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Gerações

24 ago

por Gisèle Miranda

 

Dentre as leituras em periódicos encontrei uma pérola temática: “a Geração Perdida” no espaço do leitor. (‘Somos a geração perdida’, avalia aluno da UnB )

A bem capturada ideia à marca da geração remeteu a Hobsbawm (1917-2012), em sua escrita e na licença necessária do historiador de experienciar o presente, a partir de sua trajetória intelectual. De sua geração, a maioria se foi. Mas as gerações posteriores estão aí como partes (geracionais) do “breve século 20” – desde seu fluxo tardio às questões atuais do século 21.

Há todo um contexto histórico nas minúcias geracionais. Para uns, a liberdade, para outros, a existência, a democracia e etc. Mas há marcas desses contextos históricos que nos fazem elos geracionais. O lixo abunda, e a valorização dos canais com o mundo raramente alimentam o olhar sobre o outro em solidariedade, mas ego-massageia a alienação. Para quê o outro?

O que se detecta criticamente é que o outro não tem importância, não tem história, não tem memória, e que na intensidade de alcançar o futuro, esquece-se das diferenças. Há a socialização cultural ou comosocialização política, isto é, os meios pelos quais o conhecimento, as idéias e os sentimentos são transmitidos de uma geração para outra. (BURKE, 2002: 111).  Essa transmissão tem tomado a forma alienante e cogita ser apolítico – como se pudesse!

E um dos pontos que precisa ser reconhecido em função desse desmembramento é que, quem nega a diferença entre esquerda e direita está procriando um núcleo de direita, segundo Hobsbawm.

Os dois historiadores citados conheceram o Brasil, não como turistas, mas como pensadores e amigos de causas que lhes dizem respeito. E a historiadora que vos escreve é uma brasileira; e sou de um tempo – de uma geração – que provém do existir como exercício memorial; pelas condições de inexistencialidade; geração da ditadura militar, do silêncio, da abertura democrática, da AIDS, da diversidade das drogas, de um alto índice de suicídios, da presença na ausência, da globalização. (Lia MIRROR)

Sou de um povo e de uma geração de cidadania ainda em construção pela herança cultural, que sobrevive sob vários aspectos e preponderantemente na violência. Historicamente temos marcas não sanadas no genocídio indígena, na escravidão de negros africanos, dos quais somos descendentes em mistura aos colonizadores.

Algo tem que ser reinterpretado e passado a limpo, pois ainda temos como memória imediata, um Estado que legitimou a tortura e o silêncio. Os frutos estão como bem relatado pelo aluno da UNB, na “impregnação de preconceitos” e de retrocesso dessa geração – geração desdobramento da minha, e por conseguinte, desdobramento da geração que lutou por um Estado democrático – e que convivem.

Sala Escura da Tortura, trabalho coletivo: Gontran Guanaes Netto, Julio Le Parc, Alejandro Marco, Jose Gamarra, 1973

O estudante universitário da UnB tem motivos de sobra para expor sua geração, afinal, as questões colocadas nos remetem a atos como a queima de índios e mendigos, agressões as mulheres, aos nordestinos, ao crescimento de neonazistas, homofobia, bullying, entre outros.

Paralelos a isso temos manifestações temáticas como: feminismo, drogas, sexualidade, entre outras. Em princípio encabeçadas por grupos sérios, mas que têm tido adeptos temáticos sem aprofundamento das questões – “a geração perdida”. Por isso, é mais comum do que se possa imaginar, encontrar feminista com tatuagem da suástica, homossexual com preconceito a nordestinos…, “jovens universitários defenderem que é a mulher quem precisa cuidar dos filhos, enquanto o homem provê o sustento da casa. Ouço também que os direitos das minorias não podem prevalecer caso “incomodem” à maioria.” (relato do jovem da UnB).

Que geração é essa?!

 

 

(*) Eric Hobsbawm nasceu em 1917 no Egito (Alexandria), sob o domínio britânico. Ele faleceu em 01 de Outubro de 2012, em Londres, aos 95 anos.

 

*

“A Estranha Derrota” (*)

19 jun

por Gisèle Miranda

  

“Leo não consegue mudar o mundo. O nome do artista ausente pulsa vida na memória como um legado. Que memória é essa? Que geração é essa?

Como pensar uma exposição de Leonilson sem o sarcasmo ou a subjetividade de falar politicamente?

