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Série Ficcional H. Miller XX (final I): “o segredo dos seus olhos” (*)

4 nov

por Lia Mirror, Gisèle Miranda & Laila Lizmann

 

E para o rebelde, mais que para todos os homens, é necessário conhecer o amor e dá-lo ainda mais que recebê-lo, e ainda mais que dar, ser o amor.  (Henry Miller, A hora dos assassinos, 2003)

 

Os braços erguidos e a contagem dos segundos. Pergunto-me se terei asas, nadadeiras…: “Dois, um…”. Prendi a respiração e fechei os olhos para pular.  Contei novamente os segundos e perdi a conta por não querer saber do tempo. Nem mesmo a memória interferiu; vivi a experiência sem a ingerência dos enquadramentos.

Experienciei as vanguardas e subverti as regras num bom salto em alto mar. E nesse exato instante, Miller envolveu-me com a permissão de Iemanjá. Flores foram surgindo em meio aos pentes, grampos, fitas, batons. Eram bocas que diziam palavras inscritas em borbulhas.

Nelson Leirner, instalação “Caminho de Santos”, 2008

E apesar de tanta beleza, logo fiquei surda. Uma euforia do agouro se personificou no Deus da Carnificina, mas o medo não emergiu.  Cheguei a ver o sangue, as vísceras e os rompantes. Pensei imediatamente em Miller. Mas não entendi a máscara da aproximação. Uma promiscuidade em disfarce de liberdade que provém da masculinidade de séculos de dominação. Encarei essa disfarçada figura e ela se foi com medo de mim. Então, não era H. Miller!

Em passos largos caminhei até o restaurante, pois era hora de sentar-me a mesa com seu Alberto. Todos os dias no almoço juntos em nosso silêncio que perdura com o adentro de sua invisibilidade que resgatei através de Hades. 

Senti que o seu Alberto estava eufórico no silêncio. Não era uma habitualidade, mas ignorei como um cotidiano almoço; até que ele me disse: – “você é…”. Disse-me tantas coisas que poderia transcrever páginas e páginas. Ouvi e quando procurei os seus olhos não consegui enxergar.

Ninguém enxerga os intensos gestos do seu Alberto.  Ele é tão complacente que chego a envergonhar-me diante dele. E sei, que é nesse momento que eu não o enxergo. Nem mesmo escuto os insurgentes a mesa. No instante que pensei isso, ouvi:

Lia eu a lerei por todos os momentos que me subornei; lerei como sempre desejei e nunca fiz.

Não ergui os olhos, nem mesmo dei importância à fala adjacente, embora tivesse reconhecido o som de sua voz. Encarei como uma voz do além, uma alucinação por ter escapado com vida do Deus da Carnificina.  Dei por mim ter ouvido uma fala inexistente, então prendi novamente a respiração; durante esse processo passei a ouvir inúmeras vezes o seu Alberto dizer: É um prazer Henry Miller… É um prazer Henry Miller… É um prazer Henry Miller… Como um disco arranhado.  

Voltei a respirar! E ouvi pela última vez: “- é um prazer Henry Miller!”  Nesse instante vi os olhos do seu Alberto e vi “o segredo dos seus olhos”, H. Miller!

 

 

Referências:

(*) O Segredo dos Seus olhos. Direção Juan José Campanella. Espanha/Argentina, 2009, 127 min.

Sobre o artista Nelson Leirner http://www.nelsonleirner.com.br/

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

MILLER, Henry. A hora dos assassinos (um estudo sobre Rimbaud). Trad. Nilton Persson. Porto Alegre: L & M, 2003.

Deus da Carnificina. Direção Roman Polanski.  Carnage, Polônia/Alemanha/França/Espanha, 2011, 80 min.

Série ficcional H. Miller – V: Batucada, Miller e a mesa do seu Alberto

Série Ficcional H. Miller XX (Final II) – A morte da leitora

27 jun

Por Lia Mirror e Laila Lizmann

 

Preciso meditar na minha vergonha e no desespero em retiro… 
Que querem vocês de mim? Quando
tenho algo a dizer, ponho-o em letra de forma. Quando tenho algo a dar,
dou-o… Seus
cumprimentos humilham-me! Seu chá envenena-me! Nada devo a ninguém. 
Seria responsável somente perante Deus – se Ele existisse!

