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Papos alcóolicos quase acuradamente históricos

26 fev

por Sta. Sbaile

“Eu moraria na Flórida tranquilamente!” – me dizia o turco que veio para a universidade da Flórida apresentar a tese de doutorado dele.

EU: Jura? A Flórida é um saco, cara.

TURCO: Ah, mas a Turquia é pior.

EU: Bom, não vou argumentar isso.

TURCO: Como assim?

EU: A Turquia me pareceria pior também.

TURCO: Por quê?

EU: Porque você é turco e está falando que é pior. Quem melhor que um turco pra falar da Turquia?

TURCO: É que eu sou gay.

EU: Eu sei.

TURCO: Então.

EU: Então o quê?

TURCO: Então, gays sofrem na Turquia.

EU: Então.

TURCO: Então o quê?

EU: O que você bebe?

TURCO: Não sei. Eu bebo cerveja turca. O que você bebe aqui?

EU: New Castle.

TURCO: Eu vou beber New Castle também.

Eloir Jr., a justiça das etnias, s/d,

Aí nós estávamos bebendo lá quando o grupo de estudantes que também estava apresentando teses de doutorado naquele dia chega no bar. Eles sentam do nosso lado. Papo vai, papo vem, eu pergunto: – E você, de onde é? (para uma menina) – “Da Polônia.”

TURCO: Eu sei falar polonês!

EU: Por que cargas d’água você sabe falar polonês, meu filho?

POLONESA: Porque os otomanos invadiram a Polônia. E ele é otomano.

EU: Faz sentido. Mas turco e polonês são tão parecidos assim? Eles soam tão diferentes pra mim…

TURCO: Vamos combinar, né? Quem não invadiu a Polônia? Querida, seu país foi a piriguete da Europa… Todo mundo passou a mão lá.

EU: Os húngaros invadiram…

TURCO: Os alemães invadiram.

ITALIANO: Os romanos também.

EU: Com o império romano de antes ou depois de Cristo?

CANADENSE: Só existiu um império romano.

EU: Não, existiram dois impérios. O de verdade, e o da igreja.

CANADENSE: O império sagrado romano?

EU: Isso.

CANADENSE: Aquilo não era sagrado, muito menos romano.

EU: Mas ele se chamava romano.

CANADENSE: Mas não era romano. Vá ler um livro de história.

EU: Que maldito filho da puta você é!

CANADENSE: Como?

EU: É, você! Me mandando ir ler história quando eu só estou em um diálogo bêbada num bar! Grosso!

CANADENSE: Eu sou canadense. Não posso ser grosso. Hehe. (risadinha idiota)

EU: E eu sou brasileira e estou de saco cheio de você, canadense ou não!

TURCO: Romano ou não romano, eles invadiram a Polônia, provando o meu ponto de que a Polônia é a puta da história da humanidade.

POLONESA: Puta da história? Pelo amor de Deus!

EU: De onde era o império romano que não era romano, então?

CANADENSE: Alemanha.

EU: Jura? Por que eles não se chamam “O império sagrado alemão”, então?

POLONESA: Eu acho o fim chamar anos de massacres de putaria! Como se a Polônia quisesse ter sido invadida…

TURCO: Mas os otomanos nem foram tão ruins assim, se comparados aos romanos, por exemplo…

EU: Quais romanos? Os de verdade ou os supostamente alemães?

CANADENSE: Já falei que só existiu um império romano.

EU: Canadense! Eu tô falando com você? Baixa a bola.

TURCO: Os romanos de antes de Cristo…

EU: Mas as colonizações romanas também não eram tão ruins assim…

ITALIANO: Verdade. Os romanos começavam com invasões bárbaras, mas depois tratavam os colonos como cidadãos.

CANADENSE: Ah, claro. O que eles fizeram com os celtas não foi massacre!

ITALIANO: As invasões eram sangrentas, a colonização não.

CANADENSE: Os romanos trucidaram os celtas!

EU: Nossa, os celtas… Estamos no lado B do mundo agora.

TURCO: Verdade. Os celtas também só se foderam. Todo mundo foi lá.

CANADENSE: Os celtas ainda existem!

EU: E os curdos também. A verdade é que todo mundo já se fodeu. Olha os próprios otomanos… tinham um império, agora gays não podem sair de mãos dadas na rua.

TURCO: E tinha gay de sobra naquele império, hein! E nem me fale dos curdos… Eles são um problema sério na Turquia.

POLONESA: Então a Polônia era a puta e a Turquia a biba?

TURCO: É…

EU: Porra! Além da Polônia ser puta, ela ainda foi abusada por um país bicha? Isso é que é falta de sorte!

Um velho se aproxima da nossa mesa.

VELHO: Posso me sentar aqui?

EU: Não senhor. Vá procurar outra mesa. (Eu tinha percebido que o velho era encrenca).

VELHO: Tá vendo aqueles taxistas Haitianos ali?

Nós olhamos. Havia um grupo de taxistas haitianos falando alto, em francês, na esquina.

VELHO: Bando de pretos! Racinha!

EU: Meu senhor, eu já falei que você vai ter que procurar outra mesa!

VELHO: Eu? Eu não. Eu sou da Flórida. Eu vou ficar aqui, no lugar que eu pertenço. Vocês, bando de estrangeiros parasitas, que procurem outro lugar!

Eloir Jr., Pisánki Czestochowska, acrílica s/ tela 50 x 40 cm, s/d (Nossa Senhora de Czestochowska, padroeira da Polônia)

EU: Meu senhor, este é um império em declínio. Se prepare para ser invadido por uma bicha muçulmana, uma polonesa puta, uma latina judia, um italiano que mal fala inglês, haitianos… E o pior: um canadense! Aposto que você nunca pensou que esse momento chegaria, eh?

* sobre o artista Eloir Jr. (http://eloirjr.blogspot.com/2010/09/blog-post_04.html)

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Crônica: SYNECDOCHE

1 nov

Por Sta. Sbaile

Acordo. É a última calcinha da gaveta. Amanhã eu lavo a roupa, hoje tenho que ler o livro da Staniszewski para História da Arte. Ah, e ligar para o governo para ver se eles liberaram a minha bolsa.

–       Sua bolsa foi negada.

–       Por quê?

–       Você não colocou os 150 dólares de taxa no pedido.

–       Ok. Vou enviar.

Envio.

–       Sua bolsa foi negada.

–       Por quê?

–       Você passou da data.

–       E agora?

–       Tem que enviar tudo de novo.

–       Ok. Vou enviar.

Envio.

–       Sbaile, vou te passar a Carmen Electra para dublar amanhã. – o diretor do estúdio liga.

Legal. Eu vou ser a Carmen Electra!

–       Au! Au!

Putz, esqueci de dar comida para a Stella.

–       Você pode comprar o ingresso para o  show do Social Distortion? – o Mike pergunta.

Social Distortion

 

Ah é. Social Distortion vem tocar aqui. Esqueci. Vou comprar.

Começo a ler o livro da Staniszewski.

–       Au!

Ah é, a Stella tem que comer.

–       Sua bolsa foi negada.

–       PORRA! MAS POR QUE CARALHO ELA FOI NEGADA AGORA?

–       O último documento com as suas notas veio sem o logo da faculdade.

Respiro.

–       Compra o ingresso logo. Pode acabar.

–       Au!

–       Sua bolsa foi negada.

–       Amanhã às 11 para dublar a Electra tá bom pra você?

“Seria a Vênus de Willendorf arte?” – eu penso.

O telefone toca. É a minha irmã:

–       Sbaile, a vó Irene morreu.

–       Ah, obrigada por me avisar. Eu falo com você depois, Amanda.