 

Leonilson (1957-1993), Leo Não Consegue Mudar o Mundo, 1989

Sim, politicamente sobre: “Leo (que) não consegue (iu) mudar o mundo”, sobre a AIDS, avassaladora nas décadas de 1980-90[1]. Um corpo marcado pela homofobia e pelos danosos anos de ditadura militar no Brasil. Um politicamente incorreto[2] sobre o poder macho, sobre a violência e o silêncio do Estado

Há um Leonilson associado ao inconsciente linguístico. Palavras exacerbadas, tecidas, bordadas, escritas: Mentiroso, Ninguém, Vazio, o espelho, o tombo, a bibliotecaJosé  (Leonilson Bezerra Dias ).  Um interno de um Estado como outrora foi Arthur Bispo do Rosário.

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Como já dito há os que se fortalecem diante da falta de memória; o que nos faz um povo de cidadania ainda em construção pela herança cultural, que sobrevive sob vários aspectos, e preponderantemente na violência.[3]

O legado de Leonilson nos aponta isso. E o que foi delegado à família, aos amigos está na culturalidade brasileira, que nos remete a um povo de encontros históricos, miscigenado, sofrido e carente. Isso reflete diretamente na educação que  como governar e analisar estão no rol das impossibilidades. Ou, seriam: nos possíveis a partir das impossibilidades?

Penso que o momento da educação brasileira é de INFELICIDADE, de VAZIO e de patrulhamento que fortalece um paradoxo de ervas daninhas, para acobertar sua falência múltipla de órgãos. Do berço à cafetinagem das ditas empresas educacionais de ensino superior.

Que fique claro que – de Leonilson, Bispo do Rosário, a Nuno Ramos; de Cartola, Adoniran Barbosa a Sabotagem; Mario Quintana, Leminski, a Cora Coralina; e por aí vai. Não ignoro as diferentes linguas de nossa lingua; é irrefutável! Anterior as minúcias da oralidade resgatada na década de 1950.[4] As manifestações do inconsciente linguístico estão por aí! Não compartilho a discriminação dicotômica do popular/erudito, pois se cria um modo infeliz para falar do povo.

Tampouco visto a carapuça de ´xerife da língua´ – um espelho refletido de patrulhamento ideológico utilizando noções históricas, e paradoxos do poder,  fazendo-se de politicamente incorreto, num momento INFELIZ, num poder sem precedentes da comunicação, que passa agora claramente por um renascimento da barbárie, como bem lembrado por Edward Said sobre as perspectivas do historiador Eric Hobsbawm. [5]

Será que terei a liberdade de falar sobre esse assunto sem que eu seja a força da Ordem em seu espelho? Ordem pela desordem.

Não compactuei com o MEC – seja na tentativa de abolir Monteiro Lobato à retirada do Kit anti-homofobia[6]. Acho uma INFELICIDADE.

Um VAZIO, que peço emprestado a LEONILSON, em seu sarcasmo divino, a partir de uma belíssima curadoria – Sob o peso dos meus amores.[7] Nesse modo subjetivo e não dicotômico de falar de política.

Leonilson (1957-1993), Sob o Peso dos Meus Amores, 1990.

Notas:

(*) Reverberando BLOCH, Marc. A Estranha Derrota. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

[1] 1º de Dezembro: Dia Mundial de Combate à AIDS e sua História

[2] O politicamente incorreto com o seguinte parâmetro: de Leonilson a Nuno Ramos – com sua obra Bandeira Branca, desfeita na 29ª Bienal de Arte de São Paulo sob o artífice do correto. (Cura-dores: “arte para quê?”/

No entanto, para exemplificar uma mascarada vestidura perigosa e criminosa, do politicamente incorreto, a recente fala do aclamado diretor dinamarquês Lars Von Trier, quando em uma entrevista coletiva em Cannes falou sobre o nazista. Interessante perceber que alguns de seus fãs incorreram  pelo mesmo caminho ao defenderem Lars Von Trier nesse momento, como politicamente incorreto.  Já me identifiquei como ‘leitora’ dos filmes de Lars neste blog, mas deixo claro que Lars e fãs foram partícipes de uma história de horror. “Vale à pena ler o filósofo Islavoj Zizek, em entrevista a Revista Época, em 30 mai. 2011:No caso de Lars tem outra questão: o artista deve ser julgado pelo que ele faz. O que eles sabem está no que eles produzem. Muitos deles são idiotas.” (…).