 (Henry Miller, Trópico de Câncer)

Após o cárcere de semanas, o Deus da Carnificina* abriu a pequena porta de aço; agachei e arrastei-me por uma luz enganadora. Ao subir o olhar deparei-me com a presença de Marina Abramovic sobre pedaços de carnes. Seu vestido branco em segundos foi sendo consumido pelo vermelho que jorrava das mutilações. O odor nauseabundo ascendia e mal conseguia respirar.

Marina Abramovic, Balkan Baroque, 1997 http://marinafilm.com/

Ainda rastejando tentei retornar ao meu habitat carcerário, mas um vento intempestivo fechou o pórtico de minha salvação. Arranhei o aço até sangrarem os dedos e tremi por rever aquela desfigurada pessoa a fitar-me: era o Deus da Carnificina. Num simples gesto ele arrancou de sua garganta aberta um envelope plástico e jogou-o à minha frente como um dono faz a seu cão.

Minha baba escorria tal qual o sã/insano professor de história que desembarcou do cargueiro “Kedma”**.  Apenas mexia o corpo sobre os joelhos e mãos que se encontravam no chão – de fato como um cão. Cheguei a alçar a baba sobre o envelope e receei a ira daquele Deus. Mas, não. Ele foi se afastando lentamente até desaparecer diante da segurança que o animal estava submisso.

O tempo que transcorreu a dúvida de abrir aquele envelope foi imenso e intenso. Marina continuava sobre a carnificina e parecia não me ver. Abri o envelope empurrando a baba do fecho. Havia uma carta e assim que toquei naquele papel percebi que se tratava de Henry Miller.

Era uma carta extensa expondo as razões de seu desaparecimento. À sua leitora mais fiel restara a submissão ao inevitável. Li e reli como Henry Miller ensinou-me em uma cartografia dos desejos. Assim ele percorreu a bel prazer todos os estados inimagináveis do meu corpo e da minha alma.

Ainda sob postura animal abocanhei o papel e fui engolindo em rasgos. Aos poucos fui voltando à minha humanidade.

Caminhei com dificuldade, mas alcancei a falésia. Pensei nas tantas cartas de despedidas de Virginia Woolf, até cair em mim e entender a essência da releitura; Miller fez a minha carta de despedida poupando-me do abismo da letra e eu a engoli, antes li e reli.

Rachel Korman, autorretrato enquanto morta, 2008, 170 x 80 cm.

Notas e Referências:

(*) Deus da Carnificina. Direção Roman Polanski.  Carnage, Polônia/Alemanha/França/Espanha, 2011, 80 min.

(**) KEDMA (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2002, 94 min.

BALKAN Baroque (filme/ performance de Marina Abravovic). Direção Pierre Coulibeuf. França/Holanda: Regards Production, 1998. 61 min.

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

Miller, H. Trópico de Câncer. Trad. Aydano Arruda. Rio de Janeiro: O Globo: São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.

Série ficcional H. Miller XIX: o desvio na história

15 maio

Por Lia Mirror, Laila Lizmann e Gisèle Miranda

 

“Baudelaire simplesmente desnudou o coração; Rimbaud arranca o seu e o devora lentamente…” (Miller, 2003, p. 121)

Estava ilhada sob uma chuva torrencial. O vento uivava. Abracei a parede daquele abrigo em pé sobre o banco. Chorei e maldisse Henry Miller pelo silêncio secular, nem mesmo as poucas palavras inscritas.

A tempestade ou o intempestivo? Prendi a respiração e desejei morrer pelo impulso de salvação da liberdade. Não devo ter ficado muito tempo sem respirar, mas quando voltei, a chuva havia parado. Respirei como um orgasmo abraçando a parede que me consolou.

– Moça! Aqui passa o ônibus 455?