Acho que já li a teoria da Staniszewski em outro lugar. Acho que é Adorno. Cadê meu livro do Adorno? Putz, minha avó morreu! Teoria da Estética, por Theodor Adorno… Cadê essa merda? Logo da faculdade, Carmen Electra amanhã às 11…

–       Mike, você viu meu livro da Escola de Frankfurt?

–       Você já comprou o ingresso paro o Social Distortion?

–       Minha avó morreu.

–       Au!

–       Ah, Mike, você pode dar comida pra Stella?

–       Achei um livro do Clive Bell.

–       Minha bolsa universitária foi negada.

–       Au!

–       Ah, achei o livro!

“A definição de arte é, por todos os lados, indicada pelo que a arte uma vez foi, mas só é legitimada pelo que a arte se tornou em relação ao que a arte quer, e possivelmente pode, se tornar”. (Theodor Adorno em “Teoria da Estética, 1970)

–       E agora? Que caralho ele quer dizer com isso?

Ah! Ingressos para o show do Social Distortion. Google. Ah, achei o blog de um ex namorado meu que escreveu sobre Social Distortion. Vou comentar:

“Eles vêm para cá o mês que vem. Uhu!” – eu comento.

Comentário rejeitado.

Por quê?

–       “Eu sou casado, e minha mulher não quer que eu e você tenhamos contato”.– o ex me responde.

–       Eu também sou casada, e eu moro em outro país. Sua mulher sabe que é fisicamente impossível para que eu e você tenhamos um caso? Hmmm. Isso é bem triste porque você era um amigo, e eu não tenho muitos amigos. Foi só um comentário no blog.  Não é pessoal. Whatever. Pussy whipped.

Eu já fui ciumenta, mas hoje eu sou adulta. Ok, tomar banho, ligar para faculdade e pedir o logo no documento para a bolsa, fazer a voz da Carmen Electra e…

–       Au!

–       Porra, Mike! Essa cachorra vai morrer de desnutrição.

–       Você comprou o ingresso paro o show?

–       Você acredita que meu ex não me deixa comentar no blog dele? E ah, achei o livro do Adorno. A Vênus de Willendorf é arte, Mike? Puta merda! Esqueci de lavar roupa! Agora não tenho calcinha. Foda-se, vou sem calcinha.

Entro no carro. Dirijo.

–       Parada! Carteira de motorista e IPVA do carro! – É  a polícia.

Por que eles me pararam?

–       Sua carteira de motorista está vencida.

–       Ah, eu não sabia.

–       Já faz mais de um ano.

–       Ah.

–       Vou ter que prender você.

–       Agora?

–       É.

–       Cacete! Mas eu tenho que fazer a Carmen Electra!

–       Quê?

Delegacia.

–       Alô, Gerson…

–       Oi.

–       Não posso gravar a Electra hoje. Fui presa.

–       Meu Deus! Por quê?

–       Carteira vencida.

–       Putz. Eles te soltam até amanhã?

–       Vou ver aqui.

Multa. Fiança. Liberada.

Chego em casa. O Mike está dormindo, a Stella está dormindo, tudo está escuro.

“Lavar a roupa, ler a Staniszewski e relacioná-la com o Adorno, renovar a carteira de motorista, gravar a Carmen Electra, desenhar as peças de xadrez para aula de Perspectiva, comprar os ingressos do Social Distortion, comer, respirar fundo, lembrar que o meu ex não é mais um amigo, lembrar que a minha avó morreu hoje e que, aos poucos, eu me distanciei da minha vida anterior, e mesmo que eu me veja a mesma, o contexto mudou. Nada mais depende só de mim. Caralho, eu fui presa! Sentar no sofá, acender um cigarro, chorar pelas duas pessoas que eu perdi em um dia só, fechar os olhos. Ok, agora você pode dormir.”

Crônica: cervejas, viagens e The Pogues

27 set

Por Sta. Sbaile

Em meados de 2005, eu era uma estudante de comunicação que não sabia o que fazer da vida. Por isso, eu peguei tudo que tinha e comprei uma passagem para a Irlanda. Dois meses depois eu estava em Dublin.

Andei pelas ruas de Dublin, entrei em um bar, depois saí e entrei em outro, depois em outro, e em outro. Não eram nem cinco da tarde quando eu me encontrei bêbada, no centro da cidade, pedindo abrigo a uma irlandesa de meia idade. E como se fosse uma destas coisas que só acontecem em livros ou filmes, a mulher me acolheu.

Eu pedi para usar o computador, queria ver o que estava acontecendo em Dublin, talvez algum evento no qual eu pudesse me divertir com irlandeses barbudos que tocam bandolim e distribuem cerveja. Acabei descobrindo um show do The Pogues.

O show era em Londres, mas a passagem de Dublin a Londres só me custaria 27 libras, na época isso dava aproximadamente 110 reais. Eu ainda tinha 90 reais. “Não tenho essa grana. E agora?”

The Pogues, Brixton Academy, Londres, 2005. Foto: Sta. Sbaile

Não sei se foi a embriaguês ou a inconseqüência da idade que me levou a escrever um e-mail ao guitarrista do Pogues, o Phillip Chevron:

Phillip, é o seguinte: eu sou uma jornalista brasileira e gostaria de cobrir o show de vocês em Londres no dia 23 de Dezembro. Você me concederia uma entrada como imprensa?”

Cliquei em enviar e fiquei olhando para a tela, chapada, por uns cinco minutos, como se ele fosse me responder imediatamente.

PLING! – o computador fez um barulhinho.

“Você tem uma nova mensagem de Phillip Chevron.”

– Nossa! O Phillip Chevron me mandou uma mensagem! – gritei.

“Passa seu nome completo e você estará na minha lista de convidados pessoais. Phil.”

Liguei para minha amiga Malu, uma brasileira que estaria em Londres naquela mesma data.

– Malu, se liga nisso…

– Você está bêbada?

– Estou, mas consigo falar sério. Escuta essa: eu estou com o nome na lista de convidados para o show do Pogues, em Londres. Quer ir?

– O Pogues do Shane MacGowan?

– Esse aí mesmo! No Brixton Academy.

– Como você foi convidada para isso?

– Mágica, Malu… Mágica.

Cheguei em Londres. Eu e a Malu andávamos pelas ruas de Brixton, periferia de Londres marcada pela fama de violência e de imigrantes, mas só o que vimos foram punks típicos ingleses: cabelos pintados de loiro claríssimo, coturnos, moicanos e um bando de cabeças raspadas fãs de oye, que provavelmente estavam lá para ver a banda de abertura: Dropkick Murphys.

– Putz, o ingresso custa 40 libras. (A Malu comentou)

– Calma, Malu. Não é para comprar esse ingresso. Faz uma cara de metida.

– Quê?

– Faz uma cara de alguém importante.

– Como é cara de alguém importante?

– Nojenta e tosca.

Andei até a bilheteria como se eu fosse grande coisa:

– Boa noite. Meu nome é Sbaile, estou na lista VIP do Pogues.

– Sbaile…. Sbaile… Hmmm. Ah, achei! (o bilheteiro riscou meu nome da lista)

– Está presente aqui comigo, minha fotógrafa de confiança e correspondente internacional, Srta. Maria Luiza Teodoro. Seria possível que ela tivesse um passe para a área de fotografia?

– Certamente, Srta. Sbaile.

– Muito obrigada! (E lá fomos nós)

O Dropkick Murphys entrou no palco. Os ingressos estavam esgotados, mas a Brixton Academy não me pareceu lotada. Foi quando Shane MacGowan, James Fearnley, Spider Stacy, Andrew Ranken, Phil Chevron, Terry Woods e Darryl Hunt apareceram com seus instrumentos, que a coisa saiu do controle: não cabia nem uma pulga na Brixton Academy.