[4] ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a literatura medieval. Trad. Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.ZUMTHOR, P. Tradição e esquecimento. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich São Paulo: Hucitec, 1997.

[5] SAID, Edward. Reflexões sobre o Exílio e outros enssaios. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 234.

[6] Vazios que refletem bullying, neonazistas, homofóbicos, queima de índios, agressões a nordestinos, e patrocínios de diversas guerras que superam os números de mortos das duas últimas guerras mundiais.  V. Tb. STF nega pedido para suspender livro de Monteiro Lobato em escolas públicas

[7] Sob o Peso dos Meus Amores, 2011: elogios à curadoria de Bitu Cassundé e Ricardo Resende, assim como as participações no seminário de: Ana Lenice Dias, Lisette Lagnado, Paulo Herkenhoff, Ricardo Resende, Maria Esther Maciel e Carlos Eduardo Riccioppo.

 

(**) Sugestão:

MESQUITA, Ivo. Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. São Paulo: Projeto Leonilson/ Cosac & Naify, 1997.

 

Futebol arte e alienação: ginga ou assepsia?

22 jun

Por Lia Mirror,  Laila Lizmann & Gisèle Miranda

 

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão. Se a injustiça social não encontrou entre nós – ao menos até os anos 80 – uma resposta política efetiva, parece fora de questão que artisticamente nosso meio cultural seria muito menos rico sem a contribuição daqueles que teriam tudo para permanecer silenciosamente à margem.  (Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014)

 

Reminiscências da Copa de 2010

Por mais asséptico que o treinador tenha sido, a ginga de misturas mirabolantes fez do futebol do Brasil ser aquém! Ser arte! Arre, pedaladas de Robinho! Até Kaká, o bom moço religioso foi expulso em prol da guerrilha da Costa do Marfim. Os caras bateram no desespero. Mas não merece ser dito: – “Tá vendo, quem manda torcer pelos Africanos!”

Nelson Mandela, 2010

Nelson Mandela (Mvezo, África do Sul, 1918 – Joanesburgo, África do Sul, 2013) Foto divulgação, 2010.

Quem falou isso? Um infeliz. Prefiro milhões de vezes a porrada da Costa do Marfim que Materazzi implicando com Zinedine Zidane por questões étnicas na Copa de 2006. Daria mil cabeçadas nesse boçal Materazzi . A cabeçada de Zidane foi a cabeçada de milhões.

Mas, o infeliz continuou: “- você não entende nada de futebol.” Aquilo ficou engasgado. Apartheid de gênero?  Sei que me dói matar no peito como Luiz Fabiano fez, além do gol contra com a Costa do Marfim.

Esqueço que a invenção vem dos ingleses e vislumbro uma raiz que resplandece da fome, da mestiçagem, dos negros do Apartheid, do escravismo do último país a abolir a escravidão: o Brasil! 

Isso lembra a busca incessante do bode expiatório do Flamengo. Ou será o próprio Flamengo comandado por uma mulher? Se fez tem que pagar! Vagner Love saiu praticamente ileso e com elegância do complô/mídia. Acusado de ser negro (?), de ter saído de uma favela (?) e de ter reminiscências/essência do homem que é – do submundo. Padrinho de 500 crianças do morro (a força de expressão por ser maior)  e alvo de idolatria até “dos bandidos.”

Opa, mas favela só tem negros, pobres, drogas e armas!? Também trabalhadores, benfeitores que não esqueceram suas infâncias. Vagner Love e Adriano, por exemplo! Love saiu ileso pela boa oratória, mas o Imperador…  hum..  chutou o pau da barraca. O Imperador foi preterido pela assepsia da seleção, mas não pelo discernimento do bom brasileiro que sabe das misturas de nossa gente.

Mas querem saber o que mais chamou atenção até esse momento da Copa de 2010, apesar dos bons lances e da hipocrisia? A vocalista do “The Black Eyed Peas” (que fez a abertura da Copa) que em entrevista falou do seu maior desejo: conhecer o Brasil e ir a uma festa na favela. A jornalista fez aquela cara de… Ponto turístico? Será que a jornalista lembrou do Adriano ou do Vagner Love? Ou ainda, será que a entrevistada não teve tempo de perceber que estava no continente da maior favela do mundo? Maior número de fome, AIDS, pobreza, guerrilhas, violências…?