Não quis acreditar que alguém estivesse falando comigo. De onde ele surgiu? Cadê a chuva? Ele fitou-me sem esboçar estranhamento do quase ato sexual com a parede. Tirou do bolso um papel dobrado e colocou sobre o banco próximo aos meus pés e se foi. Agachei e desdobrei aquele papel que dizia: “Estaremos na mesa do seu Alberto. E eu, doce Lia… à espreita. H. Miller”. (*)

– Maldito seja! Sempre à espreita da carne e do sangue! Você é bendito entre os libertos, ditos e malditos do escárnio.

Fui ao encontro deles no restaurante sem nome na José Livres, número 455. Estava ansiosa por tê-los novamente, nada me satisfaria tanto. Quando adentrei o recinto vi a mesa do seu Alberto vazia. Busquei-os e nada.

Sentei e logo chegou o Antonio que não era Conselheiro, nem casamenteiro; beijo-me a mão e perpetrou um olhar profundo. Nesse olhar eu vi Rubens, Goya e seus Saturnos. Vi Arthur Bispo do Rosário com seu estandarte vindo em minha direção com as seguintes palavras: O impossível só pode ser atingido por investidas e o nome para isso é loucura[1]; vi José Leonilson bordando sua bagagem de mão “O Mentiroso”; vi montanhas de livros abertos gritando palavras. Mas não vi o seu Alberto – foi o que pensei, antes de desfalecer nos braços de Antonio.

Quando acordei não era Antonio que me acolhia; estava nos braços de Henry Miller;  ele sussurrou fitando-me: Eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro… um mundo inexplorado.[2]

 

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

MILLER, Henry. A hora dos assassinos (um estudo sobre Rimbaud). Trad. Nilton Persson. Porto Alegre: L & M, 2003.

MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963.

Sobre José Leonilson

MESQUITA, Ivo. Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. São Paulo: Projeto Leonilson/ Cosac & Naify, 1997.

(*)  “a mesa do seu Alberto” Batucada, Miller e a mesa do seu Alberto


[1] Miller, 2003, p. 118.

[2] Miller, 1963 a, p. 177.

Série Ficcional H. Miller XVIII: reminiscências

1 set

por Lia Mirror & Laila Lizmann

Miller rompeu barreiras antes intransponíveis. Ele retornou ao umbigo. Retroagiu no tempo e balbuciou o incompreensível. De lá para cá não o vi mais. Apenas ouvi falar. Admiti sua inexistência no tempo objetivo.

No entanto, meu coração acelerou diante da mesa de seu Alberto. Pois de todos – seu Alberto era o único que de fato conhecia Miller e o nosso tempo subjetivo. Ele era cúmplice de nosso estranho encontro. Busquei-os por todas as mesas, mas nenhum sinal deles. Esperei por vários dias e nada. Ninguém para compartilhar o silêncio.

Amélia Toledo, Colheita, 1982. Objetos de uso cotidiano submetidos a ação do tempo debaixo d’água.

Imaginei Miller outrora a mesa, quer dizer, nós três. Qualquer palavra sem som, cada olhar fingindo não olhar; depois, uma sorrateira despedida. Por que não os vejo mais? Porque fugi. Não queria mais o compreensível. Queria alterar as rotas e grafar letras. Queria seguir o curso dos bordados a sangue e entender o que não precisava.

Diante das minudências da memória fui ao encontro das palavras de Sartre sobre Jean Genet, mas pensei em Miller: “A transformação que é obra da liberdade”. Não houve superação; houve transformação pela liberdade.

Afinal, não foi pela liberdade que escavei até ouvir a respiração de Miller? A liberdade que transpôs tempos distintos, difíceis e até impossíveis. Mas, onde está o átimo do reencontro?

Creio que o tempo foi indigno com a sua ausência. Meses se passaram e a angústia ressurgiu enorme, maledicente e pronta a dissipar qualquer transformação.

Antes de partir novamente, sem tê-los, o último almoço na mesa do seu Alberto. Apenas uma salada que mal consegui terminar. Algumas lágrimas; hora da partida.