Shane, como de costume entrou bebendo gim. A banda formada em 1982, no auge do movimento punk londrino, parecia não ter perdido o espírito da época em que começaram: a energia estava lá, a cerveja, o uísque e os cigarros também. A platéia, de repente, ficou diversificada: eram punks, hipsters, skinheads, idosos, tatuados e mauricinhos, todos cantando juntos às letras de Streams of Whiskey, Fairytale of New York, If I should fall from Grace of God, Boys from County Hell, Sally MacLennane, Fiesta (que contou com um trio de sopros), Dirty Old Town, entre outras faixas  clássicas.

The Pogues - Phil (de chapéu) e Shane. Londres, 2005. Foto: Malu Teodoro

Os meninos do The Pogues já não são mais tão meninos. Shane, um alcoólatra assumido, caiu no palco ao tentar uma dança durante Fairytale of New York, mas logo se levantou dizendo: “Acontece”.

Em 2007, Chevron enfrentou uma batalha contra o câncer. Quando eu soube disso, enviei uma mensagem a ele:

Phillip, não me vá morrer agora. Eu ainda quero ver você de novo, desta vez com o Radiators. Melhoras.”

PLING! “Você recebeu uma mensagem de Phillip Chevron”.

“Obrigado pelas palavras de incentivo. Phil.” – ele respondeu, aproximadamente dez minutos depois de eu ter enviado a mensagem.

Em 2009, os meninos do Pogues vieram aos Estados Unidos, país onde eu moro atualmente, para executar a mesma turnê de Natal que eu vi em Londres. Todos os integrantes continuam na ativa. Philip Chevron, por sua vez, não só toca guitarra para o Pogues, como ainda escreve e lança álbuns com sua primeira banda (uma das mais influentes na história do rock irlandês), The Radiatorsconhecidos também como The Radiators from Space.

A Peculiar Madri

28 ago
Por Sta. Sbaile

 

A chegada a um outro país é sempre motivo de excitação. Excitação nem sempre é uma coisa boa, mas, geralmente é. No entanto, naquele dia, me dava um pouco de medo; medo sim, porque eu havia programado uma viagem de dois meses e acabava de chegar a um lugar muito longe de casa: Madri.

Eu finalmente podia acender um cigarro. O funcionário da imigração olhou para a minha cara de latino-americana fumante e me viu tirar o maço do bolso. Eu perguntei para ele se precisava passar por alguma entrevista, ou algo do tipo, ele sorriu com aquela cara de latino-europeu fumante e disse: “Você está livre agora”. Nada poderia me causar mais alívio. Saí do aeroporto. Cigarro!

Sentei com a mala em um banquinho (não estava tão frio). Naquele momento eu só precisava fumar oito cigarros, encontrar o papel amassado com o endereço do albergue, pegar o metrô e chegar lá. Aquela filha da puta daquela mochila estava muito pesada. Cacete! Era um peso desgraçado e eu sentia meus ombros rasgando.

Check in: “- Brasileira, huh?” – disse o recepcionista.

– Espanhol, huh? – eu respondi.

– Aonde eu posso comer alguma coisa?
– Fala com o Adrián, ele cuida da cozinha.

– Você é o Adrián?
– Sou eu.

Eles dispararam a falar em Francês. Caralho. Comida, porra!

– Ô Adrianzão, meu chapa..

– Oh pardon!

– Je ne parle pas Français… ‘ Cê é’  francês?

– Não, basco.

Óbvio, ele não podia ser Francês. O Adrián era careca, lembrava um pouco o Barthez, mas tinha olhos azuis e olheiras bem demarcadas. Não tinha sobrancelhas ou barba. Uma mistura de Barthez com Collina, talvez, mais novo que ambos, suponho eu. Aquela mistura de bola de boliche com cabeça de lâmpada, porque ele era assim. Um tanto lustroso, magro, no entanto, também bem narigudo e antipático, além de um pouco grosseiro. Não. Talvez nem grosseiro, nem antipático, só esnobe.

E, aonde os bascos nascem? Eles precisam nascer nos países bascos para serem bascos? Ou basco é como judeu – você encontra em qualquer lugar mesmo uns sendo morenos e outros loiros? Eu, na verdade, não sei bem o que é um basco, só sei que eles existem, como os curdos. Mas o Manu Chao é basco, e ele não parece nem com o Barthez, nem com o Collina, nem com o Adrián. Tipo, um “citizen of the world”?

– Basco? Ah, eu conheço um basco!
– Sério? De onde?
– Ah, de CDs. O Manu Chao*. Ele é basco, não é?
(Sorriso)

– Sim! Você gosta dele?

– Claro, adoro os bascos!

– Que ótimo!… Hey, espera um minuto!

(Putz, fome! Muita fome!)

 

Capa do disco Clandestino – Manu Chao,1998.

O Adrián vinha meio pulando, meio andando e até meio cantarolando e, impressionantemente, simpático.

Yeah! Desbanquei a francesa na difícil saga pela comida no albergue. Comi. Ufa! Depois do papo sobre o Manu Chao, o Adrián virou brother. Obviamente eu fiquei pensando sobre o que é ser um basco, mas não podia perguntar isso a ele, então peguei um mapa no albergue e tentei achar os países bascos, mas eles não estavam lá. Os países bascos são vários países ou é um país só chamado “Países Bascos”? Antes de entrar em crise existencial por me achar ignorante e prepotente, fui ao wikipedia e lá encontrei informações sobre os bascos. Alívio.

Não dormi, ainda eram seis da tarde. Eu e minha companheira de viagem, a Malu, resolvemos sair para ver o que é que o Madrilenho tem, e fomos em busca das cervejas. Não sei se o mais adequado é beber cerveja na Espanha, mas é de cerveja que eu gosto. Talvez seja algo hereditário.

Meu bisavô cresceu na Alemanha, mas era Iugoslavo (o que significa que hoje, não sei dizer exatamente de onde ele era, já que a Iugoslávia não existe há algum tempo). Lembro dele sentado em uma cadeira de balanço, bebendo, quase o dia todo, aí ele ficava bêbado e dormia. E ele só bebia cerveja. Por isso, em casa, todo mundo bebe cerveja. Não bebemos vinho.

Esse bisavô tinha um problema nas bolas, as bolas dele eram enormes e minha avó queria que ele operasse de qualquer maneira, mas ele nunca quis deixar ninguém mexer nas bolas dele. Morreu disso, das bolas, e não do fígado – como imaginávamos que ele morreria, mas morreu bêbado, em casa, e as bolas dele estavam tão inchadas quanto intocadas. Não conseguiram achar uma calça que se adequasse ao velho defunto. E, obviamente, os homens da minha família morrem de orgulho disso – gente esquisita.

Ah, voltando à cerveja. Saímos. Bebemos. Tomando o caminho de volta eu já não estava nos meus melhores dias. Vi um Mustang fundido em uma parede, na verdade, só a frente de um Mustang. A Malu me perguntou como eu sabia que aquele carro era um Mustang. Não soube responder porque apesar de eu ainda não entender o que é um basco ou um iugoslavo, eu sabia o que era um Mustang. E era um Mustang azul calcinha. Era a frente de um bar e tinha uma plaquinha piscando escrito “Karaokê”.

– Vamos aí?
– Vamos!

Fumaça. Não dava para ver os rostos das pessoas, e não só porque eu já estava meio bêbada. Era escuro e tinha muita fumaça. Um balcão, uma bartender com mais cara de latino-americana fumante que eu, usava decote, peitudíssima. Meu pai acharia que ela é gostosa, mas eu achei um pouco gorda.

Banquinhos de oncinha, zebrinha e tigrinho. Reduto dos quarentões espanhóis. Um dia na vida você aprende que por mais que você ache que já tenha visto o brega, ainda existe a música pop espanhola – e lá estava ela, no meio da fumaça, dos quarentões, dos banquinhos de oncinha, da bartender peituda e do Pepe.