Meu ídolo no futebol arte ainda é Mané Garrincha que tinha as pernas tortas e vida tortuosa. E mais, pela parceria de arte e amor com Elza Soares, “a mulher do fim do mundo” que descia o seu morro com “a lata d´água na cabeça” ensaiando para nos dizer que “Deus é Mulher”.

Nos Direitos Humanos meu ídolo é Nelson Mandela que nunca abandonou os princípios básicos de humanidade apesar de toda a violência sofrida e longe de ser sanada.

FICÇÃO OU REALIDADE?

20 dez

Por Gisèle Miranda

Havia pensado em escrever sobre ´ensaio sobre a cegueira´de José Saramago numa versão cinematográfica de Fernando Meirelles, lançado no Brasil em setembro de 2008. Belo tema para a cegueira do mundo.

José Saramago (1922-2010)

Faço a sugestão desse filme associado a outros dois filmes.  O primeiro é  a Cidade de Deus, situado na zona oeste da cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, e também dirigido por Meirelles.

Recordo que, logo após o lançamento de Cidade de Deus fiquei indignada com o saber pretensioso e banalizante de pessoas com as quais tinha afinidades intelectuais. Os comentários eram mais ou menos assim: ´Já estive na Cidade de Deus e há trabalhos sociais existentes, ou, ´uma ficção que deseja ser realidade´, ou ainda, ´uma irrealidade de imagens para chocar, apenas chocar´.

Minha ótica na discussão sobre o filme foi minimizada pelo fato de eu ser carioca e estar defendendo minha cidade. E que obviamente é uma crítica sem fundamento intelectual.

Fernando Meirelles (1955-)

Felizmente o filme alçou voo e saiu do meu bem querer carioca, das boas rodas paulistanas, e dos saberes distorcidos. A crueza do tema, a direção impecável de Meirelles, as atuações – ficcionais e reais – dos moradores do inferno da Cidade de Deus – fizeram desse longa um clamor,  aplaudido de pé, também por muitos brasileiros. E melhor, propiciou um outro longa, Jardineiro Fiel – uma co-produção com atores estrangeiros e filmagens em outras terras.

Quem viu sabe que a África (continente de uma das locações do filme) é também o Brasil. Sim, é uma história amarga, dolorosa e hoje, parte indissolúvel do povo que somos. Mas, o continente Africano, meio brasileiro e meio mundo, é muito maior que o inferno da Cidade de Deus.

Entre uma coisa e outra, o Brasil, último país a abolir a escravidão, pediu ´perdão´ a Africa pelos séculos de matança e subjugação; concomitantemente, aboliu a dívida financeira com alguns países desse continente. Também injetou medicamentos contra a AIDS, pois a Africa está sendo carcomida pela doença, pelo esquecimento, guerras, submissão; e como Meirelles também resgatou, um continente/contingente de pessoas sendo utilizados em experiências – como cobaias de laboratórios estrangeiros.

O outro diretor é Amos Gitaï em seu Free Zone. O mote deste filme é ficcional; é o encontro de três mulheres: uma israelense, uma palestina e a outra norte-americana, na zona franca da Jordânia. Nele, Gitaï volta a abordar as relações entre israelenses e palestinos em imagens diferentes das que vemos no noticiário.

Amos Gitaï (1950-)

A riqueza decorre ao lançar-se na estrada: “Gitaï conseguiu resolver o desafio proposto de início: filmar politicamente um geografia humana.

Entre Gitaï e Meirelles há muito em comum. Há comprometimento. O ´ensaio sobre a cegueira´ vem reforçar esses laços e a inquietar o que está sob nossos olhos ou ‘sobre a  (nossa) cegueira’.

Referências:

Free Zone. Direção Amos Gitaï. Co-produção Bélgica/Israel, 2005. As três atizes são: Natalie Portman, Hana Laszlo e Hiam Abbass.

The constant gardener. Direção Fernando Meirelles. Co-produção EUA/Inglaterra, 2005. A atriz Rachel Weisz, ganhou o Globo de Ouro, de melhor atriz coadjuvante neste filme.

CRUZ, Leonardo. SP: Folha de S. Paulo, 20 jan. 2006. Cad. Ilustrada, E-6.

CARLOS, Cassio Starling. SP: Folha de S. Paulo, 20 jan. Cad. Ilustrada, E-6.

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