– Por favor, a conta?

– Sua conta foi paga. Alguém deixou esse bilhete.

Atônica desdobrei o papel e li em voz baixa:

“Minha doce Lia

Sinto em ser o portador dessa triste notícia; seu Alberto morreu, não para nós. Verei o que Hades pode fazer; e quem sabe: o impossível não será loucura!?

Eu a acharei onde quer que vá.

H. Miller.”

Referências:

Sobre a artista Amélia Toledo: Amelia Toledo via Instituto Itau Cultural

Beauvoir, Simone de. A cerimônia do adeus. Seguido de entrevistas com Jean-Paul Sartre (ago/set 1974). Tradução de Rita Braga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 484.

https://tecituras.wordpress.com/2010/03/04/batucada-miller-e-a-mesa-do-seu-alberto-v/

Significa- ação

11 maio

Fotografias de Cícero Leitão

(Curadoria e texto de Lia Mirror)


Quando as borboletas começarem a partir é sinal que alguma coisa aconteceu… talvez os ventos… remoinhos…Talvez a chuva… tempestade. (Cícero Leitão)

 


Cícero partiu. Mas retornou para fotografar reminiscências de Juá, no município de Itaueira, Piauí. Ao passar por ali viu dois passarinhos.

Cícero Leitão, Meninos, 2010/2011

– “muitos passaram, mas eu passarinho” (disse o mais travesso reverberando Mário Quintana)

A passarinha maior fitou aquele olhar que diz, como outrora disse a menina afegã, que Steve McCurry registrou em 1985.[1]

A lavadeira do rio Itaueira canta e se encanta com Cartola!

“…Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa. Tô ensaboando…
Tô lavando a minha roupa!…”[2]

Cícero Leitão, Lavadeira do Rio Itaueira, 2010-2011

Quando se olha por todos os lados… seu Benvindo sorri e pica o fumo como os Caipiras de Almeida Jr. Mesclando o final do século 19, sob tintas e pincéis; e sob o olhar em preto e branco do século 21.

Cícero Leitão, Bem-vindo! 2010-2011

Meus olhos  (agora ) são seus olhos!

Dona Coló em seus vividos 97 anos recita Cora Coralina: Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.

Cícero Leitão, Dona Coló, 2010-2011

Lá em Itaueira “passou um sábio. Depois um soldado e mais tarde um homem do povo. Sucessivamente ocuparam o horizonte um poeta, um leão, um tigre e um pequeno redemoinho de areia… ” (Klintowitz, Significação, 1982)


[2]  Cartola com sua filha Creusa cantam Ensaboa


Série Falésias IV: A alegria sem a fala – ou os desaparecidos e re-aparecidos da escrita

16 mar

Por Lia Mirror & Gisèle Miranda


A Alegria de Emma[1] – uma personagem fictícia – tem um intrínseco elo com o Futuro (que) dura muito tempo de  Louis Althusser. Ele, personagem construído de um memorial, dia a dia até morrer em 1990; deixou registrado que suas alucinações foram fatos do futuro longo demais. Não há sonoridade de dor, seja no ato vívido de Althusser ou na ficcionalidade de Emma.

Os porcos degolados por Emma foram cuidados, amados até os oito segundos à morte. Da mesma forma, ela fez com o seu amado, um doente terminal em suas delongas – a degola, para que não sofresse mais; apenas oito segundos. Nenhum som; nenhuma fala. Emma e Althusser agiram com as mãos, da faca à caneta; do silencio à escrita ou a morte.

Será que o desaparecido de Foucault reapareceu na escrita necessária de Althusser e de alguma maneira impronunciado?


Gontran Guanaes Netto (1933-2017), escrita/desenho s/ papel: “Para Gisele neste inicio de trabalho”, dez. 2002.