O Pepe era espanhol, quarentão, estava no bar e veio falar comigo. O Pepe era um pouco gordo, camisa xadrez e cantava música pop espanhola.

– Pepe! É idiota? Você é idiota, Pepe?
– Mas o que foi agora, Juan?
– Pô, Pepe! Você sabe que tem que ficar de olho! Eles estão por toda a parte! Não pode ficar bebendo a noite toda, tem que estar sóbrio para vigiar!

– Tudo bem Juan, você vigia a porta e eu continuo aqui, sem beber.

– Vou confiar em você! (E o Juan foi vigiar a porta)

Cinco minutos depois, ele volta com o José.

– Não tem condições! Vocês dois me deixam doido! Não posso fazer todo o serviço sozinho e… E você, quem é?

– Eu? Ah, eu não sou daqui não, sou brasileira.

– Brasileira? Eu sou Juan, de Sevilla. Da polícia secreta de Sevilla, mas agora estou aqui em Madri.

– Ah, sim, sim, claro!

– Conhece os mouros?

Calma! Pára tudo! Os bascos já eram complicados o bastante, e ele me vem com os mouros? Um cara, naquele bar, com um amigo chamado Pepe no meio daquele terrível pop espanhol, da polícia secreta, falando dos mouros?

– Malu, esse cara existe ou eu preciso ir vomitar?

– Não precisa, ele existe, mas se quiser uma desculpa para ir ao banheiro…

Otelo era mouro e ele era moreno, acho que os mouros são morenos, mas não negros. Agora não sei se existe mouro negro, porque existe judeu negro, mas não existe basco negro… No entanto, é possível que existam mouros judeus. Puta merda! Wikipediaaa!!! **

 

Cacilda Becker (Desdêmona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

Cacilda Becker (Desdemona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

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– Mouros?
– Sim, os mouros! E os bascos…
– Ah, os bascos! Eu sei quem são os bascos. Oba!
– Sabe? Hmmm… Eles explodiram Atocha, e vão explodir de novo! Por isso fui enviado com Pepe e com Jose, estamos vigiando…

– Vigiando…Os mouros?”
– É! E os bascos! Que vão explodir Madri!
– Entendo, entendo… Olha, eu conheço um basco.
– Não me diga!
– Sim, sim. O Manu Chao. E, pelo que sei, ele vai explodir a Atocha, é um líder basco, mas você provavelmente já sabe disso.

– É claro que eu não ia entregar o paradeiro do Adrián, mesmo porque, sem o Adrián não tinha cafezinho de graça, e nem Manu Chao no saguão do albergue. Além do mais, o paradeiro do Adrián era exatamente o mesmo que o meu, se o Pepe, o José ou o Juan me torturassem, eu ia ter que contar. Já o paradeiro do Manu Chao, ele poderia encontrar na parte de “cultura” do jornal. Entretanto, me arrependi depois. Ai meu Deus!

Juan permaneceu calado por aproximadamente dez segundos, fiquei com um pouco de medo sobre o que ele poderia fazer comigo, mas ele sorriu, abaixou a cabeça e sorriu de novo. Finalmente, ele olhou bem para mim e indagou:

– Eu já saquei! Eu saquei tudo. Você também foi enviada para cá, para me dar essa grande pista!

Antes de eu realmente acreditar que era Mata Hari em uma missão secreta e entrar na onda do Juan, perguntei ao Pepe:

– Ele já trabalhou para a polícia? Enlouqueceu na guerra ou alguma coisa do tipo?

– Ele é amigo de infância, se mudou para Madri há algum tempo, e é carteiro há uns dois anos, antes disso morava com os pais em Toledo.

– Ah sim, entendo…

Fiquei feliz com a resposta de Pepe, porque na linha tênue entre a sanidade e a embriaguês da minha cabeça de bagre, eu esperava uma resposta como: “Sim, somos parceiros, agora pare de beber e vamos vigiar, porque eles vão explodir Atocha!”

 

 

(*) Manu Chao (Paris, 21 de junho de 1961), cujo nome completo é Jose-Manuel Thomas Arthur Chao é um músico francês. Sua identidade com o povo Basco surgiu quando Manu montou o Mano Negra, uma banda eclética com influências de música francesa, espanhola, além da forte presença do punk via The Clash. O nome é uma homenagem a uma organização anarquista que operava na Espanha na época.

(**) Otelo, o Mouro de Veneza é uma obra de William Shakespeare escrita por volta do ano 1603.  Otelo é um general mouro que serve ao reino de Veneza, sua esposa é Desdemona. A trama gira em torno do “racismo, amor, ciúme e traição”.

Meu nome é VLADIMIR!

31 jul

Por Srta. Sbaile


 

Não faz muito tempo que a Gabriela me liga em busca de algum entretenimento casual. Chego no bar, ela não está lá. Latinas são foda, sempre atrasadas.

– Meu filho, me traz uma New Castle enquanto eu espero pela Gabi, por favor.

O bar está meio lotado, eu fico um pouco claustrofóbica. Um bando de europeus gritando, uns por cima dos outros, já bêbados. Argh! Que nojo eu tenho de pessoas amontoadas! O bartender me serve o pint. Eu me debruço no balcão para pegar a minha tão esperada New Castle quando…

– Mocinha! Essa cerveja é minha. (Um maldito inglês fala pra mim)

– Não, ela é minha.

– Não é, não. Eu pedi New Castle.

– Pois eu também pedi New Castle, Mr. Bean!

– Eu estava na sua frente.

– Tem seu nome escrito na cerveja?

– Você é um porre, menina.

– E você precisa de uma namorada.

Agarrei aquela New Castle como se ela fosse o Andrew Bird de cueca durante o meu período fértil. Fui andando em direção a uma mesa. O inglês grita:

– Qual é seu nome, princesa?

– Vladimir!

Não sei porque falei “Vladimir”. Acho que foi porque eu sempre me senti um russo, daqueles bêbados, barbudos e sem paciência. Um cara com seus quarenta e poucos anos. Sei lá, eu me sinto assim por dentro. Sabem? Esse é meu íntimo: o Vladimir. É, é isso.

 

Meu nome é Vladimir, mas pode me chamar de Vlad

 

No meio da confusão entre mim e o cara de fuinha britânico, o pobre do bartender se confundiu e me serviu um segundo pint.

– Queridão, você já me serviu.

– Já?

– Já. Olha aqui, bicho. Tô bebendo.

– Ah tá. Essa fica pela casa, então.

– Valeu!

Fiquei lá, com dois copos cheios me encarando. Até eu terminar a primeira cerveja, a segunda já ia estar quente. Foi aí que eu ouvi:

– Uma New Castle!

De uma mesa, sozinha, lá num cantinho do bar, uma menina magrinha grita para o bartender. Andei até a mesa dela com a minha cerveja extra e falei:

– Aqui. Sua New Castle. Essa é por minha conta.

Ela olhou meio sem entender e continuei: – Pode tomar, não tá envenenada.

– Ah, obrigada.

Ela começa a beber e eu não resisti: – Pronto. Agora você vai ter que transar comigo, gata. Ou acha que eu saio pagando cerveja de seis dólares sem segundas intenções?

“Puta que o pariu. Eu acabei de falar isso pra uma menina? Que bosta!” Eu pensei, claro, depois de falar. Não se faz esse tipo de brincadeira com meninas, elas levam tudo a sério. Eu deveria ter sido mais sensível e falado: “Ganhei uma extra por engano, pode beber essa”. Mas ela deu risada. Ufa! Sério mesmo: ufa!

– Meu nome é Heather. Qual é o seu?

– Vladimir.

– Vladimir?

– É, Vlad.

– Seu nome é mesmo Vladimir?

