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As “experiências” de Julio LE PARC (Mendoza, 1928-)

2 jun

por Gisèle Miranda

A Arte Cinética tem algumas ciladas quanto a sua proposta, o que é natural se pensarmos que as primeiras experiências foram cunhadas de alguns movimentos de vanguarda, historicamente entrincheirados entre as duas grandes guerras mundiais.

Uma outra questão aureolar é o movimento real da obra e não a representação do movimento; por isso nem toda obra que se mexe é cinética. A exemplo do Futurismo (1909)  que até tem feixes que parecem encaixar como cinético, ou que de alguma maneira confundem no manifesto, mas destoam quando aproximadas. Obviamente o contexto geopolítico do Futurismo foi tenso com o fascismo italiano de Mussolini e do comunismo russo de Stalin ou, – de Marinetti a Maiakóvski.

Ou mesmo, o germe do Manifesto Realístico (1920) dos irmãos Gabo e Pevsner pinçado em suas experiências técnicas valorizadas, mas superadas. Na Arte OP dos anos de 1950, o efeito cinético aparece quando o espectador parado sente que a arte se move. Tecnicamente não é arte cinética.

O efeito escultura da luz de László Moholy-Nagy (teórica em parceria com Alfred Kemeny, em 1922) fecundou a arte cinética da qual Le Parc compraz, mas com o efeito de 38 anos de diferença até a criação do GRAV – Groupe de Recherche d´Art Visuel, 1960, dos quais foram partícipes Garcia-Rossi, Morellet, Sobrino, Stein Yvaral e Le Parc.

As experiências foram observadas à luz de temporalidades e apreensões técnicas justapostas. Da importância do ar através dos móbiles de Alexander Calder nos anos de 1950, e em meio a fabricação de brinquedos onde ele resgatou e ampliou a discussão com aspecto lúdico, da fonte de energia natural e com as cores de Mondrian e Miró.

Nesse acúmulo de experiências e metamorfoses foram criadas as intervenções vibratórias, a energia (seja natural ou não), do pictórico ao escultural de Soto, Cruz-Diez, Liliane Lijn, Martha Boto, entre outros, até  Le Parc com sua premissa da Luz – seus efeitos às parcerias desconhecidas e o coletivo. Ou seja, previa-se inicialmente a parceria ativa “por forças que se desenvolvem por iniciativa própria” (In: Stangos, 153) até a abdicação do ego em prol da parceria.

São vieses que obviamente compõem leituras e questões associativas para só então criar o conceito do GRAV, que primou pela interferência e, dentro da esfera de Le Parc conjuga a Experiência (1) do artista que cede espaço para a criação em fluxos intensos e singulares que compõem a experiência de algo esperado – a imagem  que surge com o movimento ou o movimento  que cria uma forma no espaço com as variantes inesperadas sob efeito da Luz.

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Nota:

(1) É de conhecimento público que o artista Julio Le Parc prefere designar seus trabalhos de Experiências (ou Alquimias) e não Obras.

(*) Nas fotos as alunas do curso de Artes Visuais da Universidade Estadual de Maringá / Bienal de Curitiba 2015/2016. Museu Oscar Niemeyer.

(**) Um pouco mais sobre Le Parc: tornou-se cidadão de dupla nacionalidade franco-argentina em função de suas atividades políticas; desterrou-se para sobreviver a ditadura militar da Argentina. Em 1964 recusou-se a participar da Bienal de Artes de São Paulo em protesto ao golpe militar no Brasil.  Em 1966 foi premiado na Bienal de Veneza. Junto com Gontran Netto fez parte da Brigada Internacional Antifascistas (1972-1987); Criou a série “Sala Escura da Tortura”, em conjunto com Gontran Netto, Alejandro Marco e Jose Gamarra, partindo de depoimentos de torturados da América Latina em final da década de 1970.

 

Referências:

ARGAN, G. C. (1909-1992) Arte Moderna. Trad. Denise Bottmann e Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

GULLAR, F. Relâmpagos – dizer o ver. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

STANGOS, N. (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1991.