Há um condenado ao desaparecimento; da pena à ficcionalidade dos tropeços da memória. Impronunciável? Então, a escrita.  Dos relatos aos lapsos do escritor Lima Barreto em seu Diário do hospício e o cemitério dos vivos; o enredo de um tempo que também parece durar muito, precisamente porque fora imposto por uma limpeza social (policial e higienizadora) marcadamente pelas primeiras décadas do século 20 no Brasil. Lima Barreto não matou; mas viveu personagens em meio aos desaparecidos por assassinatos, esquizofrenia, alcoolismo, vadiagem, entre outros. Sua escuta era intensa; sua escrita verteu-se ao ensejo do necessário.

Althusser era um filósofo marxista de carreira universitária. Emma era uma versão feminina e alemã de “O garoto selvagem” de Truffaut com condimentos do dinamarquês Lars Von Trier em os “Idiotas“. E, para compor essa escrita, Foucault com seu parricida (degolador): Pierre Rivière.

Os papéis foram sendo esculpidos, as imagens sobrepostas ou simples palavras. Althusser clamou a solidão de seu isolamento teórico e o risco solitário diante do mundo, além de percorrer de Rousseau a Derrida – a intervir como filósofo na política e, como político na filosofia. O futuro dura muito tempo foi escrito alguns anos depois do estrangulamento de Helène,  em 1980 e, publicado em 1992.

Para compor o cenário Pierre Rivière reapareceu vindo das primeiras três décadas do século 19, marcadamente por Foucault, abrindo discussões à medicina psiquiátrica e os conceitos da justiça em perspectivas políticas de meados do século 20.

Rivière degolou ou amputou a fala da mãe e dos irmãos? E sem a sua própria fala, construiu um memorial justaposto à escrita, por uma memória também minuciosa, dadas às diferenças da época e de aleitamento intelectual.

Rachel Korman, big pig, 2008, digital photograph 50 x 70 cm.

Não me assustavam os criminosos; escreveu Lima Barreto, mas a candura, a inocência e a naturalidade; a punho e em pedaços de papéis registrou seu cemitério dos vivos ou sua analítica versão de as Recordações da casa dos mortos de Dostoiévski. E foi assim, em tal estado de espírito, penetrado de um profundo niilismo intelectual. (p. 186-189)

Em silêncio, Lima Barreto saltou de sua ficcionalidade (prefaciado por Alfredo Bosi) e sentou-se a mesa do seu Alberto[2]; logo, chegaram Henry Miller, Pierre Rivière, Louis Althusser e Michel Foucault com seus escritos.


[1] O Filme Emmas Glück (A alegria de Emma) de 2006 http://www.tvcultura.com.br/mostrainternacional/blog/33772 do diretor alemão Sven Taddicken baseado no romance de Claudia Schreiber.

Referências:

ALTHUSSER, Louis (1918-1990) O futuro dura muito tempo; seguido de Os fatos. Org. e Apres. Olivier Copet, Yann Moulier Butang; Trad. Rosa Freire d´aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BARRETO, Lima (1881-1922). Diário do hospício e o Cemitério dos vivos. Prefácio Alfredo Bosi. Org. e Notas Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

FOUCAULT, Michel (Coord.) Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão. Trad. Denise Lezan de Almeida. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1977.

Série Falésias II: O conforto da mudez intelectual

10 dez

por Gisèle Miranda, Jozy Lima & Lia Mirror


“Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. ….” (Clarice Lispector)

O Tecituras desdobrou-se do blog Rudeza: escrita rasgada, que vinha – como dizia Paschoal Carlos Magno: de nossos barcos no céu, na terra e no mar. Ou seja, vem de uma experiência de escrita ativa e retro-ativa.

Essa experiência unida à necessidade da escrita vem acompanhada de críticas sobre a vida intelectual e suas manifestações. Por isso enxergamos o conforto irritante do mundo acadêmico, cujos intelectuais não escrevem uma linha senão tiverem a certeza do retorno indexado. Nem mesmo para simples comentários de textos.

São muitos os indícios e sinais de que intelectuais exercem sua capacidade crítica para alcançar, quando muito, os seus pares na academia. Raramente saem para o mundo. Mas alguns perguntarão: por acaso o intelectual tem ou deveria ter algum compromisso, além daqueles estabelecidos pelas regras burocráticas da academia que determinam seu avanço na carreira?