– Não, mas eu gosto desse nome. Acabei de inventar.

– Ah tá.

– Vladimir Chuvalo. Por causa do Chuvalo, sabe?

– Não, não sei. Quem é Chuvalo?

– Um boxeador.

– Latino?

– Não.

– Italiano?

– Não. Canadense.

– Um canadense chamado Chuvalo?

– Pois é, também pensei nisso quando ouvi o nome dele pela primeira vez.

Vejo a maldita da Gabriela entrando no bar. Já era hora.

– Gabriela, sua desgraça de peitos! ESTOU TE ESPERANDO FAZ MEIA HORA!

A Gabi faz uma cara de “não tenho desculpa para estar atrasada, é falta de respeito mesmo” e vem ao meu encontro.

– Heather, legal te conhecer. Agora eu vou lá ver qual é o drama da vez com a Gabriela.

– Valeu pela cerveja, Vlad.

– Ah, sem problemas. Alguns minutos se passam. Eu tô lá com a Gabi no bate-papo, nada muito interessante… só dramas de alguém que casou e está em crise com a moral ao pensar em trair. Conhecem o tipo?

Enfim, recebo um bilhete do garçom: “HEATHER (954) 766-7825” Eu me mato de rir. Penso em responder o bilhete assim: “JENNY 867 5309”. Mas ah, sou boazinha, não tive coragem.

– Sbaile! O que é esse papalzinho? Pára de rir!

– Gabriela, filhota…

– Que é? Me responde!

– Esquece. Eu pago sua próxima tequila. Aliás, esse seu sapato é legal, gostei dele. Quer sair para jantar, Gabi?

– Agora?

– É, por minha conta. Mas você vai ter que transar comigo depois. E… ah, me chama de Vladimir.

 

CULTURA QUASE INÚTIL PARA PESSOAS QUASE DE PLÁSTICO

10 jul

Por Sta. Sbaile


Hoje o Sam passou pela minha casa porque estava entediado.

–       Sbaile, cadê o Mike?

–       Trabalhando. Chega daqui a pouco. Por quê?

–       Ah, nada. Tô entediado.

–       Entra aí, França e México estão jogando. Quer New Castle?

–       New Castle soa bem.

A Stella vem correndo do jardim para cumprimentar o Sam. Ela descobriu uma poça d’água agora, entra em casa toda molhada, coberta em grama, terra e carrapichos, numa versão miniatura do monstro do lago Ness.

–       Stella, você não tem a mínima classe. – eu comento.

–       Bom, ela é um terrier escocês, afinal de contas.

–       E o que isso tem a ver?

–       Escoceses não têm classe. (o Sam comenta; ele é escocês)

–       Ah, irlandeses também não. Você imagina, Sam, o Mike queria comprar um wolfhound irlandês!

–       Aqueles cachorros são gigantes. Além do mais, como diriam os ingleses: escoceses são ingleses grosseiros, mas irlandeses são escoceses que não foram à escola.

–       Malditos ingleses, tomara que eles tomem uma surra na copa.

–       Ah, eles vão tomar.

–       Aliás, eu tô com uma música escocesa na cabeça, “MacPherson’s Lament”, conhece?

–       Não, não conheço…

–       Mas que porra de escocês é você?

–       Eu conheço Belle and Sebastian, Franz Ferdinand

–       Ai, moderninho. “MacPherson’s Lament” foi composta no século 18, por James MacPherson; ele compôs na prisão.

–       Quem foi ele?

–       Sério que você não sabe?

–       Eu cresci em Chicago, Sbaile.

–       E eu cresci no Brasil. Você é o escocês mais fajuto que eu já conheci, Sam.

–       Aye!  (ele solta)

“Aye” é a palavra escocesa para “sim”. Não é só escocesa, no desenho do Bob Esponja, o narrador fala “Aye! Aye! Capitain!”, que significa “Sim! Sim! Capitão”: é inglês arcaico. É como a palavra “old”, que alguns escoceses ainda escrevem “auld”; entre outras centenas de palavras do inglês arcaico que, hoje em dia, só escoceses ainda entendem.

–       Vou colocar a música para você ouvir, Sam.

Coloquei.

O Sam fez uma cara de saco cheio.

–       Que foi? Não gostou?

–       Ah, esses folks aí, Sbaile… Não curto.

–       Mas olha só, Sam: James MacPherson era um highlander, mas a  mãe dele era cigana. Ele era meio Robin Hood: roubava dos ricos para dar aos pobres. Só que um dia, ele foi pego. O governo escocês colocou o MacPherson na prisão, depois decidiram que ele seria enforcado. Quando os ciganos souberam que James MacPherson estava pra morrer, eles organizaram um protesto de liberdade…

… Mas é aí que vem a parte legal, Sam: os policiais escoceses foram avisados que os ciganos estavam se aproximando, e colocaram os relógios da prisão para vinte minutos mais tarde, quando os ciganos chegaram, ele já tinha sido enforcado.

–       Que trágico, né Sbaile?

–       Tem mais, Sam! Antes do MacPherson morrer em praça pública, ele pegou o violino dele e tocou essa música, a qual ele intitulou “O Lamento do MacPherson”. Ele falou: “Para o homem que conseguir tocar essa música, eu vou deixar meu violino”. Um monte de gente tentou, porque todo mundo queria aquele violino caro, mas ninguém conseguiu acertar as notas de ouvido. Aí o James quebrou o violino em duas partes e falou, assim num ato dramático: “Então nenhum de vocês é digno deste violino”.

–       Entendi…

–       Você gosta da música agora?

–       Não, ainda não.

–       Eu contei toda essa história para você, e ainda não acha a música legal?

–       Sabe o que é? É que folk não é exatamente um tipo de música sofisticada. Você ouve isso, aí ouve o que os alemães faziam no mesmo período, porra, música clássica era muito melhor. Mozart, que é mais antigo, já fazia coisas fantásticas.

–       Sam, Mozart era austríaco pra começo de conversa. E o período clássico, tecnicamente, começa no século 18, mas Mozart só aparece no século 19. Você nem sabe o que tá falando.

–       Ah, mas sei lá, Bach.

–       Bach nem é clássico, Sam. Mas ele sim era alemão.

–       Quando eu falo clássico, eu quero dizer música clássica, não período clássico.

–       Não existe isso, Sam. Clássico é clássico, barroco é barroco, e romântico é romântico. Vocês pseudo-intelectuais adoram falar que gostam de música clássica, arte moderna… Balela! Moderno é moderno, contemporâneo é…

–       Putz! Chega! Que saco você é! Toda pentelha sobre coisas que não importam.

–       Aye! Eu sou mesmo. Vocês gringos vêem o mundo todo errado: acham que socialismo é comunismo, que comunismo é ditadura e que o Hugo Chávez é ditador.

–      E o que isso tem a ver com música? Eu desisto… Sbaile, eu não vou gostar de folk.

–       O pobre MacPherson morreu para que você escute a música dele e você diz isso, Sam? Você não tem coração, menino?

–       O que eu posso fazer? Só porque ele foi enforcado, não significa que a música dele seja boa.

O Mike chega em casa.

–       Mike, você conhece “MacPherson’s Lament”? (eu pergunto)

–       É mais um dos seus folks? – ele pergunta.

–       É.

–       Não gosto.

–       Mas você nem escutou esse ainda!

–       Não escutei e não gostei. Oi Sam!

–       Oi Mike! Vai se preparando, ela vai te contar uma história real comovente sobre a morte do MacPherson.

–       Ah,  ela sempre tem alguma cultura inútil para dividir com meros mortais insensíveis como nós, que não damos a mínima para isso. Mas, dessa vez, Sbaile, espera a gente assistir a França contra o México.

–       Afe! Eu não ligo…  Além do mais, os países de vocês nem estão na Copa. Quintais da Inglaterra, vocês dois!

