller XXIV: ´minha alma imortal´

2 ago

por Lia Mirror, Gisèle Miranda e Laila Lizmann

 

“… Minha alma imortal… que venha a manhã com brasas de satã…”

Arthur Rimbaud (Charleville-Mézères, 1854- Marselha, 1891)

 

Decidi colocar minha alma à venda. Corri para conversar com Thomas Mann que de imediato indicou-me o dr. Fausto. Antes de assumir sua dialética visão de liberdade que lhe valeu a alma, gritei:  – minha alma imortal está à venda!!!

Exclui a carne tal como ele (s). Quanto vale minha alma? Um Dürer? Afinal, todos os planetas convergem para o signo de Escorpião bem como mestre Dürer os desenhou sabiamente no folheto medical. [1]

Minucioso Dürer! Os bons sentidos te louvam por suas gravuras; só o olhar próximo pode dimensionar o tamanho do que você fez… faz. Percorro cada centímetro dos seus sentidos. Ah, essas Luzes do Norte!

Dürer  o cavaleiro e o demônio

Dürer (Nuremberg, 1471 – Nuremberg, 1528), O Cavaleiro, a Morte e o Demônio, 1513. Gravura sobre metal 25,19 cm.

Inclino-me a comparar sua solidão com um abismo, no qual se aprofundam, sem ruído nem rastro, os sentimentos…, disse-me dr. Fausto em consulta.[2] Interrompi sua fala para dizer-lhe que segundo meu amigo ancião: – a solidão é um porvir para poucos! Complementei cantarolando o fundo musical: …vou botar minha alma à venda… nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça… [3]

Dr. Fausto riu como Miller. Meus olhos foram atravessados a nado. Nesse percurso vi e ouvi trechos do escárnio da vida. Alguns vinham de Henry Miller, outros de Thomas Mann até chegar Robert Louis Stevenson.

Ao ampliar meu olhar naquele mar de palavras, vi o retrato de Dorian Gray. Pedi a dr. Fausto que parasse com aquela miscelânea e que fôssemos direto ao ponto, ou seja, a venda de minha alma.

Dr. Fausto riu como Mr. Ryde. Vi uma figura que “assemelhava-se a uma gravura de Albrech Dürer – uma mistura de todos os demônios sombrios, irascíveis, taciturnos…”[4].

Quando dei por mim, ouvi em sussurros…sua alma merece um Dürer, disse Miller. (em minha boca e com o ardor literário)

dürer detalhe o cavaleiro... 1513

Dürer (Nuremberg, 1471 – Nuremberg, 1528), Detalhe da assinatura de Albrecht Dürer em O Cavaleiro, a Morte e o Demônio, 1513.

Notas:

[1] Mann, 1947: 313

[2] Mann, 1947: 11

[3] Zeca Baleiro, Babylon, 2000.

[4] Henry Miller, Trópico de câncer 

Referências:

MANN, T. Doutor Fausto (I). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1947.

MILLER, H. Trópico de Câncer. Trad. Aydano Arruda. Rio de Janeiro: O Globo: São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.

RENASCIMENTO Alemão: gravura da coleção Rothschild colletion. Texto Teixeira Coelho, Pascal Torres. São Paulo: Comunique Editorial, 2012.

STEVENSON, R. O estranho caso de Dr. Jakyll e Mr. Ryde. Rio de Janeiro: Clássicos Econômicos Newton, 1996.

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