Teleconferência dos artistas Julio Le Parc e Gontran Guanaes Netto, março de 2016 Paris/ Maringá – Universidade Estadual de Maringá/NEAD, sob coordenação de Gisèle Miranda e participação de alunos do 4º ano de Artes Visuais.

Site do artista Julio Le Parc

Bienal Internacional de Curitiba  3/10/2015 a 14/02/2016 no Museu Oscar Niemeyer – Le Parc foi o artista homenageado Bienal, Luz do Mundo, curadoria geral de Teixeira Coelho.

“Faca de dois gumes”

1 maio

Por Gisèle Miranda

 

Em 2009, o Brasil recebeu a visita comercial do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Em princípio, uma visita indesejável de um líder que vinha ampliando seus domínios no Oriente Médio com seus discursos anti-semitista, homofóbico, de aprisionamento e retrocesso da condição feminina relegada à coisa e modelo de apedrejamento em caso de adultério, mesmo tendo sido por estupro – o que é muito mais comum do que imaginamos (*).

Destaquei apenas alguns exemplos da política instituída por esse líder em pleno século 21, diante das atrocidades históricas incontestáveis, e hoje, sujeito a encarceramento pela ONU, e pelos tribunais de Direitos Humanos de muitos países que em tese se colocam humanitários.

As mídias do mundo noticiaram o discurso de Ahmadinejad ratificando um posicionamento já sabido. Em repúdio, muitos dos representantes mundiais levantaram-se horrorizados e deixaram o nobre salão de reuniões em Genebra. Os representantes do Brasil permaneceram e foram, obviamente, rechaçados pela falta de atitude.

Vários pensadores brasileiros se colocaram a partir de inúmeros textos sobre a chegada ao Brasil do líder iraniano. Entre eles, o psicanalista Contardo Calligaris em matéria no jornal Folha de S. Paulo, de 7 de maio de 2009.

Destacaria alguns pontos como: sua crítica ao argumento neoliberal de que o dinheiro não tem cheiro; o dinheiro tem cheiro, sim, sobretudo quando vem numa mala de carniças, disse Calligaris.

Marina Abramovic (Belgrado, Séria, 1946 -) Instalação ‘objeto para uso não humano’, 2008 (carvalho e facas de açougueiro de aço inoxidável 116 x 1/8 x 20 1/4 2 1/4 (295 x 51,3 x 5,7 cm)

Por outro lado, destaco o Brasil como referência de ´diferenças étnicas, religiosas e infelizmente econômicas´ que poderia se colocar como ´mediador de conflitos´, relembrando os escritos do filósofo-historiador Michel Foucault e chegando aos ditames de Rousseau com a questão da ´vontade geral´ e ´renunciando as nossas responsabilidades individuais´.

Mas, como pensarmos em ´vontade geral´ diante de atrocidades e genocídios? Ou, como pensarmos nos avanços da condição feminina, e digo, como pensadora e como mulher, diante dos estupros e apedrejamentos?

Calligaris  reconhece que as relações comerciais estão calcadas em vários fatores; e no Brasil, na época, houve um comando consular de porte e um ministro das relações exteriores, Celso Amorim que é um pensador, mas que defendeu o diálogo com Ahmadinejad como também defendeu o diálogo com Fidel Castro e contra o boicote econômico dos EUA em relação a Cuba. Também defendeu o diálogo amistoso com Hugo Chavez e Evo Morales por uma América Latina forte. Além de se colocar como mediador de diálogos entre Israelenses e Palestinos.

Amorim reafirmou a importância do diálogo, mas destacou em matéria[1], que o Itamaraty, através de seu presidente da República fez restrições e se colocou descontente com os posicionamentos do líder iraniano, quando este estiver no Brasil. Acrescentaria a este cenário uma grande manifestação em repúdio a Mahmoud Ahmadinejad.

 

[1] Plantão (on line), 30/04/2009: Celso Amorim defende visita do presidente do Irã no Brasil. Matéria assinada por Eliane Oliveira.

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