–       Agora ela tá jogando pesado, Mike.

–       É, agora ela tá.

SE VIRA, IRLANDÊS!

7 jun

Por Sta. Sbaile


Já faz um tempo que o Pete, irmão do Scott (vizinho que está morrendo de câncer), me pediu para guardar duas pizzas de supermercado e um pote de sorvete no meu freezer, já que o freezer deles é muito pequeno.

Sem problemas.

Mike Crary, Scott, 2010

Acontece que o Scott está fazendo quimioterapia e quase nunca fica em casa, então meses se passaram, até que eu não agüentei: acordei às três da manhã e caminhei até a geladeira, assim, como um zumbi do George Romero: eu ataquei aquele pote de sorvete. Foi mágico. Voltei pra cama às 3:15 e dormi feliz.

É claro que, no dia seguinte, eu vejo o carro do Pete ao lado da minha casa, e recebo uma mensagem de texto: “Posso ir buscar as coisas congeladas na sua casa hoje?”.

Mas que maldito! Tinha que ser logo após o crime? Que mundo injusto!

O Mike chega em casa:

– O Pete tá lá fora perguntando sobre um sorvete…

– Fala que eu morri!

– Quê?

– Meu, eu comi aquele sorvete, Mike!

– Você comeu o sorvete de um homem que está morrendo de câncer?

– Comi… Ah, meu… Ah, Mike… Ah…

– E agora? Fala pra ele que você comeu, e vai até o supermercado buscar outro.

– Não, não quero admitir que comi o sorvete de um cara que tá morrendo de câncer.

– O que eu falo pra ele agora?

– Fala que, fala que eu tô dormindo e a geladeira tá trancada.

– Trancada? Quem tranca uma geladeira?

– Não, péra aê, Mike… Fala que… Calma, eu vou sair pela porta dos fundos e correr até o supermercado.

– Se vira, brasileira!

Corri.

Chego no supermercado, pego um pote de sorvete. Não resisto e vou até a parte de maquiagens.

“Olha, uma sombra roxa que vem com um tonalizador prateado, que interessante… Nossaaaa! O batom da Penélope Cruz, cor vermelho puta, que dura doze horas… Ah, eu preciso desse curvador de cílios…” – eu penso comigo mesma, diante do fabuloso mundo de maquiagens americanas.

PRRRRRIIIIING! – onomatopéia para o barulho de mensagens de texto do celular.

“Cadê a porra do sorvete? Você não tá na parte das maquiagens de novo, né?”

Ai, o Mike sempre corta os meus baratos.

Chego na fila do caixa: um pote de sorvete, cinco sombras, uma base, um curvador de cílios, dois lápis de olho, um blush e o batom vermelho puta da Penélope Cruz (ele dura 12 horas!).

Tem um cara na minha frente.

– Seu cartão não foi identificado pela máquina, senhor. Tenta de novo. – a caixa fala pra ele.

– Eu não vou tentar essa bosta de novo! Você que digite o número do cartão, eu já passei ele na máquina! – o cara responde, todo putinho.

– Tenta só mais uma vez, Senhor…

– É sempre a mesma merda. Parece que você não fala a mesma língua que eu. Eu tô cansado disso!

– Senhor, eu só perguntei, porque a máquina…

– Ah é, é sempre culpa da máquina…

– PASSA LOGO ESSA PORRA DE CARTÃO, SEU FILHO DA PUTA! – Eu grito, no desespero.

O supermercado pára. Todo mundo olha pra mim.

– Como é que é, mocinha? – o cara da fila me pergunta.

– Caralho, bicho… Passa logo esse cartão idiota! Eu tenho que chegar logo em casa.

– Isso não é problema meu.

– É SIM, PORQUE É VOCÊ QUE TÁ ME ATRASANDO! Tudo porque você não quer passar o maldito cartão de novo. Tipo, você poderia ser uma pessoa normal, mas não, você decidiu ser um filho da puta. Agora eu tenho que gritar com você, é meu dever como cidadã! Você me obrigou a isso.

– Eu não vou passar o cartão de novo. É meu direito. Ela vai ter que digitar os números se quiser. E você tá com pressa? Saísse mais cedo de casa.

– Não é questão de pressa, eu roubei o sorvete de um paciente em fase terminal, agora tenho que repor. Ele tá esperando. Ele é um homem com câncer! Você, meu caro, está deixando um homem com câncer na espera.

– E você roubou o sorvete dele?

Silêncio.

– Ah meu, vocês também… é só um sorvete, vai!

Chego em casa, finalmente. Bato na porta dos fundos.

– Abre essa porra, Mike!

Ele abre.

Alguém bate na porta da frente.

É o Pete.

– Pete, aqui, seu sorvete! – eu falo.

– Valeu, Sbaile.

– De nada.

– E a pizza?

– Mike, vai lá no freezer e pega as pizzas do Pete.

– As pizzas que estavam no freezer? – o Mike pergunta.

– Foi o que eu acabei de falar.

– Aquelas pizzas eram do Pete?

– Mike… Ai, Mike…

– Então… Elas foram comidas na semana passada. Eu pensei que elas fossem nossas…

– Mike, seu lunático sem coração! Não acredito que você roubou a comida de um paciente terminal de câncer! Pete, me desculpa, ele é bebum, não sabe o que faz…

– Mas você comeu o sorvete dele, e você sabia que era dele! – o Mike retruca da maneira mais filha da puta possível.

– Eu? Sorvete? O sorvete tá aqui. Você alucina, Mike… Agora vai lá no supermercado comprar as pizzas que você comeu… Seu irlandês desalmado! Você vai queimar no inferno, Mike… Escuta o que eu tô falando…

Crônica: A Lei é clara!

27 abr

Por Sta. Sbaile


Há poucos dias, a TV americana estava no maior oba-oba com o negócio da imigração no Arizona. (EUA)

Leitores, eis aqui o que aconteceu no Arizona: na tarde de ontem, a governadora Jan Brewer assinou uma lei que criminaliza a imigração ilegal no estado. Essa é a lei.

Eu quase caí da cadeira quando li a notícia, digo cair de dar risada. Imigração ilegal nos Estados Unidos é crime em todos os estados, pelo que eu sei. O nome já diz, “ilegal”. O propósito desta lei de ontem é simples, passar a mensagem: “Mexicanos, nós não gostamos de vocês. Vocês são baixinhos, marrons e têm um sotaque estúpido.”- Pronto. É isso que o Arizona está falando.

Quando o assunto é imigração, eu sou confiante de que entendo da coisa. E, leitores, o sistema de imigração americano é um dos mais xenofóbicos, ignorantes, preconceituosos e humilhantes pelo qual eu já tive a infelicidade de ser submetida. Vou pular a parte de quase ter sido deportada, ouvir comentários sexistas do policial de imigração, entre outras barbaridades que presenciei por ser imigrante.

Neste ano, o Ricky Martin e o Arizona saíram do armário: um é gay, o outro racista. Vergonha é ser gay e não admitir, ou ser racista e fingir que é livre de preconceitos. Não é?

Falando em gays, essa é outra lei americana: ser militar e gay ao mesmo tempo é ilegal. É o seguinte: vamos supor que o Ricky Martin trabalhasse para a marinha. O porto-riquenho gato de luzes no cabelo teria que morrer fingindo ser homem com “H”. Sair do armário no exército americano significa demissão.

Leitores, eu já falei e vou falar de novo: imaginem alguém demitir um negro do trabalho só porque ele é negro. Vergonhoso. Mais que vergonhoso, ilegal… Mas já foi legal no passado, um passado horroroso de sessenta anos atrás, no qual os negros não tinham direitos civis. Então eu me pergunto: quanto tempo vai demorar para que gays tenham direitos de seres humanos? E quando nós finalmente dermos esses direitos aos gays, quão vergonhoso o passado vai parecer aos nossos netos?