Intelectual tem responsabilidades com a construção de justiça social, de cidadania, de política, de alguma coisa?  O quê?  É ingenuidade desejar que pensadores venham à mídia dar alguma contribuição? Intelectual tem que expressar opinião, convicção, cismas? Intelectual tem que propor interrogações, preocupações, meditações, conclusões, considerações?  Intelectual pode ficar mudo? Intelectual tem que manifestar?

O espaço é usado pela escassez da voz, da escrita, da atitude de intelectuais omissos e com claras dificuldades para lidar com sua própria liberdade e sua consciência. Mas onde estão os mudos que não deveriam ser surdos nem cegos?

Estamos afirmando que há poucos aportes de pensadores nos espaços midiáticos. E por que não usamos os espaços por direito, necessidade? Por que não lidar bem com a imagem, a assinatura? Para que expor-se? Para que servirá escrever se não pontuará nas regras acadêmicas? Para que escrever além das atribuições pagas ou necessárias?

No  Tecituras há pensadores que exercem sua intelectualidade.  Outros criam espaços públicos e nômades e atuam em uma política educacional macro. E ainda, os que agenciam grupos de estudos, momentos de discussões e acreditam na parceria, e assim por diante.

Futebol arte e alienação: ginga ou assepsia?

22 jun

Por Lia Mirror,  Laila Lizmann & Gisèle Miranda

 

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão. Se a injustiça social não encontrou entre nós – ao menos até os anos 80 – uma resposta política efetiva, parece fora de questão que artisticamente nosso meio cultural seria muito menos rico sem a contribuição daqueles que teriam tudo para permanecer silenciosamente à margem.  (Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014)

 

Reminiscências da Copa de 2010

Por mais asséptico que o treinador tenha sido, a ginga de misturas mirabolantes fez do futebol do Brasil ser aquém! Ser arte! Arre, pedaladas de Robinho! Até Kaká, o bom moço religioso foi expulso em prol da guerrilha da Costa do Marfim. Os caras bateram no desespero. Mas não merece ser dito: – “Tá vendo, quem manda torcer pelos Africanos!”

Nelson Mandela, 2010

Nelson Mandela (Mvezo, África do Sul, 1918 – Joanesburgo, África do Sul, 2013) Foto divulgação, 2010.

Quem falou isso? Um infeliz. Prefiro milhões de vezes a porrada da Costa do Marfim que Materazzi implicando com Zinedine Zidane por questões étnicas na Copa de 2006. Daria mil cabeçadas nesse boçal Materazzi . A cabeçada de Zidane foi a cabeçada de milhões.

Mas, o infeliz continuou: “- você não entende nada de futebol.” Aquilo ficou engasgado. Apartheid de gênero?  Sei que me dói matar no peito como Luiz Fabiano fez, além do gol contra com a Costa do Marfim.

Esqueço que a invenção vem dos ingleses e vislumbro uma raiz que resplandece da fome, da mestiçagem, dos negros do Apartheid, do escravismo do último país a abolir a escravidão: o Brasil! 

Isso lembra a busca incessante do bode expiatório do Flamengo. Ou será o próprio Flamengo comandado por uma mulher? Se fez tem que pagar! Vagner Love saiu praticamente ileso e com elegância do complô/mídia. Acusado de ser negro (?), de ter saído de uma favela (?) e de ter reminiscências/essência do homem que é – do submundo. Padrinho de 500 crianças do morro (a força de expressão por ser maior)  e alvo de idolatria até “dos bandidos.”

Opa, mas favela só tem negros, pobres, drogas e armas!? Também trabalhadores, benfeitores que não esqueceram suas infâncias. Vagner Love e Adriano, por exemplo! Love saiu ileso pela boa oratória, mas o Imperador…  hum..  chutou o pau da barraca. O Imperador foi preterido pela assepsia da seleção, mas não pelo discernimento do bom brasileiro que sabe das misturas de nossa gente.