Falando em direitos civis, um outro direito que nós não temos é o de morrer. A morte é proibida. A gente só pode morrer quando Deus quiser que a gente morra. O mesmo Deus que ninguém sabe se existe ou não.

Hoje assisti um filme chamado “You don’t know Jack”, excelente por sinal, sobre a história de Jack Kevorkian – médico nascido na Armênia e criado nos Estados Unidos.

"Cross of Justice", por Dr. Jack Kevorkian

Leitores, vejam a história do Jack: ele matou um paciente em estado terminal que pediu para morrer. O paciente foi morto por injeção letal – a mesma usada pela maioria dos estados americanos para a pena de morte.

Em corte, acusado de assassinato, Kevorkian disse: “Eu preferiria morrer do que deixar aquele homem viver”.

Foi o que bastou para que uma juíza condenasse o médico à pena máxima por assassinato em segundo grau: 25 anos, dos quais ele acabou cumprindo só oito. Ele foi solto em 2007, aos 79 anos.

Mais que um médico pró eutanásia, Kevorkian é um dos ativistas mais convictos de seus ideais.

“Se eu for absolvido, eu ganho. Se eu for preso, eu ganho. Eu não estou fazendo isso por mim. Vai para a cadeia só o que sobrou de mim. Eu quero ver esse caso ir para a suprema corte” (Jack Kevorkian)

Acontece que a suprema corte nunca abriu o caso de Jack, e eutanásia continua sendo ilegal nos Estados Unidos.

Muitas pessoas contra a eutanásia, – e também contra o aborto – alegam que ninguém pode bancar Deus (é, o mesmo Deus que ninguém conhece, ou vê, ou conversa com ele). A resposta de Jack a essas pessoas é simples:

“Quando um médico faz um transplante, dá um comprimido para alguém, salva uma pessoa ao invés de simplesmente deixá-la morrer… Ele está bancando Deus. E por ‘bancando Deus’ eu digo que ele está interferindo com o curso natural das coisas. Nós só estamos discutindo a eutanásia por questões religiosas. Enquanto algumas pessoas argumentam falando sobre a bíblia, eu falo sobre direitos humanos”.

BANG!

Tomem essa, religiosos! Que padre estuprador de criancinhas fala bonito assim? Que bispo ladrão da Igreja Universal sabe sobre direitos humanos de morrer?

É por isso que, hoje, eu não estou escrevendo sobre leis, ou eutanásia, ou sobre gays, ou sobre imigração. Hoje eu quero escrever sobre sair do armário.

Ateus, saiam do armário!

Liberais, saiam do armário!

Anti-racismo, saiam do armário!

A gente não pode tolerar mais uma sociedade controlada por valores religiosos. Religião condena aborto, condena gays, condena o Dr. Kevorkian, já condenou negros e dá margem ao preconceito. Religião condena a capacidade humana de evoluir. Condena o Homem que pensa por si próprio. Religião só não condena o Papa por encobrir estupros.

Por isso, religiosos conservadores, aqui vai a minha resposta a vocês: “Meu Deus é Johan Sebastian Bach. Pelo menos eu sei que ele existiu de verdade” (Dr. Jack Kevorkian).

(*) Parte da Série Como sobreviver no primeiro mundo? http://sbaile.blogspot.com/

Crônica: Funeral Afro-Americano

14 abr

Por Sta. Sbaile


Há alguns anos atrás, conheci minha melhor amiga da Flórida: Senhorita Destiny Golden.

O pai da Destiny abandonou a família quando ela era bebê. Aos 15 anos, a mãe da Destiny sofreu um derrame e ficou paralisada no lado direito. A Destiny então se tornou responsável pela mãe e teve que largar os estudos. Aos 24, a mãe da Destiny teve um problema sério de circulação, o que levou os médicos a amputarem a perna esquerda dela.

Foi então que a Destiny não agüentou mais: colocou a mãe em um hospital permanentemente e voltou a estudar. Hoje, a Destiny é jornalista.

A família Golden, apesar de ter um sobrenome judeu (só Deus sabe o porquê), é extremamente evangélica e afro-americana.

Eu poderia escrever algumas crônicas sobre negros americanos e suas peculiaridades, manias e filosofias. Claro que cada indivíduo é único, mas existem várias coisas sobre a cultura afro-americana que são, no mínimo, fascinantes e hilárias.

A Destiny cresceu cantando no coro da igreja. A voz dela é sensacional, fora do comum. Ela é fora do comum, fantástica, menina incrível!

– Sbaile, a tia Rita morreu. – A Destiny me liga.
– Ela não tinha morrido o mês passado?
– Não, aquela foi a tia Joane.
– Foi a que eu conheci?
– Não, você conheceu a tia Elaine.
– Meu! Quantas tias você tem?
– Vivas? 12.
– Tá brincando!
– Não, não… verdade. Eu sou preta, Sbaile…
– E…?
– Preto gosta de procriar.
– Tô vendo…
– Mas então, você quer ir ao funeral comigo?
– Não, honestamente.
– Vai ser divertido!
– Divertido?
– É! É funeral de preto…
– E…?
– E preto é sempre animado!
– Ah é?
– É. Você vai ver! Depois a gente vai beber em algum lugar com a tia Lakisha e a tia Denise!
– Meu Deus… tá, tá bom.

Toca a Destiny passar na minha casa com uma caminhonete lotada de tias.

– Sbaile! Não acredito que você não está pronta ainda!
– Quê? Tô pronta! Prontíssima.
– De jeans?
– É, ué…
– Não, veste uma saia preta!
– Por quê?
– É funeral… você tem que ir de saia preta.
– Ai Deus… Não raspei a perna.
– Raspa aí rapidinho, vai…
– Caralho, Destiny…

Lá vou eu colocar a maldita saia preta.

No carro, as 678 mil tias que cabiam naquele veículo usavam óculos de sol.

Chegamos ao funeral. Lá estava a pobre tia Rita. Ela devia pesar uns 180 quilos.

– Destiny! Ow… Destiny!
– Que é, Sbaile?
– Por que todo mundo tá de óculos de sol?
– Ah, porque a gente é preto…
– Essa é sua resposta pra tudo agora?
– Sbaile… Você não sabe nada sobre pretos…
– Como assim?
– Pretos são assim, ué… óculos de sol em funeral é coisa da gente.
– Mas por quê?
– Eu não sei por que… Só sei que a gente é assim.
– Afff.

Não havia um branco sequer naquele funeral a não ser eu. Todo mundo me olhava como se eu fosse a assassina da tia Rita.

– E você, quem é?  (me perguntou um dos 8 filhos da tia Rita)
– Eu era manicure da sua mãe.
– É mesmo?
– É.

Alguns minutos passam.

– Sbaile! Você falou pro Greg que era manicure da tia Rita? – A Destiny pergunta indignada.
– Falei.
– E por que você mentiu?
– Destiny… Você falou que esse funeral ia ser animado. Não tá animado coisa nenhuma. Eu tive que mentir.
– Quê? O que você acabou de falar não faz o menor sentido!
– É que eu sou branca…
– Quê?
– Nós brancos somos assim. Não fazemos sentido.
– Sbaile, a tia Rita só ia em salão de preto. Ele sacou que você tava mentindo…
– E daí, Destiny?
– E daí que o primo Greg é…

Hora do discurso.

E não é que o primo Greg me sobe no palquinho pra falar sobre a tia Rita! De óculos escuro e vestindo preto… Senhoras e senhores: o primo Greg!

– Senhoras e senhores aqui presentes, hoje é o dia do funeral da minha mãe, Sra. Rita Golden, que já foi dona de uma casa de jogatina…
– Olha a tia Rita… pecadora… – Eu falo no ouvido da Destiny.
– Sbaile, chega!
– …Mas que foi salva pelo Senhor!

Ah não!

– Senhoras e senhores: esta mulher que já foi alcoólatra, que já foi viciada em jogo, que já foi pecadora carnal… Hoje descansa na paz do Senhor, porque ela genuinamente aceitou o sangue de Cristo…
– Amem! – alguém de saia preta e óculos de sol grita.
– … Mas eu não estou aqui pra falar da minha mãe…

Ha! Não? Que discurso original para um velório.

– …Não! Estou aqui para falar da salvação de Cristo! Porque eu, assim como minha mãe, fui salvo pelo Senhor. Um homem bateu na minha porta num certo domingo, ele me perguntou: “Você é Greg Golden?” “Sim, eu sou o Greg Golden” – eu falei. Tia Verônica estava comigo naquela momento. Não é verdade, tia Verônica?
– Sim, é verdade! – Ela grita.
– …Ela estava comigo. Porque o Senhor sempre tem uma testemunha! E o homem que bateu na minha porta caiu no chão ao ouvir meu nome. Eu pensei que ele tivesse caído de morto. Não é verdade tia Verônica?
– Sim!
– Porque o Senhor sempre tem uma testemunha! Mas ele não estava morto, ele estava lá para me salvar. E eu fui salvo. Na semana seguinte, eu fui à Igreja e o pastor falou meu nome no meio do sermão. Primo Justin estava comigo. Não é verdade, primo?
– É!
– Porque o Senhor sempre tem uma testemunha! E dessa vez, fui eu que caí no chão, porque fui atacado pelo raio divino da salvação. É ou não é, Justin?
– É!
– Porque o Senhor sempre tem uma testemunha! E naquele momento eu entendi o sentido da vida. Voltei pra casa, nunca mais bebi. Minha mulher sabe. Sabe ou não sabe, Vivian?
– Sei!
– Porque o Senhor sempre tem uma testemunha!

PUTA QUE O PARIU!

E dalí pra frente, o discurso foi ficando cada vez mais absurdo.

– Destiny, preto ou não preto… isso é ridículo!
– Eu sei, Sbaile… Eu sei. Essa é a parte divertida.
– Sério? Essa é a parte divertida? Puta merda, Destiny, sua completa vaca…
– Shhh! Eu não posso rir.
– Rir? O que tem aqui pra rir? Não é pra rir, eu tô puta com você!
– PORQUE O SENHOR SEMPRE TEM UMA TESTEMUNHA!

E o discurso acabou assim. Ha! Quem diria, huh?

Dei uma última olhada na tia Rita e falei com ela: “Tia Rita, aonde quer que você esteja, você está melhor que a gente aqui!”

Antes de eu finalmente sair daquela capelinha patrocinadora da Oakley, primo Greg voltou a falar comigo:

– Você acha que o Senhor aprova suas gracinhas?
– Me desculpe, primo Greg. Não sei por que menti pra você. É que eu não tinha sido salva até o dia de hoje. Não é verdade, Destiny?
– É, é verdade.
– Porque o Senhor sempre tem uma testemunha. É ou não é, primo Greg?

Mensagens de voz

15 jan

Por Sta. Sbaile

Se existe uma coisa que me deixa louca, é ouvir mensagens de voz. Não sei o que é exatamente, mas mensagens de voz me irritam profundamente.

Na manhã de ontem, meu telefone tocou às sete da manhã.

“Ha!” – Eu pensei.

Já sabia do que se tratava. Não atendi. Depois me arrependi, porque agora a pessoa ia me deixar uma maldita mensagem de voz, mas aí, já era tarde demais. O “beeeeeep” da mensagem de voz tocou. Agora a voz daquela pessoa estava lá, gravada para todo o sempre até que eu a apagasse. E para apagar, você tem que ouvir a maldita mensagem.

Levantei da cama. Peguei o telefone e li “1 nova mensagem de voz”. “Hmmm” – pensei. Fiquei olhando para aquele telefone por uns dois minutos, me preparando para ouvir a notícia.

“Não preciso ouvir essa merda, posso começar a chorar agora.”. Mas a mensagem estava ali, me encarando.

Fui fazer café.

Tomei café, fumei oito cigarros, andei pela casa sem calças, coloquei calças, saí da casa, lembrei que não tinha nada pra fazer fora da casa, entrei de novo, acendi outro cigarro e peguei o telefone.

Meus olhos se encheram de lágrimas só de ouvir o “Você tem uma nova mensagem”.

Era a voz da minha tia Tânia e ela dizia: Ontem, por volta da meia-noite, a vovó Zeni morreu…

Desliguei o telefone.

A notícia não era inesperada. Minha avó, Zeni Haddad Sbaile, 85 anos, pianista, pintora, cantora lírica, são paulina e fã do Mike Tyson, tinha morrido. Não foi um choque. Ela já não estava bem.

Eu tinha acabado de voltar do Brasil, fui para vê-la e dizer-lhe minhas palavras finais. Tinha escrito uma carta que nunca li pra ela, porque achei triste demais.

A minha avó, de fato, já não estava mais ali. Era só um corpo, se agarrando à vida após dezenas de problemas de saúde.

Eu, honestamente, desejei que ela morresse. Era muito sofrimento para a pobre velhinha.

Na minha despedida, tentei não chorar. Falei “Continua com a fisioterapia. Agüenta firme!”. Ela sorriu com um ar quase sarcástico diante da minha inocência. Eu desabei em choro com a cabeça no colo dela e falei “Vó, eu queria que você vivesse pra sempre!”. Ela apontou para a minha cabeça com a única mão que ainda se movia, falou: “Eu vou.”

A minha avó não era como as outras avós. Ela era uma mulher que viveu a frente do tempo e sofreu nas mãos de uma época retrógrada.

 

Mr. Eddy. Vó Zeni, dez. 2006.

 

Eu constantemente dizia que ela era minha inspiração. Que ela era a pessoa mais legal do mundo. Ela me respondia: “Mas eu queria ter feito alguma coisa para o mundo. Eu queria ter pintado para o mundo, cantado para o mundo… Mas eu não pude, porque era mulher casada e com filhos. Vivi em uma sociedade de donas de casa e maridos provedores que não entendiam os meus desejos”.

Minha avó Zeni morreu com o arrependimento de ter sido esposa e mãe ao invés de artista do mundo.

Ao contrário de todas as outras mulheres da minha família, minha avó me aconselhou a não ter filhos. Também me disse pra não cair nas balelas americanas do consumismo, alegando que a gente não leva nada desse mundo a não ser o espírito. E em tom sério, me pediu para que eu ignorasse o estilo de cinema de Hollywood, porque lá eles fazem filmes sem alma.

Olhei para o telefone de novo e sorri. A minha avó foi uma das pessoas mais brilhantes na história das avós do mundo.

Eu não queria que esse capítulo do “Como sobreviver no primeiro mundo?” fosse emotivo demais ou trágico. Porque, de fato, não é. Estou falando de alguém que morreu aos 85 anos de idade. Viveu bastante e foi amada incondicionalmente, pelo menos por mim. Também estou falando de amor – que fica. Só o amor fica.

E cada vez que eu assistir um filme dos anos 50, ou assistir a um jogo de futebol, ler “O Pequeno Príncipe”, olhar um quadro do Monet ou ouvir “Sonata ao Luar”, eu vou entender o que a minha avó me disse ao apontar para minha cabeça alegando que viveria para sempre.

Na noite de antes de ontem. Dia 10 de novembro de 2009, morreu Zeni Haddad Sbaile, a avó mais legal do mundo, o maior amor da minha vida e inspiração para este e muitos outros capítulos do “Como sobreviver no primeiro mundo?”.

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