Mas querem saber o que mais chamou atenção até esse momento da Copa de 2010, apesar dos bons lances e da hipocrisia? A vocalista do “The Black Eyed Peas” (que fez a abertura da Copa) que em entrevista falou do seu maior desejo: conhecer o Brasil e ir a uma festa na favela. A jornalista fez aquela cara de… Ponto turístico? Será que a jornalista lembrou do Adriano ou do Vagner Love? Ou ainda, será que a entrevistada não teve tempo de perceber que estava no continente da maior favela do mundo? Maior número de fome, AIDS, pobreza, guerrilhas, violências…?

Meu ídolo no futebol arte ainda é Mané Garrincha que tinha as pernas tortas e vida tortuosa. E mais, pela parceria de arte e amor com Elza Soares, “a mulher do fim do mundo” que descia o seu morro com “a lata d´água na cabeça” ensaiando para nos dizer que “Deus é Mulher”.

Nos Direitos Humanos meu ídolo é Nelson Mandela que nunca abandonou os princípios básicos de humanidade apesar de toda a violência sofrida e longe de ser sanada.

Paredes & Minúcias, parte I

3 maio

Por Lia Mirror & John Peralta


Cria que vai

dilacera, já é Jack

Caio, Ryde… sou eu.

                                                                                      

   E

           N ADA

         T UDO

          R ARO

A

N

        H OJE

A

      S UA.

John Peralta, flor e espinho, 2009

A voz que não se ouve
face a face
marcada pelo tempo rígido.
O silêncio que norteia ao Sul ensurdece.

John Peralta, foto 3 – Pregos 1, 2009

Cega,

mastiga

e engole

a sêco

o eco

do vento que mata

dia a dia, por todas as

noites.

John Peralta, partitura a la John Cage, 2009

Pronúncia…

nenhuma palavra.

Passagem…

ir além.´

(*) Nas paredes de um quarto. Paredes ou Palavras – surgiu em dezembro de 2007 e apagadas em 2009.

Série ficcional H. Miller – XIII: À Procura

24 mar

Por Lia Mirror e Gisèle Miranda


Minha alma continua liberta das amarras do comum.

Minhas palavras presas às inconstâncias.

(Lia Mirror, Paredes, 2008)


Estava à procura de palavras para sorver os instantes que se alastraram em horas. Foi então que ouvi em doces letras: ´fazer-se´ na fabricação do meu próprio mel – palavras, signos, paisagens com as folhas do campo e das ervas daninhas. (*) Nessa fabricação vejo Miller envolto a neblina, e em passos largos direcionados ao meu chamado.

Miller! Clio é imperdoável com você! Você aguça o meu animal. No meu presente você interpõe uma temporalidade dispare. Comigo dou-te a liberdade para o futuro. Sou Mnemosynes, a tua consciência. Ou seja, Hyde e Jack, ou ainda, remédio e cura.

– Minha cara Lia, desta forma vou Ler-te mais! Insaciavelmente!

Rachel Korman (instalação), 2009

– Sua leitura é muito carnal apesar dessa nua alma que te envaidece. Você deixa rastros libidinosos. Diga-me: existe amizade entre um homem e uma mulher sem os desejos que os aproximam?

– Se há desejos como ignorá-los? Podes entreter; impor verdades em mentiras pela educação machista; devo admitir uma moral que propicia as deixas como gueixas. Ao estender as palavras diria que tenho a vantagem da foda masculina. Estamos falando da educação e de suas inserções no tempo. Cá estamos minha doce e sedutora (e arredia).

– Suas palavras são mãos. Suas palavras têm bocas e línguas. Você é irresistível, Miller… pernicioso. Com o slogan ´amigos´ você se aproxima e aguarda o tempo necessário. Faz o tempo ser selvagem e une vida e morte.

Miller acendeu seu cigarro e cobriu meu corpo nu com a nossa produção de folhas do campo e ervas daninhas. Com ares de promessa: prometeu e meteu os pés e as mãos. Mentiu e meteu o seu sexo.


(*) LE GOFF, J. História e Memória – em um momento Annales – reverberando o pulsar do historiador.

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